De amores e leis

Por Maria Lúcia Solla

Olá,

Talvez fosse interessante pensarmos na possibilidade da aprovação de leis que regulem os relacionamentos com pessoas que acionam o melhor em nós. Em primeiro lugar, deveriam ser proibidas de se afastarem. Após determinado período, cuidadosamente definido conforme o caso, elas seriam tombadas e consideradas de primeira necessidade. Patrimônio da nossa humanidade.

Quando entram na cena, purificam o que chamamos de ar, de tal forma que às vezes precisamos inspirar dobrado para alcançar o passo do coração. Este, por sua vez, se alia aos pulmões, e os dois alimentam e impulsionam o resto do sistema. Aí sim, a casa se põe em festa, e nos tornamos radiantes, receptivos e doadores, na justa medida – às vezes nem tão justa assim. Quando surgem no cenário, as luzes se acendem. O cinza se transforma em arco-íris, e tudo começa a fazer sentido. São definitivamente milagreiros, os que vêm e ficam para sempre, os que ficam por algum tempo – sempre curto demais – e os que apenas se insinuam, deixando um gostinho de pouco, dentro de nós. Mas quando um deles vira as costas e se vai, fica uma saudade de fazer dó.

Conseguem desenterrar, sabe-se lá através de que sortilégio, tesouros que nem sabíamos possuir. E o poder de suas presenças é tão grande que transforma em mágicos os momentos corriqueiros, suavizando os que considerávamos insuperáveis. Se olhássemos bem, com certeza veríamos, em suas mãos, um controle remoto, esquecido no estúdio de filmagem de uma película de ficção científica. Sem dúvida, é o que usam para controlarem a freqüência da vibração de nossa estrutura celular, nos tornando mais saudáveis e mais belos, e nos levando a resgatar a curiosidade e a coragem de viver.

É nessas pessoas que depositamos a responsabilidade pelo brilho nos cabelos e pelas estrelas que insistem em escapar-nos do olhar. Que poder é esse que extrai de nós o melhor som, o melhor cheiro e o melhor sorriso? O mundo circunstante agradece pelo resultado e faz de tudo para se juntar à festa. Cuidamos de detalhes há muito postergados, enchemos os vasos de flores, tomamos vitaminas, checamos a data de validade de cremes esquecidos no fundo do armário, e sentimos tamanho prazer de viver que só o que queremos é eternizar a experiência. Não se imagina a vida sem elas, para acionarem todos esses comandos e servirem de espelho, através do qual vamos, aos poucos, nos reconhecendo.

Agora, ao saírem de perto, deveriam ser obrigadas a deixarem para trás, como legado, o encantamento, para que os cabelos não perdessem o brilho, e os cremes não se esgueirassem de volta para o antigo esconderijo. Acima de tudo, essas pessoas deveriam ser proibidas de levar consigo a nossa luz. E nós, proibidos de passar a vida pulando entre a doçura do passado e a desesperança do futuro, fugindo do presente como o diabo da cruz. Não viveríamos na quase-morte porque a ausência do outro não levaria consigo nem o ar de nossos pulmões nem o sangue de nossas veias. A magia de suas presenças permaneceria ativa, para sempre.

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.

2 comentários sobre “De amores e leis

  1. Texto magnífico.Eu gostaria de ter escrito essas palavras que me remeteram a tempos incríveis, em todos os sentidos. É o meu primeiro contato com Maria Lúcia e não será o último. Palavras que calam fundo, mas que são de uma extrema leveza.

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