Conte Sua História de SP: uma vida na vila de casas virgens

 

Por Wanda Maria da Silva
Ouvinte-internauta da CBN

 

Quando eu tinha nove anos, em 1944, fui morar no Jardim Anália Franco no Tatuapé. Na Avenida Celso Garcia, na altura do número 5.177. Era uma vila de casas virgens e até hoje elas existem. Ainda tinha os bondes e era tempo de guerra na Europa. A vila tinha 16 casas, todas com um fogão a carvão novinho. As pessoas todas se conheciam e se davam muito bem. Na frente havia uma chácara muito grande aonde eu comprava verduras da Dna Isabel. Além de verduras, na chácara também tinha muitas flores, maracujá e pitangas. Sempre pedia para pegar uma pitanga. Como eu sempre pegava mais que uma a Dna Isabel fica me olhando com ar de repreensão. Na chácara havia um poço enorme e eu tinha medo de cair. Lá trabalhavam várias pessoas. Cada uma tinha o seu pedaço de terra. Eu morava com minha avó, meu avô, minha mãe e duas irmãs. Foi uma época muito feliz na minha vida. Não havia transito, era tudo bem pacato. Na vila jogávamos futebol. Meninas contra os meninos. Os meninos eram o Andre, o Jaime, o Gilberto o Victor.

 

Ouça este texto que foi ao ar no Conte Sua História de São Paulo, sonorizado pelo Cláudio Antonio

 

Minha avó era uma Italiana letrada dona da Companhia de Teatro Zaíra Médici. Todos os dias escutávamos a rádio Gazeta para ouvir musicas Italianas. Era das 11:30 até o meio dia ouvíamos os grandes tenores. radio. No meio dia em ponto, a rádio Gazeta tocava uma sirene bem alto durante a programação. Morávamos perto do Parque São Jorge. E eu e minha amigas, Míriam e Pilar, íamos ao clube do Corinthians para brincar e andar de barco no rio Tiete. O barco era do Sr. Caetano, pai das minhas amigas. Subíamos o rio de onde das suas inúmeras curvas era possível avistar a Igreja da Penha no alto do morro. Meu pai, que não era sócio do Corinthians, ia até a margem do Tiete, tirava roupa, escondia em alguma moita, e entrava no clube a nado pelo rio. Não existiam as piscinas. Existia somente o que chamávamos de cocho. Feitos dentro do rio com assoalho de madeira. Tinha cocho de adulto e de criança. É assim que as pessoas se divertiam da época.

 

Minha avó cozinhava muito bem. Tínhamos fartura e nada faltava em casa. Na época da guerra faltou pão e açúcar. Meu avô, Luigi Médice, comprava açúcar preto. Minha avó fazia polenta para tomarmos café substituindo o pão. Para eu e minhas irmãs tudo era festa. Quando começou a aparecer o pão, nos íamos de madrugada para a fila para tentar pegar um pão. Davam-nos um cartão que dava direito a um único pão. Então íamos eu e minha irmã e conseguíamos pegar dois pães. Minha avó ia até as vendas do bairro fazer compras. Uma vez ela comprou uma peça inteira de toucinho defumado e pendurou na dispensa. Isto no tempo da guerra era sinal de fartura. Meu avô tinha um circo e minha avó fazia balas, refrescos e pirulitos para vender no circo. Ela foi uma mulher que trabalhou muito. Mesmo assim nunca conseguiu comprar uma casa. No domingo, eu e minhas amigas, íamos à missa da igreja da Penha de bonde. Moramos cinco anos e meio na vila. Depois as casas foram vendidas e tivemos que mudar.

Conte a sua história de São Paulo em áudio e vídeo no Museu da Pessoa. Agende uma entrevista pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Ou envie seu texto para milton@cbn.com.br.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s