Dez Por Cento Mais: Mariza Tavares defende prazer sem prazo de validade

“Assim como a longevidade, a sexualidade também é uma construção.”

O envelhecimento transforma o corpo e o desejo, mas não encerra a possibilidade de prazer. A falta de diálogo, o preconceito contra pessoas mais velhas e o desconhecimento sobre a própria sexualidade ajudam a alimentar a ideia de que a vida sexual termina depois dos 60 anos. A relação entre longevidade, intimidade e bem-estar foi tema da entrevista da jornalista e escritora Mariza Tavares ao programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa, no You Tube.

Autora do livro Sexo 60+: prazer sem data de validade, Mariza organizou a obra em 60 verbetes. A estrutura permite que cada pessoa procure diretamente os assuntos relacionados às próprias dúvidas e experiências.

“Não é porque elas envelheceram que elas se transformaram em outra coisa”, afirmou. A autora reconhece as mudanças provocadas pela idade, sem tratá-las como uma sentença: “O corpo muda, né? O desejo muda, mas tem muita alternativa para a gente trabalhar.”

Segundo Mariza, a proposta do livro é estimular a reflexão e abrir espaço para conversas ainda evitadas por muitas famílias, casais e profissionais de saúde.

“Isso é só um ponto de partida. Para a gente pensar sobre sexo, falar sobre ele, descobrir”, disse. “É um convite: Gente, vamos falar sobre isso porque é importante e faz parte da nossa saúde física e mental.”

Mulheres enfrentam mais preconceito

O silêncio sobre a sexualidade na velhice não atinge homens e mulheres da mesma maneira. Para Mariza, o preconceito de idade recai primeiro sobre as mulheres, especialmente a partir da menopausa.

“Nós, mulheres, somos o primeiro grupo a sofrer o etarismo”, afirmou. “É a mulher entrando na menopausa … aquela que é descartada, como se dissesse: ‘Você já não faz mais parte do jogo’.”

Esse processo também está relacionado à maneira como muitas mulheres foram ensinadas a avaliar o próprio corpo. Em vez de construírem uma percepção própria, passam a depender da aprovação externa.

“As mulheres crescem percebendo e se entendendo pelo juízo alheio”, disse Mariza. “Ela não consegue gostar de si mesma se não tiver uma chancela externa.”

Com o envelhecimento, a distância entre a mulher e o próprio corpo pode aumentar. “Você vai se afastando do espelho, você vai se afastando do próprio corpo”, afirmou. Esse afastamento interfere na autoestima, no desejo e na disposição para viver novas experiências.

Mariza também chama a atenção para mulheres que passaram décadas sem conhecer o próprio prazer. Algumas não tiveram parceiros atentos, não exploraram o corpo e viveram relações nas quais o sexo esteve associado mais à obrigação do que ao bem-estar.

“Se você não teve um repertório, não tem um repertório positivo dessa experiência, você vai se desinteressar”, explicou. “E sexo, quanto menos você fizer, parece que menos vontade você tem.”

A sexualidade, segundo ela, não depende necessariamente da presença de um parceiro. “A masturbação é considerada uma forma de autocuidado”, afirmou.

O corpo muda, mas continua sendo fonte de prazer

A valorização excessiva da juventude reforça a falsa ideia de que apenas corpos jovens podem despertar desejo ou proporcionar prazer. Para Mariza, é preciso abandonar essa associação.

“Essa sociedade fica endeusando a juventude, como se só aquele corpo perfeito pudesse dar prazer”, disse. “Esse é o teu corpo, a funcionalidade está ali, e você tem que aprender a amá-lo, porque senão você também não vai tratar dele bem.”

A experiência acumulada ao longo da vida pode favorecer o conhecimento sobre desejos, limites e preferências. “Quanto sexo de má qualidade nós tivemos na juventude, porque não conhecíamos tanto o nosso corpo”, observou. “O envelhecimento traz uma experiência sobre o seu prazer, sobre o seu desejo e aí a gente vai jogar fora. Não faz sentido.”

Mariza propõe uma retomada gradual da intimidade, semelhante à volta de uma pessoa sedentária à atividade física.

“A gente tem que pensar sobre isso e começar devagarinho, como se você fosse um sedentário que vai voltar a fazer exercício físico”, afirmou. “Vai testando, vai vendo, vai perdendo aquela inibição.”

Conversar também faz parte da intimidade

A comunicação aparece como elemento central para a manutenção ou a reconstrução da vida sexual. Muitos casais deixam de falar sobre desejo, desconforto, fantasias e mudanças físicas. Aos poucos, o silêncio produz afastamento.

“É conversar porque você não fala. Então, fica maratonando série, mas não se pega, não se aperta”, disse Mariza.

Uma das possibilidades mencionadas pela escritora é reservar um momento para que o casal volte a se perceber. A intenção não é transformar o encontro em obrigação, mas recuperar a sedução e a troca de afeto.

“Você vai se arrumar, você vai lembrar do processo de sedução”, explicou. “Criar uma atmosfera, porque realmente a convivência vai aplainando demais as coisas. Então isso amortece um pouco o desejo.”

A intimidade também não precisa estar limitada à penetração. “O meu prazer vai se intensificar se eu tiver intimidade e me sentir segura com aquela pessoa”, afirmou. “Entre quatro paredes, desde que tenha consentimento, que tenha respeito, que você não vá causar um mal ou uma dor a outra pessoa, tudo é possível.”

Nos relacionamentos marcados por mágoas, agressões verbais e ressentimentos, a reconstrução exige um esforço maior. Em algumas situações, pode ser necessária a ajuda de um terapeuta.

“Eu acho que as pessoas têm que se perguntar: qual é a qualidade da vida que eu quero com o parceiro ou a parceira que eu tenho em casa?”, disse.

Médicos também precisam falar sobre sexo

Mariza critica a ausência de perguntas sobre sexualidade nas consultas médicas de pessoas mais velhas. Segundo ela, muitos profissionais acompanham as mulheres durante o período reprodutivo, mas deixam de abordar o assunto depois da menopausa.

“Que médico ginecologista vai perguntar para sua paciente: ‘Então, como é que está a sua vida sexual? Quantas vezes você transa? Você sente dor?’”, questionou.

Para a escritora, essas perguntas devem fazer parte da avaliação de saúde. O diálogo pode ajudar a identificar dores, desconfortos, incontinência urinária, dificuldades de ereção e outras condições que interferem na qualidade de vida.

“Isso tem que fazer parte de uma anamnese, assim como vai pedir exames de sangue e tudo mais”, afirmou. Anamnese é a conversa inicial em que o profissional reúne informações sobre o histórico, os sintomas e os hábitos do paciente.

A falta de comunicação também pode afastar casais quando surgem problemas de ereção. “Tudo passa pela penetração”, observou Mariza ao comentar a maneira como muitos homens aprenderam a compreender a própria sexualidade. “Quando, assim, qualquer relacionamento, o aconchego, a intimidade pode ser construída por diversas maneiras.”

Ao resumir o principal mito que gostaria de desfazer, Mariza reforçou que o corpo permanece disponível para novas formas de intimidade:

“Por favor, não se esqueçam que o seu corpo, ele é amigo do deleite e esse deleite pode se estender indefinidamente.”

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Desinformação faz mal para o coração

Cardiologistas estão preocupados com os efeitos da desinformação na área da saúde e aproveitam o mês de fevereiro, quando temos o Dia da Internet Segura, para discutir o tema em videocast. Tive o privilégio de ser convidado para compartilhar parte da minha visão sobre o assunto e, ao mesmo tempo, entender o quanto é danosa a forma irresponsável com que conteúdos relacionados à saúde são abordados por influenciadores, alguns da própria área médica.

O programa foi mediado pelo dr Pedro Duccini, coordenador da Cardiologia do hospital Vivalle Rede D’or São Luiz, e teve a presença do dr Lorenzo Tomé, professor universitário e CEO da SDConecta, uma plataforma de comunidades médicas.

Duccini me provocou a lembrar de mentiras que circulam pela internet e estejam relacionadas à área da saúde. 

Por curioso, havia deparado com uma delas no mesmo dia da gravação. Um ouvinte do Jornal da CBN me enviou mensagem que circula em WhatsApp sobre um suposto vírus mortal e sem sintomas que estaria devastando comunidades e, claro, para o qual não se dava publicidade para não prejudicar o Carnaval brasileiro. Na mensagem, estava o link de uma fala de Tedros Adhanom, diretor-geral da OMS, sobre o assunto. 

Fui pesquisar e logo descobri que a gravação de Adhanon se referia a um alerta para que os países estejam preparados para futuras pandemias e não se referia ao tal vírus “escondido pela grande mídia”. Apesar de essa desinformação não prejudicar a saúde da população, dissemina o pânico e tira o foco do que realmente é importante. 

Outra mentira disseminada nas redes sociais é a que assistimos no Brasil em defesa da venda de cigarros eletrônicos. Patrocinada por fabricantes do produto, a campanha pela liberação dos vapes tenta convencer legisladores, comunidade médica e população em geral de que esse “cigarro”em formato de pendrive reduz os danos do cigarro convencional. A verdade é que causa danos aos pulmões e mata.

Na lista de desinformação podemos incluir as fórmulas mágicas de emagrecimento, as dietas da moda que fazem milagres no corpo humano e os multivitamínicos que prometem curar uma enormidade de doenças e prevenir de tantas outras. 

E por aí vemos como é árdua a batalha contra o que se determinou chamar de “fake news” (contra a minha insignificante vontade). Há interesses milionários por trás dessas informações falsas, há a ansiedade das pessoas em encontrarem fórmulas fáceis para resolver problemas complexos, há falta de tempo e paciência para apurar a verdade e há tecnologia suficiente para engajar cidadãos a este conteúdo. Uma sinergia de fatores que pode levar as pessoas à morte, o que me permite dizer que desinformação faz mal para o coração.

O videocast Conexão SOCESP, produzido pela Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, estará no ar em breve.