Trólebus pode usar lixo como combustível

 

A rede elétrica usada pelos trólebus poderia ser abastecida com energia proveniente dos aterros sanitários de São Paulo, de acordo com o diretor da Iluminatti Tecnologia Edson Corbo. Esta é apenas uma das novidades já desenvolvidas que podem tornar o sistema mais moderno e atraente em contraposição ao que se tem, atualmente, circulando na cidade. Há duas semanas, o “Ponto de Ônibus”, espaço mantido pelo colega Adamo Bazani aqui no Blog, já anunciava tecnologias que passariam a ser testadas na capital paulista como o uso de tração elétrica e sistema informatizado a bordo.

Em entrevista nesta segunda-feira dentro de um dos trólebus que estão sendo testados pela Viação Himalia, Corbo destacou que as empresas brasileiras tem capacidade de colocar no mercado estes modelos atendendo não apenas a demanda da capital paulista. Ouça a entrevista que foi ao ar no CBN SP e saiba o que falta para que a energia proveniente do lixo seja usada na rede de trólebus paulistano.

A pressão das montadoras e o desenvolvimento do “ônibus limpo”

 

Em mais uma parte da entrevista com a executiva da Eletra, Ieda maria Alves de Oliveira, a reportagem traça as barreiras corporativas para o desenvolvimento de tecnologia limpa e a perspectiva de crescimento deste setor.

Primeiro ônibus elétrico híbrido

Por Adamo Bazani

“As grandes montadoras internacionais impedem suas filiais de desenvolver tecnologias limpas para ônibus antes de suas matrizes”. Seja por questões culturais ou prioridade de investimentos é o que acontece no mercado, segundo a gerente geral da Eletra, Ieda Maria Alves de Oliveira. Resultado deste comportamento é o desperdício de oportunidade de crescimento do Brasil. Aqui, há profissionais capacitados em condições de desenvolver projetos de tecnologia limpa, conta a representante de uma das companhias nacionais com maior capacidade no setor.

“As montadoras não colaboram com quem produz sistemas de tração limpa. Não há uma política de compensação de preços. Por exemplo, para embarcar num ônibus o motor e a tração elétrica e híbrida, compramos chassis praticamente pelados. Dispensamos o motor e também a transmissão (o câmbio e o equipamento de embreagem). Isso reduz em até 40% o valor do chassi, mesmo assim, temos desconto de apenas 5% a 10%. E não há nenhuma atitude do poder público para compensar isso”.

Assim, em vez de os chassis se adaptarem à alta tecnologia de tração, o que seria bem mais fácil e mais barato, são as empresas de tecnologia que têm de se adaptar aos chassis nacionais. Para isso, é investido um montante muito grande para alterar motores, sistemas de geração e funcionamento dos ônibus limpos.
“Temos de alterar potência de motor, número de componentes, baterias armazenadoras, equipamentos eletrônicos. Se houvesse essa sinergia, sairia mais barato para todo o mundo”. – explica.

Ieda conta que hoje não existe um chassi específico para trólebus no Brasil. É necessário pegar um ônibus convencional e adaptá-lo, seguindo suas normas técnicas e limites. Esse também é um dos motivos de um trólebus com baterias armazenadora fabricado no Brasil não ser usado aqui e operar na Nova Zelândia. Com a bateria, o trólebus ficaria mais pesado e necessitaria de um chassi mais reforçado, com um eixo mais forte, o que não existe no Brasil para este tipo de aplicação.

“A Nova Zelândia, que se beneficia das baterias que dão autonomia aos trólebus brasileiros que operam lá, não precisou fazer um super chassi. Eles apenas colocaram um eixo traseiro a mais, deixando o ônibus trucado. Um aumento de custo irrisório frente ao benefício de eficiência energética gerado por este sistema de baterias” – garante José Antônio do Nascimento, também da Eletra.

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Falta de visão prejudica tecnologia limpa, no transporte

 

Executiva da Eletra avalia os investimentos no sistema de ônibus e aponta equívocos nas políticas públicas de transporte de passageiros em entrevista exclusiva ao “Ponto de Ônibus”

Trólebus Caio Millenium II - Mercedez Benz/Eletra

Por Adamo Bazani

O Brasil erra e erra feio quando o assunto é política de transportes. A opinião é da gerente geral da Eletra, Ieda Maria Alves de Oliveira, companhia nacional especializada em fabricação de ônibus com tecnologia limpa. Para ela, há uma visão imediatista num setor que necessita de soluções emergenciais, é verdade, mas também de planejamento para que o serviço alcance níveis de excelência, economia e velocidade, além de benefícios ambientais.

“Hoje houve uma mudança de comportamento da sociedade. A questão ambiental, antes esquecida, agora é uma cobrança e as autoridades devem corresponder a isso. Os gastos com poluição são enormes e a queda de qualidade de vida é notória. Assim, na hora de optar por um sistema convencional e de tecnologia limpa, não basta ver qual é o simplesmente mais barato, mas o mais vantajoso. O dinheiro que se gasta na adoção de um sistema de trólebus ou de ônibus híbrido, retorna através de gastos menores no sistema de saúde, economia operacional maior e vida útil mais longa dos veículos”

Ieda disse ter visto exemplos claros de como a aplicação em tecnologias poluentes tem impacto não apenas ambientais, mas na estrutura das economias locais, também.

“Um dos casos que mais me chamaram a atenção foi no corredor da Avenida Santo Amaro (zona Sul da Capital Paulista). Há alguns anos, foi retirada toda a rede de trólebus e as operações começaram a ser somente com veículos a diesel. Muitos estabelecimentos comerciais que mexiam com alimento, simplesmente fecharam suas portas. Com o número maior de veículos a diesel, as pessoas não suportavam se alimentar com tanta fumaça e calor no ar. Os comércios que vendiam roupas também foram prejudicados. Donos de lojas de roupas me disseram pessoalmente que não davam conta de limpar os produtos. Passava um pano, um espanador, uma hora depois estava empoeirado. Assim, tecnologia limpa em relação a transporte público, não é somente um papo de ambientalista. Representa qualidade de vida e melhoria econômica”

A gerente da empresa afirma, no entanto, que a questão ambiental é grave, mas não tem sido vista de maneira séria pelo poder público.

“Um veículo a diesel produz por litro de combustível consumido aproximadamente 2,7 kg de carbono que são jogados na atmosfera. Isso tudo vai para o pulmão das pessoas. E nesse caso, a poluição é democrática. Ela atinge tanto o rico, dentro de seu carro, proporcionalmente mais poluidor que o ônibus diesel, como o pobre. Agora, vamos fazer a conta, se um ônibus convencional urbano roda cerca de 6 mil quilômetros por mês, e o consumo de diesel é de cerca de 1,8 km por litro, imagine quanto carbono é lançado na atmosfera. Por isso, as medidas devem ser levadas a sério, o que não acontece.

A qualidade do diesel produzido no Brasil é um exemplo disso:

“Atualmente, os motores têm de seguir o Padrão Euro III, com menos emissões. Mas nosso diesel, em todo o País, não é de qualidade. O que adianta termos motores bons com combustível ruim. É só olhar para o escapamento de um ônibus novo. Perceba a fumaça que ele solta. Nunca que este veículo está seguindo os padrões mais modernos. O que acontece, no meio ambiente e no transporte, é que se pratica a política do faz de conta. Trazem à população uma informação, uma ilusão, mas a realidade da rua, de quem respira o ar das grandes cidades, é totalmente diferente”.

Ieda Maria Alves de Oliviera ao lado do colega José Antônio do Nascimento, da Eletra

Nem a forma de concessão para explorar o serviço de transporte, escapa do olhar crítico de Ieda Maria Alves de Oliveira:

“A maioria dos contratos se dá de forma emergencial e é dado pouco prazo de concessão para o operador. Sem a certeza de que vai continuar em determinado mercado por um bom tempo, o dono de empresa de ônibus não vai investir num veículo como o trólebus, que pode durar até 30 anos, mas é mais caro. E se no final do contrato ele não consegue renovação? O que ele vai fazer com um veículo que ainda vai durar um bom tempo, mas não tem mercado de revenda? Assim, contratos por períodos curtos, de sete, dez anos, não dão estabilidade para investimentos maiores” .

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Trólebus mais moderno chega 2a. às ruas de São Paulo

 

Novo ônibus elétrico sai as ruas semana que vem com gerenciamento eletrônico das operações, telas LCD para informações a passageiros e motoristas

Trólebus mais moderno (Foto de Alexandre Bernerdes)

Por Adamo Bazani

Um novo modelo de trólebus, mais leve, mais tecnológico e mais econômico sairá às ruas de São Paulo, nessa segunda-feira, 29.03, em mais uma etapa do teste que se realiza, neste momento na garagem da Viação Himalaia, na zona leste de São Paulo. O “Ponto de Ônibus” teve acesso em primeira mão ao novo veículo.

Para rodar em São Paulo, o trólebus transportará galões de água ou sacos de areia que simularão o peso dos passageiros e permitirão melhor avaliação do comportamento dele em parte das linhas existentes.

O veículo é resultado de parceria entre a TuttoTrasporti, que desenvolveu o chassi, a Ibrava, responsável pela carroceria, a WEG, pelo motor de tração, além da Iluminatti e da Bosch, que ficaram com o gerenciamento, sistema de operação e integração do conjunto.

De acordo com o diretor comercial da Iluminatti Tecnologia, Edson Corbo, o trólebus paulistano traz inovações nunca antes usadas no Brasil. Por exemplo, o sistema de refrigeração de tração a água, em vez de ar: “Isso traz um enorme ganho operacional ao veículo. Em primeiro lugar, com este sistema ele pesa menos 400 quilos em relação aos trólebus mais modernos já desenvolvidos no Brasil. A ausência deste “peso morto” faz com que as operações sejam mais rápidas, o consumo de energia melhor e possibilita que o veículo leve mais passageiros, pois além de mais leve, o sistema de refrigeração a água ocupa menos espaço no trólebus”.

A lógica é que com menos peso do equipamentos, o ônibus precisa fazer menos força para se locomover, gasta menos energia e tem um desempenho em arranques e velocidades melhorados.

O novo trólebus também conta com uma inovação batizada Multiplex – um computador a bordo que gerencia a parte técnica e operacional embarcada na carroceria, como nivelamento do veículo, funcionamento de dispositivos (entre eles, as portas ) e sinalização e aceleração, por exemplo. A vantagem é que o sistema, além de permitir melhor controle sobre o ônibus, elimina o excesso de fios dos componentes por ser uma rede microprocessada.

Outra inovação, apresentada pela Iluminatti é a tecnologia IHM – Interface Homem X Máquina. No painel, o motorista contará com uma tela de LCD, que acionada apenas pelo toque dos dedos, mostra toda a performance do veículo, para que o motorista possa operá-lo melhor. “Assim, qualquer possível problema pode ser detectado de maneira rápida e corrigido ainda durante a operação” – garante Edson. O IHM também tem uma memória sobre o histórico de operação do dia do ônibus. Frenagens bruscas, defeitos no sistema e pontos de consumo maior de energia fazem parte dos registros. Isso facilita a manutenção do ônibus e permite traçar parâmetros operacionais para uma condução mais econômica e viável por parte do motorista.

Segundo Edson Corvo, diretor Comercial da Iluminatti Tecnologia, o ônibus elétrico é monitorado o tempo todo: “O sistema Multiplex  permite o gerenciamento por computador de bordo, o IHM, o gerenciamento total das operações, com registros de desempenho e forma como o veículo foi conduzido, além disso, o trólebus tem um sistema de GPS, que permite monitoramento em tempo real por profissionais na garagem, enquanto o veículo estiver nas ruas. Hoje o grande diferencial da indústria e da economia é a informação. E este trólebus foi concebido para privilegiar a informação em diferentes níveis”.

O passageiro também será privilegiado com informações a bordo, de acordo com o gerente comercial. Em parceria com a Bosch foi desenvolvido um sistema de comunicação, com telas de LCD dentro do ônibus, para os passageiros verem qual o próximo ponto de parada, o trajeto do serviço, horários e informações de utilidade pública ao longo da viagem. A parceria com a Bosch possibilitou a instalação no veículo de câmeras internas e externas para aumentar a segurança e ajudar a monitorar os serviços.

Edson adiantou que há estudos para que mais trólebus deste modelo contem com baterias armazenadoras da energia absorvida da rede aérea e produzida pela frenagem do carro: “Em caso de queda de energia da rede, queda do pantógrafo ou mesmo para deslocamentos pequenos dentro da garagem, o trólebus poderá funcionar independentemente da rede aérea por alguns quilômetros, dependendo do tipo de bateria instalada. Isso, além de deixar o tóolebus mais flexível no trânsito, vai permitir que se construam garagens de trólebus mais baratas, com redes aéreas menos complexas. Se depender da indústria nacional, o trólebus que já é ambientalmente mais vantajoso e tem uma durabilidade maior, vai se tornar um veículo menos caro e mais atraente para o frotista e gerenciador público”.


Leia também: “Tecnologia nacional faz transporte coletivo mais limpo”

Adamo Bazani é busólogo e jornalista da rádio CBN. Escreve, originalmente, às terças-feiras no Blog do Mílton Jung, mas nunca perde o bonde da história.

N.B: A imagem foi feita por Alexandre Bernardes

Tecnologia nacional faz transporte coletivo mais limpo

 

Inovações para o sistema de trólebus e desenvolvimento de ônibus híbridos, a eficiência energética dos veículos elétricos e a falta de política pública para que o transporte de passageiros seja menos poluente. Estes são alguns temas da série de três reportagens que você lê, a partir de hoje, no Ponto de Ônibus

Trólebus  com mais de 20 anos de uso

Por Ádamo Bazani

Mesmo com o descaso pelo qual passou o sistema de trólebus no Brasil, nos últimos 20 anos, com a extinção de milhares de quilômetros de linhas, algumas empresas de tecnologia nacionais têm investido na melhoria do sistema de transporte elétrico. Se estes avanços forem assimilados pelos planejadores de políticas públicas, podem resultar em benefícios ambientais, operacionais e econômicos. Bom para as contas públicas, assim como para as do cidadão.

As inovações que o blog teve acesso podem tornar o trólebus um veículo interessante. Aliás, o ônibus elétrico por si só deveria ser prioridade no investimento das cidades a medida que proporciona ganhos ao meio ambiente e à saúde da população. No entanto, há uma série de desculpas, tanto por parte de governos como de empresários, para não voltar a investir neste modal totalmente limpo.

O gerente de contratos da Eletra, empresa de tecnologia de tração elétrica 100% nacional, José Antônio do Nascimento, afirma que as inovações vão justamente ao encontro das demandas apresentadas por empresários e gestores: “Desenvolvemos soluções que deixam o trólebus mais barato, mais rentável e acompanhamos outras iniciativas de vanguarda quanto a rede aérea, que pode se tornar mais eficiente e  econômica”.

Algumas destas novidades estão em estudo. Outras, já em teste, foram acompanhadas pela nossa reportagem. Saiba em que pé andam os trólebus e o que pode ser tendência para o setor voltar a respirar e ajudar a população a respirar melhor, também:


Rede de Corrente Alternada –
A rede aérea de trólebus brasileira e de quase o mundo todo é de corrente elétrica contínua. Não que seja um sistema ultrapassado, mas a indústria conseguiu chegar ao princípio da rede de corrente alternada, com um tipo de fornecimento energético mais eficiente. A corrente alternada até então era aplicada somente no sistema de tração interno dos trólebus e não na rede aérea. Assim, mesmo sendo de corrente alternada, que possibilita uma maior nacionalização das peças e o uso de chassis de tração nacional, o trólebus recebia a energia em corrente contínua. A conversão era feita no veículo. A Eletropaulo desenvolveu estudos para implantação da corrente alternada na rede e percebeu que isso deixaria a operação dos trólebus mais vantajosa. Há um melhor aproveitamento energético e o equipamento das subestações ao longo do percurso é bem mais barato. O sistema foi instalado em pequenos trechos na capital paulista.


Flexibilização de Sistemas por um único veículo –
A concepção de linhas de corrente alternada é um avanço, mas que não pode vir sozinho. Os veículos devem acompanhar essa mudança. Por isso, a Eletra tem em desenvolvimento um equipamento que permite que qualquer trólebus (seja de corrente alternada – mais novos – seja de contínua – mais antigos) possa circular em linhas com redes aéreas modernas.  Assim até mesmo um trólebus com tecnologia defasada pode ser adaptado, com a instalação deste equipamento. Uma das grandes vantagens disso é a flexibilização quanto a renovação da frota. Se o sistema de rede aérea vier a mudar numa certa velocidade, os trólebus mais antigos não precisariam ser encostados. Como a vida útil de um trólebus pode ser até de 30 anos, não haveria necessidade de um veículo dentro desta faixa etária ser desativado. Pelo contrário, todo o investimento no trólebus seria recompensando até o fim de seu tempo previsto de serviço.


Eixos convencionais em veículos de sistemas antigos –
O sistema de corrente alternada apresenta melhor relação entre o motor do trólebus e o eixo de tração. Isso possibilitou que os trólebus de corrente alternada operassem com mais equipamentos nacionais e com eixo de tração (normalmente o traseiro) de um veículo articulado comum, cujas peças podem ser encontradas em qualquer revendedor. Mas o grande avanço é que, por meio da Eletra, a indústria nacional conseguiu chegar a fase final de um estudo da utilização de eixos de ônibus convencionais em veículos de sistemas antigos, de corrente contínua. Assim, não seria necessária a mudança de toda a tecnologia de tração do ônibus elétrico e seria possível nacionalizar e baratear os trólebus de qualquer geração de corrente elétrica.

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História dos ônibus: nas mãos dos empresários

 

Depois de controlar quase todo o transporte na cidade, a CMTC perde força, as linhas passam a ser controladas pelos empresários, os bonde são esquecidos por completo e o programa para revitalizar o trólebus fracassa. Na terceira parte da série sobre a história dos ônibus em São Paulo, você vai saber também como surgiu a CET.

FOTO 3- ônibus de linha intermunicipal entre Santo André e São Paulo em 1938

Por Adamo Bazani

O sistema de transporte coletivo mais bem organizado na cidade de São Paulo, desde a criação da CMTC, despertou o interesse de empresários do setor que também estavam motivados pelas facilidades proporcionadas pelo crescimento da indústria automobilística, nos anos 1960. Organizados em sindicatos começaram a pressionar o poder público a autorizar as empresas a explorarem linhas centrais, mais rentáveis, operadas em sua maioria pela companhia municipal desde 1946.

Com força política e econômica, os empresários conseguiram expandir seus negócios na capital paulista e no meio dos anos 1960 houve uma inversão de poder. Se na década de 50, a CMTC era responsável por 90% dos setor, dez anos depois o espaço destinado a companhia era de apenas 20%, segundo análise das relações de linhas e empresas da época.

Os transportadores lotearam a cidade para impedir o mesmo erros dos anos 1920 e 1930 quando disputavam as mesmas linhas e tornaram o negócio pouco rentável. Os melhores trajetos ficaram com as empresas maiores. Assim surgiram empresas poderosas nas zonas sul, leste e norte da capital.

Com o crescimento das empresas de ônibus e problemas financeiros da CMTC, o interesse pelos bondes diminuiu ainda mais até serem desativados, em 1968. No dia 28 de março, encerrou as operações a linha 101 entre o centro (cidade) e Santo Amaro, na zona sul.

Em 1968, foi criada a Secretaria Municipal dos Transportes em uma demonstração da importância que o setor tinha na cidade de São Paulo. Nos anos 1970, as empresas particulares ampliaram seu poder e a CMTC perdeu ainda mais espaço, sendo responsável por apenas 14% das linhas, em 1975.

Neste época também, a CMTC, mesmo sendo empresa pública, renovou o contrato com a Prefeitura e os empresários ganharam mais um trunfo.  A cidade foi dividida em 23 áreas de operação e a companhia municipal poderia contratar os serviços das empresas de ônibus. Era o que os donos das empresas queriam. As linhas eram planejadas pela CMTC, os custos de implementação eram bancados pela empresa de transportes públicos, e os empresários apenas colocavam suas frotas e trabalhadores para explorarem as linhas, recebendo por isso. A CMTC continuava sendo operadora, mas assumia um papel importante de gerenciadora do sistema.

O surgimento da CET

O trânsito e os transportes ganhavam mais destaque na capital paulista. A cidade já enfrentava congestionamentos e tinha dificuldades para gerenciar as linhas de ônibus, que atendiam uma população cada vez maior, em contrapartida abria e amplia vias de circulação. Surge a necessidade de se pensar num órgão para gerenciar e controlar o trânsito. Em 1976, foi fundada a CET – Companhia de Engenharia de Tráfego.

O poder público, pela experiência da desordem da expansão das linhas de ônibus entre 1930 e 1940, viu que, mesmo com o caráter capitalista do sistema, com empresas privadas vendendo comercialmente um serviço público de deslocamento, o governo municipal tinha de ter órgãos para controlar um setor que não pode ser regido apenas pelo mercado.

No fim dos anos 1970, a CMTC assumiu boa parte das inovações tecnológicas dos transportes por ônibus, em São Paulo. Testou os ônibus Padron, com padronização de dimensões estipulada por órgãos técnicos federais, e começou a implantar o Sistran, que foi um programa elaborado pelo prefeito Olavo Setúbal, que comandou o executivo municipal entre os anos de 1975 a 1979. O objetivo era modernizar o sistema de trólebus que depois de algumas crises financeiras da CMTC e desinteresse de alguns governantes apresentava sinais de deterioração.

O plano era muito bom. Previa renovação de rede aérea, ampliação da malha de trólebus, criação de faixas exclusivas e renovação e reforma da frota, com a aplicação de novos conceitos como equipamentos modernos que deixavam as viagens acessíveis para pessoas com deficiência e mais confortáveis, com suspensão avançada e sistema de direção que trazia maior comodidade ao motoristas e passageiros.

Olavo Setúbal era um entusiasta do trólebus, ainda mais frente aos altos custos do petróleo na década de 70. Sua intenção era de, num primeiro momento, aumentar a rede em São Paulo de 115 quilômetros para 280, colocando no sistema 1.280 ônibus elétricos.

O Plano fracassou. O motivo, a descontinuidade administrativa. Trocou o governo, trocaram as prioridades. Apenas foram feitos pequenos reparos e alguns veículos novos foram às ruas. O Sistran, que poderia ser uma ótima alavancada para que São Paulo tivesse uma rede de ônibus de tecnologia limpa, como ocorre na Europa e América do Norte, foi abandonado.

(Leia amanhã, os reflexos da era da inflação no sistema de ônibus de São Paulo)

Adamo Bazani é busólogo e repórter da CBN

História dos ônibus: a cidade cresce e surge a CMTC

 

Na segunda parte da série sobre a história do ônibus na cidade de São Paulo, a reorganização do sistema de transporte coletivo na capital e o surgimento da CMTC são os destaques. Os bondes haviam ficado para trás.

FOTO 5- Ônibus norte-ameticano importado pela CMTC

Por Adamo Bazani

Em menos de dez anos, a frota de ônibus na cidade de São Paulo cresceu de 400 carros, em 1932, para 3 mil, em 1941, ano em que já havia 90 linhas regulares. A frota de bondes se mantinha em 500 veículos.

As concessões e permissões para as empresas atuarem eram dadas pelo poder público, mas muitos ônibus clandestinos circulavam na cidade. O serviço de transporte e o trânsito começaram a sair do controle das autoridades. Empresas se digladiavam pelas linhas mais rentáveis enquanto as regiões com população menor e mais afastadas sofriam com a carência de transporte coletivo. Há relatos de ameaças entre donos de ônibus interessados em explorar linhas nos bairros mais interessantes.

Mesmo sendo um transporte por asfalto, era necessário colocar os ônibus nos trilhos.

Ainda havia um agravante. A Light mostrava-se desinteressada em explorar os transportes na cidade frente a concorrência dos ônibus. O bonde não trazia mais o mesmo lucro. O sistema de ônibus era caro para ser implantado. Investia-se tempo e dinheiro numa linha e da noite para o dia aparecia o dono de um ônibus para explorar o mesmo trajeto.

A Light queria deixar as operações de transportes em 1941, término de seu contrato inicial, mas por determinação do Governo Federal, devido a escassez de petróleo, gerada pela Segunda Guerra Mundial, foi obrigada a prestar serviços até 1946.

Devido a desorganização do sistema de ônibus, o abandono dos bondes e o trânsito caótico, o prefeito Prestes Maia criou a Comissão de Estudos de Transporte Coletivo do Município de São Paulo – CETS. Em 1943, a comissão entregou o primeiro “raio x” do setor e, em função do panorama traçado e do fim das operações da Light, sugeriu-se o monopólio governamental do Sistema de Transportes Coletivos. Além de o poder público municipal assumir os bondes, deveria racionalizar as linhas de ônibus evitando trajetos sobrepostos e atendendo bairros desassistidos.

Desenhava-se a criação de uma empresa de transporte coletivo municipal, o que foi ocorreu alguns anos mais tarde.

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Empresa usa tecnologia e faz trólebus mais atraente

Por Adamo Bazani

Trólebus com corrente de tração, flagrado pela coluna no corredor que liga a zona sul de São Paulo ao ABC Paulista, torna modelo mais barato e eficiente.

Trólebus mais eficiente

Uma das grandes desculpas dos órgãos públicos e empresas para não adotar os trólebus, ônibus elétricos com emissão zero de poluentes, é o alto preço do veículo, que pode custar até 4 vezes mais que um ônibus convencional. Esta justificativa está com os dias contados.

Neste domingo, 27 de setembro, na Parada Paraíso, no bairro Paraíso, em Santo André, flagramos o carro prefixo 7301 da Metra, empresa que faz a ligação entre São Matheus, na zona Leste da capital paulista, ao Jabaquara, na zona sul, pelos municípios de Santo André, São Bernardo do Campo e Diadema, no ABC Paulista. Aparentemente nenhuma diferença em relação ao trólebus que você está acostumado a ver em algumas cidades. Mas o Busscar Urbanuss Pluss Mercedes Benz fabricado, originalmente, com corrente contínua foi transformado para corrente alternada.

A Eletra – companhia nacional especializada em fabricação de ônibus com tecnologia limpa – está convertendo trólebus antigos com corrente contínua, que necessitavam de eixo de tração importado, em veículo abastecidos por corrente alternada. A diferença entre as duas formas de alimentação elétrica é muito técnica, mas posso garantir-lhe que esta transformação pode significar um grande avanço no setor, principalmente em relação ao barateamento do veículo e ao desempenho.

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Tecnologia dá vida à rede aérea

Por Adamo Bazani

A situação do trólebus não é  fácil no Brasil, onde várias cidades o aboliram completamente. Em São Paulo, discussões e desentendimentos entre operadores, gerenciadores e administrações públicas já viraram uma marca da atual fase deste modelo de transporte de passageiros. Mas é no campo de tecnologia que se pode encontrar a saída para a continuação dos trólebus como veículo capaz de reverter o quadro cada vez pior de poluição sonora e do ar.

Quem garante é o administrador de contratos da Eletra, única fabricante cem por cento nacional de ônibus com tecnologia limpa, José Antônio do Nascimento.

Jose Antonio do Nascimento e Adamo no trólebus

José Antônio diz que o mundo está no caminho da tração elétrica para os transporte urbano. Ele conta que na cidade de Nova Iorque já existem mais de 500 ônibus híbridos (motores de partida a diesel e motores de funcionamento a energia elétrica) em operação; e na China e boa parte da Europa, os administradores locais em parcerias com a iniciativa privada voltaram a investir no trólebus com rede aérea.

“Posso garantir que em corredores exclusivos, o trólebus de rede aérea ainda é melhor alternativa que o híbrido. Na empresa Eletra, que nasceu do Grupo da Viação ABC de Transportes, de São Bernardo do Campo, percebemos que a procura pelo híbrido é cada vez maior, afinal ele possui uma flexibilidade maior que o trólebus e igual ao ônibus a diesel, mas, pelo fato de o trólebus durar mais e não gerar nada de poluição, em corredores segregados, ele é opção ainda melhor”.

“Num corredor segregado, a rede aérea não produz a mesma poluição visual que no meio da rua, onde há entrocamentos e cruzamentos de fios de outros serviços, como de telefone e energia elétrica residencial e comercial. Além disso, o híbrido pode poluir até 90 por cento menos que o ônibus comum a diesel, mas o trólebus polui 100 por cento menos. O Brasil deve estar atento a outro fato de vantagem de veículos com tração elétrica: diferentemente de muitas regiões do mundo, que produzem eletricidade em usinas movidas a carvão e óleo, nós produzimos por água, ou seja, não poluímos e gastamos menos para produzir eletricidade.”

Sendo bem realista, num cenário em que apesar de ser mais barato que metrô e que o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), o corredor segregado de ônibus pouco cresce, José Antônio afirma que a solução de curto prazo está no investimento da rede aérea já instalada e em sistemas nos ônibus que ocasionam menos quedas de pantógrafo (alavanca que liga o ônibus até os fios aéreos). Para isso é necessário repotencializar a rede. Ele conta que uma boa parte dos trólebus que circulam na cidade de São Paulo são veículos reformados e reencarroçados, que foram produzidos entre os anos de 1979 e 1981. Entre 1994 e 1996, os veículos passaram por uma atualização, mas a rede aérea não.

E quando José Antônio fala em corredores, ele quer dizer vias segregadas mesmo, não apenas faixas pintadas nas vias, com o mesmo asfalto, com as mesmas ondulações, passando pelos mesmos semáforos que os carros comuns. Os corredor entre São Mateus / Jabaquara, via ABC paulista, é considerado bom exemplo por José Antônio:

“Boa parte é segregada totalmente e o piso é de concreto”

Mas enquanto corredores não saem do papel, a solução, para José Antônio é investir em veículos e sistemas cada vez mais modernos. Já está desenvolvido até mesmo um sistema que evita ou diminui drasticamante a queda dos pantógrafos, além de um corredor 100 por cento eletrificado de grande distância, sendo o primeiro “corredor verde” no mundo.

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O trólebus tem futuro no Brasil

Por Adamo Bazani

Trólebus

O passado do trólebus remonta a histórias de desenvolvimento econômico, época em que a presença deste veículo era sinal de cidade moderna, como ocorreu na capital paulista, há 60 anos.. Nos capítulos anteriores mostramos o romantismo de motoristas e passageiros, a forma como a cidade se relacionava com este meio de transporte. Mas houve mudanças significativas seja pelo crescimento desordenado do ambiente urbano, seja pela falta de cuidado com os trólebus.

Hoje, para boa parte da sociedade, os trólebus são vistos como meios de transportes antigos que atravancam o trânsito, devido as constantes quedas de energia e das alavancas que ligam o veículo à rede aérea (os pantógrafos)

Apesar disso, há um cenário positivo para o trólebus no Brasil, com o desenvolvimento de sistemas mais modernos ao mesmo que tempo que há preocupação com o custo de implementação e a vontade política de autoridades públicas

Em maio, num evento promovido em conjunto pelo Movimento Respira São Paulo, Eletra (fabricante nacional de ônibus com tecnologia limpa), Metra e Viação Himalaia (empresas operadoras), entre outras entidades, além de apaixonados por ônibus, foi possível reunir especialistas e técnicos envolvidos diretamente com o desenvolvimento de pesquisas e fabricação de veículos com tração limpa.

Jorge Françozo, Respira São PauloO presidente do Movimento Respira São Paulo, Jorge Françozo, aponta a forma pela qual foi feita privatização do sistema de trólebus na cidade de São Paulo, que deixou pendências contratuais dos anos 80, como uma das causas do sucateamento de parte do sistema e da redução drástica do número de linhas na cidade. Uma destas pendências, segundo ele, é a forma de tributação da energia elétrica, que traz um ônus muito grande para os operadores do sistema.

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