O padrastro do Deus Mercúrio

 

Vulgão adotou a estátua

Por Devanir Amâncio
ONG EducaSP

Antônio Carlos, o Vulgão da Vila Carrão, quando sentia solidão no Carandiru, sempre vinha à sua mente adotar uma criança abandonada. O tempo passou, ganhou a liberdade, tornou-se morador de rua e adotou uma estátua na Praça da República, onde vive há 15 anos. Toda noite, antes de dormir, afaga a cabeça da escultura “Mercúrio em Repouso”, a quem chama de meu filho e/ou Neguinho. Ele discorre sobre seu passado:

“Sou filho da Zona Leste. A minha família é do Carrão… Ninguém está livre de fracassos. Certas coisas dependem do tempo… Agora vai ficar me interrogando? Aí vou ter que interrogar o tempo, e hoje não estou com cabeça. Sou Antônio Carlos, o Vulgão da Vila Carrão. Aqui na praça ocupo meu tempo com o Neguinho. De vez em quando dou uma ensaboada nele com flanela e água. Pelo menos faço isso… Tem gente que não cuida de nada. Aos que me chamam de louco, eu pergunto: o que é loucura? Vamos falar de coisas alegres. Se é para falar de coisas tristes, os maltrapilhos estão todos no centro da praça, pitando pedra. Vamos falar de samba e mulher. Não bebo, nem puxo fumo. Isso não é uma grande coisa para quem mora na República? Minha ex-namorada era linda… uma morenona. Mas eu era um cafagestão. Até hoje não consigo entender porque tem mulher que se liga nesse tipo de homem. O que eu fazia? Eu falava que amava ela, pedia perdão pelos erros e de repente desaparecia. Ela ficava louca. Depois de um mês, eu chegava de mansinho: ô nega, você tá brava comigo? Ela se derretia, se amarrava na minha. Por Deus, ela não merecia. Quando eu estava no Carandiru, minha avó Rosária – ela já morreu e está enterrada no cemitério Carrão/Vila Formosa – ia me visitar todos os domingos. Levava macarronada, dava conselhos: ‘Negão, todo mundo gosta de você, toma jeito, sai dessa vida Negão. Vai ganhar a vida honestamente. Você tem ginga. Por que você não vira político?’ Se eu tivesse seguido os conselhos da velha, hoje eu estaria rico… No Natal não vai dar, mas no Carnaval vou procurar minha irmã, meu tio… Também vou na escola do seu Nenê. Duvido que exista ‘morochas’ mais bonitas em outro lugar do que na Zona Leste. O que tem de mestiças! Quando o sol explode, sai de baixo. As mulatas da Nenê dão gosto. As da Leandro também. Só tem mulher pavão”.

Vulgão vive momentos de recaídas e nos últimos dias tem sonhado com a sua irmã Sônia, com quem teve uma infância sofrida.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s