Pedágio urbano já existe

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

Pedágio urbano em Estocolmo
Pedágio urbano foi solução para o trânsito em Estocolmo, Suécia

 

 

“A população tem de compreender que a cidade é fruto dela própria, a população não é vítima da cidade”. Bem dito por Brito Cruz, presidente do IAB/SP na Folha, e bem anotado por Mílton Jung aqui no blog. De vítima à protagonista, é um passo e tanto para a correta percepção do trânsito pela população de São Paulo, como seu mais grave problema, de acordo com pesquisa publicada agora pela Época. Até então o Ibope e os partidos políticos tinham a saúde como a primeira na lista dos maiores desafios da cidade.

 

Esta mudança de prioridade detectada, originada talvez por universos diferentes considerados, como observou Mílton Jung, mas possível também pelos recentes acontecimentos. Tais como greves ilegais nos transportes públicos, falhas técnicas e operacionais em trens e metrô, ou congestionamentos monumentais se aproximando de 300 km sem nenhum fato excepcional.

 

E, neste panorama de surpresas, surge o Secretário de Transportes do Município, Marcelo Cardinale Branco, em artigo na Folha, lembrando que o custo do congestionamento anual da cidade é equivalente aproximadamente ao seu gigantesco orçamento de 38 bilhões de reais. O que equivale a dizer que o pedágio urbano já está implantado. Assustadora e compulsoriamente distribuído, pois transportes individuais, coletivos, de cargas, quer pobres e ricos, pagam sem se dar conta.

 

Branco sugere então que copiemos os europeus, criando o poluidor pagador. O pedágio urbano sem camuflagem. Direto e planejado para canalizar seus recursos para equilibrar a distorção que vivemos entre a locomoção privada e pública. E abrir um generoso espaço urbano, que higienizará a capital, melhorando todas as relações cidade-cidadãos.

 

Sob o aspecto operacional, a relação entre o transporte coletivo e individual saudável padrão é de 70% para o transporte público e 30% para o privado. Em São Paulo esta comparação está com 55% e 45% respectivamente.

 

A solução, Marcelo Branco recita e receita:
– Favorecer a utilização do espaço pelo transporte público
– Aperfeiçoar e ampliar o transporte de massa
– Disciplinar e restringir o tráfego inclusive com cobrança do pedágio urbano
– Retirar da região central os veículos pesados

 

Tema dos mais importantes para a campanha que se inicia. Esperemos que ao menos a mídia não se deixe levar pela manipulação dos candidatos que não tem programas ou que tem esdrúxulas propostas, como a de matar rios. Verdadeiros “Serial killers”.

 


Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos, e escreve às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

Pedágio urbano pode render 3km de metrô por ano

 

Uma mesa com convidados que não andam de carro ou se o fazem, tentam deixá-lo cada vez mais estacionados na garagem. Foi o jornalista Leão Serva e o empresário Alexandre Lafer Frankel que conseguiram a façanha no almoço dessa terça-feira, no Spot, restaurante próximo da congestionada avenida Paulista, para comemorar a edição do guia “Viver Bem Em São Paulo Sem Carro”, no qual contam a história de 12 pessoas que se tornaram mais felizes ao aposentar o automóvel, ou em alguns casos, reduziram seu uso – e foi nesta categoria que me encaixei entre os convidados. Ao contrário de mim, adepto da bicicleta nas horas vagas, a maioria prefere andar a pé e se socorre do trem, metrô ou táxi, dependendo a distância a ser percorrida. Fui privilegiado no almoço ao sentar ao lado da autora de novelas e pedestre Maria Adelaide Amaral. Para ela o carro é meio de transporte somente para viagens fora da cidade ou em ocasiões muito especiais, gosta bem mais de caminhar e de preferência sozinha, diz que depois dos passeios é outra pessoa e escreve melhor. Ir aos cemitérios da vizinhança na Vila Madalena, zona oeste, é fonte de inspiração.

 

Falo deste compromisso aqui no Blog para registrar uma informação que me foi passada pelo urbanista e arquiteto Cândido Malta, que também prefere caminhar a andar de carro e adoraria viver em uma cidade mais compacta, na qual os bairros se sustentassem, com emprego próximo de casa ou a curtas distâncias. Malta é um veterano defensor do pedágio urbano para conter o crescimento da frota de carros e aumentar a velocidade do transporte público. Contou que, a partir de ensaios feitos em computador, foi possível identificar que com a cobrança de R$ 4 por dia, se reduziria em 30% o número de carros nas ruas, índice semelhante ao que deixa de rodar nos feriados, em São Paulo. Seriam arrecadados pelo poder público cerca de R$ 600 milhões por ano, dinheiro com o qual daria para construir ao menos 3 quilômetros de metrô subterrâneo. Para se ter ideia do que isso representa, o Governo de São Paulo consegue tocar, em média, de 0,5 a 1 quilômetro por ano.

 

Nesta semana, o presidente da Fecomércio Abram Szajm, em artigo, provocou os candidatos a prefeito a discutirem o pedágio urbano durante a eleição e criticou os políticos que “se elegem com os votos das pessoas, mas governam para motores e pneus” (leia o texto completo). Em editorial, a Folha de São Paulo entrou no debate. Enquanto o ex-presidente da CET-SP Roberto Scaringela propôs o pedágio em reportagem na revista Época SP, sobre a qual já tratei aqui no Blog.

 

Aos que odeiam a ideia do pedágio urbano, uma notícia tranquilizadora: São Paulo não tem gestor com coragem e disposição para enfrentar este desafio. E enquanto isso não acontece, mesas ocupadas por pessoas que não usam carro serão raras nos centros urbanos.

 

Em tempo: “Viver Bem Em São Paulo Sem Carro” será lançado no museu Emma Klabin, na avenida Europa, em frente ao MIS, no dia 28 de junho. Quem for de bicicleta terá valet service à disposição.

Foto-ouvinte: motoqueiro movido à álcool

 

Motoqueiro bêbado

 

Na imagem e no texto, a colaboração de Devanir Amâncio, sempre atento aos flagrantes da cidade:

 

“Um motoqueiro completamente embriagado caiu debaixo da própria moto e foi socorrido por um pedestre, na esquina da rua Conselheiro Ramalho com a rua Fortaleza, na Bela Vista, região central da cidade, sábado, 2/6, por volta das 16 horas. Sem ferimentos, levantou dizendo que caiu sozinho e estava ‘sentimentalmente’ estressado. O homem não aceitou ajuda para chegar em casa e a Polícia Militar foi acionada pelo 190 às 16h20. Não se sabe o desfecho dessa história”

O que você pediria ao próximo prefeito?

 

 

Muito rica de propostas, a edição da revista Época São Paulo chegou às bancas neste fim de semana com o perfil de 13 dos possíveis candidatos à prefeitura da capital e 50 sugestões para quem pretende governar esta cidade com cerca de 11,2 milhões de moradores e R$ 38,7 bilhões no Orçamento. Além disso, é possível identificar as prioridades de parcela da população a partir do resultado de pesquisa encomendada ao instituto Conectaí (braço on-line do Ibope) que contou com a participação de 254 entrevistados.

 

Na opinião dos paulistanos, a maior encrenca a ser resolvida pelo prefeito eleito é o transporte (40,4% indicaram este tema como o principal), o que não chega a surpreender depois que assistimos a greves em metrô e trem, há duas semanas, e congestionamento que quase bateu na casa dos 300 quilômetros, como na sexta-feira. Não tenho o detalhamento da pesquisa, mas penso que esta demanda está mais próxima da classe média e de quem ainda consegue resolver as questões de educação e saúde por conta própria. Digo isso, porque partidos políticos, em estudos de opinião pública, têm encontrado a área de saúde como a mais crítica – da mesma forma que o Ibope levantou em pesquisa encomendada pela Rede Nossa São Paulo, no início do ano. Na revista, após transporte, apareceram educação (18,4%) e saúde (14,2%).

 

Para personalidades e leitores, a revista fez a seguinte pergunta: “se você pudesse ter um encontro de 5 minutos com o próximo prefeito, o que pediria a ele?”. Falou-se de pedágio urbano, corredor de ônibus nas marginais, calçadas mais largas, fim do Minhocão, transformação de cemitério em área de lazer, menos cargos de confiança, mais e melhores bibliotecas, entre tantas outras ideias. Vou destacar duas que me chamaram atenção e deixo as demais para você ler na banca.

 

A primeira, proposta por Maria Alice Setubal, do Instituto Democracia e Sustentabilidade, que prega a extensão da jornada diária do ensino fundamental para sete horas em todas as escolas municipais. Apenas os alunos de 45 CEUs – Centros Educacionais Unificados têm esta oportunidades, em 94% das demais unidades da rede, a jornada é de cinco horas, e 6% submetem parte de seus alunos ao turno da fome, os obrigado a estudar das 11 da manhã às três da tarde. “Numa cidade voltada à educação, as escolas devem estar abertas aos estudantes pelo maior tempo possível”, disse Maria Alice à revista. Candidato que se preze tem de assumir já este compromisso e dar uma solução antes do primeiro ano de gestão.

 

A segunda ideia que gostei é do psicanalista Antonio Lancetti que propõe a criação de sala de uso seguro para dependentes de crack. Fiquei feliz em ler esta sugestão pois vai ao encontro do que escrevi recentemente na coluna Adote São Paulo que assino na Época São Paulo (leia aqui). Diz Lancetti que “para a iniciativa dar certo, as salas precisam funcionar 24 horas por dia e estar vinculadas a consultórios de rua e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS)”. Importante alerta para quem acreditou que a Policia Militar resolveria o problema que assistimos na Cracolândia, região central. Aliás, não sei se você teve oportunidade de ler reportagem no Estadão de domingo que antecipou resultado de estudo encomendado pela Secretaria de Assistência Social no qual 72% dos moradores de rua disseram que a operação policial não mudou em nada a vida deles, enquanto 17% que piorou. O que apenas comprova que as soluções para o crack não são fáceis nem simplistas, assim como não o são para a mobilidade urbana, para o ensino, para a saúde, para a cidade toda. Por isso, senhores candidatos, muita inteligência e criatividade serão necessárias.

 

N.B: Na edição de junho da Época São Paulo aproveitei para escrever sobre como escolher um vereador na próxima eleição. Mas sobre isso, falo com você mais para o fim da semana. Se tiver uma chance, compre a revista, leia e comente.

Liberem o caminho dos carros, por favor !

Texto publicado no Blog Adote São Paulo, que escrevo no site da revista Época São Paulo

 

Ouvi em reportagem da rádio CBN, na qual a mobilidade urbana era o tema principal, a prefeitura defendendo as restrições ao uso de caminhões na cidade. Como você deve lembrar, recentemente os transportadores de cargas foram proibidos de entrar nas marginais Pinheiro e Tietê no horário do rush, sob a alegação de que o excesso de caminhões trava o fluxo de veículos. Houve reação e para protestar deixaram de abastecer os postos de combustíveis o que gerou enorme transtorno aos motoristas de carro, em especial. Como a prefeitura não recuou, os caminhoneiros tiveram de se adaptar as condições impostas pela cidade e, hoje, é comum vermos uma fila deles estacionados no acostamento das rodovias que chegam à capital, em um comportamento que causa risco à vida das pessoas, tanto que é proibido pelo Código Brasileiro de Trânsito. Parar no acostamento apenas em situação de emergência, o que não parece ser o caso. O sindicato que representa a categoria diz que os profissionais da direção estão, também, mais expostos às quadrilhas que roubam carga e o número de assaltos aos motoristas teria aumentado, ao menos informalmente, já que a maioria preferiria não registrar Boletim de Ocorrência. Com a nova regra, as entregas demoram mais e o número de viagens diminui, o que deixou o frete mais caro, custo que, logicamente, foi parar no preço dos produtos transportados. O que mais me chamou atenção, porém, na reportagem foi uma informação passada pela prefeitura que, questionada pelos impactos no setor de transporte de cargas, se defendeu dizendo que a restrição fez reduzir o número de acidentes envolvendo caminhões. É lógico, se tiro os caminhões do caminho, a probabilidade é que os acidentes diminuam

 

Fiquei pensando como poderíamos abusar desta iniciativa para combater a quantidade de mortes que temos no trânsito da capital paulista. De acordo com a CET – Companhia de Engenharia de Tráfego morreram 1.365 pessoas em acidentes no ano passado, número 0,6% maior do que em 2010. A maior parte morre em ocorrências com motocicletas, foram 512. Imagine se a prefeitura decidisse proibir a circulação de motos na cidade, provavelmente ao fim do primeiro mês teríamos reduzido a zero o número de motociclistas mortos nestas circunstâncias. Além de garantirmos a integridade dos espelhos laterais dos automóveis. Entusiasmados com os resultados logo determinaríamos que as pessoas ficassem dentro de casa, o que faria despencar drasticamente a quantidade de pedestres mortos no trânsito – foram 617 no ano passado, número 2% menor do que em 2010. Sem pedestres, eliminaríamos as faixas de segurança e os carros poderiam rodar tranquilamente pelas ruas e avenidas sem este incomodo de ter de prestar atenção se algum ingrato vai se arriscar em atravessar a rua. Sem pessoas caminhando, para que investir em ônibus e metrô? São Paulo se transformaria em cidade modelo e exemplo para o mundo no combate a violência do trânsito. E todos os nossos problemas estariam resolvidos nesta área.

 

Perdão se desperdiço parte do seu tempo de leitura com um parágrafo inteiro de ironias, mas é que sempre tenho a esperança de que os gestores de nossas cidades encontrem saídas mais criativas do que simplesmente tentar eliminar ou restringir ônibus fretados, caminhões, motos ou pedestres sempre com o objetivo de deixar o caminho livre para os automóveis.

Desculpe-me se abuso de falar em trânsito

 

Por Mílton Ferretti Jung

 

Havia me programado para, tão cedo, não voltar a escrever sobre trânsito. Este propósito, porém, durou pouquíssimo. Bastou que eu abrisse os jornais do dia 22 de maio para mudar de ideia. Não digo que outros assuntos de terça-feira, data em que costumo digitar e enviar os meus textos para o blog do Mílton, não existissem notícias merecedoras de minha atenção. Por exemplo: o silêncio, aconselhado por seus advogados, do bicheiro Carlinhos Cachoeira diante dos parlamentares que pretendiam o ouvir na CPMI do Congresso Nacional; as repercussões, na mídia, das revelações de Xuxa, na edição do Fantástico do último domingo, dando conta dos abusos sexuais que sofreu na infância; o fato de, em Porto Alegre, um empregado de limpeza, terceirizado, ter atacado duas meninas, num quarto do Hospital Conceição; ou ainda, dentro do mesmo tema, no Rio Grande do Sul, estatística da polícia registrar que, do início do ano até o dia 8 deste mês, houve, 1.127 casos de abusos sexuais praticados por adultos.

 

Levam-me, porém, a sofrer uma espécie de recidiva, dois fatos que dizem respeito a trânsito. Abordo-os a seguir. Já era de impressionar o número de carros que entopem vias urbanas e, como não, as nossas rodovias, graças (ou desgraçadamente) aos juros baixos e prazos longos, oferecidos, tanto pelas concessionárias quanto pelos chamados picaretas. Agora, o Governo reduz impostos sobre carros (IPI) e crediários. Pretende com isso melhorar o desempenho da economia brasileira, que sofre o impacto da crise externa. Li num jornal que a pretensão governamental é “estimular a fraca economia do país”, mas essa frase me soa tão errada quanto à adorada pelos narradores de futebol, ao dizer que determinado time “corre atrás do prejuízo”. Que eu saiba, se corre apenas atrás de lucro. A Presidente,se ouvi bem notícia do Jornal da CBN, disse que a crise externa não nos afeta. Seja lá, só para exemplificar como for, veículos 1.0,que antes pagavam 7% de IPI, passam a ter custo zero. São esses os mais procurados pelas classes com menor poder aquisitivo e/ou que estejam comprando o seu primeiro carro e que veem na redução do imposto e dos juros a chance de realizar um sonho. Não vai demorar,o nosso trânsito ficará mais complicado.

 

Lembrei há pouco a frase “correr atrás do prejuízo”, eis que outra coisa não fez, nessa segunda-feira, um dos batedores da Polícia do Exército que integravam a escolta de motociclistas da Presidente Dilma Rousseff. Ele foi vítima de um acidente raro. Chocou seu potente veículo, na Avenida Castelo Branco, contra as traseira de um Meriva e foi hospitalizado com ferimentos graves. A assessoria de imprensa do Hospital Mãe de Deus informou que o piloto da moto estava em coma e era submetido a exames. A Rádio Guaíba apresenta alguns de seus programas do Estúdio Cristal, situado no térreo do edifício do Correio do Povo, vitrinas, geralmente ocupada por populares (o estúdio fica na esquina da Rua da Praia com a Caldas Jr.). Nele participo de um debate esportivo e, volta e meia, quando alguma autoridade – cônsules, por exemplo – é conduzida em automóvel, precedido por batedores, pilotando motos que descem a Caldas Jr. em alta velocidade, que eu considero abusiva, porque coloca em risco, pedestres, em especial, surpreendidos com o estardalhaço feito pelos motociclistas. Tenho ou não razão para trazer a este blog,com insistência, assuntos relativos ao trânsito? Espero não estar cometendo também um tipo de abuso. Pelo menos, se os pratico, não faço mal a ninguém.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Água mole em pedra dura

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Criei-me ouvindo esse provérbio da boca dos meus avós. Eles devem o ter escutado dos seus avós. Curioso, coloquei-o no Google para ver se esse sítio da internet, acostumado a responder a milhões de perguntas sobre as mais variadas questões levantadas por internautas do mundo inteiro, deixou-me a ver navios – este também não um provérbio, mas um dito popular cuja idade igualmente desconheço. Se é que alguém, talvez desavisadamente, começou a ler este texto, apresso-me a explicar por que lembrei o provérbio ancestral. Ocorre que, tal qual já fiz em mais de uma dessas quintas-feiras, inclusive na da semana passada, na qual escrevi acerca de uma ciclovia porto-alegrense que, antes de ser inaugurada, foi alvo de polêmicas, vou tratar outra vez de trânsito.

 

O jornal Zero Hora de sexta-feira passada, publicou excelente matéria sobre o assunto que tanto me preocupa. “Motoristas morrem mais aos sábados”. Essa foi a chamada de capa, seguida de um texto, em corpo menor, onde se lia que, das 482 mortes em acidentes no primeiro trimestre de 2012 no RS,117 ocorreram no último dia da semana. O número de acidentes com vítimas fatais vem subindo ano a ano. Com certeza, a quantidade crescente de veículos que enchem as rodovias federais, estaduais e municipais, principalmente nos fins de semana, é uma das razões da existência dessa trágica estatística. Eu diria que, além dos carros novos, cuja aquisição se tornou possível, em especial, devido às elásticas modalidades de prestações oferecidas pelas concesssionárias, existem, rodando por aí, principalmente nas estradas municipais, veículos usados, alguns apelidados de seminovos, dirigidos por “barbeiros” ou por irresponsáveis.

 

Há outras causas que se somam às por mim citadas. Zero Hora lembra que, sábado, é o “dia da balada”, em que muitos bebem. As estatísticas indicam também que 47,8% dos mortos aos sábados no primeiro trimestre de 2012 tinham entre 18 e 34 anos. ZH revela que, em abril, houve 29 mortes aos sábados, contra 7 às sextas-feiras e 20 aos domingos. O jornal lembra que o DETRAN contabiliza os mortos em hospitais até 30 dias após os acidentes. O que as autoridades podem fazer visando a diminuir esses malditos números? Fiscalizar, fiscalizar e fiscalizar, não só nas estradas, mas igualmente nas cidades. Encerro o texto como comecei: água mole em pedra dura tanto bate até que fura.

São Paulo: quem te viu, quem te vê

 

Por Julio Tannus

 

Trolebus quebrado

 

Em 1976, participando de um projeto sobre sistema viário em SP, cruzei com monsieur Harry, um suíço especialista nos assim chamados trólebus, ônibus urbanos movidos à energia elétrica. Monsieur Harry era considerado um dos maiores especialistas mundiais no assunto e a Suíça detinha uma das mais avançadas tecnologias na fabricação de ônibus elétrico da época.

 

Fui encarregado de, juntamente com monsieur Harry, sobrevoar a cidade de São Paulo para que o especialista tivesse um primeiro contato com a cidade, na qual ele estava sendo contratado para auxiliar em um novo projeto de Trólebus Especiais, e do qual eu também participava. Então, em uma tarde de sexta-feira embarcamos no helicóptero do governador e partimos para um sobrevoo sobre nossa capital paulista. Percorremos toda a área compreendida pelas marginais Pinheiros e Tietê, seguimos até a região do ABC e depois nas cercanias de Guarulhos, e por fim retornamos ao heliporto do Palácio dos Bandeirantes, sede do Governo do Estado de São Paulo.

 

Esperavam-nos uma dezena de jornalistas, repórteres e radialistas, todos ansiosos pelo diagnóstico do suíço. Sério e compenetrado, monsieur Harry dirigiu seu olhar para a pequena multidão e sentenciou: Pas de Solution! Ou seja, na visão do especialista, há mais de 30 anos, sua primeira reação foi de que não tínhamos como resolver o enorme congestionamento através de soluções viárias de superfície: Não tem solução! …

 

E aqui eu coloco outra questão: Por que até hoje não foi desenvolvida tecnologia para veículos (automóveis/caminhões) movidos a energia elétrica, com todos os benefícios decorrentes de uma energia limpa, não poluidora? Como toda questão que envolve a “coisa pública”, é ao mesmo tempo complexa e simples.

 

A complexidade advém do fato que existem grandes interesses envolvidos. Certamente os interesses ligados às grandes montadoras, as gigantes do petróleo, etc. não o permitiram. Lembro-me de um professor de pós-graduação da Escola Politécnica da USP, na área de Sistemas de Transportes, que ficava transtornado quando se referia ao que estava sendo feito com o sistema ferroviário no Brasil. Segundo ele, o lobby da indústria automotiva (estrangeira) era suficientemente forte para impedir o desenvolvimento natural do uso da energia elétrica no transporte ferroviário e rodoviário urbano no país.

 

E simples porque basta apenas vontade/vocação política para romper as mais fortes barreiras. O projeto de Trólebus Especiais foi concluído: entre outras inovações, os ônibus eram leves, ágeis e com tecnologia avançada. Hoje, passados mais de 30 anos, vejo os mesmos trólebus de então circulando pelas ruas de São Paulo. O projeto nunca foi implantado!

 

Participei também, no passado, de algumas reuniões sobre mudanças do Plano Diretor da cidade de São Paulo. O que fica claro é que não adianta construir mais viadutos, túneis, novas avenidas, e até mesmo novas linhas de metrô, enquanto não houver uma mudança conceitual na ocupação do solo. Derrubam-se casas para construção de imensos edifícios, muitas vezes em ruas estreitas, com infraestrutura urbana já saturada.

 

A mancha urbana cresceu tanto que hoje uniu São Paulo a Campinas, abrigando, nos seus 65 municípios, 12% da população brasileira. Na realidade a cidade de São Paulo ficou pequena demais, com suas cerca de 40 mil ruas/avenidas e 17 mil quilômetros de extensão, para conter os mais de 7 milhões de veículos, dos quais 5 milhões de automóveis, 890 mil motocicletas/triciclos/quadriciclos e 700 mil ônibus/utilitários.

 

Já entramos em colapso há algum tempo!

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada, co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier) e escreve no Blog do Mílton Jung

Excessos na direção e na fiscalização

 

Por Milton Ferretti Jung

 

O trânsito é um tema que se tornou recorrente nos meus textos. Quem me acompanha nas quintas-feiras, mesmo não sendo leitor assíduo, deve ter-se dado conta da minha preocupação com a matéria. Aqui no Rio Grande do Sul, de onde escrevo, as autoridades às quais cabe a difícil missão de cuidar do comportamento de motoristas, motociclistas e ciclistas, em especial nos feriados prolongados, pródigos em acidentes, muitos deles trágicos, costuma agir com mais rigor do que em épocas normais para coibir abusos, principalmente os dois piores, isto é, a velocidade excessiva e a embriaguês. Imagino que tal procedimento seja idêntico nas principais rodovias do país.

 

No feriado de Páscoa, deixaram Porto Alegre cerca de 180 mil veículos, em migração que começou na última quinta-feira. Envolveram-se na Operação Viagem Segura, Brigada Militar (é como chamamos a Polícia Militar), Comando Rodoviário da BM, Polícia Rodoviária Federal, além da Polícia Civil e, claro, da Empresa Pública de Transporte e Circulação. Mesmo com todo esse controle, verificaram-se 1.071 acidentes nas estradas gaúchas. Morreram nesses 15 pessoas e 548 resultaram feridas. Pelas contas do DETRAN (Departamento Estadual de Trânsito), o número de acidentes, em comparação com os feriados anteriores, teve redução de 46 por cento, sinal de que o trabalho das autoridades foi bem feito e seria completamente louvável se, no retorno a Porto Alegre, os motoristas não fossem surpreendidos com aquilo que considero o tipo de “cuidado” desnecessário.

 

Ao chegarem à capital do Rio Grande do Sul, depararam-se, para desespero geral, com blitze policiais nas duas principais entradas da cidade. O resultado delas, como não poderia deixar de ser, foi um congestionamento fantástico, algo que aí em São Paulo é habitual, mas ainda causa revolta aqui. Eu gostaria de saber que cabeças decidiram realizar blitze na chegada de um feriadão. Alessandro Barcellos, Diretor-Presidente do DETRAN, entende que todo o processo de fiscalização pode trazer algum tipo de inconveniência. Põe inconveniência no que ocorreu nesse domingo. Barcellos tranquiliza, porém, os motoristas que se não houver avaliação positiva do episódio – creio que não haverá – não há razão para que tal tipo de blitze volte a interferir no trânsito.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

A teoria do Fecho Eclair no trânsito da cidade

 

Conheça outros textos, como este, publicados no Blog Adote São Paulo, na revista Época São Paulo.

Cruzamento insano

 

Encontrar um gargalo no trânsito de São Paulo não exige muito esforço do motorista, basta sair de casa, tentar acessar a primeira avenida que estiver no caminho e, logo, estaremos parados diante de um enorme congestionamento. O Jornal da Tarde, nesta semana, fez reportagem na qual motoristas de táxis relataram problemas como semáforos sem sincronia, estreitamento de pistas ou cruzamentos mal sinalizados que emperram o fluxo de veículos. Lembrei de conversa que havia tido, recentemente, com Seu Pereira, motorista que me salva nas horas de aperto (ou atraso), para quem comentei sobre um problema que tem se agravado nas últimas semanas sempre que deixo a rádio CBN, na rua das Palmeiras, bairro de Santa Cecília, em direção a avenida 23 de Maio. Tem sido difícil cruzar este trecho pela Amaral Gurgel e início da ligação Leste-Oste devido a uma pista que está parcialmente interrompida, na parte de baixo da passagem, devido as obras que ocorrem na Praça Rossevelt, que fica no andar de cima. Seu Pereira me explicou que a dificuldade se dá por mau comportamento dos motoristas que, sem educação, costumam impedir a passagem dos outros, tornando a vida ainda mais difícil no trecho. Bastaria um pouco de respeito para diminuir o impacto da interdição, disse-me ele.

 

Contei a história acima no Jornal da CBN para ilustrar a situação vivida pelos motoristas paulistanos, e ouvi ótima recomendação do meu colega de bancada Thiago Barbosa. Ele disse que na Alemanha os motoristas aprendem a usar a “Teoria do Fecho”, isso mesmo, estávamos nos referindo ao fecho de calça, ao zíper, ao fecho eclair ou a braguilha, como chamam alguns. O fecho só fecha porque os “dentes” se encaixam de forma organizada, um de cada vez, um de cada lado, sem atropelos. Quantas vezes enfrentamos dificuldades com esta peça da roupa quando, na pressa e de forma atabalhoada, puxamos o fecho com força, e ele ficou acavalado. Além de perdemos tempo, corremos o risco de sairmos pela rua com a braguilha aberta, e pagamos aquele vexame. No trânsito devemos respeitar a mesma norma quando vamos entrar em uma pista que fica estreita logo a frente ou que recebe fluxo de veículos de outras duas. Em lugar de um carro cortar o outro como se estivéssemos em uma competição na qual vence quem chegar primeiro, seria mais lógico, como o fecho da calça, entrar o carro de um lado, seguido do que está no outro lado e seguir assim sucessivamente. Mas como o Thiago falou isso funciona na Alemanha, aqui em São Paulo estamos sempre com a braguilha aberta passando vexame.