De pomba e circunstância

 


Por Maria Lucia Solla

 

 

Muitos têm caído de seus pedestais de papel moeda, levando consigo os abutres que os cercam. Desmoronam seus postos impostos a nós pela corja que nos esfrega na cara o caráter decomposto e malcheiroso. Veem entre lágrimas de crocodilo e sorrisos marotos o rolar de mansões milionárias erguidas à custa do suor e do sacrifício de muitos. Veem seus comparsas rolarem na fenda que se abre com grande possibilidade de continuar a se abrir sem trégua, até engoli-los também, mas mesmo assim não há motivo para perder a esperança e tomar um cálice de amargura temperada com preconceito, cada vez que as notícias quebram barreiras e insistem em chegar a nós.

 

É assim mesmo na hora da faxina que está acontecendo neste canto que nos cabe no Universo. Muito sabão, muito esfregão, muita pá de lixo ainda são precisos. Os ratos fogem para a escuridão solitária de seus esconderijos, mas muitos de nós continuamos de cabeça erguida, dormindo tranquilos em nossas camas forradas de vida e não de morte, de compaixão e não de prepotência, de mais perguntas que certezas.

 

São tempos de dureza estes vividos por nós humanos. Nada é fácil, dizem, mas dizem também que caminho fácil não leva a lugar que valha a pena. Não sei se é assim que funciona, e na minha experiência de vida não consigo encontrar base para essa afirmação e acreditar nela, mas acredito, sim, que se aprende mais quando há desafio que nos tira da zona de conforto. Acredito que além das matérias que compõem o currículo escolar dos nossos filhos e dos nossos netos, é urgente acrescentar outras humanas de verdade, que mostrem a eles que é sempre preciso estar alerta para o crescimento do ego que se esforça para sobrepujar a humanidade, a integridade e a liberdade que são nossas por direito.

 

Cachoeira, Demóstenes, Juquinha, Valério, Dirceu, Morais, e muito mané que vive no anonimato por ordem de importância política e econômica, são raposas que cuidam do nosso galinheiro, mas há esperança, sim, nos diz a pomba branca que pousou no esquife do Cardeal Eugênio Sales, que não precisou de advogados e juízes que se põem à venda. Há esperança, sim, nos diz a pomba branca, símbolo do Espírito Santo, que velou o corpo do trabalhador de Deus. Há esperança sim, nos diz ela que não abandonou o espaço onde jazia o corpo do homem de bem. Do homem do bem.

 

Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De vida, ora!

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Hoje falávamos de testamento. Não em tom fúnebre, mas analisávamos a ideia do temido documento, administrativamente. Bem interessante. E nos demos conta, mais uma vez, de que nadamos num mar de tabus. Eu, tu, ele, ela, nós vós, eles e elas também.

 

É estranha a vida! Surpreendente, inexplicável, intraduzível e imprevisível. Quando, depois de nos equilibrarmos na crista da onda até cansar, levamos um caldo de um ondão que nos faz perder o rumo e nos leva a nocaute, de cara na areia, passamos por períodos mais longos e frequentes de afastamento das costumeiras relações e da atividade rotineira, procurando um rumo que ainda nem se delineou. Fazemos isso não porque não queremos dividir as dores, mas porque não faz bem viver e reviver tantas vezes a fio acontecimentos difíceis e suas consequências reais e prováveis. Queremos evitar que um monstro se apodere de nós e que nos corroa ossinho por ossinho, até o final. Assim, reportamos os eventos catastróficos o mínimo possível e colecionamos descobertas.

 

Agora, depois do caldo é preciso retomar o fôlego e vomitar os retalhos de emoção que insistem em penetrar, uma a uma, cada unidade que compõe os nossos corpos. Se não respeitarmos a quarentena até que a respiração volte, e que os batimentos cardíacos reencontrem seu ritmo, sucumbimos. É preciso tirar a areia dos olhos que embaça tudo. É preciso respeitar o ritmo da vida, mesmo que ele mude com uma rapidez de nos deixar tontos.

 

A vida é indizível como Deus, porque ela é Deus. Nós somos Deus. Nós todos, de filósofo a iletrado, de durão a apaixonado, falamos, falamos, escrevemos, fazemos poesia, cantamos e dançamos, choramos e nos fechamos, sorrimos e nos enamoramos, mas ninguém chega perto de aprisioná-la nas masmorras da definição.

 

A vida não é para ser definida, explicada, dissecada. A vida se entrega para que nos entreguemos a ela. É para ser vivida, usufruída nos seus humores variados. E nós, só o que temos de fazer é embarcar e aproveitar a viagem. Simples assim.

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De remédios

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Falávamos de remédios, suas fórmulas, marcas, grifes e genéricos. Esse tem sido um assunto recorrente na pauta de papos aqui em casa, lá em cima, no jardim, em volta da mesa redonda. Nos perguntávamos principalmente como funciona essa coisa de grife e genérico. Alguém me diz se isto faz sentido: digamos que eu tenho um laboratório de produtos químicos, e um dos meus pesquisadores pesca uma fórmula que navegava no mar dos pesquisadores. Próximo passo é a comprovação de sua eficiência nos casos previstos disso, daquilo e daquilo outro. São os animais, as cobaias, que primeiro se submetem a testes que nem sempre dão certo. Feito receita de suflê. Só que como os animais não têm necessariamente nem isso, nem aquilo, e muito menos aquilo outro, é preciso que as doenças neles sejam provocadas, para então dar início à tentativa de curá-los com a nova receita. Se um percentual desses animais, que foram feitos doentes, se curarem ou ao menos sobreviverem, então recebo autorização para aliciar um número de pessoas que não têm dinheiro para continuar a comprar as drogas necessárias para abrandar ou mesmo curar seus males, ou não têm coisa melhor a fazer na vida, para substituírem os animais. Não vem me dizer que se submetem a isso por amor aos nossos irmãos, os humanos, ou que se entregam de bandeja pelo desenvolvimento da ciência.

 

E assim, a partir desse passo, se os resultados forem satisfatórios, segundo critérios que desconheço, passo a ter uma fórmula aprovada para combater ou abrandar os sintomas dos tais males, e consigo um atestado de comprovação da sua eficiência por um órgão governamental.

 

Nós que ainda reclamamos da burocracia e da dificuldade aqui no nosso patamar de vis mortais, nem podemos imaginar quantos despachantes e lobistas, quanto tempo, quanta paciência, quanto rapapé e quanto dinheiro são necessários para a autenticação de um trem desses e sua consequente fabricação.

 

Obstáculos superados, muito tempo e muita verba depois, diploma da fórmula na mão, lá vou eu reproduzir essa receita, pagar pela criação de peças de propaganda, desenhar embalagens atraentes para convencer o prezado público de que ele precisa daquela receita, e fazer muita visita, oferecer mimos, amostras, e às vezes mais do que isso, aos médicos das áreas específicas. Confecciono então caixas de dez ou de quinze comprimidos, quando a dosagem usual mínima são cinco. Aliás, nas andanças por hospitais e farmácias, descobrimos que existe uma lei que diz que podemos pedir para abrir a caixinha e comprar metade dos comprimidos, pagando portanto metade do preço, ou um terço deles, ou a quantidade prescrita pelo médico, de acordo com minha idade, peso, condições físicas, histórico do mal que me aflige, entre outros, mas as farmácias não são obrigadas a obedecer essa lei (!) se não tiverem em suas dependências uma sala com especificações laboratoriais de higiene e uma série de exigências determinadas por um desses órgãos governamentais. Daí que como todos os donos de grifes de farmácias ou os seus franqueadores dizem que não têm recursos para projetar e executar a tal sala, e como existe outra lei dizendo que ninguém pode obrigá-los a fazer isso, ninguém faz. Resultado, ninguém vende o número de comprimidos que precisamos, e fica por isso mesmo, e pronto. Levamos os tais comprimidos para casa, tomamos a quantidade prescrita e esperamos que seu prazo de validade vença, ou vai que…, para aliviarmos o armarinho dos remédios, que representam um risco enorme e causam acidentes sérios com crianças que estão na fase de descobrir o mundo a partir de suas casas, dos armários de panelas e de tudo que possam alcançar se esticando ou trepando em banquinhos mambembes para chegar ao desconhecido.

 

Mas aí transitamos também por outra lei; a dos genéricos. Agora, vamos pensar juntos: se eu confecciono uma receita de droga com nome de Bolo e o mesmíssimo item sem nome, mas com a sua receita no rótulo, eu deveria vender aquele que tem a receita no rótulo, mais caro do que vendo o outro que tem apenas quatro letrinhas. Mas parece que também não funciona assim. O item sem nome, o genérico, custa, às vezes, menos da metade do preço do produto que só traz quatro letras em seu nome. E tem mais, se eu sou dona da receita, devo disponibilizá-la para que possa ser elaborada por outros laboratórios, ou pelo meu mesmo. O importante aqui, e meu maior ponto de interrogação, é saber como é possível fabricar a mesmíssima coisa, com nomes diferentes, pela metade do preço. E aqui não falamos de bolsa ou cd pirata. Falamos de vidas, de bem-estar e de saúde; da vida do cidadão.

 

Será que só eu tenho estas perguntas? Quanto a mim, é só o que tenho, por isso, entro com as perguntas, e se você puder e quiser me ajudar, entre com as respostas, ou não, e até a semana que vem.

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De covardia

Por Maria Lucia Solla

 

 

Somos caixas feitas de tudo, do que está além e do que está no mundo.
Pena que delas sabemos tão pouco, não por não podermos acessá-las, mas porque a danada da covardia não nos permite.
Covardia, uma das senhoras que partilham o controle, no comando da nave. Sempre disponíveis. Na delas.
Não são os banqueiros, os culpados pelos males do mundo.
Não são os bandidos e assassinos, a única fonte de desespero e insegurança.
Não são os adolescentes, os velhos ou os doentes, os políticos e seus partidos que já nascem comprometidos.
É você, e sou eu quando damos à covardia o lugar de honra à mesa do banquete em que nos entregamos em sacrifício do nada pelo nada; do vazio pelo mais vazio ainda.
É o conformismo com a uniformidade insossa da sociedade, que brota do abismo de entranhas ocas, que nos mantém afastados de nossa essência, que nos mascara com egos vaidosos e mentirosos, para que não percebamos que a vida nos dilacera para que possamos renascer a cada tic e tac do coração.
A vida nos sacode, quando resistimos a ela, para nos alertar a sobressairmos, não pela grandeza, mas pela profundeza.
A vida nos incita a evitar a conformidade covarde com o status quo do mal dito social, em detrimento da sociedade fraternal.
Assim nos tornamos, cada um, apenas mais um remador dentre bilhões a remar um barco que mira o desastre previsto.
É por isso que tiro o meu chapéu para poucos, como Einstein que mostrou a linguona para o mundo.

 

É isso.

 

Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De proteção

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Criador de tudo o que me rodeia e do que está dentro de mim; tu que não conheço, mas que intuo e reconheço em cada porção de tua Criação; que ouço na respiração tranquila dos filhos que dormem, que fazem meu corpo tremer e meu coração se espreguiçar. Que criou uma flor tão linda, que povoa o meu jardim e, sem guarda, se oferta jorrando beleza indescritível, perfeição de transparência, oferecendo vida e morte, para renascer depois e sempre.

 

Senhor, unge-me com gotas desse desprendimento. Não peço e nem poderia pedir emprestado seu perfume ou beleza, mas me encanta o seu dar-se, o entregar-se sem medida, mesmo em vida tão breve. A mim servirá, e eu anseio.

 

Faz com que eu não arraste os minutos, Senhor, mas que os viva intensamente. Faz com que meu sorriso se misture a lágrimas, que eu saiba deixar espaço para a esperança se instalar enquanto a desesperança vem se servir de mim. Que eu critique menos e compreenda mais, que me curve para não quebrar e que esteja preparada hoje e sempre para amar.

 

Enquanto peço isto e aquilo, minha alma abre espaço pelo emaranhado do ego e jorra gratidão, por onde passa. Gratidão pela vida. Ponto.

 

Senhor, doma pensamento e medo, que brotam feito mato na minha mente que mente, se espalhando como inço, alimentando-se de nacos preciosos do que sou.

 

Enfim, Senhor, se é da tua alçada direta, me protege de mim.

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De adolescência

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Tiago, meu querido neto adolescente. Quero dizer que tua vovó malu adora adolescência e adolescente. Foi a fase que mais curti na minha vida e nas vidas dos  meus filhos: do teu pai e do tio Luiz. Acho incrível a maneira como tudo o que a gente já viu, até esse ponto da vida vivida aqui na Terra, fica querendo se encaixar. Ideia, conceito, disso eu gosto, daquilo não, e do que é mesmo que eu gosto?  A gente atinge um estado agudo de caída de ficha e de crescimento e transformação em todos os nossos corpos. Curiosidade,  certeza e incerteza, preguiça e excesso de atividade solitária; tudo tem cara e cadência  de  incoerência.

 

Tem gente que cataloga as emoçōes do adolescente, tentando  entender seu comportamento, a cada guinada da sociedade, como se essa fosse uma fase terrível. Eu no entanto vejo a adolescência como um momento supimpa, massa, da hora, em que tudo em nós está ligado. Todos os fios. De e para todos os lados, de baixo para cima e de cima para baixo. É um dos pontos altos da nossa vida. Mas não vejo como catalogar muito menos como explicar a erupção interminável de vulcões internos e externos. Todo mundo passa por essa oportunidade de descobertas e abertura da consciência de quem somos e o que e como vivemos o presente da vida. Você sabe de tudo isso melhor do que eu porque está no enredo agora. Eu só vejo parte da história da minha adolescência pela câmara antiga da minha memória, e olha que ela anda rateando. E vai ratear feio um dia não muuuuuuuito distante.

 

Mas antes que isso aconteça, quero que você saiba que estou sempre aqui para você, venha você a ser na vida o que você quiser. Só fico torcendo para que tuas escolhas sejam sempre feitas em parceria da mente com o coração. Que tuas escolhas sejam aquelas que te dão prazer hoje, mas que esse prazer não seja fugaz. Que dure no dia seguinte, e no seguinte, e no outro ainda e sempre.

 

Fico aqui quieta no meu ninho, torcendo para que você aproveite cada momento dessa fase que dizem que vai dos treze aos dezenove, mas não acredito que esse enquadramento da adolescência possa acontecer. Como enquadrar a ventania e a tempestade? Como enquadrar o desejo de liberdade e de apoio, tudo ao mesmo tempo? O ter tanto para dizer e não querer dizer nada. A minha adolescência, para te dar um exemplo, foi ao menos até os meus vinte e três. A fase aguda, quero dizer. Depois ela foi mudando de tom, mas eu me agarrei a ela com unhas e dentes, sem machucá-la, com carinho é claro, e ainda carrego muito dela comigo. Gosto da vida, sou profundamente grata por ela e me esforço para prolongá-la com a melhor qualidade possível.

 

Você vai subindo a escada da vida, e eu vou descendo. Não há momentos mais coincidentes que o teu e o meu. A gente se encontra nos degraus de mesma altura, na escada que sobe, você, e na escada que desce, eu; e por ali ficamos um pouco. Quero aproveitar esse encontro temporal contigo e fortalecer a nossa relação de hoje e a que ainda está por vir.

 

Quero também que você saiba que te amo muito e que sou muito orgulhosa de ser tua avó. Admiro teu dom para o desenho e para a música, e a tua alma de artista.

 

Beijo grande para você e para os teus irmãos,
da vovó malu.

 

Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De mãe

 

Por Maria Lucia Solla

 

A lua

 

mãe é ser divino
e o somos todos
ou não?
pai filho irmão santo demônio
andarilhos na mesma estrada
entoando cantilena com coração e mente recheados de sentimento ressentimento
desejo sonho
de contradições que se chocam arrastando umas as outras
num pra-lá-e-pra-cá de ficar zonzo

 

na verdade somos só machos e fêmeas
homens mulheres garfos colheres
nada há que nos dignifique
além do amor que se manifesta na compaixão na alegria e na dor

 

estou enganada
ou o emissário de Deus veio mesmo trazer a mensagem
de que a lei dali pra frente seria o amor
e que o resto era descartável
bobagem

 

vivemos no entanto a chorar da dor
dando crédito demais ao desgosto
a recusar o amor que é proposto

 

pois bem
entre homens e mulheres
foi a elas sugerido que carona dessem
pra que outros viessem
e suas lições aqui aprendessem

 

como árvore a mãe dá fruto
num milagre constante
gera fragmento
que quando vinga se torna completo para ser

 

a história da santidade materna não me convence
confesso
pois há pai que merece mais que ela
que cuida do rebento de caderno livro e de panela
relegando a plano inferior o que antes era valor

 

hoje eu
em meio à religião
ao perdão ao ladrão e ao espertalhão
vislumbro só um pecado
o de nos considerarmos só corpo
e deixarmos a alma de lado

 

bem e mal existem
mas não separadamente
como um não conter o outro
só os cegos de plantão nisso ainda insistem

 

assim que hoje em vez de homenagear cada mãe-amada-e-a-não-amada
escolho olhar a criança violada e o pequeno abandonado
seja ele pobre ou abonado

 

quem diz que mãe é santa
mente
quando ontem hoje e amanhã
a menina violada se faz mãe de repente

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De arte

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

é o representante do povo
um indivíduo legal
é ele que escolhe a rota
ou sou eu que norteio
a ausência do meu sonho
pelo seu desmando

 

penso no que conheço
e naquilo que desconheço
e me vem de pensar no crime e na justiça social
na escolha e no escolhido
e me vem de chorar
de fatos tristes lembrar
sem compreender
encolhida tolhida sofrida
pelo  homem que rapina e o que é rapinado
o que assassina e o que é assassinado
pelo agressor e o agredido
que vivem nas margens virtuais e opostas do mesmo rio
afogados e estufados de razão
altivos nocivos agressivos
mumificados

 

na cena da tv
vejo o bandido que é triste de ver
feio na minha visão
que na sua não-aceitação
do que considera oposto 
me leva a retroceder

 

e retrocedendo percebo
que o que não gosto nele
é o que não gosto e reprimo em mim

 

no tempo em que bando se armava
de palavra lápis e papel
era o estado reconhecido
a banda aceita por quem lhe era fiel
que trucidava e escondia no porão
onde jazia o dito ilegal
que acabava morto 
por valoroso federal

 

tudo meio legal
valendo
e acontecendo
em dia de trabalho e no Natal
um sem-fim de ossada
enterrada na surdina
e haja família destroçada

 

hoje é ainda
o colarinho branco meio legal
que prepara o mingau indigesto
é a banda podre e marginal
que atiro sem dó no lixo
como se podre fosse mesmo o que é
apagando do meu pensamento
o que quero e desconsidero

 

não é arma nem repressão
inconformismo
e muito menos agressão
que vão resolver nossa situação

 

na verdade considero
a arte e não a dor
o poder civilizador
e não sou eu quem o digo
mas o francisco que me disse que quem disse
foi Oscar o Wilde
e eu que nada sou
os bendigo.

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De bom e ruim

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Olá,

 

o ruim é o sanduíche de pré-julgamento recheado de condenação ao que quer que seja diferente do nosso ser, no momento. Parece que existe um programa bichado instalado em cabeças movidas a preconceito.

 

O bom é que vejo crescer o número de pessoas que já funcionam com programa atualizado, de última geração. Pouco a pouco começam a rarear as pessoas que se agarram a um partido político, por exemplo, como se o seu partido fosse um órgão coeso, formado de células escolhidas, como maçãs numa frutaria de luxo. Se bem que os motivos que as levam a isso, há muito vêm rareando também, o que leva alguns a perceberem que não importa que um objetivo expresso seja alardeado com sorriso comprado a peso de ouro na banca de um marqueteiro e usado fora de compasso; o que importa é a saúde da consciência que arquiteta objetivos factíveis, seu nível de civilidade, de honestidade, e o caráter que só se forma para correr nas veias, em casa. É de pequeno que se torce o pepino.

 

O bom é que a “opinião formada sobre tudo” começa a desmoronar como avalanche natural que derruba o que nos está tolhendo o direito de sermos realmente livres. E aceite o exemplo e escolha a via, quem puder e quiser.

 

O bom é sentir instalar-se em mim uma atualização de consciência, apesar do tanto ainda que há de vir.

 

O ruim é que ainda há tantos que se agarram a falsas promessas, que alimentam falsas premissas, sem terem ideia do real motivo do seu apego. O bom é que já há tantos que conseguem se libertar delas.

 

O ruim é que a cor da pele ainda é motivo de preconceito tão arraigado que escapa por canos de revólveres, em forma de projéteis mortais, atraídos pela cor. O bom é que de tempo em tempo aterrissam no planeta, cabeças prontas a desmontar a crença bolorenta.

 

O ruim é que a falta de consciência ou um cadinho da mesma, incipiente e fraca demais para desabrochar, ainda coloca em sacos distintos, pobres e ricos, feios e bonitos. O bom é que há um bom punhado deles que pulam dos sacos, enfrentando riscos e se aproximam e vão formando esquadrões coloridos, respeitando, uns as diferenças dos outros.

 

Não é?

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De alma

 

Por Maria Lucia Solla

 

Alma, sol e mar

 

alma minha

 

que poetas já cantaram
cada um a sua
a seu tempo e a seu modo
à qual em engano
insisto em me dirigir
como se fosse ela fora ou dentro de mim
pois que ela sou eu mesma no meu tom
de harmonia perceptível
de brilho intenso indizível
na recusa e na oferta
no nascer e no morrer
no ir e vir
seja eu dura ou sensível

 

mistério de ser eu ela e ela ser eu mesma
o que até hoje ninguém entende
desafia minha mente que se tem tão potente
e que por um nada se rende

 

é aí que o ser estanca
desde o início de tudo
que em vez de ir à frente finca o pé na retranca

 

é aí que nos perdemos
no afã de encontrar aquilo que
desde sempre
temos

 

vamos pr’ali
voltamos pra cá
quando
piada humana
tudo que temos ou um dia teremos
somos nós
um mingau de ego e alma
de choro e riso

 

de tudo que tenho e daquilo
que penso que preciso

 

palavra demais
atitude de menos
crítica é lema
de tudo
do outro
de ação
de todo tipo de tema

 

olhar pra fora é fora de tempo
é estar atrasado nele
mas o vício
em cada dobra de mim
entranhado
me faz ainda uma vez e mais outra
copiar o outro
que cheio de certeza
se ocupa em culpar
em manter o dedo em riste
apontando defeito
pra esconder seu próprio não-feito
perdendo do minuto a beleza
e se mostrando
prepotente

 

que tristeza

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung