Conte Sua História de SP: meu pai me levava para ver provas de remo no Tietê

 

Por Ricardo Pinto Filho
Ouvinte da Rádio CBN

 

 

Meus pais e eu viemos morar no Brasil em idos do ano de 1958. Meu pai, que atuou no corpo diplomático como adido comercial, se aposentou, e passamos a morar na cidade do Rio de Janeiro, mais especificamente em Copacabana.

 

Meu pai, homem dinâmico não queria parar de trabalhar e reingressou no mercado de trabalho, participando dos negócios de uma empresa de tecidos, que atuava com tecidos finos e seda importados.

 

O negócio obrigava meu pai a fazer viagens constantes à São Paulo, onde visitava negociantes e empresas importadoras para ver e comprar produtos.

 

Normalmente, viajava no meio de uma semana e retornava no meio da outra. Nos finais de semana em que ficava por aqui, aproveitava para rever velhos amigos de quando aqui morou por algum tempo. Sempre procurava visitar uma sobrinha muito querida, casada com um financista, que vivia em São Paulo fazia muito muitos anos.

 

Nas minhas férias escolares, sempre acompanhava meu pai nessas viagens. Eu adorava a viagem, sempre de ônibus, pois meu pai tinha medo de avião. Me recordo bem do ônibus GMC da Cometa, prateado, com janelas amplas com seus vidros Ray-Ban verdes e com o forte ronco do seu motor traseiro. Nada comparado aos ônibus urbanos.

 

Bem lembro que a via Dutra ainda tinha pista de mão dupla, que bem suportava o tráfego daquela época. A viagem sempre era muito tranquila e confortável.
Assim conheci São Paulo ainda criança.

 

Muito embora São Paulo não tivesse praia, me encantou pelos programas que proporcionava e as coisas e comidas que eu não achava pelo Rio. Meu pai, fora dos afazeres, me levava a passear pelos encantos paulistanos.

 

Sempre ficávamos no Centro, mas meu pai gostava de ir ao bairro oriental da Liberdade ou dos italianos do Bexiga. Nossos passeios sempre tinham museus, exposições, shows e parques para ver. Gostava muito de ir ao Jardim Zoológico, ao Jardim Botânico, ao Parque do Ibirapuera sendo o Planetário e o Museu da Aviação os meus prediletos. O Parque da Independência e o Museu de mesmo nome.

 

Visitávamos a Cidade Universitária, sem deixar de ir ao Instituto Butantã e seu serpentário.

 

Não me recordo ao certo de quantos lugares conheci, mas de um em especial, sempre me lembro, por causa do meu pai.

 

Ele, quando jovem, foi remador de competições no Clube de Regatas Guanabara. Remava em barcos de competição como o iole e os esquifes. Esse esporte sempre fez parte da sua vida e competições esportivas dessa modalidade sempre o atraiam.

 

Assim, sempre que estávamos em São Paulo e havia competições no Rio Tietê, a partir da Ponte das Bandeiras, ele me levava. Me lembro que para chegar lá, nosso táxi passava por grandes trechos de mato alto, como se ali não houvesse cidade até chegar a margem esquerda daquele rio, junto ao clube Tietê.

 

As regatas sempre atraiam muito público, naquele domingos pela manhã. Os barcos de cada prova alinhavam em uma espécie de píer de madeira e de onde a molecada pulava para se esbaldar no rio ao final das provas. Lembro do meu pai falar das guarnições do Espéria, Tietê, Corinthians e o Náutico da cidade de Santos.

 

Guardo nas minhas recordações do quanto cristalinas eram as águas do Rio Tietê. Tinha gente que pescava ou a garotada que nadava em grande farra, com suas bóias feitas com câmaras de ar de automóveis. Se vão 50 anos e ainda relembro esses fatos guardados em minha memória.

 

Depois de muitas andanças em minha vida, acabei por vir morar em São Paulo.

 

Hoje, estou casado com uma filha dessa cidade, com quem constituí família. Moro no bairro da Pompéia e invariavelmente passo todos os dias pela marginal Tietê a caminho do trabalho. Vejo com muita tristeza a que condições reduzimos o nosso Rio Tietê.

 

Falo assim “nosso” porque me julgo como parte de São Paulo, que tão bem me recebeu quando aqui vim morar e construir o meu futuro. Essa é a mina história de São Paulo.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar no CBN SP, logo após às 10h30, e tem a sonorização do Cláudio Antonio

Conte Sua História de SP: e o chuveiro, que novidade era aquela?

 

Por Norma Suely Silva Souza Pires
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

Moro em São Paulo há 45 anos. Não posso deixar de lembrar  de quando cheguei a São Paulo vindo do sertão da Bahia. Não de pau de arara, mas em uma Kombi com mais 11 pessoas. Primeiro foi o êxtase ao ver a Rodovia Dutra cheia de carros. Eu chegava de uma cidade que nem carros havia. Que espanto com tantos faróis à minha frente. Em São Paulo fiquei deslumbrada com a televisão e com os ônibus. Tinha o Tietê, também, por onde os bandeirantes passaram. Tratei logo de escrever para os meus amigos e contar sobre o rio. Havia uma só nota de tristeza: o rio aqui não era limpo como os da Bahia.

 

Chamavam-me atenção os supermercados ao meu ver gigantes, as feiras com tantas verduras e frutas, já que eu só conhecia laranja e banana. Quase morri de tanto comer maçã pois só conhecia da história da Branca de Neve. Meu Deus do céu, e o chuveiro, que novidade era aquela? Pias com torneiras jorrando água. Nem precisava dos jegues para buscar água, como estava acostumada na minha terra.

 

Como não tinha vaga na escola pública fui estudar em um colégio particular, onde me deparei com tantas outras novidades e fiz muitos amigos, de quem ouvi muita gozação também. Não podia abrir a boca que lá vinha: eta, baianada! Não podia  falar o alfabeto que lá vinha gargalhadas. Hoje, me vejo na música do saudoso Luis Gonzaga: …. a,e,i,o. u… Bullying não conhecia, tirava de letra, já que baiano é escrachado mesmo. O que eu mais gostava era de fazer trabalhos na casa dos meus amigos para tomar café com leite (naqueles litros maravilhosos) e comer mortadela que eu também não conhecia. Pensando bem, eu não conhecia era nada da civilização… 

 

Norma Pires é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br. Ou marque uma entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias de São Paulo você ouve e lê aqui no meu blog.

Conte Sua História de SP: uma vida na vila de casas virgens

 

Por Wanda Maria da Silva
Ouvinte-internauta da CBN

 

Quando eu tinha nove anos, em 1944, fui morar no Jardim Anália Franco no Tatuapé. Na Avenida Celso Garcia, na altura do número 5.177. Era uma vila de casas virgens e até hoje elas existem. Ainda tinha os bondes e era tempo de guerra na Europa. A vila tinha 16 casas, todas com um fogão a carvão novinho. As pessoas todas se conheciam e se davam muito bem. Na frente havia uma chácara muito grande aonde eu comprava verduras da Dna Isabel. Além de verduras, na chácara também tinha muitas flores, maracujá e pitangas. Sempre pedia para pegar uma pitanga. Como eu sempre pegava mais que uma a Dna Isabel fica me olhando com ar de repreensão. Na chácara havia um poço enorme e eu tinha medo de cair. Lá trabalhavam várias pessoas. Cada uma tinha o seu pedaço de terra. Eu morava com minha avó, meu avô, minha mãe e duas irmãs. Foi uma época muito feliz na minha vida. Não havia transito, era tudo bem pacato. Na vila jogávamos futebol. Meninas contra os meninos. Os meninos eram o Andre, o Jaime, o Gilberto o Victor.

 

Ouça este texto que foi ao ar no Conte Sua História de São Paulo, sonorizado pelo Cláudio Antonio

 

Minha avó era uma Italiana letrada dona da Companhia de Teatro Zaíra Médici. Todos os dias escutávamos a rádio Gazeta para ouvir musicas Italianas. Era das 11:30 até o meio dia ouvíamos os grandes tenores. radio. No meio dia em ponto, a rádio Gazeta tocava uma sirene bem alto durante a programação. Morávamos perto do Parque São Jorge. E eu e minha amigas, Míriam e Pilar, íamos ao clube do Corinthians para brincar e andar de barco no rio Tiete. O barco era do Sr. Caetano, pai das minhas amigas. Subíamos o rio de onde das suas inúmeras curvas era possível avistar a Igreja da Penha no alto do morro. Meu pai, que não era sócio do Corinthians, ia até a margem do Tiete, tirava roupa, escondia em alguma moita, e entrava no clube a nado pelo rio. Não existiam as piscinas. Existia somente o que chamávamos de cocho. Feitos dentro do rio com assoalho de madeira. Tinha cocho de adulto e de criança. É assim que as pessoas se divertiam da época.

 

Minha avó cozinhava muito bem. Tínhamos fartura e nada faltava em casa. Na época da guerra faltou pão e açúcar. Meu avô, Luigi Médice, comprava açúcar preto. Minha avó fazia polenta para tomarmos café substituindo o pão. Para eu e minhas irmãs tudo era festa. Quando começou a aparecer o pão, nos íamos de madrugada para a fila para tentar pegar um pão. Davam-nos um cartão que dava direito a um único pão. Então íamos eu e minha irmã e conseguíamos pegar dois pães. Minha avó ia até as vendas do bairro fazer compras. Uma vez ela comprou uma peça inteira de toucinho defumado e pendurou na dispensa. Isto no tempo da guerra era sinal de fartura. Meu avô tinha um circo e minha avó fazia balas, refrescos e pirulitos para vender no circo. Ela foi uma mulher que trabalhou muito. Mesmo assim nunca conseguiu comprar uma casa. No domingo, eu e minhas amigas, íamos à missa da igreja da Penha de bonde. Moramos cinco anos e meio na vila. Depois as casas foram vendidas e tivemos que mudar.

Conte a sua história de São Paulo em áudio e vídeo no Museu da Pessoa. Agende uma entrevista pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Ou envie seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: Piquenique na Vila Galvão

 

No Conte Sua História de São Paulo, o texto do ouvinte-internauta Mauro de Souza Praça:

Ouça este texto sonorizado pelo Cláudio Antônio

Nasci no dia 3 de janeiro de 1920 no bairro da Luz, cidade de São Paulo, na rua Benedita Sá Barbosa, que fica localizada perto da rua São Caetano e de quartéis da ex-Força Pública do Estado de São Paulo, hoje Polícia Militar.

Na segunda metade da década de 1930, os clubes Tietê, Espéria e Floresta ficavam no mesmo local de hoje. Só que o Tietê era um rio de água limpinha, e em suas margens havia centenas de abrigos onde os associados desses clubes guardavam seus barcos. Aos sábados e domingos, rapazes e moças colocavam os barcos na água e passeavam pelo rio afora na maior alegria. O povão que não tinha esse privilégio conformava-se em apenas apreciar. Mas que era bonito isso era. Ver os barcos todos pintados de cores bem vivas, cheios de rapazes e moças. Ficávamos a tarde toda os apreciando. Quando recolhiam, três ou quatro rapazes traziam os barcos nos braços e os penduravam no abrigo correspondente. Só quem tinha esse privilégio eram pessoas da classe alta, porque era muito cara a matrícula e a mensalidade dos clubes. Nós só os olhávamos “com os olhos e lambíamos com a testa”, aquele prazer impossível para nós pobres mortais.

O rio Tietê também oferecia peixes. Suas margens ficavam cheias de pescadores sentados nos barrancos, e havia, no rio, muito lambari, cará e traíra. Ali onde hoje passa a linha do metrô, havia uma grande ponte de ferro que atravessava o rio de um lado a outro, por onde passava o trenzinho da Cantareira que fazia o trajeto do bairro do Tucuruvi à Rua João Teodoro (bairro da Luz). Era um trem tocado a carvão e seus usuários eram identificados porque tinham paletó todo furadinho nos ombros e no peito. Isso porque, ao tomar o trem, muitas vezes não era possível entrar no vagão, portanto ficava-se na plataforma, então, quando o trem acelerava um pouco mais para se locomover, caía “chuva” de brazinhas em cima de quem estava na plataforma e a roupa ficava como uma peneira. Para quem usava chapéu a coisa era pior, porque este durava no máximo um mês.

Falando em trem, o fato me fez lembrar que, aos domingos, o passeio da maioria dos paulistanos era ir a Santos de trem, ou embarcar no trenzinho da Cantareira para fazer piquenique em Vila Galvão. Falo trenzinho porque, de fato, era um trem pequeno mesmo. Eu participei de muitos desses piqueniques. Aos domingos, na parte da manhã, os trens saíam lotados. O maior número de passageiros era de rapazes e moças. Eu sempre estava com um ou dois amigos.

Nossa tática era a seguinte: fazíamos uma pesquisa ao ver passarem as famílias carregando a cesta de guloseimas. Íam famílias inteiras: mãe, pai, avós, criançada. Então, nós escolhíamos uma família com muitos membros, porque estas levavam grandes provisões. Também considerávamos a presença de garotas entre elas. Dava-se um jeitinho, já no trem, de iniciar amizade com as garotas. Descíamos em Vila Galvão que era um lindo lugar cheio de árvores floridas, de mesinhas e bancos próprios para piquenique. Havia também um belo lago de águas cristalinas onde as pessoas podiam nadar à vontade, enfim era um paraíso.

Como ia dizendo, pegávamos amizade com as mocinhas de determinada família e ficávamos por ali conversando. Sempre havia um rádio de pilha para nos animar. Às vezes até ocorriam bailes sobre a grama. Quando chegava a hora do almoço, as moças nos convidavam para tomar parte do lanche junto com a família. A dona do lanche estendia um grande pano branco sobre o chão e colocava sobre ele cuscus, coxinhas, bolinhos, etc… assim, nós passávamos um pouco melhor aos domingos. Isso era todo domingo, nunca deu p’ra repetir as garotas e suas famílias.

Para participar do Conte Sua História de São Paulo, envie um texto para milton@cbn.com.br ou marque uma entrevista que será gravada em áudio e vídeo no site do Museu da Pessoa. O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, às 10 e meia da manhã, no CBN SP.

SP: Demanda reprimida liberada

 

Por Carlos Magno Gibrail

Cruzamento insano

São Paulo conseguiu proeza e tanto. Gastou aproximadamente 10 bilhões de reais no sistema viário urbano, e vive hoje uma explosão de consumo imobiliário e automotivo. É só atentar aos jornais e TVs, e escolher apartamentos e carros com ofertas infindáveis e financiáveis.

Entretanto, ao lado desta força econômica, quem mostrou a nova cara foi a demanda reprimida. Agora, utilizando o espaço viário recém inaugurado, se apresentando como liberada, e ocupando as novas vias de tráfego.

A resultante destas façanhas foi estampada na mídia da semana, quando realçou a inusitada igualdade dos quilômetros de congestionamento no centro expandido da capital paulista. De manhã ou de tarde há gigantesca paralisação do tráfego. E, se houver previsão de chuva o placar indica goleada para o período matutino.

Como as chuvas têm continuado, a inversão do congestionamento permanece, o que tem levado parte da população a mudar a rotina diária.

Se o paulistano, já refém da síndrome de Estocolmo em relação a aceitação da lentidão no tráfego ainda não distingue a razão desta mudança, os especialistas já apontam a causa.

As obras da Marginal idealizadas e executadas por Serra e Kassab melhoraram o trânsito nas marginais, a tal ponto que animaram paulistanos que não usavam o carro, e passaram a trafegar pelas novas vias.

Este aumento não pôde ser absorvido pelas demais ruas secundárias, além de coincidir com o período matutino que converge em poucas horas, das 7 às 9, o maior fluxo.

O especialista em transportes, Sérgio Ejzenberg, entrevistado pelo jornal O Estado de São Paulo explicou: “É igual ir a um evento em estádio. A chegada é sempre mais difícil, pois os caminhos são poucos e todos vão para o mesmo lugar. Depois que você sai do furacão, a volta é mais tranqüila.”

Na mesma reportagem do Estado o consultor de transportes Horácio Figueira declarou: “Como o trânsito melhorou, muita gente que evitava usar a Marginal por causa dos congestionamentos acabou voltando a utilizar a via. Assim, o efeito das novas pistas acabou sendo parcialmente dissipado. Mas, como a Marginal já era mais saturada à tarde, a piora acabou concentrada na parte da manhã.”

De outro lado a Folha de São Paulo ressaltou que a Marginal Pinheiros está pagando preço alto pela maior vazão dada a Marginal Tietê, e é a grande responsável pelos recordes de congestionamento matinais.

Enquanto o trânsito da tarde não aumenta, esperamos que o mesmo prefeito e o novo governador não tenham a mesma idéia de gastar mais 10 bilhões de reais para tentar resolver o problema do automóvel, quando o problema é o automóvel.


Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve, às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

Foto-ouvinte: Arte no rio morto

 

Arte no Rio Tietê

Por Marcos Paulo Dias

Passando pela Marginal Tietê, no bairro da Penha, zona leste da capital, me chamou atenção este grafite às margens do rio. A primeira vez foi há cerca de um mês, e o trabalho ainda não estava pronto. Não conseguia, porém, parar no local para fotografar devido ao trânsito. A espera foi rentável, a arte foi ganhando forma, contorno, cor e dimensão, contribuindo para a revitalização do local onde o rio “corre morto”, sem oxigênio e com mal cheiro. Não posso dizer o nome do artista nem do personagem, pois das diversas vezes que passei por lá não tive a sorte de encontrá-lo. Mas aqui fica o registro, para compartilhar com vocês a coragem e determinação dele (ou deles), que no meu ponto de vista acredita em uma cidade melhor.

Quem souber o autor deste trabalho, não deixe de nos informar.

Conte Sua História de SP: O rio Tietê é lindo!

 

Ana Helena Puccetti nasceu em 1962 na cidade de São Paulo. Ela é psicóloga e por muito tempo dedicou-se também ao remo. Ela contou ao Museu da Pessoa, em novembro de 2009, a emoção de deslizar pelo rio Tietê, um paraíso dos remadores de épocas passadas. Seu relato foi escrito “em homenagem ao senhor Arlindo Donato, que durante toda a sua vida preservou a memória do remo e do rio Tietê”. O texto de Ana foi ao ar no Conte Sua História de São Paulo:



Meu nome é Ana Helena Puccetti. Sou remadora desde 1984. Aprendi a remar com o Sr. 
Arlindo Donato. Ele foi técnico do Clube Esperia e tinha, ao lado do “barco-escola” no clube, um galpão que era um verdadeiro museu da história do remo em São Paulo. Além de guardar as últimas “catraias”, que antigamente circulavam pra lá e pra cá nos passeios de domingo pelo rio, guardava fotos da época em que a piscina do clube era um cercada das águas do Tietê. Ele fazia questão de mostrar para seus alunos o arquivo pessoal que guardava, para que a história do remo e do rio não fossem parar no lixo, de onde tirou muitas das fotos preciosas que preservou e estão hoje no Arquivo Histórico do Clube Esperia.



Em 1999, eu era diretora de remo do Esperia e, para celebrar o centenário do clube, resolvemos realizar uma regata no rio Tietê. Remar no rio Tietê, bem embaixo da Ponte das Bandeiras. Fazia quase trinta anos que os remadores haviam abandonado o Tietê. Rio que fez nascer os mais importantes clubes da cidade às suas margens.

Foi uma ousadia remar no rio Tietê. Foi necessário construir um pontão de 
embarque e desembarque embaixo da Ponte das Bandeiras. O DAEE limpou as margens, a Sabesp levou um caminhão pipa para que tivéssemos água para dar um banho emergencial em alguém e nos barcos, a CET teve que interromper o trânsito na pista da esquerda da via expressa da marginal para que os barcos pudessem chegar às margens do rio. A prefeitura interrompeu o trânsito numa pista da Ponte das Bandeiras para que ninguém do público que assistia à regata fosse atropelado. Os bombeiros, vestidos com roupas especiais, acompanharam todas as provas dentro de um barco inflável, uma draga foi colocada atravessada no leito do rio para evitar que grandes quantidades de lixo que viessem boiando e atingissem algum barco. E tudo isso para colocar seis barcos a remo na água.

Até os anos 70 as regatas eram disputadas nesse mesmo lugar, o rio vivia cheio de gente e barcos, o Tietê não estava isolado…

Graças a Deus deu tudo certo! Fizemos uma regata festiva. A maioria dos participantes eram ex-remadores do rio Tietê, senhores de 70 a 80 anos que tinham treinado e competido naquelas águas e depois de 30, 40 anos estavam de volta ao rio. A ponte ficou cheia de parentes, muitos netinhos que olhavam e aplaudiam aqueles senhores, vovôs, dentro das águas do Tietê fazendo o tempo voltar por algumas horas.



Quando chegou minha vez de remar, eu sentei no barco tipo canoe e saí remando e sorrindo. Olhei para as barrancas e para os aguapés que passavam boiando por mim e 
pensei no Rio e em suas histórias. Era um sonho de remadora se realizando e me senti feliz!

Eu me imagino remando no Tietê sempre que passo pela Marginal e atualmente também quando abro a janela do meu quarto. Hoje moro na casa que era da minha avó Helena em Santana de Parnaíba e, da janela do meu quarto, vejo o Rio Tietê e suas 
espumas.

Cada dia ele passa de um jeito, porque a Usina Hidrelétrica muda a vazão das águas de acordo com as necessidades das cidades que o margeiam. 

Tenho o privilégio de morar ao lado do Tietê. Tirando a sujeira que é toda nossa, não dele, o rio Tietê é lindo!

Você também pode participar do Conte Sua História de São Paulo, enviando seu texto ou gravando seu depoimento no Museu da Pessoa. Agende uma entrevista pelo telefone 2144-7150

Lugares de São Paulo: Marginal Tietê

 

Marginal Tietê por Sérgio Mendes

É a mais famosa via de São Paulo, superando em destaque a avenida Paulista que gostamos tanto. Por lá, cruza boa parte dos caminhões que rodam o Brasil. Aterrisam milhares de estrangeiros que visitam o País. É onde desembarcam também imigrantes que chegam no terminal de ônibus. E foi ela, a Marginal Tietê, que o ouvinte-internauta Sérgio Silva fotografou para a série em homenagem aos 456 anos da cidade. Homenagem e ironia, sem dúvida. Pois, Sérgio fez a foto no dia da última grande enchente e aproveitou para fazê-la do alto do Complexo Viário Anhaguera que custou R$ 156 milhões para a cidade. Um presente e tanto.

“Gosto muito de São Paulo e costumo fotografá-la constantemente, sempre, as coisas boas. Mas agora acabei sendo diferente com tamanha indignação que estou por causa de uma cidade desse tamanho, ter que parar por causa de “uma chuva”, escreveu.

Nesta segiunda-feira, você acompanhará um slideshow com os lugares de São Paulo sugeridos e fotografados pelos ouvintes-internautas do CBN SP.

Tem que enxugar a água porque o Tietê está no limite

 

Reflexo da Cidade (Pétria Chaves)

Reflexo do que é São Paulo em imagem da repórter Pétria Chaves/CBN

 

A chuva foi muito forte – dizem o técnicos que despencou 100 mm de água -, mas a cidade já encarou com menos prejuízos temporais bem mais intensos, nos quais o número de pontos alagados ficou longe dos 98 registrados nesta terça (08.12). É o que mostra levantamento feito pelo UOL com base em dados oficiais (leia aqui).

Os mais de R$ 1,7 bilhão investidos que rebaixaram a calha do Tietê para permitir que a vazão do rio chegasse a 1.188 m3 por segundo de vazão não são mais suficientes para a quantidade de água despejada nele. Ou seja, o rio está mais raso do que deveria, pois a manutenção não é suficiente para a quantidade de resíduos que se acumula na calha do Tietê.

Para o professor do Departamento de Engenharia Hidráulica e Sanitária da Escola Politécnica Mário Thadeu Leme de Barros entrevistado no CBN SP a saída está em aumentar a capacidade de São Paulo “enxugar” a água da chuva. Uma das opções é investir nos parques lineares que preservariam as encostas dos córregos e riachos que desaguam no Tietê e reduziriam o volume de água despejado no rio.

Dos 23 previstos para serem entregues até 2012, segundo o Plano de Metas da Prefeitura, apenas um está concluído, no Jardim Esther, região do Butantã. Oito deveriam estar prontos neste mês de dezembro.

Haveria outras possibilidades como impedir a ocupação sem limite e sem ordem que se realiza historicamente na capital paulista, mas para tanto é preciso coragem política e restrição de privilégios. Hoje, São Paulo paga um preço muito alto pela falta de planejamento e o que a cidade sofreu nesta terça é reflexo de uma série de erros urbanísticos, muito mais do que o excesso de chuvas.

Nesta entrevista nós falamos também sobre a falha que ocorreu no bombeamento das águas do rio Pinheiros que tornou a situação do Tietê ainda mais crítica.

Ouça a entrevista do professor do Departamento de Engenharia Hidráulica e sanitária da Escola Politécnica Mário Thadeu Leme de Barros

Nesta quarta, também conversamos com um economista para entender o tamanho do prejuízo calculado pela cidade em virtude dos transtornos provocados pelas enchentes.

Ouça a entrevista de Heron do Carmo, professor da FEA-USP, sobre o Custo São Paulo