De sangue, xixi e cocô

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Semana passada fiquei boa parte da tarde num dia, e boa parte da tarde dois dias depois, num laboratório de análises clínicas, desses que têm equipamento para ver do avesso e de frente para trás, passando por um processador de gente que me fez esperar por mais de hora e meia, atendida por meias-indicações enquanto pedem para que o paciente – e haja paciência – chegue com meia hora de antecedência ao local, em jejum, etc e etc. Tortura também foi preencher um questionário minucioso e esperar, esperar, esperar, depois de efetuar o pagamento, é claro. Por pagar também fui penalizada. Tive que subir dois lances de escada porque as máquinas para pagamento com cartão ficam bem acomodadas dois lances de escada acima, e é o paciente quem tem que se mexer. Dois dias e mais um grave aborrecimento e meio depois, voltei para retirar o resultado de uma ressonância magnética. Antes de mais nada era necessário que eu ao menos reportasse comportamento anti-ético, agressivo e desrespeitoso de uma das atendentes técnicas. Foi quando fiquei sabendo que, para isso, deveria me dirigir à sala vip do laboratório, para conversar com a responsável pelo setor. Sala vip? Nem sabia que existia uma aqui. Sim, era uma sala enorme e triste que estava às moscas. Rica e vazia. Gelada, como toda sala vip, e impessoal. Uma sala reservada a pacientes pagantes, independentes ou carentes de plano de saúde. Indiscriminadamente, daí para frente.Você é pagante? Então não pega senha e não espera na fila. É só pagar sem acionar o plano de saúde. Na sala vip do Diners você é premiado por ter um cartão. Ali, por não ter. Enigmas da vida.

 

Agora, vamos combinar que quem chega a um lugar como esse, onde você vai ter o braço furado, onde vão literalmente tirar teu sangue, examinar teu xixi e teu cocô, tem maior probabilidade de estar sofrendo do que de estar feliz. Para cada anúncio da chegada de um nenê desejado, quanto fígado, quanto pulmão, quanto cérebro, hormônio e osso e músculo e sangue e rim e pele em desequilíbrio, botando em risco não a ida a uma festa, a compra de um vestido ou uma unha quebrada, mas ameaçando a continuidade da vida. Para cada anúncio de está tudo bem, quanta notícia de desesperança, de dor e de solidão. Não é uma sala onde abunda energia de alegria. O ambiente é pesado e, por falar nisso, toda a decoração, cor, iluminação, é tudo triste e te convida a sair dali o mais depressa possível.

 

E foi o que fiz. Saí dali o mais rapidamente que consegui, mas já me sentindo tão desesperançada, tão triste que nem sei dizer. Aquele é um lugar que só existe porque tem gente doente que precisa de ajuda, de acolhimento de atenção, de compaixão, sem falar em respeito e consideração, qualidades que são fáceis de reconhecer no primeiro olhar, no sorriso da chegada, não só no cabelo uniformizadamente puxado para trás e as unhas feitas. É preciso nos refazermos. Todos.

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De imereceres

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Tem vezes que me encanto
com a vida e seus encantos
noutras choro a cada hora
me derreto em cada canto

 

nada é como a gente quer
um dia isto noutro aquilo
e vice-versa se você quiser

 

pego a direita hoje
a esquerda na parte da manhã
provo daqui
me queimo ali
tem dia que me sinto homem
tem outro que sou plena mulher
porque nada é de um jeito só
ou do jeito que a gente quer

 

há mundos há fundos
na mente que mente
no coração que sente

 

ele torce
ela distorce
ou vice-versa
se é assim que você quer
um pega o garfo
quando o outro se serve da colher

 

cada um tem o que merece
repito o que sempre disse meu pai
mas não sei não se acredito
nesse tal de merecer
de crime e castigo duvido
vivo dentro e fora
corro atrás de mim

 

deixo o não-dito pelo dito
seja ele bem dito ou mal
afinal sou eu a leiga
mas quem é que é erudito
?
pinto e bordo
aprendo na boa ou não
mas agradeço pelo assim e pelo assado também
que se não se tem tudo o que se quer

 

um dia chega
um dia passa
tanto já passou e passará
sempre
como
se
e quando der

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De mudança de vento

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Grande parte do tempo percebo pelo menos dois estratos de realidade. O que parece nascer de dentro e o que eu poderia jurar que vem de fora. Pulso em todas as latitudes e longitudes, é verdade, mas não alcanço tantas nuances. Sinto no escuro. Entrego à minha essência boa porção do meu ego, mergulho no roteiro e acredito na trama. Ou não. Sinto-me carimbada por eventos que se originam num ponto onde moram presente, passado e futuro. Pulso na herança genética e na dosagem de cada ingrediente da minha receita. Minha pele se expressa, e meus olhos confessam.

 

meu sangue corre
e tropeça em obstáculo
feito de tudo que comi
pensei
falei
bebi
senti
ouvi
vivi
vi

 

É viciante, contorcer-se para se adaptar ao reino do Senhor do Tempo, onde regem em triunvirato presente, passado e futuro.

 

será desviver
?
prova perdida
no aceno de largada

 

resistir ao conviver
?

 

É possível ficar menos e ao mesmo tempo mais resistente, se me entende. Menos espaço, mais gente; mais violência, menos compaixão. Acreditei que vivia um tempo de cada vez. Hoje posso adaptar o colorido do passado ao formato e disposição do destino desenhado. Escolho quem retoca o som, a cor e a imagem da tela do meu tempo, e vou em frente.

 

Sou cara e sou coroa, sou verso e reverso, côncavo e convexo. Lady e vagabundo, bela a fera. Ser e não-ser.

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De confissão

 

Por Maria Lucia Solla

 

Rosa

 

sabe a ladainha de
vou levando a vida
como se fosse um fardo
do bonzinho injustiçado
?
quanto mais rezo
mais assombração aparece
?

 

Canoa furada
!

 

Mas quem não entoa ou não entoou o mantra sinistro. Viés para vitimismo, aiai-de-mim, me-ajuda-Pai, quando ninguém se voluntaria para ajudar a remar o barco, porque está todo mundo remando o seu; pelejando para não fazer água, também.

 

Pai faz assim olha
e dá-Lhe receita

 

Afasta esse encosto da minha vida, traz o afastado e encosta ele em mim, que não dou conta da ausência que leva a luz da permanência. Acende a luz no meu viver, reforma o presente que Você me deu. Recebe ele de volta, desembrulha e faz funcionar. Brinca, Você, com ele. Abre meu caminho para dinheiro, amor, amizade, alegria, saúde. Não necessariamente sempre na mesma ordem, mas basicamente é esse, o terço. Ou não é? Me emagrece, me enriquece, me satisfaz, me livra do que não quero e me dá e-xa-ta-men-te o que eu insisto em ter. Me entupo de porcaria, fumo, bebo, caio na gandaia mais do que o meu corpo aguenta, me boicoto, boicotando o mundo à minha volta. Não li o manual que acompanha o pacote da compaixão, e desconheço para que serve, mas me dá isso tudo, mesmo assim. De mão beijada, ou em troca de oração, contrição, contribuição.

 

Que parte é do “Seja feita a Tua vontade, assim na Terra como no Céu” que a gente não entendeu?

 

Ação reação
com mínima previsão
página em branco

 

Minha cabeça e meu corpo redemoinham. Desfoco o pensar de caso pensado. Me agarro no sentir com a mente, e no pensar com o coração. Consciente da postura de todos os corpos. Menos harmonia que postura. Nada filosófico. Pão-pão-queijo-queijo da carona do Ser. E respiro. Ah! como preciso me lembrar de respirar. O tempo todo.

 

Nesse caminho chego à conclusão – que dura cada vez menos e se afasta cada vez mais do definitivo – de que meu ritual religioso favorito é viver; estar o mais acordada possível para não perder nem mesmo o sabor do maior dissabor. O mais acordada possível para não abrir frestas no tic-tac que não tem pause, por onde o tempero da vida possa escoar, incentivado por fantasmas da suposição e do medo.

 

Escrever me fortalece, me abre portas para mais e mais incertezas, me faz perceber melhor a vida. Não sei, talvez nenhuma das sensações acima, mas o certo é que me faz sentir bem. Recompõe minhas energias, tipo o sono. Sinto e escrevo. Cara e coroa, tic-tac, coroa e cara. Dou o primeiro passo, colho um ramo de ânimo-do-campo para o segundo e, se não consigo o combustível suficiente para o segundo passo, aceito a limitação e me entrego à não-ação, no inspirar e expirar que é expressão de vida, e não impeço “que o ciclo evolutivo do planeta cumpra o seu dever”. Lavo louça, cozinho, preparo aulas, dou aulas, estudo, leio, crio, lavo o terraço, cuido da casa e de seus viventes, sonho, divago, mas me trago de volta ao reino do divino, o tempo todo, sempre que o ego tenta se meter de pato a ganso. E agradeço. Milhões de vezes por dia.

 

Fico sem gasolina na rua, a testa enruga, viciada, e eu aliso a danadinha, faço o que precisa ser feito e anoto na lista de não-deixar-que-aconteça-de novo, que já ignorei mais de uma vez. Vivo passo a passo, no um-dois-três, acreditando no que sempre disse minha mãe – que esteve hospitalizada no mês passado e já está melhor – Isso é vida!

 

Tenho Deus no coração, nos rins, no bulbo capilar, na solla dos pés e na crista da onda. Sou religiosa. Como não ser? Mas sinto que somos Sua criação, Sua expressão, e não Seus filhos. Essa coisa de Filho é muito esquisita e me arrepia porque humaniza o divino e formata o informatável. Estratifica, faz esquecer que o ser-humano não é Sua única expressão. Será que o Deus que louvamos é o Deus que nos criou, ou aquele que criamos nós, à nossa excelsa imagem e semelhança?

 

Escrever me permite perceber quantas respostas existem para cada pergunta e também me leva a encontrar e a reparar sempre mais um furo no casco da minha canoa. O que sou e tenho é o que sou e tenho, E agradeço. Agradeço por tudo. Não ajoelhada, não paramentada, não rotulada, mas a qualquer hora do dia e da noite e em todo lugar.

 

agradeço à Vida
com a boca de tudo que é
da falta
da fartura
do sonho
do medonho
do Pai João
do Cramunhão

 

agridoce
pura magia
Vida com sabor de alquimia

 

obrigada Criador
!

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De passado que não vira presente

 

Com a primavera, quem volta ao Blog é nossa companheira Maria Lucia Solla, que aproveita de suas lembranças para retomar a caminhada ao nosso lado. Maria Lucia sempre esteve conosco aos domingos e estes seguem reservados a ela, apenas desta vez, provocado pelo tema importante das eleições que se aproximam, fiz questão de tê-la de volta ainda nesta segunda-feira:

 


Por Maria Lucia Solla

 

Olá,

 

falávamos de partidos, lá em cima no terraço, meu filho e eu, e lembrei de um texto publicado no blog do Mílton Jung, em 28.10.07, portanto há cinco anos e onze meses. 

 

Este é o texto:

 

De partidos partidos
 

 

dom, 28/10/07

Olá,

 

Tem-se discutido muito, e acaloradamente, sobre partidos e parlamentares e sobre o fato de estes trafegarem por aqueles, ao aceno da mínima vantagem. Ser da direita ou da esquerda não é mais uma questão de sentar-se à esquerda ou à direita do plenário, como em idos tempos, não é, Dr. Anderson? Os partidos por sua vez querem que o mandato e o parlamentar lhes pertençam para terem munição, estamos em guerra e não percebi. De todo modo, fica claro que se foi o tempo de convicções e de construção da democracia. Romântica e femininamente, imagino um tempo em que alguns governavam – leia-se trabalhavam – enquanto outros davam duro fiscalizando. De olho, implacáveis. Ao menor deslize, a turma no comando pulava miúdo. Mas se houve esse tempo, durou até que alguém percebesse que, por lá, dava para dar menos duro e ganhar mais mole.

 

E foi como água mole em pedra dura que a idéia fixa dessa meta se infiltrou e se alastrou feito praga, por todos os lados. A gente, então, começou a vender os próprios pensamentos, a entregar as paixões, crenças e a própria identidade, em troca de não viver, já que isso dá um trabalho danado. Ficou anestesiada de tanto fingir que estava tudo bem, para não sair do conforto da poltrona. E a coisa foi crescendo tanto e tão velozmente, que se romperam os diques e a lama transbordou, nos cobriu e sufocou. E a gente? Acostumou.

 

Pense comigo, nosso país é de terceiro mundo, somos pobres, não temos água, luz, estradas, transporte, saúde pública, educação, e nem comida para todos. E o que fazemos? Mantemos aparências esfarrapadas com uma criadagem política despreparada, sem experiência, sem cultura nem educação, que oferece, em bandejas de plástico, migalhas aos seus patrões, e nós os tratamos a pão-de-ló, com água mineral e bebida importada, servidas por copeiros em bandeja de prata, mesa farta, carros de luxo, um batalhão cada vez maior de subalternos, e avião importado.

 

Minha sogra abomina quem come mortadela e arrota peru. Pois é, dona Ruth, parece que nossa nação não anda bem de digestão.

 

Enquanto isso, países de primeiro mundo, com população mais rica, com pleno acesso a educação e saúde, e onde nem se imagina o que seja a dor de passar fome, têm muito menos empregados do que nós.
Voltando aos partidos, eles também geram aberração e mensalão. É o tal do cada um por si, do salve-se quem puder, coisa de republiqueta de quinta.

 

Portanto, enquanto nós, viventes do mesmo chão, continuarmos a contratar a corja, ela continuará oferecendo privilégios e benesses, aos que estão abaixo, acima, à direita e à esquerda, para eternizarem a farsa e o assalto miúdo às nossas carteiras e à nossa dignidade, as quais temos entregado de bandeja, como se nada valessem. Não é para isso que supostamente evoluímos como seres humanos, e que somos considerados cidadãos

 

Pense nisso, e até a semana que vem.

 

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.

A obsessão pelo amanhã

 

Por Abigail Costa

 

Doses diárias de informação, pitadas de otimismo e assim vamos de segunda para terça, quarta…. E termina a semana para começar tudo de novo. Mas nem sempre o tempo segue a regra de um dia depois do outro. A informação que serviria para nos dirigir a pensamentos mais humanos cai em cabeças erradas e entra em cena o pessimista. Aquele que para tudo tem um “sei não!” ou “tô preocupado!”. Sim, todos temos lá nossas preocupações e não devemos menosprezá-las. Ninguém pede que os olhos sejam fechados para a realidade de hoje. A de hoje, não a de amanhã.

 

Também sei que o planejamento é um luxo necessário, assim como o otimismo. Mas sem exageros, por favor. Outro dia passei no shopping, olhei a vitrine da loja e elas, as árvores de Natal, já estavam lá. Enfeitadas com dezenas de luzes piscando. Fiquei meio perdida. Agora há pouco não foi sete de setembro, data festiva, marcando a Independência desta terra tão querida? Era como se tivesse recebido um recado para acelerar as coisas, os passos, a vida. Mais à frente tem ainda Dia das Crianças, dos Professores, a semana do saco cheio… Hoje mesmo tem tanta coisa para acontecer antes do Natal.

 

É a obsessão pelo amanhã. Verdade que o comércio precisa pensar com antecedência e entendo que empresas nesta época já pagam parte do décimo terceiro salário. Compreendo toda a logística do negócio. Mas confesso a minha fragilidade em aceitar a chegada do Natal em setembro. De sofrer agora, antes das eleições, por temer que a cidade não ficará em boas mãos, ou que as previsões para o ano que vem são de um crescimento tímido.

 

Quando tenho consciência de que estou fazendo minha lição de casa de forma correta, leal e honesta, o pessimismo me incomoda. Hoje será sempre meu dia preferido para realizações.

 


Abigail Costa é jornalista, faz MBA de Gestão do Luxo e escreve no Blog do Mílton Jung.

Poesia à Sonia

 

Por Julio Tannus

 

Hoje, 25 de setembro, é dia do aniversário de Sonia, minha companheira de sempre. Em 28 de agosto último, completou 1 ano de seu falecimento. Permito-me aqui, prestar uma homenagem a ela, republicando uns versos que fiz. Em uma de tantas noites na vigília, eu escrevi:

 

A Sonia, minha queridíssima mulher e companheira, tem um espírito tão forte e livre – uma imensidão de liberdade – que, quando seu corpo ficou doente, ela repetidamente dizia “meu corpo me abandonou”. Após quase 9 anos de luta incessante, seu corpo a abandona, mas seu espírito paira sobre nós.

 

E na véspera de seu falecimento, ao pé de sua cama, eu também escrevi:

 

Uma Ode a Sonia amiga

Oh! Sonia querida. 

Hoje não tem alegria, só tristeza.

Você que alegrava meu silêncio com seu olhar;

Você que tirava minha solidão com sua presença;

Você que conquistava meu coração com sua coragem;

Você que carregava a tristeza de tantos com sua sabedoria; 

Você que iluminava a escuridão de todos com seu pensamento;

Você que diminuía a dor de muitos com sua generosidade;

Você perdeu seu corpo, mas ganhou o olhar de todos nós;

Oh! Sonia querida

Hoje não tem alegria, só tristeza…

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

De sábado

 

De sábado

 

hoje é sábado
ensolarado e calmo
da janela o céu de brigadeiro
pincelado desenhado bordado
no bairro o silêncio
que me faz bem
e aproveito o quanto posso
o tic-tac da manhã

 

se não preciso acordar cedo
acordo só pra curtir o barato de viver
o cão late lá fora
a moto passa roncqndo
nem longe nem perto
o cão curte o seu som
o motociclista o seu
e eu o céu

 

o sol ilumina
aquece meu corpo
e me sinto renascer
sem medo de ter que crescer de novo e de novo
como vezes e vezes tantas
neste viver

 

o renascer de coisa que nem consigo detectar
durante o seu desabrochar
mas que deixa um gosto na boca
de alegria com uma pitada de birra
de esperança e desesperança
um gosto de vida

 

isso é vida!
sempre disse minha mãe
pra todos e tudo
bom ou ruim
a mamãe não é filósofa porque não cursou filosofia
mas criou a própria
na projeção da alegria
no sufoco da tristeza vivida ou assistida

 

isso é vida! dizia para a cunhada querida quando surgia um problema
isso é vida! dizia para as sobrinhas quando brigavam com o mais amado da vez
ou quando estavam de cara com o pai mais rígido e babão que poderiam desejar

 

com o afastar
nos damos conta disso
o ruim fica mais leve
quando a vida põe finalmente
tudo na balança
e a saudade nos alcança

 

até os passarinhos estão mais quietos
chegam na janela
e olham como se dissessem
e aí nana
cadê a banana
já, já agora não dá
estou aqui matutando
não atrás de resposta
sentindo sem procurar
só pra dar ao meu sentimento
um sentido

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Aqui e Agora


 

Por Julio Tannus

 

Tudo indica que experiência e maturidade não têm mais vez em nossa atualidade. O “aqui e agora” parece ser prevalente. É o que nos diz o sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Um dos teóricos mais importantes da atualidade, Bauman dedica os seus estudos, ensaios e obras à interpretação da modernidade e da época pós-moderna. Segundo o autor, vivemos um mundo cada vez mais fragmentado pelas paixões e confusão ética e cada vez menos afeito a unidade, razão e consciência ética.

 

Em Vida Líquida, seu mais recente livro, demonstrando uma impressionante capacidade de perceber e analisar a vida social, Bauman chama a atenção para os problemas que a atual estrutura social e econômica suscita no ser humano hoje, ou seja, entre a necessidade de se adequar ao ritmo “destrutivo-criativo” dos mercados e o medo de ficar defasado, tornar-se dispensável.

 

Para o autor o que importa na vida atual não é a duração; unicamente a velocidade. Bauman nos lembra de uma epígrafe, citando Emerson: “Quando patinamos sobre gelo quebradiço, nossa segurança depende da nossa velocidade”, outra vez como no jogo das cadeiras, onde a cada intervalo da música sempre sobra alguém sem lugar para sentar. Mas, por mais velozes que possamos ser nada nos garantirá que, na próxima música (que se dança agora mesmo), não sejamos passados para trás.

 

Além disto, a “vida líquida” não pode ter apenas uma direção, mas muitas. Trata-se de “ligar-se ligeiramente a qualquer coisa que se apresente e deixá-la ir embora graciosamente”. Segundo o sociólogo, a precificação generalizada da vida atual impõe uma condição humana onde predominam o desapego e a versatilidade em meio à incerteza, exigindo estar-se na vanguarda constantemente.

 

Dentro deste contexto, o autor considera que “as realizações individuais não podem solidificar-se em posses permanentes porque, em um piscar de olhos, os ativos se transformam em passivos, e as capacidades, em incapacidades”. Ou seja, as condições de ação e as estratégias de reação envelhecem muito rapidamente e se tornam obsoletas. Assim, aprender com a experiência a fim de se basear em estratégias e movimentos táticos empregados com sucesso no passado é pouco recomendável.

 

Trata-se de uma visão bastante interessante sobre os mecanismos atuais nos quais todos estamos inseridos. Vale a pena sua leitura!

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada, co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier) e escreve às terças-feiras no Blog do Mílton Jung

De luxo

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Adoro domingo. Acordo com certeza daquilo que quero e do que não quero e me deixo levar pelas surpresas do dia, se houver. É o descompromisso com o externo que me encanta. Os minutos passam, os eventos batem à porta, quando batem, e eu abro ou não. Posso ler, escrever, pensar, meditar, dormir, ver uns filmes, comer pipoca, cozinhar se me der na telha, criar, ouvir música, papear, aprender. Tem luxo maior? Um dia inteiro pra mim; oportunidade escancarada de ficar comigo mesma e com aqueles que amo e que me fazem bem, de preferência sem sair do meu ninho.

 

Ah! se a gente pudesse sempre praticar o ócio criativo sem culpa. Se a gente se aceita e gosta da própria companhia, então é um prato cheio. Jardim, sol e um bom livro que me leva a memórias e sonhos que tecem em mim um presente de infinitas dimensões. Minha oficina cheia de pano, linha, flor, brilho, renda, chita, botão, recheio… um exército de seres inanimados se oferecendo para vir a ser.

 

Valentina na caminha curte o seu presente, e nos fazemos companhia silenciosa e compreensiva, cada uma a seu modo. Estamos juntas há quatro anos e respeitamos nossos limites numa dança bem dançada, sem pisar nos pés uma da outra. Quando quer comer ou beber água senta na minha frente, dá lambidinhas no focinho, e fica me encarando, um olhinho no norte e o outro no nordeste, o que lhe confere um charme irresistível.

 

iPad e iPhone na mesa redonda – sou macmaníaca assumida – para ter a possibilidade de manter contato com o mundo lá fora. Faz anos que cancelei minha assinatura de jornal diário. Compro quando quero, leio o que quero, onde e quando quero. Isso é luxo!

 

Sempre que mergulho em mim vejo muito mais e melhor o lado de fora, ouço o chamado de uma florzinha rara que brota valente num vaso abandonado e superlotado, recebo a visita barulhenta de pássaros famintos pela banana fincada na primavera, brinco de alquimista no fogão e me emociono com a delícia de um simples omelete com pão fresquinho e uma salada de tomate e cebola só com azeite e sal, ou simplesmente gelatino no sofá. Neste inverno relâmpago que atinge São Paulo mantenho a lareira acesa, vivinha, e fico lendo as formas que o fogo me oferece. Curto meu filho e nossas cachorras e a chegada de um amigo aqui, outro ali, pra tomar um café e só ficar perto, falando abobrinha e rindo muito.

 

Calça de pijama divertida, chinelos comprados em Embu das Artes – numa tarde deliciosa com o Cláudio, a Karen e a Sofia, dando muita risada -, meias tricotadas pela minha sogra, a Dona Ruth, que me conhece muito bem, e… preciso de mais?!

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung