Carta a um sobrinho corintiano

 

Por José Renato Santiago
Amante do futebol e ouvinte-internauta

 

Meu querido sobrinho, Felipe.

 

Sua mãe, minha irmã, é testemunha sobre o quanto a sua chegada foi desejada.
Em 1995, quando ela engravidou pela primeira vez, ganhei de presente ser padrinho de sua irmã, Mariana.
Uma grande alegria e orgulho para mim.
Em 1999, quando sua mãe nos avisou que o meu primeiro sobrinho viria ao mundo, vibrei!!!
Mesmo assumindo, apenas, o papel de tio, me satisfez muito saber que passaria a ter um novo amigo para ir comigo aos jogos do meu tricolor.
Olha que tentei.

 

Seu primeiro jogo no estádio foi um São Paulo x Juventus no Morumbi.
Escolha estratégica, adversário supostamente tranquilo, tudo convidativo para fazer alguém se tornar são paulino.
Bem, só não avisaram isso ao Juventus que venceu por 1 a 0 naquele dia.
Não foi problema, você era tão pequeno que nem notou a derrota do São Paulo.
Ainda assim, fui tentando de trazer para o meu lado rs rs.

 

Em uma partida do São Paulo x Rio Claro, conseguiu que você, juntamente com seu irmão, Marcos, entrassem junto com a equipe tricolor, ao lado de Ceni.
Desta vez, vitória tricolor, para mim, o jogo estava ganho.
Ledo engano…

 

Em 2007, o Corinthians estava muito mal no campeonato brasileiro e acabou rebaixado.
Novamente, achei que estava resolvida esta questão, ainda mais porque o São Paulo tinha sido campeão.
Mas naquele dia, o do rebaixamento, a primeira coisa que você fez foi: vestir a camisa do Corinthians e ficou com ela a semana inteira.
Realmente, o jogo estava ganho, você seria corintiano.

 

Aliás, foi com você que aprendi a respeitar efetivamente os torcedores rivais.
Não que eu fosse desses torcedores que saem ofendendo os rivais, mas achava, até então, impossível ter um corintiano na minha família (lembrando que cunhado, seu pai, não é parente rs).

 

Minha torcida contrária ao Corinthians continuou, mas certamente sem a mesma força de antes, graças a você.
Não conseguia realmente torcer de forma contrária da mesma maneira.
Esta Libertadores, torci a favor do Vasco, a favor do Santos e até mesmo a favor do Boca…
Mas, capitulei…

 

Acompanhei a sua aflição…
Acompanhei a sua alegria…

 

E mais, é difícil deixar de admitir que a atual equipe corintiana é realmente merecedora da conquista da Libertadores deste ano.
Sendo assim, não irei torcer a favor do seu time, mas sim que você fique feliz com o resultado.
Pois independente do resultado, para você, o Corinthians é sempre Corinthians e isto é o suficiente!

 

Um grande abraço de seu tio tricolor desde sempre.

Avalanche Tricolor: o desrespeito ao torcedor de futebol

 

Recebi de uma amiga, colega de profissão e gremista, mensagem que descreve o desrespeito dos organizadores dos campeonatos de futebol e dirigentes de clubes aos torcedores. A dificuldade para a compra de ingresso para as partidas, a falta de informação, o desconforto dos estádios e a agressividade de bandos organizados há muito me mantém distante dos campos – o que mais lamento é que meus dois filhos que poderiam se transformar em amantes do esporte acabam prejudicados, também, pois têm poucas oportunidade de curtir o jogo da arquibancada ouvindo o grito das torcidas, serão apenas torcedores virtuais.

 

Vamos a bronca da Fiorela Rehbein:

 

Oi, Milton,

 

Posso desabafar como boa tricolor que não costuma abandonar o barco perante as situações adversas? Fui pra Porto Alegre na quarta-feira passada, aliás fui e voltei num voo essencialmente verde, vi meu time levar dois gols em noite de casa cheia, cheguei em Congonhas e fui direto para minha empresa trabalhar o dia todo, enfim, nada foi fácil, mas pelo menos eu vi o Grêmio. Eu estive com o Grêmio e matei a saudade do Velho Casarão em seu último ano.

 

É lógico que pra quem enfrentou voo, ir pra Barueri seria fichinha…sopa no mel, apesar de toda a circunstância desfavorável. Nunca pensei em não ir. Consegui até desmarcar compromisso previamente agendado…tudo pra estar com o Tricolor nesse momento difícil. O sentimento vai além da razão…não importa se perder ou ganhar. Só que pela segunda vez aqui em São Paulo me senti desrespeitada enquanto torcedora visitante.

 

O site do Palmeiras informa que para a torcida visitante os ingressos estariam a venda em todos os postos de venda e também na Arena Barueri, no dia do jogo. Como fiquei em dúvida se nos postos de venda seria só no dia do jogo ou a partir de hoje eu telefonei para a RA Sports e eles então me informaram que, ao contrário do que estava bem claro no site, eles não estariam vendendo o ingresso nem hoje nem nunca, mas que no Palestra Itália e na Arena Barueri eu conseguiria. Telefonei então para o Palestra Itália e a funcionária me informou que estavam vendendo desde às 10h e que inclusive os ingressos estavam acabando. Perguntei especificamente mais uma vez sobre os ingressos para a torcida visitante e ela disse que confirmaria e que eu retornasse em alguns minutos. Assim feito, ela me disse que “para a torcida visitante ainda tinha, mas que era bom vir logo”. Como eu não podia sair da empresa, chamei um motoboy para ir até o estádio e comprar pra mim antes que esgotasse. E a minha surpresa foi que ele voltou dizendo que não tinha comprado porque informaram pra ele que os ingressos para a torcida visitante só estariam à venda no dia do jogo.

 

Fiquei muito indignada e tornei a ligar para o Palestra, e, acredite, a funcionária me disse que sim, estavam vendendo, ela garantia, mas que ela avisou que tinha que ser rápido pra não esgotar (??). Mesmo quando expliquei que não estavam vendendo “ainda”, ela insistiu que era um mal entendido.

 

Então, quem diria, o Grêmio fica mais perto de mim quando joga em Porto Alegre – ou no Morumbi, justiça seja feita ao SPFC, onde eu sempre consegui comprar ingressos sem problemas. No Pacaembu é a mesma falta de informação e o mesmo desrespeito que no Palmeiras.

 

Não vou mais. Nem a esse e nem a nenhum outro jogo que seja em São Paulo e não seja no Morumbi. Mas fica a frustração, confesso. A desilusão de quem esperava ver e apoiar seu time, fosse qual fosse a condição e o resultado.

 

Ninguém escuta a Fiorella…sou apenas mais uma consumidora que no Brasil será considerada palhaça por acreditar que o sistema deveria funcionar. Mas muitos escutam o Milton, então se você tiver a oportunidade de, ao menos pedir que as informações sejam fornecidas corretamente aos torcedores, eu agradeço sinceramente.

 

No mais, que o nosso Grêmio possa um dia voltar a ser ‘copero’ de fato.

 

Saudações, e uma boa semana.

 

Fiorella

Avalanche Tricolor: Um torcedor à distância

 

Extra, extra, extra ! A Avalanche Tricolor tem edição extraordinária para oferecer espaço a um torcedor gremista forjado no extremo do Paraná, distante do Rio Grande do Sul e ainda mais loge do estádio Olímpico. Nem por isso menos torcedor como descreve no texto a seguir. O gremistão é Bruno Zanette (@bzanette), jornalista e meu colega na rede CBN Brasil, em Foz do Iguaçu:

 

Dizem que lugar de torcedor é no estádio. Depende. Nem sempre o deslocamento ao palco do espetáculo chamado futebol é possível. Especialmente se o time pelo qual você escolheu torcer fica em uma cidade muito distante de onde mora. Esse é o meu caso. Um gremista paranaense que não conhece Porto Alegre, quiçá o estádio Olímpico Monumental, local de tantas glórias e conquistas.

 

Felizmente para isso existem as emissoras de rádio. “Ah, mas hoje em dia, com o pay-per-view, você também pode acompanhar”, podem pensar. Mas na época em que comecei a me interessar por futebol, isso ainda era raridade, se é que existia no país. Tive a sorte de nascer no ano em que o Grêmio se tornou campeão da primeira Copa do Brasil da história, em 1989. Aí, minha infância nos anos 90 foi uma festa atrás da outra, em comemoração aos títulos. A grande Era-Felipão! E eu aqui, na minha Foz do Iguaçu, onde nasci, acompanhando (ou tentando compreender) de longe, só observando meu pai, gaúcho que ainda jovem se mudou ao Paraná, rádio no encosto do sofá, ouvindo os jogos do Imortal Tricolor.

 

Sim, é verdade que eu ainda não tinha idade suficiente para entender direito o futebol, mas já sabia por quem gostaria de torcer. Se esse tal de Grêmio ganhava tudo o que disputava, meu pai ficava feliz com ele, por que eu iria querer torcer por outro time? Tenho um irmão mais velho e flamenguista, só que isso não vem ao caso. Deve ter tido os motivos dele para torcer, também à distância.

 

Hoje, com meus 22 anos (23, a partir de 11 de maio) sou jornalista formado, trabalho em uma afiliada de uma grande rede de rádio – a CBN – e sou responsável pela editoria de esportes. Tento não deixar a paixão clubística afetar a isenção na hora de noticiar sobre outros grandes do futebol brasileiro. Por sorte, a cobertura é focada mais ao esporte local, aqui de Foz. Por isso, até consigo continuar torcendo pelo time azul, preto e branco. Mas assim, à distância. Espero mudar este quadro este ano, o último do Olímpico. Preciso conhecer aquele local, respirar o ar dos campeões, preciso sentar naquelas arquibancadas. Preciso estar lá, sabendo que não há distância que separe a emoção de um torcedor. Um torcedor do Grêmio.

Torcer por um clube de futebol

 

Por Milton Ferretti Jung

Nem todos possuem um time para o qual torcem. Há quem nem sequer goste de futebol ou somente se fixe neste esporte quando a Seleção Brasileira entra em campo. Existem torcedores de todas as espécies, dos apaixonados aos raivosos, dos que freqüentam estádios aos que preferem acompanhar os jogos pelo pay-per-view e também pelas rádios.

Vou tratar, hoje, dos que têm time ou clube, que não chegam a ser sinônimos, mas podem ser entendidos como tal. Talvez quem me dá o prazer de ler o que escrevo aqui prefira falar em clube, eis que os times, ao contrário daquele, mudam de formação com freqüência. O clube, dependendo de sua grandeza, é eterno ou quase isso.

Minha abordagem versará sobre como se cria um torcedor. Creio que a maior influência venha dos pais, nem digo que seja paterna, porque muitas vezes o casal torce para times diferentes e a força de persuasão de um é mais forte do que a do seu par. Tirante esta dupla, há também padrinhos, tios, irmãos e outros parentes que tentam puxar o visado para o seu lado com todo o tipo de artimanhas, inclusive as que começam com os presentes que são dados aos recém-nascidos: camisetinhas, calções e meias de times de futebol. Esses, quando chegam à idade da razão, nem sempre fazem o que é esperado… e passam a torcer para o rival. Existem também os que, para fazer desfeita ao pai, vão para o lado oposto.

Na minha casa, impera a democracia. Todos têm de ser gremistas. E ninguém traiu o seu pai. Estão aí o Mílton (o texto da Avalanche Tricolor diz bem qual a sua paixão clubista), a Jacque, que vai ao Olímpico às vezes, mas prefere ficar acompanhando a marcha do jogo pela Internet, e o Christian, torcedor gremista também, mas mais ligado em música e apaixonado por fucas, sobre os quais escreve no blog MacFuca. Na sua infância e adolescência, o Mílton não só jogou na escolinha de futebol do Grêmio como foi integrante do times tricolor de basquete, no qual jogou dos juvenis à equipe de adultos.

Quanto ao pai deles, este seu criado, que estreou no rádio, como locutor, no distante ano de 1958, jamais escondeu sua paixão pelo Grêmio. No meu tempo de foca no ofício, na Rádio Canoas, cheguei a narrar um jogo no Estádio da Montanha, entre o dono da casa – Cruzeiro – e o Renner, equipe que foi campeã gaúcha em 54 e, no mesmo ano, acabou extinta. Muitos de seus jogadores, entre eles Ênio Vargas de Andrade, depois técnico famoso, trabalhavam na fábrica Renner. Mas retorno ao assunto. Na Rádio Guaíba, onde estou desde 1958, fui narrador durante muitos anos e – desculpem-me por falar sobre mim – participei do Terceiro Tempo e, hoje, do Ganhando o Jogo. Cito isso para dizer que já não preciso ser imparcial, o que era como narrador.

Faltou contar que, quando menino, um companheiro de peladas me convenceu a torcer para o Grêmio. Meu pai se dizia torcedor do São José. Logo, não teve nenhuma influência na minha escolha. Minha paixão só apareceu, de fato, quando, no internato, ouvi a transmissão de um jogo via rádio. Nessa, fã que era do goleiro Júlio Petersen, fiquei sabendo que ele se aposentara e seu substituto se chamava Sérgio Moacir. Foi a primeira irradiação de um jogo do Grêmio que acompanhei. Faço questão de lembrar, para concluir, que o meu gremismo, por não atentar contra a minha imparcialidade, nunca me criou problemas com os torcedores do Inter.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Cético e entusiasmado, o Brasil no voo para o Hexa

 

O aeroporto na Cidade do Cabo estava vazio para suas dimensões. E cheio de torcedores brasileiros a caminho de Johannesburgo. Eram 10 da manhã, e a partida do Brasil seria apenas às oito e meia da noite, hora local. Um deslocamento tranquilo e tenso, ao mesmo tempo. Com check-in sem estresse e voo na hora certa, a apreensão ficava por conta do que aguardaria a seleção no estádio Ellis Park, na disputa pela vaga nas quartas-de-final.

Para completar este cenário de contradições, eu com mala em punho seguia o mesmo caminho que eles, passaria por Johannesburgo, mas não assistiria ao jogo. Nem mesmo na televisão. Estaria a bordo de outro avião tomando o rumo que a nossa seleção só pretende seguir depois do dia 11 de julho: São Paulo.

Duas horas e meia depois de deixar a cidade em que morei nos últimos 21 dias, estava em Johannesburgo e do futebol consegui assistir apenas a alguns minutos da vitória da Holanda na Eslováquia. Suficiente para enxergar o meio-campo Arjen Robben comandando os Laranjas e tocando bola com uma categoria reservada a poucos. Fui saber da classificação holandesa pelo comandante do voo que ao anunciar em um “inglês-africano” o placar foi recepcionado com um leve murmurinho dos passageiros. Ninguém ali parecia preocupado com esta partida.

No ar, restava fechar os olho e esperar que após duas, duas horas e meia, o comandante fizesse novo anúncio. De preferência, a vitória do Brasil. Não consegui dormir. Passei a lembrar daqueles torcedores animados do aeroporto. Um grupo se organizava para vestir a enorme camisa coletiva fabricada em verde e amarelo com o nome do Brasil a frente. Três outros levavam uma imagem de Ronaldinho Gaúcho: “se o Dunga não chama, a gente convoca”. A menina que encerrara seu compromisso no Cabo e deveria voltar ao Brasil conosco ficou exultante ao saber que havia um brasileiro vendendo ingresso para o jogo por U$ 200, bastaria descer na escala em Johannesburgo, remarcar o voo e torcer para que as malas já despachadas chegassem, sozinhas, com segurança a São Paulo.

Todos repetiam o que parece ser um mantra do torcedor brasileiro: “rumo ao Hexa”.

Passavam das 10 e meia da noite, jantar servido, serviço de bordo realizado, quando meu silêncio foi interrompido pela voz no alto-falante: “Ladies and Getlemen: Brazil 3, Chile 0, Brazil qualified for the last 8 of the World Cup”. Gritos e aplausos tomaram conta do voo 224 da South Africa. E eu pude dormir tranquilo sabendo que mais uma vez se confirmava a superioridade brasileira nesta Copa.

O desembarque no Brasil foi depois das 11 e meia da noite, em um aeroporto de Guarulhos ainda mais vazio do que aquele que deixei na Cidade do Cabo. Apenas não tão bonito, muito menos moderno.

Assim que matei a saudade com abraços e afagos, passei a receber um relatório completo sobre o que foi a partida, a partir dos dois analistas mirins que tem me municiado de avaliações técnicas e emocionais durante esta Copa:

“Juan, Robinho e aquele número 9 fizeram os gols”, disse o mais velho. “Precisa ver o que o 9 (eles esquecem o nome composto de Luis Fabiano) fez, pegou a bola assim, cortou pra cá, tirou o goleiro e chutou no gol”, comentou o mais novo desenhando com as mãos toda a jogada do nosso goleador. “Gostei mais do Robinho, ele soltou a perna”. “Legal foi a barreira que os amigos fizeram para o Juan cabecear”, e eles se colocaram lado a lado para mostrar o posicionamento na cobrança de escanteio. “Foi mais de 50 quilômetros por hora a cabeceada que ele deu”. Nesta altura já não sabia mais quem contava o quê. Todos queriam mostrar seu entusiasmo com a vitória sobre o Chile de Bielsa: “o cara não parava no banco, se agachava, virava a cara, bufafa, e ele colocou três atacantes”.

Hoje pela manhã, acordei cedo pra ver os lances da vitória brasileira e ouvir a avaliação dos críticos sobre o futebol jogado pelo Brasil. Do ufanismo que cega ao pessimismo que despreza, havia um pouco de tudo à disposição na TV e nos jornais.

Na dúvida, resolvi pedir ajuda a Marcão, torcedor sofrido do Brasil que tem acompanhado o jogo com os meus dois comentaristas de plantão e que apesar de estar feliz por ter ganhado uma Jabulani de presente ficou cabreiro com a vitória: “Tô lembrando do Maguila que batia em todo mundo, mas quando pegou um cara bom mesmo, se entregou”, referência ao lutador de boxe sucesso por aqui, mas que beijou a lona quando encarou gente grande como Evander Holyfield (1989) e George Foreman (1990).

A alegria dos meninos e o ceticismo do Marcão são sentimentos que parecem uma contradição, mas que se completam e têm ajudado o Brasil a construir seus resultados nesta Copa. Que sigam juntos, assim, até o Hexa.

Por quem você torce e por quê ?

 

Direto da Cidade do Cabo

Primeiro de tudo. Esqueça este papo de que jornalista é imparcial. Não torce por ninguém. Torcemos, sim. E este que vos escreve é gremista desde pequenininho. Azar de quem não gosta.

Em seguida, vamos ao que interessa.

Torcedores em Cidade do Cabo

A bola começa a rolar, e você lá com aquele olhar blazê. Coreia do Sul e Grécia, não interessa. A troca de bola rápida chama a atenção. A movimentação de um dos times lhe agrada. A defesa do goleiro, entusiasma. E, de repente, o gol. E você, discreto, comemora. Por que você torce ?

Eu escolhi os asiáticos porque mostraram futebol melhor do que os gregos, e estavam cheios de Jung na escalação. Me dei bem.

Aqui na Terra da Copa, há torcedores de todos os lados. Eles caminham juntos, cruzam um pelo outro, tocam uma corneta (não, não é da vuvuzela que estou falando), brincam, se cumprimentam e seguem em frente. Vestem a camisa da sua seleção, pintam o rosto com a bandeira nacional e às vezes pregam algumas peças.

O menino com a jaqueta do Brasil é mexicano. O brasileiro de verde e amarelo veste o uniforme da África do Sul. As suecas, também. E os dois argentinos não se acanham de andar prá lá e prá cá com a bandeirinha da Inglaterra – receberam de umas moças de shorts curto que saíram de dentro de um enorme e barulhento ônibus que tocava o hino da Rainha, diante da praça na qual turistas se encontram em V & A Waterfront, área rica da cidade.

Torcida inglesa

No jogo da Argentina, a torcida dos brasileiros pela Nigéria era explícita. Os poucos ataques do time africano eram acompanhados com atenção; enquanto os chutes de Messi e companhia, com apreensão. Não fiz parte desta torcida, pois tendo a ficar com os sul-americanos, mesmo quando estes são considerados arquirivais. Acertei o lado, de novo.

EUA e Inglaterra estavam em campo lá na parte de cima da África do Sul. Aqui na parte de baixo, “americanos” e “ingleses” sentaram lado a lado em uma pequena arena montada diante de um tela gigante de TV na praça do shopping Victoria Wharf. Havia africanos-ingleses, franceses-americanos, indiano-ingleses, sei-lá-o-quê-americanos e assim por diante.

Torcedores em Cidade do Cabo

Conversei com alguns brasileiros: Marcelo torce para os EUA porque “eles estão melhorando”; Fabi para a seleção de Beckham e ele é o motivo da torcida dela; Carol morou seis meses em Londres e não tem receio em socar o ar quando sai o primeiro gol do jogo; está com mais dois amigos que também viveram por lá e até agora não entenderam como Green deixou a bola passar. Eles quiseram saber para quem eu torcia: Inglaterra, eu disse. Se não os americanos vão perder em que esporte ?

A torcida internacional no Victoria Wharf se definia de acordo com o passar do jogo. Havia umas 400 pessoas sentadas nas arquibancadas ou debruçadas nas cercas do andar de cima. Os ingleses de origem e os agregados eram maioria, apenas uma pequena parcela comemorava os lances em favor dos Estados Unidos. Havia americanos de verdade, com bandeira enrolada, garrafa de whisky na mão e mais exaltados do que todos. Quando ensaiavam um “USA” desafinado, eram logo calados pelo “England” que soava mais alto e em diferentes sotaques.

Torcedores em Cidade do Cabo

As três amigas sul-africanas que estavam voltando para casa, depois de um dia de trabalho no shopping, sentaram por ali mesmo. A mais excitada era “american”, a colega “england” e a terceira “não-fede-nem-cheira”: “Nem gosto muito de futebol, mas está muito divertido.

Assim que a temperatura baixou ainda mais e a chuva apareceu, Inglaterra e Estados Unidos perderam o apoio de uma parcela da torcida.

“Por que vai embora ?”, perguntei. “Com essa chuva, deixa eles pra lá”, respondeu o torcedor com o moleton estampando a bandeira da Eslovênia. Deve ter deixado o local feliz com o empate de 1 a 1 que assistiu. Ele não estava ali torcendo, estava secando. A seleção dele joga amanhã contra a Argélia e se vencer termina a primeira rodada líder.

E você, como escolhe a seleção pela qual vai torcer. Ou secar ?

Canto da Cátia: Morte no futebol

Briga de torcida

O encontro entre vândalos travestidos de torcedores acabou na morte de um corintiano, na noite de quarta-feira, antes da decisão entre Corinthians e Vasco, em São Paulo. A briga foi próximo da Ponte das Bandeiras, acesso à Marginal Tietê. A repórter Cátia Toffoletto, agora pela manhã, está na delegacia de polícia onde o caso está sendo investigado e ouviu o depoimento do pai de um dos jovens que se envolveram na violência e está detido:

Ouça o relato sobre a briga de torcedores do Corinthians e Vasco

Veja o que aconteceu na reportagem da TV Globo:

O futebol e a fábula

Por Carlos Magno Gibrail

Torcida virtual no Museu do Futebol, por Regia Sofia

O futebol, esta grande paixão nacional, parece bem com a moral da fábula “O velho, o menino e o burro” que demonstra a impossibilidade de se contentar a todos. Fato que seria comemorado por Nelson Rodrigues: a unanimidade é burra.

O presidente Lula assinou na sexta-feira 13, três medidas que fazem parte do plano de ações para a Copa do Mundo de 2014. Entre elas, o  projeto de lei que criminaliza os atos de violência dos torcedores e das torcidas organizadas, tanto nos estádios e arredores quanto no trajeto para as partidas. Assinou, também, um decreto que amplia as exigências técnicas para funcionamento dos estádios e um termo de cooperação técnica para monitorar o acesso de torcedores. Os projetos serão encaminhados ao Congresso e Lula já pediu urgência na aprovação.

“O ministro e as carteirinhas” Juca Kfouri; “Stalinismo no futebol” Fernando Rodrigues; “Todos fichados” Folha; são algumas das manchetes desfavoráveis.

Embora reclamado há muito pela mídia geral e especializada, pela autoridade geral e policial, pela população em geral e esportiva, o combate a violência é uma unanimidade em termos de apelos para o seu controle. Afinal só de mortes são mais de sete por ano, além de inúmeras ocorrências policiais.  De torcedores e de policiais.

Mas há acusações políticas eleitorais. “Dentro do projeto da Folha de São Paulo de contribuir para a eleição de José Serra, em 2010, vale tudo.
 A coluna do Fernando Rodrigues, neste sábado, é um bom exemplo disso. O Projeto de Lei, que modifica o Estatuto do Torcedor foi escolhido para ser o alvo das críticas”. Casa do Torcedor.

O Clube dos Treze declarou ontem que apóia em princípio as medidas e está disposto a discutir as carteirinhas, pois acredita que o cadastramento possa ser feito sem elas.

“De vez em quando a PM também faz coisas que não deve, passa dos limites, agride sem necessidade. Como seremos penalizados, eles [policiais militares que cometerem abusos] também tem que ser”. Presidente da Força Jovem do Santos Futebol Clube, Pedro Luiz Ribeiro Hansen.

“Violência gera violência. Às vezes, têm só dois elementos brigando numa arquibancada, a polícia chega agredindo geral e a coisa se espalha”. Presidente da torcida rubro negra Jovem Fla, do Flamengo, Leonardo Sansão.

O projeto de lei anunciado pelo governo define formalmente as torcidas organizadas como pessoas jurídicas de direito privado, que podem responder civilmente pelos danos causados por qualquer um de seus associados no local da competição, nas imediações ou no trajeto de ida ao jogo e de volta da partida.

O mérito da questão é criminalizar algo que é crime em seu sentido real e figurado. Agressões de torcedores e policiais e o impedimento do maior espetáculo da terra que é o futebol ao vivo, aos cidadãos verdadeiros, são efetivamente um crime.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e toda quarta está aqui no blog na torcida para que um dia estádio de futebol seja como sala de espetáculo. E desta Organizada eu faço parte.

Veja mais fotos de Regia Sofia, no Flickr.

Avalanche Tricolor: Meu time do coração tem alma

Única coisa boa no jogo de hoje é que descobri como assistir às partidas do Grêmio pela internet

Grêmio 1 x 1 Ypiranga
Gaúcho 0- Olímpico

Foi no café da manhã que um dos que dividiam mesa comigo fez a pergunta que escuto desde que cheguei em São Paulo, em 1991. Daquelas que somente a turma que desconhece as características do futebol gaúcho costuma fazer.

“E aqui em São Paulo, você torce para quem ?”.

No Brasil, as primeiras transmissões do futebol pela Rádio Nacional levavam a todo o Brasil as emoções dos jogos disputados no Rio de Janeiro e depois em São Paulo. Era mais fácil, em algumas cidades distantes, saber mais sobre os clubes cariocas e paulistas do que dos times locais. 

Este fenômeno criou um tipo de torcedor curioso, de dois corações. Gente que ia ao estádio, gostava do clube citadino, e até vibrava com a vitória sobre os adversários. Era a oportunidade para tirar uma da cara do vizinho. Mas ao ser perguntado, tascava: “Eu sou Flamengo, mas aqui torço pelo Xanxerê”; “Sou Corinthians e torço para Xaxim”. Os estádios pelo interior do Brasil quando recebiam um dos grandes do centro do País tinham mais torcedores destes times do que daqueles.

Lembro de Santa Catarina, onde via pessoas andando nas ruas com a camisa dos times do Rio e São Paulo. Só mais recentemente, os times do estado ganharam alguma projeção entre os locais. No norte e nordeste a situação não foi diferente. 

Não sei bem o motivo – talvez a distância, o tradicionalismo ou a força do rádio regional -, mas no Rio Grande do Sul os times locais, leia-se da capital, mexiam mais com as emoções dos torcedores do que os clubes que faziam sucesso na Rádio Nacional. As camisas tricolor e encarnada sempre estiveram mais presentes nas ruas de Porto Alegre desde que me conheço por gente. Isto, com certeza, explica a forte rivalidade que existe entre os dois grandes clubes gaúchos.

Imaginar que ao deixar o Rio Grande do Sul eu iria ser conquistado por outra paixão futebolística nunca me pareceu sensato. No entanto, é bastante comum que as pessoas não aceitem minha primeira resposta.

“Aqui em São Paulo, eu torço para o Grêmio”. 

Aqui em São Paulo, no Rio, no Amazonas, nas bandas das conchichinas. Onde eu estiver, torcerei, única e exclusivamente, pelo Grêmio. Prá início de conversa porque não teria coração suficiente para sofrer por dois times de futebol. Basta-me o Imortal Tricolor que na busca da imortalidade já me levou a sentir o peito bater forte nos mais difíceis e incríveis momentos do futebol mundial, assim como nos instantes de maior dramacidade e tristeza.

Portanto, o tropeço no clássico, o engano do técnico, o passe errado do craque, o chute torto do atacante, o vacilo do defensor e a torcida irritada – cenas que assisti centenas de vezes – tiro de letra.

Jamais aceitarei, porém, um time sem alma, porque eu torço para o Grêmio.