De bom e ruim

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Olá,

 

o ruim é o sanduíche de pré-julgamento recheado de condenação ao que quer que seja diferente do nosso ser, no momento. Parece que existe um programa bichado instalado em cabeças movidas a preconceito.

 

O bom é que vejo crescer o número de pessoas que já funcionam com programa atualizado, de última geração. Pouco a pouco começam a rarear as pessoas que se agarram a um partido político, por exemplo, como se o seu partido fosse um órgão coeso, formado de células escolhidas, como maçãs numa frutaria de luxo. Se bem que os motivos que as levam a isso, há muito vêm rareando também, o que leva alguns a perceberem que não importa que um objetivo expresso seja alardeado com sorriso comprado a peso de ouro na banca de um marqueteiro e usado fora de compasso; o que importa é a saúde da consciência que arquiteta objetivos factíveis, seu nível de civilidade, de honestidade, e o caráter que só se forma para correr nas veias, em casa. É de pequeno que se torce o pepino.

 

O bom é que a “opinião formada sobre tudo” começa a desmoronar como avalanche natural que derruba o que nos está tolhendo o direito de sermos realmente livres. E aceite o exemplo e escolha a via, quem puder e quiser.

 

O bom é sentir instalar-se em mim uma atualização de consciência, apesar do tanto ainda que há de vir.

 

O ruim é que ainda há tantos que se agarram a falsas promessas, que alimentam falsas premissas, sem terem ideia do real motivo do seu apego. O bom é que já há tantos que conseguem se libertar delas.

 

O ruim é que a cor da pele ainda é motivo de preconceito tão arraigado que escapa por canos de revólveres, em forma de projéteis mortais, atraídos pela cor. O bom é que de tempo em tempo aterrissam no planeta, cabeças prontas a desmontar a crença bolorenta.

 

O ruim é que a falta de consciência ou um cadinho da mesma, incipiente e fraca demais para desabrochar, ainda coloca em sacos distintos, pobres e ricos, feios e bonitos. O bom é que há um bom punhado deles que pulam dos sacos, enfrentando riscos e se aproximam e vão formando esquadrões coloridos, respeitando, uns as diferenças dos outros.

 

Não é?

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De alma

 

Por Maria Lucia Solla

 

Alma, sol e mar

 

alma minha

 

que poetas já cantaram
cada um a sua
a seu tempo e a seu modo
à qual em engano
insisto em me dirigir
como se fosse ela fora ou dentro de mim
pois que ela sou eu mesma no meu tom
de harmonia perceptível
de brilho intenso indizível
na recusa e na oferta
no nascer e no morrer
no ir e vir
seja eu dura ou sensível

 

mistério de ser eu ela e ela ser eu mesma
o que até hoje ninguém entende
desafia minha mente que se tem tão potente
e que por um nada se rende

 

é aí que o ser estanca
desde o início de tudo
que em vez de ir à frente finca o pé na retranca

 

é aí que nos perdemos
no afã de encontrar aquilo que
desde sempre
temos

 

vamos pr’ali
voltamos pra cá
quando
piada humana
tudo que temos ou um dia teremos
somos nós
um mingau de ego e alma
de choro e riso

 

de tudo que tenho e daquilo
que penso que preciso

 

palavra demais
atitude de menos
crítica é lema
de tudo
do outro
de ação
de todo tipo de tema

 

olhar pra fora é fora de tempo
é estar atrasado nele
mas o vício
em cada dobra de mim
entranhado
me faz ainda uma vez e mais outra
copiar o outro
que cheio de certeza
se ocupa em culpar
em manter o dedo em riste
apontando defeito
pra esconder seu próprio não-feito
perdendo do minuto a beleza
e se mostrando
prepotente

 

que tristeza

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De dor

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Quero falar de dor, mas como é que se fala de dor? Quando é muito forte não se consegue dizer nada, e quando não abala os alicerces da tribo não vale a pena piar. Ninguém está interessado na dor alheia. Cada um tem sua alegria ou sua própria dor para lidar e sempre a toma como medida padrão. Dor faz parte dos sentidos vivos, está em cada célula. Tem a dor do amor não correspondido, a do adeus não pretendido, a do parto, a do você fica e eu parto, e parto, de lambuja, um pedaço das nossas vidas. Dor não avisa, não dá sinal de chegada, chega e pronto, ou será que somos nós que nos esquecemos da sua aparência, que procuramos ignorar sua presença? Será que somos nós que não damos a ela a atenção devida, e ela cresce para lembrar que alguma coisa não anda bem? Venha de onde vier, depois de quantas tiverem vindo e ido, cada dor parece sempre a primeira e a mais dolorida. Não adianta que a gente não se acostuma. Doer dói e pronto; em você e em mim.

 

Quando meus filhos estavam na fase aguda do crescimento, em que espicham a ponto de nem os ossos, nem eles mesmos, saberem como lidar com a velocidade do crescimento, e com os enormes braços e pernas que na semana anterior não estavam ali, eu sentava um pouquinho na beirada da cama deles e ouvia, entre histórias e sonhos, a queixa: mãe, a perna tá doendo; e dizia: filho, eu sei, crescer dói. Fazia uma massagem nas pernas e eles dormiam entendendo que aquele tipo de dor não dava para impedir.

 

Cresceram, são homens feitos, têm barba e bigode, se quiserem, e eu digo bem alto para que eles ouçam de onde estiverem: meus filhos, meus amores, estamos sempre crescendo, e crescer dói. Tentar impedir é bobagem, e não existe atalho na dor, assim como não existe atalho na verdade. Seja ela do tamanho que for, é preciso permitir que entre e que percorra o seu caminho em nós; mas é da mesma importância deixar uma janela aberta para que ela, depois de fazer o que veio fazer, siga o seu caminho e nos deixe maiores. Mas quem sou eu para falar de dor.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

 

D’Ele e de nós

 

Por Maria Lucia Solla

 

Ouça “D’Ele e de nós” na voz e sonorizado pela autora

 

 

Olá,

 

para que coisas boas peguem o rumo que nos interessa, depositamos fé onde dá. Fé que não costuma estacionar por muito tempo num lugar. Fé andarilha, a nossa; vagueia ao sabor do oriente e ocidente, do céu, terra, das estrelas, do ar, do fogo e da água. Tudo Deus.

 

Segundo uns, o ano é do Dragão, segundo outros, dos orixás que tomam a frente na tarefa. Oxum favorece a liderança das mulheres e lhes oferece filhos inesperados, e Oxalá enxuga lágrimas, limpa o ranço que foi deixado para trás e acena a bandeira da paz. Dizem também que o Papa, Sumo Sacerdote, um dos arcanos maiores do Tarot de Marselha, assume o leme e colhe o crescimento da consciência de cada um para espalhá-la por onde ainda é escassa.

 

A numerologia aponta para o cinco, que é a soma de 2 + 0 +1 + 2. O cinco alerta, nesta caminhada não tem atalho lateral; ou nos desfazemos do que não serve mais, ou a vida vem e leva embora, feito vendaval. É ano de mudança, mas vai além da mudança; pede a consciência atenta, a cada mudança que ocorre, porque só assim a mudança se instala. Querer mudar é coisa do passado, agora o ritmo é de assumir a mudança, de deixar que ela se instale, e crescer com ela. Haja disposição.

 

Dizem também que a Lua, rege o planeta neste período, o que nos leva a Iemanjá, que lhe corresponde. Dizem que Xangô vem pôr tudo abaixo para que dos escombros possamos resgatar força, disciplina, coragem, transparência, e a opção consciente de cada segundo da nossa realidade, porque tudo é Deus.

 

O que pensamos, o que sentimos, o que está à nossa volta e dentro de nós; tudo é Deus. O ritual, os aromas, as cores e sons servem para falar com Ele. O silêncio, o isolamento, o mantra, a música de bamba e a Escola de Samba, também. Tudo é Deus.

 

Vale a pedra do ano, a cor e o número dele, o bicho, o orixá, o planeta; vale a reza e a oração, a oferenda e a contrição. Vale tudo. O meu amor por você é Deus. A impossibilidade e a possibilidade dele também são Ele. A pétala da flor amarela que caiu para tocar a mesa é Deus. A descrença, o desânimo, a derrota e o desamor são estradas que levam a Ele, estradas feitas d’Ele, que vêm d’Ele e que levam até Ele.

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De vivendo a vida

 

Por Maria Lucia Solla

 

Olá,

 

às vezes sinto que desperto de sono profundo, e vejo as coisas à minha volta com uma clareza difícil de descrever. Não sei dizer se é arte da mente ou do coração, mas é magia pura.

 

Hoje eu estava arranjando a mesa da sala para comemorar a vinda do meu filho Paulo, – o aniversário dele é na segunda-feira – e resolvi dar um jeito nos enfeites de Natal que ainda estavam em cima do aparador, esperando carona para ir para a sua caixa, descansar por mais um ano.

 

Peguei e curti um por um – bolinha, pinha com toque de dourado, laço vermelho, laço dourado, bengala do bom velhinho, o próprio, rechonchudo, sorridente, e toda a galera do presépio, presente do Marcos, para levá-los de volta para o tanto que lhes cabe neste latifúndio. Eles moram no meu quarto, num baú que pretendo mandar armazenar, desde o dia em que cheguei neste apartamento, para fazer lugar para uma cadeira de leitura. Daquelas de sonho, sabe? Costas bem acomodadas, coluna quase feliz, pernas posicionadas confortável e saudavelmente; uma cadeira perfeita. Uma lâmpada de leitura, aérea para não ocupar espaço, estrategicamente posicionada, e um aparador na parede, para os livros do momento – e só esses -, e uma ou duas xícaras de café ou chá, conforme a situação.

 

Então por um segundo pensei um pensamento rançoso, condicionado, envolvido em teia de aranha: cadeira de leitura? pra quê? pra quê perder tempo e jogar dinheiro fora, se vou deixar este apartamento quando vender? e se a cadeira não tiver espaço no outro apartamento ou casa onde vou morar? E a engrenagem pirou: pra quê pendurar quadros, se não vou ficar? pra quê isso, pra quê aquilo? E no quê dentro de mim disparava um programa novo, como um balão de surpresas que estoura e te enche de mimos, me dei conta de que, sim, um dia eu também vou deixar este corpo, e não é por isso que vou deixar de cuidar dele, que não vou viver a vida com fome e com sede, até me fartar dela. Então olhei para o lado e resolvi armazenar os amigos natalinos numa gaveta do armário ao lado da mesa, ou seja, foi como se o móvel tivesse me cutucado o ombro e dito: ei, ml, olha pra mim. Você não quer a tua cadeira? Esvazia o baú. Eu guardo isso pra você.

 

Sei que não é nenhum ovo de Colombo, mas em mim teve um efeito daqueles. Pelo que não posso ter, não quero mais chorar, mas vou atrás de tudo que achar possível. Não vou me escravizar por nada, mas não vou desistir também. Vou tentar fazer o que sempre prego: saborear o minuto como se fosse meu primeiro e último. Vou atrás de cada sonho possível, aceitar o que me faz sorrir e guardar feito tesouro, os bons momentos. Um toque, uma palavra, um olhar, um desejo.

 

E você? Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Uma lágrima por Daniel Piza

 

Daniel era amigo à distância. Falávamos muito mais por telefone e e-mail do que ao vivo. Nos últimos tempos, dúvidas profissionais pautavam nossas raras conversas, tendo o rádio como cenário central. Infelizmente, não tivemos tempo para o almoço programado desde que nos encontramos pela última vez na Cidade do Cabo, durante cobertura da Copa do Mundo da África do Sul. Na sexta-feira passada, Daniel Piza teve um AVC e morreu na cidade de Gonçalves, interior de Minas, com apenas 41 anos. Em vida, assim como na morte, tudo parece ter acontecido rápido demais para ele. Tinha pressa para aprender e uma capacidade de ler e escrever impressionantes. Assim como lia quantidade enorme de livros, conseguia absorver o conhecimento e traduzir para o público. Seu talento se revelou ainda jovem nas redações do Estadão e da Folha, na primeira metade da década de 90, trabalhos que o levaram a editar o que já foi considerado o melhor caderno de cultura do jornalismo impresso, o Fim de Semana da extinta Gazeta Mercantil.

Tive a oportunidade de dividir com ele o programa Leitura Dinâmica, na estreia da Rede TV!, em 1999. Além de crônicas e comentários do cotidiano, tinha um desafio que poucos profissionais seriam capazes de fazer com a personalidade e perfil que ele deu ao quadro: criticar a edição das revistas Veja, Isto É e Época. Desde que saiu da TV, o Leitura perdeu a graça. Fomos colegas, também, na CBN quando trabalhou como comentarista de esporte. Corintiano convicto, era capaz de falar do futebol driblando o lugar comum. Nem sempre seu estilo era compreendido pelos “especialistas”. Registre-se: conseguia falar de qualquer assunto sempre com olhar diferenciado e extrema capacidade. Era em busca deste conhecimento que eu fazia questão de abrir a leitura dominical dos jornais pela coluna Sinopse que escrevia no Estadão. Fui apresentado a obras e artistas, conheci músicos e músicas, e tive acesso a um mundo que desconhecia graças a inteligência de Daniel.

A morte precoce deste amigo mexe com os nossos sentimentos pois sempre temos a ilusão de que as pessoas que estão em nosso entorno serão eternas, principalmente as geniais como ele. Daniel nunca acreditou nisso, assim como não acreditava em vida eterna – talvez por isso tenha sido tão intenso como jornalista, marido e pai. Mesmo morrendo, ele tinha algo a me ensinar.

De mais um dia

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça “De mais um dia” na voz e sonorizado pela autora

A gente só se dá conta de que a vida é finita quando faz tlim-tlim, a cada dezena de anos, a caixa registradora da idade; e só se liga que o ano termina quando dezembro chega afobado e se despede num zás, sem dó nem piedade.

Na verdade verdadeira a vida começa a acabar no começo, e continua a cada inspiração. De expiração em expiação. E não há o que reclamar da sua finitude, da nossa inconsciência teimosa, ou da realidade de cada um. Tudo isso faz parte, da velhice à juventude.

um dia depois do outro
num chove no outro faz sol
se não vem a mim o cravo que eu tanto queria
procuro me alegrar com o girassol

Não sei você, mas só me dou conta da idade quando me olho no espelho. Tem vezes que olho e digo: epa, espera aí, para tudo! Quem é essa mulher? Mas é só me virar que esqueço da imagem intrusa que acabo de ver, e me apego à vida com fome e sede, porque tenho mesmo é sede e fome de viver.

Nasci velha e triste. Cheguei muito cedo numa festa que recém começava, onde tentavam se entrosar, meu pai e minha mãe, que ainda tinham na idade o primeiro dígito um. E para coroar a falta de jeito, vim com selo de Saturno.

o saturnino nasce velho
e vai no sentido contrário
envelhece na contramão
assim que quando o espelho não está por perto
me sinto menina
com perdão do comum lugar
me sinto rosa em botão
até que joelhos ou costas
sem nem mesmo avisar
dão sinal de exaustão

e assim vai a vida
há anos que lá se vão
e quero ver se consigo
na lida da minha vida
comemorar cada dia
como se fosse Reveillon

e desejo desta vez
feliz segundo minuto hora
dia semana mês

que é o que precisa enfim
para compor um Ano Novo Feliz
especial pra você
e especial pra mim

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De momentos felizes

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça “De momentos felizes” na voz e sonorizado pela autora

“Mas quando chegamos ao ponto em que nossas vidas assumem sua forma final, como um romance, somos perfeitamente capazes de identificar nosso momento mais feliz, que selecionamos em retrospecto…”

Orham Pamuk é turco de Istambul. É escritor vencedor do Nobel de Literatura de 2006, e seus ensaios e romances têm sido traduzidos para mais de quarenta idiomas. Pois bem, é um de seus romances, o museu da inocência, que estou lendo, e que está me pondo em ebulição. Não leio mais de duas páginas e me vem de escrever. Tenho o hábito, (necessidade, compulsão) de escrever nos livros. Leio e escrevo ao mesmo tempo nos espaços em branco, reflito, discuto, salto, sobressalto, choro e rio, e meu plexo solar não para de dançar. Desenho flechas, sublinho e/ou ressalto de amarelo os trechos que me tiram do chão. Ler é magia, terapia, é alçar voo sem sair do chão, nas asas dos anjos. É ir e voltar, é ficar por horas em todo lugar e em lugar nenhum. Ler é viver muitas vidas além daquela do mundo que se pode tocar, é desligar o piloto-automático. Ler é malhar o eu infinito.

E por falar em infinito… enfim, estou lendo o museu da inocência, sentada na frente da loja de conveniência do posto BR da minha vizinhança, rabiscando sem parar, enquanto seu João, o frentista filósofo, troca o óleo do meu carro. A frase que abre a minha reflexão de hoje literalmente me tirou do chão e do quase marasmo sugerido por uma tarde escaldante de sol que vai levando, gota a gota a umidade do ar.

Meu coração acelera, me ponho em estado de alerta e me atiro sem medo na vertigem da viagem que me conduz aos momentos mais felizes da minha vida. Me sinto uma lâmpada acesa no modo econômico, que num piscar se acende feito farol de ilha. Tudo em mim acorda e eu me entrego à experiência.

Na bagagem da volta repentina, puxada pelo frentista que me disse alguma coisa sobre um filtro qualquer, veio um sorriso que não quer me deixar. Não tenho dedos suficientes, contando os das mãos e os dos pés, para enfileirar meus momentos felizes. Estão todos aqui, me dou conta. Posso reviver cada um deles porque moram em mim, e não em algum lugar do passado. Não em algum lugar do futuro.

Momentos felizes me acordam os sentidos, reforçam minha consciência de modo que me faz sorrir e chorar.

E é o que eu desejo a você, meu caro e raro leitor – plágio! -, no momento do ano em que sentamos à beira do caminho, sozinhos ou cercados de gente, para respirar, olhar para trás e para frente. Que você, neste clima de festas, deixe que o coração te leve na retrospectiva da tua própria vida, parando nos pontos onde moram as memórias que possam fortificar tua garra para seguir em frente.

Que haja muito riso, muita alegria e muita caída de ficha.

Que os momentos felizes não sejam ignorados pela pressa de cumprir o trajeto, mas que possam criar um roteiro novo, corajoso, valente.

A você, um Feliz Natal!


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De crime e castigo

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça De crime e castigo na voz e sonorizado pela autora

Por que coisas ruins acontecem a pessoas boas é o título de um livro que li há muito tempo. Do conteúdo só me lembro o título, um mistério que me fascina, levada em caríssima conta a relatividade dos adjetivos ruins e boas. Me distancio, aperto bem os olhos, olho para o mistério dos acontecimentos, tento enquadrar uma tela onde o desenho do que percebo faça algum sentido, mas o desenho muda, muda sem trégua, e não vejo sombra de definição antes que uma cena tome o lugar de outra, e outra e outra.

Quem sabe? Se é que existe resposta que não mude de feitio no mesmo ritmo em que se cria a próxima pergunta. Ontem aquela ruga não estava ali, a dor do abandono também não. O novo amor, que parecia que nunca ia chegar, chegou e já foi embora também, como todos os amores de todos os tempos, de todos os mundos. Como tudo. Tanto chega e tanto vai, o movimento é contínuo; dele é feita a vida, mas a gente não passa incólume. Se permite marcar, se permite impressionar. E o registro se modifica também, como foto velha que desbota. A dor do parto cresce para ser lembrança de alegria; uma ou outra alegria, que estava na caixinha de pronto socorro contra a tristeza, foi se perdendo pelo caminho, e quando mais a gente precisa dela, cadê?

O Deus que mora em mim, e em quem eu moro, não tem fraqueza humana; é equilíbrio puro, na essência da pureza jorrada da fonte. Lá onde ela não nasce porque sempre jorrou. Ele não mantém um diário, ou blog, onde anota cada falha tua, cada escorregão meu para depois enviar-nos a sua ira em forma de dor. Sei que ruim e bom são faces da mesma moeda que nos serve de chão; agora, o difícil é deixarmos de ser a criança mimada que sofre a cada coisa que não acontece a seu contento. Somos pirralhos batendo os pés. Por isso sofremos. Não somos santos nem bandidos.

Não sei você, mas eu tenho a tendência de melhorar o ruim e enfeitar o bom. Para esse eu tenho sempre tempo e disposição para mais um retoque. O ruim da história é que à medida que camuflo as crateras, ando em círculo e caio no mesmo buraco. Aí, dói.

Sou inteligente, dura na queda, mas aprendo a viver devagar demais. Fico tentando puxar a vida para a minha estrada, quando o indolor seria andar livremente explorando quantas alamedas pudesse. Cabeça mais rápida que o coração. Imagino uma ponte entre os dois e tento mandar o conhecimento ponte adentro, estrada a fora, para chegar ao coração, onde tudo se concretiza, porque é só quando ele entende, quando ele aprende, que teoria cresce e vira compreensão.

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De princípio de polaridade

 

Por Maria Lucia Solla

Janela

Ouça “De princípio de polaridade” na voz e sonorizado pela autora

Somos treinados para viver de dedo em riste; ora no nariz de um, ora no nariz de outro, do alto do pódio onde cada um se coloca. Sempre certos, e o mundo à volta, errado. Aprendemos pelo exemplo, e atire a primeira pedra quem não aprendeu a criticar, em domicílio.

esse menino não presta pra nada
tua filha tá perdida
teu pai é um banana
tua mãe uma louca
a tia é lelé
o tio um perdido
vovó um peso
vovô pinéu

para ninguém
hoje
se tira o chapéu

No entanto a todo minuto nos vemos confrontados. Há urgência de recolhermos o dedo. E não dá mais tempo de bobear. Será que foi assim também para os que vieram antes de nós, com a mesma sensação de velocidade estratosférica? Dos exatos porquês de hoje só desconfio, mas concordo com o comando e com a urgência, apesar da dificuldade do caminho. Tem que ser politicamente correto, mas vencer a todo custo. Tem que ser generoso e competitivo num pacote só, estratégico, paciente e pró-ativo, organizado, planejado e expontâneo, ao mesmo tempo. Tem que ter uma pá de amigos no Facebook, mesmo que você nunca os tenha visto, seguir e ser seguido no Twitter, plugado o dia todo e a noite também; sem esquecer de cultivar amigos, amores e flores, meditar, dormir oito horas, de preferência à noite, ler as notícias do país e do mundo, antes de malhar, puxando ferro e tentando encontrar o próprio centro vital, nessa mixórdia. Cabelos têm que brilhar, dentes têm que ser mais brancos. Tem que encarar a moda e, querendo ou não, entrar na roda. Tem que ser perfeito, tendo em mente que a perfeição não existe.

simples caso de fronteira
extremos da mesma essência
se encontrando no xis

fica todo mundo igual
querendo ser diferente
da unha do pé
ao dente da frente

se busca ser diferente
com medo da diferença
perdendo no trajeto
por ele
a paixão
suportando a dita cuja
com cara de nojo
e foice na mão

diferentes sim
só em grau
parte do mesmo todo
onde extremos
queira ou não
se tocam no final

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung