O motorista que assumiu o lugar do governador de São Paulo

No Ponto de ônibus desta semana, vamos acompanhar a segunda parte da história de Manoel Vieira Filho que se transformou em um dos personagens dos 60 anos do trólebus no Brasil. Ele e o pai tiveram suas vidas dedicadas ao transporte de passageiros como vimos no texto de Adamo Bazani publicado em 02.06. Hoje, vamos conhecer curiosidades que marcaram a carreira de Manoel e a família.

Manoel Vieira

A inauguração da primeira linha de trólebus em São Paulo, ligando o bairro da Aclimação à Praça João Mendes foi um momento de glamour na cidade. Autoridades, imprensa, fanfarra e uma multidão admirada com os ônibus importados e modernos, apesar de usados, bem diferentes dos veículos conhecidos até então no Brasil.

A viagem inaugural tinha ao volante do trólebus, um British United Transit Co. (BUT) Inglês, número 3000, o governador do Estado de São Paulo, Adhemar de Barros. Durante três dias que antecederam a inauguração, em 24 de abril de 1969, os funcionários da CMTC tiveram treinamento especial para guiar os trólebus. Obviamente, o governador não passou por este treino. Ao chegar na Conselheiro Furtado, sentido João Mendes, o veículo parou em um semáforo, era ponto neutro de energia e o trólebus parou de funcionar. Explosivo, Adhemar perdeu a pose e gritou: –“Pra mim chega, já foi o bastante, daqui pra frente, você assume e leva a comitiva”.

Ao lado dele estava Manoel Vieira – o pai – que havia se destacado nos treinos para conduzir o veículo: “Lembrar disso me emociona muito, pois meu pai, foi personagem ativo nessa página tão importante da história de São Paulo. Os pés dele foram os primeiros de um profissional dos transportes a acelerar a história desse meio de transporte tão fascinante, limpo e importante que é o trolebus”.

Operar estes carros não era tão simples assim, principalmente nos anos 50 e 60: “Os importados eram bons de dirigir, principalmente os americanos; outros, inclusive os que a CMTC começou a fabricar, eram bons, mas bem mais duros e exigiam esforço maior do motorista. Meu pai e eu sentimos isso na pele, ou melhor, nos braços”

Além disso, a cidade estava crescendo. Algumas ruas eram tímidas frente às dimensões dos trólebus, que eram bem maiores que as jardineiras e ônibus convencionais. Vieira Filho lembra da dificuldade, por exemplo, de entrar com o trolebus da Avenida Nova Cantareira para a Leôncio Guimarães. “Era um terror”.

CMTC: família, amor e profissão

TROLEBUS 46

Manoel Vieira Filho tem a CMTC como uma família. Ele trabalhou por lá de 1977 a 1989. Não bastasse isso, o pai foi funcionário da empressa e o sogro, Waldemar do Nascimento Borges, também.

“Por ser empresa pública, exploravam muito a CMTC. Todos os experimentos, bem sucedidos ou não, eram feitos na empresa. Se alguma mente brilhante de algum político inventasse de colocar um elefante para o transporte coletivo, era a CMTC quem tinha de experimentar e arcar com os custos”, ironiza.

Vieira Filho se recorada das vezes que foi passageiro do próprio pai no carro 3160. “Era uma época simplesmente maravilhosa. Eu tinha um gosto na vida, uma coisa tão boa. O 3160 por muitos anos percorreu a linha que servia Tucuruvi até a região de Cásper Líbero. E eu usava com minha mãe esse carro, guiado pelo meu pai. Com ele ao volante, eu me sentia a criança mais importante do mundo. Meu pai sempre foi motivo de orgulho pra mim”.

Em 1957, diante do aumento da demanda, a CMTC comprou dos Estados Unidos 75 trolebus ACF Brill, usados. Os veículos foram produzidos na Filadélfia entre 1946 e 1947. Nessa época, a CMTC desativou os bondes da Zona Norte de São Paulo e criou três linhas de trólebus. Os ônibus diesel que serviam o Mandaqui, Santa Terezinha e Alfredo Pujol foram substituídos por trólebus, também.

Apesar de ser uma empresa pública, e com problemas peculiares da gestão pública, em seu início, a CMTC tinha um caráter bem familiar. Um pouco disso, herdado das empresas pioneiras do transporte de São Paulo que foram encampadas pela companhia municipal.

Os funcionários era participativos. “Com um abaixo-assinado, meu sogro Waldemar do Nascimento Borges, conseguiu em 1967 criar mais uma linha de trólebus no Tucuruvi. Após reivindicação dele, o então prefeito Prestes Maia autorizou o prolongamento da linha 46, que tinha ponto final no Jardim São Paulo para o Tucuruvi”.

Segundo ele, principalmente nos anos 70, com a crise do petróleo, era notória a economia gerada pelos trólebus.  “Havia uma linha, a 408 – A (Cardoso de Almeida/Machado de Assis) que só era operada por 24 ônibus monoblocos O 362 a diesel. Quando os carros foram substituídos pelos trólebus, mesmo com os gastos de energia elétrica e com o preço maior dos trólebus, a economia de combustível foi espantosa”
Vieira Filho lembra do carinho e dedicação de alguns funcionários. Esse amor foi responsável, segundo ele, pelo trólebus não ter entrado em decadência antes do anos 90.

“Tá vendo esse ACF Brill americano exposto aqui hoje. Ele é de 1947, mas roda até hoje. Ele é de suspensão Tink, ainda original. O freio é na reversão, ou seja, para evitar solavancos que podem desconectar o trólebus da rede aérea, o motorista pisava o pé no freio, mas o veículo só começava a parar quando o pedal era solto novamente. Esse carro pode ser restaurado e hoje está como novo porque ele é indestrutível? Não. É porque havia uma geração que trabalhava com o coração e que a cidade, os transportes e a história devem muito a eles. São alguns heróis anônimos” – fala o ex funcionário da CMTC, cheio de emoção, lágrimas e saudade, referindo-se ao que chama de  “Primeira Geração da CMTC, o pessoal da Garagem do Brás”.

Manoel Vieira Filho lembra de nomes e apelidos dessa geração e se emociona ao recordar da dedicação de todos eles.

“Todo esse desenvolvimento dos transportes teve protagonistas. Gente que não se rendeu à preguiça, às facilidades e foi à luta. Me recordo do Geraldinho, do Tonelada, do Waldemar Venâncio, que deixavam os ônibus e trólebus impecáveis. A maior parte dos veículos era recolhida sábado às 3 da tarde. Em vez de o motorista sair logo e voltar pra casa, sem ter obrigação nenhuma, limpava o ônibus, deixava o veículos brilhando, encerava e toda a segunda de manhã, a população de São Paulo entrava num carro confortável, limpo e cheiroso. Os motoristas tinham até ciúme dos veículos. Meu sogro ficava bravo quando sabia que o ônibus que ele dirigia era operado por outro motorista. Lembro-me do chefe de reforma da CMTC, José Gonçalves. Ele, além de reformar os ônibus, construía quase que num trabalho de arte, carrocerias, trólebus inteiros. Hoje, infelizmente, ele está muito doente, perdeu a visão, inclusive. Me recordo do Valter Fonseca Rabelo, que foi presidente do CMTC Clube até 1997, mesmo após a extinção da CMTC como operadora e gerenciadora.”

A assistência dada pela empresa aos funcionários é outro ponto que faz Manoel Vieira Filho suspirar com saudade.

“Tínhamos atendimento médico, uma colônia de férias maravilhosa, o CMTC Clube desenvolvia várias atividades, Tinha até o famoso torneio transmitido pelo narrador esportivo que marcou história, Raul Tabajara, da TV Record, O Desafio Ao Galo, de times de várzea, como Botafogo da Penha e Aliança de São Bernardo. Quando nasci, em 1948, tinha na empresa, uma assistente social, dona Marta. Aquilo sim que era RH  (Recursos Humanos). Ela propôs e a empresa aceitou e pagavam até as fraldas que eu usava.”

Lágrimas pela CMTC

Manoel Vieira Filho, que trabalhou na CMTC entre os anos de 1977 e 1989, viveu os dois momentos dos trólebus em São Paulo. O do surgimento e do auge, que só lhe traz lembranças boas e saudades; e a decadência do sistema de ônibus elétricos. Além disso, o fim da CMTC deixou marcas em muita gente.
Ele se recorda da criação da garagem totalmente eletrificada do Tatuapé, na zona Leste de São Paulo. Época dos trólebus amarelos, modelo Padron Alvorada da Ciferal. Mas já nessa época, nos anos 80, Vieira Filho via que os investimentos no sistema começavam a ficar escassos e a qualidade dos transportes, cada vez pior.

Mesmo não atuando mais na CMTC, com o pai aposentado e o sogro já falecido, o fim da Companhia Municipal de Transportes Coletivos de São Paulo marcou muito a família que teve a vida dedicada e desenvolvida nela.

“Se meu sogro estivesse vivo quando a CMTC acabou, acho que ele iria junto com ela”

Especialistas em transportes, motoristas, cobradores e empresários são unânimes em dizer que o fim da CMTC veio de um processo de mau uso do dinheiro público e da falta de empenho com os transportes coletivos. Manoel Vieira Filho explica que a agonia da CMTC foi lenta, dolorosa:

“Um amigo meu me disse algo que na hora não acreditei. Um dia muita gente vai chorar a falta da CMTC. E foi verdade” Ele já percebia essa agonia da empresa píblica, que chegou a ser a maior do país na área de transportes urbanos.

Até 1992, a então prefeita Luíza Erundina tentou municipalizar algumas linhas, mas não conseguiu reverter a crise que os transportes viviam na cidade de São Paulo. Nesse ano, algumas empresas rodavam com modelos Caio Gabriela de quase 20 anos de uso. A CMTC mantinha uma frota mais nova, mas que também não se comparava ao nível de anos anteriores.

Em 1993, Paulo Maluf assumiu a prefeitura de São Paulo. Inicialmente, ele terminou com a remuneração das empresas por quilômetro rodado. O número de passageiros transportados voltou a ser a remuneração principal das companhias.

Naquele ano, começou também a primeira fase de privatização das áreas de operação e manutenção da CMTC. Através de três processos de licitação foram transferidas a operação de garagens e frota pública. Em 1994, a CMTC passou ser apenas gerenciadora dos sistemas de transportes, operado por 47 empresas de ônibus, segundo arquivo da SPTrans.

No dia 8 de março de 1995 foi criada, ainda na gestão Maluf, a SPTrans, autarquia pública gestora  do sistema de transporte da cidade. A partir do segundo semestre do ano, foi adotado o sistema de coleta automática de dados operacionais do transporte urbano por ônibus, a Fiscalização Eletrônica.

A maior parte dos ex-funcionários da CMTC vê com mágoa o fim da companhia municipal. Isso porque, segundo eles, a empresa não acabou por uma simples remodelação do mercado de transportes, mas pela má-administração de recursos públicos. Para sustentar a tese, muitos citam o exemplo de empresa pública bem sucedida, a Carris, do Rio Grande do Sul. Ela foi criada em 4 de janeiro de 1873, transportando passageiros com bondes puxados por mulas.

Manoel Vieira Filho desabafa:

“O que fizeram com a CMTC foi um crime. Usaram a empresa como cobaia, não administravam direito. A CMTC sempre foi pioneira em São Paulo, ônibus elétricos, ônibus a gás natural, ônibus de dois andares. Ela arcava com os custos de todas experiências, bem sucedidas ou não. As cores dos ônibus eram pintadas como palanques políticos, de acordo com as cores de cada partido. Ela não merecia isso, essa sujeira da politicagem. Posso dizer com certeza, com a experiência de quem viveu in loco esses fatos. A CMTC abriu bairros, ajudou urbanizar a cidade, atraiu investimentos pra São Paulo. Podem estar certos,  se São Paulo tem todo esse tamanho, territorial, econômico, político é porque a CMTC participou ativamente”

Vieira Filho atualmente trabalha na elaboração de linhas para fretamento da empresa Ipojucatur e diz que toda sua vida se deve aos transpotes.

Adamo Bazani é repórter da CBN e busólogo. Toda terça-feira – ou a qualquer momento em edição extraordinária – escreve no Blog do Milton Jung

12 comentários sobre “O motorista que assumiu o lugar do governador de São Paulo

  1. Parabéns por mais essa matéria. Uma História realmente emocionante. Parabéns também a Família Vieira, por fazer parte dessa trajetória. Abraço a todos.

  2. Bela historia da nostalgia da nossa São Paulo da garoa!
    Das ruas de paralelepipedos.
    Dos trilhos dos bondes.
    Estão de parabéns!
    Armando Italo

  3. GRANDE HISTÓRIA.
    PARTE DELA (OU PELO MENOS DO FIM DELA) EU PARTICIPEI.
    FUI O ÚLTIMO CHEFE DE DIVISÃO DE MANUTENÇÃO DE TROLEIBUS PELA CMTC NA GARAGEM TATUAPÉ EM 1994 QUANDO ELA FOI ENTREGUE PARA A INICIATIVA PRIVADA.
    CONFESSO: CHOREI …
    DEPOIS DISSO VI QUE A CAPITAL NUNCA PARECEU A MESMA, SEMPRE ALTERANDO O SISTEMA, MUDANDO LOTES, ETC, ETC …
    DE 72 A 94 NA MELHOR EMPRESA DE COLETIVOS QUE TRABALHEI (DEPOIS DISSO TRABALHEI EM TRES E CONHECI VÁRIAS E NENHUMA IGUAL A CMTC)
    ABRAÇOS A TODOS QUE POSSUEM O MESMO SENTIMENTO .

  4. Estou à procura de onde posso encontrar para fins de aposentadoria um documento, o PPP, pois eu trabalhava na CMTC na garagem do Tatuapé (GTA), quem puder me ajudar, por favor me avisem: (TIM) 11 8551 9001. Mas encontrei aqui, literatura que faz parte de minha vida… Neste tempo estava apenas trilhando minha vida profissional… Na GTA eu era muito feliz e não dava conta disso…

  5. Não é a toa que a CMTC encerrou as atividades. Pudera, tendo como chefe de divisão esse tal de antonio maurício bartolo é natural que qualquer empresa encerre as atividades.Esse cara é um verdadeiro morto e fica em cima do muro para ver onde a bola irá cair.

  6. quantas saudades,e revolta ao mesmo tempo,cmtc uma senhora empresa que por ambição de uma minoria,destroem o sonho de muitos pais de familia. até hoje existe varios ex.funcionarios fustrados, que nem sabe oque foi que aconteceu,muitos sonhos jogados pelo ralo.e olhando por este lado é bem isto ai mesmo oque aconteceu.porque as garagens a maioria esta ai vazia,os onibus tudo apodrecendo por ai parado sem dar lucro algum,e varios com 3 anos de uso,isto sim foi o maior roubo e rombo nos cofres publicos,quem será que era o prefeito da epóca,quem. o filho de quem foi o maior beneficiado….

  7. Por onde anda o cobrador vulgo “INDIO ” que trabalhou dentro do plantão da GARAGEM LEOPOLDINA nos anos 1978 e 1979?
    Gostaria muito de encontrar você INDIO, saiba que eu nunca me esqueci de você, o tempo não foi capaz de fazer eu esquecer nossa grandiosa amizade. Se um dia INDIO – GLE, você chegar a ler esse comentário, saiba que eu JAMAIS te esquecerei, nem tenho mais esperança de te encontrar, muitos anos se passaram, mas as minhas lembranças jamais passará, afinal é um direito natural lembrar de pessoas bacanas, que deixaram história. Sinto tristeza pela sua ausência, não importa onde você está, com quem está, só queria te ver outra vez.

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