Mundo Corporativo: psicóloga Marli Arruda dá dicas de como líderes e colaboradores têm de agir diante da crise do coronavírus

 

“Lógico, a gente tem de produzir , tem de continuar dando os resultados para a empresa, mas antes de tudo, antes de falar “você já entregou o relatório?”, “você já enviou o relatório X”, pergunte tá tudo bem, bom dia, como está você e a sua família” — Marli Arruda, psicóloga

O novo coronavírus está impondo os mais diversos desafios à humanidade, obrigando ao menos um terço da população a viver sob medidas restritivas e já tendo matado mais de meio milhão de pessoas. No cenário empresarial, um número incontável de profissionais foi levado a trabalhar em casa e se adaptar, muitas vezes sem nenhuma estratégia programada, à necessidade de atuar em equipe mesmo à distância. Gestores e líderes dessas equipes, por sua vez, tiveram de redobrar esforços para manter a produtividade e engajar o grupo, mesmo diante desta adversidade nunca antes vista.

 

A psicóloga organizacional Marli Arruda identificou alguns comportamento que precisam ser adotados por líderes e colaboradores neste momento. Em entrevista ao jornalista Mílton Jung, no programa Mundo Corporativo, da CBN, mesmo que distante, ela diz que o gestor tem de se mostrar presente, demonstrando calma na relação com o seu time, tendo equilíbrio emocional para abordar os colaboradores e tomar decisões, demonstrar interesse genuíno pelo outro e exercitar a escuta ativa:

“… escuta o que a pessoa não fala, o que ela não consegue expressar de uma forma clara, o que tem nas nuances daquela comunicação.… é me preocupar e parar em ouvir a pessoa”.

Arruda faz uma analogia com as recomendações de emergência nos vôos quando somos lembrados que em caso de despressurização as máscaras cairão do teto e devemos primeiro colocar em si mesmo e depois nas crianças:

“As pessoas, agora, o que mais elas precisam é de um líder, alguém que tome à frente que diga, olha, vamos fazer dessa forma, … e dizer vamos por esse caminho e não por aquele caminho”.

Em relação aos colaboradores que estão em “home office”, Arruda sugere:

“A disciplina nesse momento ela é fundamental, e sempre comparar, lá no meu trabalho como eu estaria agora, o que eu estaria fazendo, então sempre fazer essa correlação para poder se manter disciplinado em casa porque há vários estímulos ali que podem dispersar e a pessoa perder a sua produtividade”.

Autora do livro “Estratégias em gestão de pessoas para colorir seus negócios —- manual prático para engajar equipes”, Arruda lista alguns cuidados para quem está em “home office”, seja o líder da equipe ou o colaborador:

—- mantenha uma comunicação uniforme: quando não há comunicação, há interpretação; quando há comunicação errada, há pânico

 

—- tem de engajar a família, explicar a situação e as suas necessidades

 

—- administrar bem o seu tempo diante dos muitos estímulos que temos em volta

 

—- estabelecer um período para olhar as noticias e responder as redes sociais

 

—- respeitar seus horários de trabalho, de almoço e fim de expediente

 

—- criar pausas durante o seu dia

 

— seja tolerante com você e com o outro

O Mundo Corporativo vai ao ar aos sábados, às 8h10 da manhã, no Jornal da CBN; aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo; e está disponível em podcast. Colaboraram com o Mundo Corporativo: Juliana Prado, Gabriel Damião, Rafael Furugen e Priscilla Gubiotti

Tolerância e humildade, por Flávio Gikovate em 14 tuítes

 

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Flávio Gikovate morreu aos 73 anos, nessa quinta-feira. Esteve com a gente na CBN até bem pouco tempo, enquanto a doença permitiu. Fazia um programa inovador dentro de uma emissora que se dedica a transmitir notícias: tornava público seu divã e, a partir dele, atendia a centenas de solicitações de ouvintes, que abriam coração e alma para compartilhar suas angustias.

 

Mesmo internado, no Hospital Albert Einstein, seu conhecimento ainda encontrava espaço para chegar até o público que o admirava, através de seu perfil no Twitter. Nas últimas horas, escreveu em 14 tuítes sobre a intolerância, e eu tomo a liberdade de dividir com você os pensamentos do médico, psiquiatra e colega de rádio CBN.

 

Uma boa definição de pessoa humilde consiste na real disposição de ouvir e de aprender sempre, inclusive com aqueles que sabem menos que ela

 

 

Tolerantes são os que conseguem se irritar muito pouco com a parte desagradável presente em suas atividades e nas pessoas com quem convivem.

 

Ser tolerante é enorme vantagem, pois lidar bem com quem não nos agrada facilita a vida social e o encontro daqueles que consideramos legais

 

A tolerância tem a ver com a capacidade de respeitar diferenças de pontos de vista e de estilo de vida. Não ser pessoa crítica ajuda muito.

 

Por vezes tem a ver com a humildade: não se achar pessoa tão especial cria condições favoráveis para um convívio diversificado.

 

Muitos se fazem de tolerantes apenas com o intuito de seduzir e cativar seus interlocutores. São falsos e movidos por interesses duvidosos.

 

Pessoas intolerantes sempre passam uma imagem de arrogância e superioridade, de quem se impacienta e se aborrece com as “tolices” que ouve.

 

Não é raro que os mais intolerantes se considerem (e alguns sejam) mais inteligentes e cultos que seus colegas. O sucesso não passa por aí!

 

Uma pessoa humilde de verdade tem ciência de que seu saber é limitado e que a arrogância e altivez intelectual corresponde a um grave engano.

 

Quem é intelectualmente arrogante se acha portador de um saber inquestionável: ao ser contestado, não ouve o interlocutor com real respeito.

 

As pessoas que acham que sabem muito se afastam da “porosidade” psíquica: seus diálogos visam apenas fazer prevalecer seus pontos de vista.

 

A pessoa arrogante não se interessa pelo que o outro diz: ao ouvi-lo, só está se municiando de argumentos para desqualificar seu raciocínio.

 

A humildade corresponde a um estado de alma em que predomina o respeito pelas outras pessoas: pelo modo como vivem, pensam e se comportam.

 

Uma boa definição de pessoa humilde consiste na real disposição de ouvir e de aprender sempre, inclusive com aqueles que sabem menos que ela.

A morte de Santiago não pode se resumir às palavras

 

 

O cinegrafista Santiago Andrade, da TV Bandeirantes, está morto. Foi vítima de um rojão disparado por uma das pessoas que participaram do protesto contra o reajuste das tarifas do ônibus no Rio de Janeiro. Hoje seu nome está na boca de todo brasileiro minimanente informado, é usado para defender e atacar ideologias, é explorado pelos mais diversos e opostos grupos políticos representados no país. Autoridades se pronunciam, entidades de classe criticam com veemência a violência. Inúmeras manifestações de solidariedade foram feitas até agora. Jornais, televisão, as nossas rádios estão tomadas por reportagem que tratam da morte de Santiago. Palavras, por enquanto, apenas palavras. E palavras são substituídas por outras já na próxima notícia que teremos de contar. Portanto, são efêmeras. Se não servirem para contaminar a sociedade brasileira, levar a ações efetivas pela justiça social, à punição daqueles que cometem crimes, à mudança de comportamento dos que receberam a delegação popular para promover as políticas públicas, serão sempre apenas palavras. Você pode não concordar com nada que este jornalista diz, você pode se indignar com as reportagens que assiste, criticar quem pensa diferente de você (ou aparenta pensar diferente de você). Mas se impor pela violência, seja arremessando um rojão contra um profissional, seja estrangulando um garoto com tranca de bicicleta, seja colocando fogo em ônibus, é apostar na barbárie. A morte de Santiago, como disse a companheira dele, Arlita Andrade, não pode ser em vão. Que ao menos sirva para que se repense as atitudes que adotamos e se busque a cultura da paz e da tolerância.

Avalanche Tricolor: um jogo de paciência e tolerância

 

Grêmio 1 x 0 Veranópolis
Campeonato Gaúcho – Arena do Grêmio

 

 

Há uma certa impaciência no ar. Das arquibancadas têm-se ouvido bochichos desde cedo como se ninguém estivesse disposto a esperar pelo período de adaptação que os times passam no início de temporada. Veja que, apesar deste espaço ser dedicado ao Grêmio, escrevi na frase anterior times (assim mesmo, no plural), pois é o que tenho percebido em muitos Estados. A mais absurda das cenas foi o que aconteceu no Centro de Treinamento Joaquim Grava, do Corinthians, quando gente criminosa invadiu o local e colocou em risco a vida de profissionais do clube. Bem antes disso, porém, o técnico Osvaldo de Oliveira, do Santos, por duas vezes, durante as partidas, teve de brigar com torcedores que o chamavam de burro já nas primeiras rodadas do Campeonato Paulista, apesar de seu time estar sendo reconstruído com jovens talentos que, aliás, têm feito belas partidas e goleado adversários, inclusive em clássico como ocorreu contra o Corinthians. Ontem foi Paulo Autuori o alvo das críticas dos torcedores do Atlético Mineiro devido ao desempenho frágil de sua equipe no começo do Campeonato Mineiro.

 

Na Arena, as reclamações também surgiram diante de uma performance sofrível no primeiro tempo, quando se repetiram muitos dos erros da partida anterior (e do ano passado). Já disse na Avalanche publicada domingo que também andava com um pé atrás em relação às nossas pretensões, mas que a recomendação de amigos e colegas logo mudaram minha disposição e estou pronto para a temporada. É preciso mais paciência com jogadores que estão sendo submetidos a regime especial de treinamento visando não as partidas do Campeonato Gaúcho, mas a longa temporada de competições importantes como a Libertadores, Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro. Neste momento, a musculatura ainda se adapta ao ritmo do jogo, a perna está presa e não acompanha o pensamento, o drible sai truncado e o chute perde a precisão. Alguns conseguem melhor resultado do que outros e não por acaso são os mais jovens os que estão tendo mais destaque. Ontem mais uma vez, assistimos ao talento de Jean Deretti, à presença de Luan e às chegadas de Wendell no ataque. Soma-se a garotada o fato de Barcos ter marcado o gol da vitória, o que sempre nos oferece a esperança de que o goleador está de volta. Tudo isso foi mais do que suficiente para nos manter na liderança do grupo e no caminho da decisão do título estadual. No próximo domingo temos o clássico que se antecipa a estreia na Libertadores (fico pensando quem é capaz de fazer um calendário como este) e tudo que peço é que se tenha um pouco mais de paciência com nosso time. E tolerância uns com os outros. No futebol e, principalmente, na vida.

De tolerância

 

Por Maria Lucia Solla

De tolerância

Ouça este texto na voz e sonorizado pela autora

Tenhamos compaixão; a dor de viver é igual em todos nós!

Criticamos o outro porque achamos risível a dor que não é nossa. Dizemos que fulana faz tudo errado, que um é metido, o outro é babaca. Uma é gracinha, a outra oferecida. Meu filho é esperto, inteligente. O teu? Um traste.

Não sei se fomos feitos assim, desconjuntados, para aos poucos aprendermos o que é certo e juntarmos os pedaços – se é que existe o certo – ou tanto faz, ou se fomos feitos direitinho na receita perfeita, no equilíbrio confortável, e aos poucos fomos perdendo o bom-senso pelo caminho da vida. Mas isso não importa agora. O certo é que cada um tem lá as suas crenças, e muitos se subjugam a elas e acabam vazios de busca. Cheios de si. Agarram-se a certezas que fortalecem a intolerância que se alimenta do que ainda resta de tolerância.

Queremos consertar a vida do outro. Dizemos que não entendemos como isso ou aquilo pode ser, na vida do outro. Na nossa é fatalidade; na do outro, burrice.

Honestamente, ninguém tem as coordenadas para o caminho certo. Se tivéssemos, ele já teria se mostrado e se instalado no teu programa e no meu, na tua vida e na minha, e nossos barcos hoje singrariam mares calmos, com lindos nasceres e pores do sol, com brisa suave e sempre alguém ali, na tua frente, para te olhar profunda e docemente nos olhos e te fazer sentir vivo.

Quantos são os ingredientes que nos levam a sermos mais ou menos tolerantes? Muitos, seguramente, mas um deles é doido de perigoso: o medo. Ele é o combustível de guerra, guerrilha, assassinato, violência dentro e fora de casa, bullying, suicídio. Tudo bem que não é o único, mas quem precisa de mais?

Se não tivéssemos medo, não passaríamos um tempo precioso com quem amamos, falando de quão errado está o mundo. E por que fazemos isso? Por medo. Medo de que descubram que não estamos certos porque, na verdade, não temos certeza de nada. Medo que engatilha a intolerância, mãe da dor. Na verdade nos consideramos pouco, pequenos, ineptos, assim rebaixamos o resto do mundo para tentarmos nos destacar.

Triste, não é? Quando alguém vocifera e olha o outro de cima, olha bem para ele, olha bem para ela, não está dominado pela força, pela nobreza, mas pela fraqueza, pela covardia. Pelo medo que exala em cada alento. É assim que eu vejo; e você?

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De muito erro e pouco acerto


Por Maria Lucia Solla

Esta semana me trouxe o assunto da droga, a legal e a ilegal, e comecei a escrever sobre a relação entre o homem e ela, sem defender nem atacar ela ou ele, mas acreditando que a proibição dela é a galinha dos ovos de ouro dele.

Pois não é que um braço da bandidagem agarrou minha mão e meus pensamentos e me fez mudar de assunto! Vou contar como foi.

Fui levar meu carro para a Inspeção Veicular e saí de casa com antecedência, por duas razões: primeiro porque conheço o trânsito da cidade, e depois porque me conheço; me perco à toa. Pesquisei o trajeto que deveria fazer para não errar, e errei. Entrei à direita numa rua antes daquela onde devia entrar. Respirei fundo, voltei e acertei. Só faltava o apoio de alguém que me confirmasse que eu estava na direção certa. Pensei: melhor parar num posto de gasolina; é mais seguro. E errei mais uma vez. Vi um posto e percebi que dois funcionários me observavam. Adivinhavam que eu ia em busca de informação e vieram até a minha janela. Gentileza, pensei; e errei de novo.

Fiz a pergunta, e um deles apontou dizendo que o local da Inspeção era vizinho do posto. Do lado de lá do muro. Que bom, obrigada! Engatei a ré, e um deles, o mais alto, perguntou se o extintor estava dentro da validade. Respondi que não tinha certeza, mas que aquela não era hora de cuidar daquilo. Ele insistiu, disse que era melhor verificar porque se estivesse vencido, meu carro não seria liberado na inspeção. Fiquei surpresa; tem certeza? A gente vê isso acontecer todo dia por aqui dona. O cidadão leva o carro lá, o extintor está vencido e nem fazem a vistoria. Tem que começar tudo de novo, entrar na Internet, fazer o agendamento… Achei melhor acabar logo com a história, olhamos o extintor, e não é que venceu no mês passado! O extintor venceu e o senhor também. Quanto custa um novo? Ele não tinha arma na mão.

A parada no posto me custou alguns reais e cinco minutos. Paguei. Agradeci. O local da Inspeção era do outro lado do muro, o que me ajudou a acreditar no “vendedor de extintor”. Continuei a errar. Terminada a inspeção quis confirmar que eles examinam mesmo o extintor para liberar o veículo. Não, eu tinha sido mais uma vítima do golpe.

Voltei ao posto sem me dar conta de que tinha atingido o alerta máximo do meu nível de tolerância, e já cheguei dizendo que não tinha medo de bandido e nem medo de morrer. Tudo bem que exagerei, e não me orgulho do que fiz, mas era o que eu tinha no momento. O cidadão mais alto não está, me disse o baixinho que fazia dupla com ele. Olhei em volta e vi os ratos se esgueirando, se amotinando.

No final consegui o extintor vencido e o meu dinheiro de volta. Passei na padaria, pedi a maior bomba de chocolate do balcão, vim para casa, me deliciei com uma super xícara de café e só agora, mais de trinta horas depois, me dei conta do perigo que corri, do tamanho da tristeza que senti por termos nos transformado nisso que está aí fora, à espreita para atacar. Tenho medo de bandido, sim, dos que usam armas e dos que nem precisam delas.

Só mais uma coisa: eu amo a vida e não tenho medo, mas não estou a fim de morrer.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e organiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung