De sábado

 

De sábado

 

hoje é sábado
ensolarado e calmo
da janela o céu de brigadeiro
pincelado desenhado bordado
no bairro o silêncio
que me faz bem
e aproveito o quanto posso
o tic-tac da manhã

 

se não preciso acordar cedo
acordo só pra curtir o barato de viver
o cão late lá fora
a moto passa roncqndo
nem longe nem perto
o cão curte o seu som
o motociclista o seu
e eu o céu

 

o sol ilumina
aquece meu corpo
e me sinto renascer
sem medo de ter que crescer de novo e de novo
como vezes e vezes tantas
neste viver

 

o renascer de coisa que nem consigo detectar
durante o seu desabrochar
mas que deixa um gosto na boca
de alegria com uma pitada de birra
de esperança e desesperança
um gosto de vida

 

isso é vida!
sempre disse minha mãe
pra todos e tudo
bom ou ruim
a mamãe não é filósofa porque não cursou filosofia
mas criou a própria
na projeção da alegria
no sufoco da tristeza vivida ou assistida

 

isso é vida! dizia para a cunhada querida quando surgia um problema
isso é vida! dizia para as sobrinhas quando brigavam com o mais amado da vez
ou quando estavam de cara com o pai mais rígido e babão que poderiam desejar

 

com o afastar
nos damos conta disso
o ruim fica mais leve
quando a vida põe finalmente
tudo na balança
e a saudade nos alcança

 

até os passarinhos estão mais quietos
chegam na janela
e olham como se dissessem
e aí nana
cadê a banana
já, já agora não dá
estou aqui matutando
não atrás de resposta
sentindo sem procurar
só pra dar ao meu sentimento
um sentido

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De simplesmente existir

 

Por Maria Lucia Solla

na contramão deste mundo
eu quero alegria
e quero daquela infantil
declarada
sem medo do gargalhar
alegria do tipo que teme
pouco
ou nada

alegria
sem tempo de esconder
à luz do mundo
as rugas
da idade da saudade

quero romper a barreira do som
com meu riso atrevido
que revela
intensidade
e beleza
de tudo o que tenho vivido

quero gritar
na fronha escandalizada
espreguiçar
mesmo que amanhã
me ponha
de novo
a chorar

quero chorar
sim
e quero chorar de rir
ou rir
depois de chorar
mas sem precisar
entender
se estou a chorar
a rir
atriz
a fingir

quero querer
sem questionar
se realmente quero
o que penso querer

quero viver
sem o limite
dos corpos
quero ser
um

com você

quero negar a dor
abraçar o amor
posicionar o medo
no seu devido lugar
quero viver a vida
no real
de mãos dadas com o sonho
e ser
simplesmente
existir!

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, simplesmente (nem sempre) escreve no Blog do Mílton Jung.

De céu e inferno


Por Maria Lucia Solla

Ouça “De céu e inferno” na voz da autora

Angustia

há dois modos apenas
de curar a vida
lamber a ferida
ou roer
as
penas

há dois modos da boca sorrir
arrastar a cara com ela
ou com a cara amarela

rir

há dois modos de ser amada
dançar ao som do amor
driblar aqui ali a dor
ou partir para o jogo do tudo
ou
nada

há dois modos de ser
ser na vida ser com ela
ou assistir da janela
e de inveja
pa
de
ser

há dois modos de chegar ao céu
reconhecer o inferno
partilhar com ele o denso véu
ou negar o demo e vagar
ao
léu

há dois modos de dizer a que veio
pular na frente
vim
gritar de trás olha eu aqui
enfim
ou estagnar na fileira
do
meio

há dois modos de sonhar
assistir ao sonho do outro
esticar o pescoço torto
ou sonho a sonho
or
ques
trar

há dois modos de beijar
a alma nos lábios do outro entregar
ou sonegar
sonegar

negar

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza cursos de Comunicação e Expressão, aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung provocando nossos sentimentos de todos os modos.