Avalanche Tricolor: erga-se a estátua

 

Juventude 0x6 Grêmio
Gaúcho — Alfredo Jaconi, Caxias do Sul/RS

 

 

Teve gol de peito, de falta, de cobertura, de carrinho e até gol de Marcelo Oliveira —- aliás, foi dele o gol que abriu a goleada nesta tarde, no estádio Alfredo Jaconi, na primeira partida das quartas-de-final do Campeonato Gaúcho. Gol que surgiu depois de o adversário ter um de seus defensores expulso por jogada violenta, em uma tentativa desesperada do marcador de impedir mais uma chegada com velocidade pelo lado esquerdo. A expulsão foi aos 18 minutos do primeiro tempo e o primeiro gol foi sete minutos depois.

 

Daí para frente, o Grêmio tocou bola com qualidade, superando até mesmo as irregularidades do gramado. Seus jogadores trocavam de posição, apareciam para receber, recebiam e davam sequência à jogada — às vezes com mais um bom passe e em outras com um ou dois dribles. Assim como a superioridade numérica em campo fazia sobrar espaço de um lado e de outro, a superioridade técnica fazia sobrar talento.

 

O desavisado haverá de desmerecer o placar elástico dizendo que contra 10 é mais fácil. É mesmo. Bem mais fácil, especialmente se o seu time souber jogar com a bola. Mas essa facilidade só se torna possível porque o Grêmio provoca as expulsões —- e não é de hoje nem com violência. Lembro de já ter tratado do assunto na Libertadores, de 2017, e no Gaúcho, de 2018, nesta mesma Avalanche.

 

A velocidade das jogadas, a forma como o time se movimenta em campo, a quantidade de passes trocados e a precisão desses passes faz com que os espaços se abram. Por mais esforçado que seja o adversário é preciso correr mais, dobrar a marcação e ser muito cirúrgico na roubada de bola —- escrevi há cerca de um ano e mantenho minhas palavras. Na ânsia de retomar a bola e parar de correr atrás do nosso time, o marcador erra no bote e na batida. Cartão vermelho. E surge mais espaço para o Grêmio esbanjar qualidade técnica.

 

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O sorriso no rosto de quem gosta de jogar bola, na foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Esse Grêmio que fazia o olho brilhar, em 2016, nos fez ser o maior da América, em 2017, e teve seu futebol reverenciado, em 2018, é o Grêmio que tem a assinatura de Renato —- um técnico com a capacidade de levar para o vestiário o espírito vitorioso que o acompanhou na carreira de jogador.

 

Mais do que isso: um cara que, a despeito de suas frases de efeito e provocações verbais, entendeu a importância de estudar as mais modernas táticas do futebol, analisou cuidadosamente as estratégias usadas pelos times de melhor desempenho no mundo, montou uma comissão técnica capaz de identificar jogadores com potencial e que se encaixavam na sua ideia de futebol e, com tudo isso em mãos, agregou seu carisma e identificação com o torcedor gremista.

 

Como jogador nos deu os maiores títulos que sonhamos: a Libertadores e o Mundial, de 1983; além de ter sido campeão Gaúcho, em 1985 e 1986. Como técnico praticamente repetiu a dose: campeão da Copa do Brasil, em 2016; campeão da Libertadores e vice do Mundo, em 2017; da Recopa Sul-Americana e do Campeonato Gaúcho, em 2018; e da Recopa Gaúcha, em 2019.

 

Mais do que todos os títulos que conquistou —- mas também graças a eles —-, Renato quando voltar para a praia no Rio de Janeiro terá deixado um legado na maneira de o Grêmio jogar bola.

 

Acabou a era do brutamonte que tanto nos fez vibrar, chorar e sofrer —- e nada contra aquelas batalhas campais, pois sei que foram elas que forjaram nossas conquistas históricas. Sei também que não fugiremos à luta se assim for necessário no amanhã para alcançarmos novas vitórias.

 

Renato deixou para trás os tempos em que se despachava a bola pra qualquer lado porque não se sabia bem o que fazer com ela; em que se deixava os adversários jogarem, torcendo para que em uma bobeada deles fizéssemos o gol salvador; em que o gol era apenas um detalhe na nossa trajetória.

 

O Grêmio de Renato nos ensinou a gostar do jogo bem jogado, a se deslumbrar com o talento, a não ter medo do drible e a valorizar a técnica em detrimento a brutalidade.

 

O Renato do Grêmio nos ensinou a sorrir — e a sorrir com o mesmo sorriso que estará estampado em seu rosto, na estátua que será erguida nesta segunda-feira, dia 25 de março, na Esplanada da Arena.

 

Ali, pertinho de onde conquistamos nossos últimos títulos, sob o comando de Renato, estará a imagem de nosso atacante, em bronze e com quatro metros de altura, no momento em que ele comemorava um dos gols do Mundial de 1983. Uma homenagem ao maior nome que já passou pelo Grêmio. Para lembrar a cada um de nós, gremistas, porque somos o Imortal Tricolor.

 

O Renato merece essa estátua. O Grêmio merece Renato.

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: o dia em que andei de ônibus com o criador da estátua de Borba Gato

 

Por Durval Pedroso da Silva Jr
Ouvinte da CBN

 

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A estátua de Borba Gato, em Santo Amaro, em foto do site da ALESP

 

 

Nasci no Bairro do Bexiga, próximo da Avenida Paulista, em janeiro de 1951. Morei nela por quase 40 anos, o que por si só daria para contar  muitas histórias. Resolvi, porém, relatar uma que reputo interessante.

 

Estava eu em companhia de meu pai, no inicio de fevereiro de 1963 — eu com apenas 12 anos — abordo de um ônibus da Viação Bola Branca, que saiu do Largo de Pinheiros com destino a Santo Amaro, onde morava a maioria de nossos parentes.

 

Quando entramos pela Avenida Santo Amaro, perto da Vila Nova Conceição, subiu ao ônibus, que estava bem lotado, um velho amigo do meu pai: o escultor Julio Guerra. Meu pai apresentou o seu amigo a mim, com toda a pompa e circunstância, explicando suas habilidades como pintor e escultor. Em contra partida, o Julio falou maravilhas das habilidades esportivas de meu pai, mas como estas eu já conhecia sobejamente, tratei de fazer o maior número de perguntas, ao primeiro pintor e escultor que conheci na minha vida — ao ponto de meu pai me dar um beliscão bem dado, para eu parar de metralhar seu amigo com perguntas.

 

Quando estávamos passando no Alto da Boa Vista, demos de cara com a enorme estátua do Bandeirante Borba Gato, que tinha sido inaugurada há alguns dias. Eu maravilhado com aquela grandeza toda, ouvi bem baixinho no meu ouvido: — “esta é uma das minhas obras”, disse Julio. Mas a esta altura já tínhamos ouvido muitos comentários dos passageiros. Uns, inclusive, não muito elogiosos com relação à obra. Antes que eu abrisse a boca para falar em alto e bom som que estávamos com o autor daquele monumento dentro do nosso ônibus, meu pai que conhecia a tagarelice do filho, tampou levemente a minha boca. Mas o grande momento veio a seguir. O Julio vira-se para mim, num tom bem baixo, e diz: — “esta é a razão maior de uma obra de arte, provocar sensações e comentários”.

 

Mais um ensinamento que aprendi nesta nossa maravilhosa cidade.

 

Durval Pedroso da Silva Jr. é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade: escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: o leão de bronze amigo da família

 

Por Isabel Rubio Vazquez Conde

 

 

Faço parte de uma família de imigrantes espanhóis e tenho muitas histórias para contar mas esta que conto agora acho especialmente interessante:

 

Viemos da Espanha, meu pai, minha mãe e eu, em julho de 1949 — eu com um ano e meio de idade. Inicialmente, ficamos em Rio Claro, interior de São Paulo, onde meu pai tinha uns primos. Alguns meses depois viemos para São Paulo, onde meu pai foi trabalhar na Cia. de Gás, na Rua do Gasômetro, no Brás. Fomo morar próximo da fábrica.

 

Lembro-me do meu pai me levar para brincar no Parque Dom Pedro II, onde tinha uma estátua de bronze de um leão —- era a reprodução de uma obra do artista francês Prospér Lecourtier, especialista em construir estátuas com imagens de animal. Como bom imigrante, tudo que meu pai registrava em foto, ele enviava para a família na Espanha. Era para acompanharem meu crescimento. Isso deve ter sido no início dos anos de 1950.

 

Com as mudanças no Parque Dom Pedro II, a estátua do leão foi transferida para o Parque do Ibirapuera, nos anos de 1960. E havia perdido o contato com ela. Eis qual foi minha surpresa, muitos anos depois, passeando com meu marido e meus filhos, dou de cara com o leão —- e foi aquela festa, contei a história da estátua para meus filhos, lembrei da minha infância …

 

Os anos se passaram e o leão continuou a me acompanhar. Em 2011, visitei a família na Espanha. Minha prima Isa pegou uma foto toda amassadinha na qual aparecia eu, com mais ou menos cinco anos, montada no leão de bronze. Isa me contou que quando recebeu a foto, tinha uns quatro anos e levava a imagem na escola para mostrar para as amiguinhas e contar que tinha um prima que morava no Brasil e montava em uma leão. Era a sensação das meninas. Achei aquilo incrível.

 

Dois anos depois, essa mesma prima esteve no Brasil. E eu não tive dúvida: levei-a ao Parque do Ibirapuera, sem dizer nada, e a apresentei, ao vivo, ao leão mais famoso da nossa infância. Tudo, como aprendi com meu pai, registrado em foto.

 


Isabel Rubio Vazquez Conde é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto para milton@cbn.com.br

Apesar de tudo…

 

Por Julio Tannus

 

 

Adoro a cidade de São Paulo. Foi aqui que cresci, me eduquei, me formei, constitui família e hoje desfruto da cidade com todos os seus lugares, praças, shoppings, restaurantes, cinemas, teatros, livrarias, exposições e sua vida incessante. E desfruto também dos amigos, amigas, colegas e vizinhos. Assim que cheguei de Paraty, no fim dos anos 40, fui morar na Rua São Lázaro, travessa da Rua São Caetano, hoje chamada de “Rua das Noivas”, mas até então uma rua movimentadíssima, com todo tipo de comércio, além, é claro, do Cine São Caetano. Minha primeira escola, aos cinco anos de idade, foi o Recanto Infantil Jardim da Luz, do Departamento de Cultura, no Parque da Luz próximo a Estação da Luz.

 

A primeira surpresa: após alguns dias de chegada à cidade, fui com minha mãe e meu irmão caminhando pela Rua São Caetano em direção ao Parque da Luz. Ao chegar na Av.Tiradentes, em frente ao antigo Liceu de Artes e Ofícios, hoje Pinacoteca do Estado, me deparei com o monumento a Ramos de Azevedo (Ramos de Azevedo foi o centro em torno do qual gravitou o renascimento arquitetônico da cidade de São Paulo), hoje transferido para a Cidade Universitária; e exclamei em alto e bom som, nos meus cinco anos de idade: “Olha mamãe, uma mulher de peito de fora!”. Foi uma gargalhada geral. E minha mãe retrucou: “Fica quieto menino!”.

 

 

A primeira raiva: íamos – eu, pai, mãe e irmão – passear no Viaduto do Chá, aos domingos pela manhã. Era o passeio dos paulistanos. Entre os meses de abril e maio, eu e meu irmão temos a mesma idade, pois a diferença entre nós é de apenas 11 meses. E minha mãe nos vestia igualzinho, com o mesmo terno de calça curta e gravata. Então as pessoas passavam por nós e sempre ouvíamos comentários do tipo “que gracinha”, “são lindinhos”. Até que alguém nos perguntava “são gêmeos?”. E respondíamos categoricamente “não somos gêmeos”. E logo vinha outra pergunta “que idade você tem?”, eu respondia “cinco anos”. E você, dirigindo-se ao meu irmão “quantos anos você tem?”. “Cinco anos”. E aí vinha a resposta terrível “Ah! mentirosos hein?” Ficávamos possessos de raiva.

 

 

O primeiro choque: aos domingos íamos ao Cine São Caetano assistir à sessão da tarde. Até que, em um domingo de muita chuva, meu pai decidiu ficar em casa e não nos levar. Ficamos frustrados por pouco tempo, pois nos demos conta que ambos, pai e mãe, estavam compenetrados em suas leituras. Sorrateiramente, descemos as escadas e logo estávamos caminhando apressadamente em direção ao cinema. Ao chegar, o porteiro indagou o que queríamos. Respondemos: “viemos encontrar nossos pais que estão no cinema”. De imediato propiciou nossa entrada. Após algum tempo de fascínio pelo que se passava na tela, fui surpreendido e sobressaltado por uma mão forte que repentinamente me levantou da cadeira. Era meu pai, com uma expressão de angústia e raiva. Fomos levados de imediato para casa, com uma promessa de castigo por causar tanto desespero aos pais.

 

O primeiro time: flamenguista por herança de pai e de tanto ouvir “uma vez Flamengo, Flamengo até morrer” me sentia desajustado diante de tantos palmeirenses, são-paulinos, santistas, e assim por diante. Até que na celebração do IV Centenário da cidade, no dia 6 de fevereiro de 1955, o Corinthians se tornou campeão e meu time paulista do coração.

 

 

E, de 9 a 11 de julho de 1954, com a imensa participação de toda a população, que invadiram as ruas de nossa cidade, ocorreram festas maravilhosas. Entre elas me recordo nitidamente da Chuva de Prata, que Randal Juliano, pela Rádio Record, dizia: “O sentimento do paulista faz com que a cidade se locomova até o viaduto do chá. E aqui a multidão ergue os olhos para o céu, de onde caem lâminas metalizadas… Lâminas coloridas metalizadas sobre o viaduto do chá. Iluminadas por holofotes do exército, com o esplendor e luminosidade bonita. Traduzindo a alegria do povo paulista neste nove de julho, que comemorava uma derrota… Talvez tenha sido o único povo a comemorar uma derrota.” E recordo aqui o Hino do IV Centenário:

 

São Paulo, terra amada
Cidade imensa
De grandezas mil!
És tu, terra dourada,
Progresso e glória
Do meu Brasil!
Ó terra bandeirante
De quem se orgulha nossa nação,
Deste Brasil gigante
Tu és a alma e o coração!
Salve o grito do Ipiranga
Que a história consagrou
Foi em ti, ó meu São Paulo,
Que o Brasil se libertou!
O teu quarto centenário
Festejamos com amor!
Teu trabalho fecundo
Mostra ao mundo inteiro
O teu valor!
Ó linda terra de Anchieta,
Do bandeirante destemido.
Um mundo de arte e de grandeza
Em ti tem sido construído!
Tens tu as noites adornadas
Pela garoa em denso véu,
Sobre seus edifícios
Que mais parece chegarem aos céus!

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e Co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

Foto-ouvinte: Cafezal da 9 de Julho

      
                                   

 

Por Devanir Amâncio
ONG EducaSP

Estátua Colhedor de Café

São Paulo está longe da “cidade ideal”, mas  a escultura “Colhedor  de Café “, obra de Lecy Beltran  na Avenida Nove de Julho, Jardim Europa, para homenagear os plantadores de café de São Paulo, é um exemplo  de monumento bem cuidado entre os muitos semidestruídos da região central. A escultura tem um pé de café de cada lado, carregado de flores e frutos. Pedestres  de diferentes classes sociais param, admiram e  degustam  ali mesmo grãos maduros e impuros. Não importa se  são impróprios  para o consumo humano.

Moradores da Rua Turquia garantem que o café do Jardim Europa é uma delícia, as crianças adoram. No domingo,16 de janeiro, o eletricista  Evandro José de Andrade, enquanto colhia alguns grãos acompanhado da filha Beatriz,  recordou  seu tempo de infância em Fernandópolis, interior de São Paulo – onde nasceu, cresceu e trabalhou numa fazenda de café. Evandro  ainda lembrou   do maior bem da  família: um rádio. Todas as tardes ouvia ‘Flor do Cafezal’  de  Cascatinha e Inhana.
 

Meu cafezal em flor quanta flor meu cafezal…  
Passa-se o tempo vem o sol ardente e bruto
Morre o amor e nasci o fruto no lugar de cada flor
Passa-se o tempo em que a vida e todo encanto morre o amor e nasce o pranto
Fruto amargo de uma dor
Meu cafezal em flor quanta flor meu cafezal
Ai menina meu amor minha flor do cafezal
 

O padrastro do Deus Mercúrio

 

Vulgão adotou a estátua

Por Devanir Amâncio
ONG EducaSP

Antônio Carlos, o Vulgão da Vila Carrão, quando sentia solidão no Carandiru, sempre vinha à sua mente adotar uma criança abandonada. O tempo passou, ganhou a liberdade, tornou-se morador de rua e adotou uma estátua na Praça da República, onde vive há 15 anos. Toda noite, antes de dormir, afaga a cabeça da escultura “Mercúrio em Repouso”, a quem chama de meu filho e/ou Neguinho. Ele discorre sobre seu passado:

“Sou filho da Zona Leste. A minha família é do Carrão… Ninguém está livre de fracassos. Certas coisas dependem do tempo… Agora vai ficar me interrogando? Aí vou ter que interrogar o tempo, e hoje não estou com cabeça. Sou Antônio Carlos, o Vulgão da Vila Carrão. Aqui na praça ocupo meu tempo com o Neguinho. De vez em quando dou uma ensaboada nele com flanela e água. Pelo menos faço isso… Tem gente que não cuida de nada. Aos que me chamam de louco, eu pergunto: o que é loucura? Vamos falar de coisas alegres. Se é para falar de coisas tristes, os maltrapilhos estão todos no centro da praça, pitando pedra. Vamos falar de samba e mulher. Não bebo, nem puxo fumo. Isso não é uma grande coisa para quem mora na República? Minha ex-namorada era linda… uma morenona. Mas eu era um cafagestão. Até hoje não consigo entender porque tem mulher que se liga nesse tipo de homem. O que eu fazia? Eu falava que amava ela, pedia perdão pelos erros e de repente desaparecia. Ela ficava louca. Depois de um mês, eu chegava de mansinho: ô nega, você tá brava comigo? Ela se derretia, se amarrava na minha. Por Deus, ela não merecia. Quando eu estava no Carandiru, minha avó Rosária – ela já morreu e está enterrada no cemitério Carrão/Vila Formosa – ia me visitar todos os domingos. Levava macarronada, dava conselhos: ‘Negão, todo mundo gosta de você, toma jeito, sai dessa vida Negão. Vai ganhar a vida honestamente. Você tem ginga. Por que você não vira político?’ Se eu tivesse seguido os conselhos da velha, hoje eu estaria rico… No Natal não vai dar, mas no Carnaval vou procurar minha irmã, meu tio… Também vou na escola do seu Nenê. Duvido que exista ‘morochas’ mais bonitas em outro lugar do que na Zona Leste. O que tem de mestiças! Quando o sol explode, sai de baixo. As mulatas da Nenê dão gosto. As da Leandro também. Só tem mulher pavão”.

Vulgão vive momentos de recaídas e nos últimos dias tem sonhado com a sua irmã Sônia, com quem teve uma infância sofrida.

Morador de rua pede estátua de Zumbi

 

Por Devanir Amâncio
ONG Educa SP

Mãe preta 1

Ela não é santa, mas é venerada pelo povo simples. Ganha flores, velas, terços, moeda, e quase sempre, despacho de macumba. Dona Gilda, de 76 anos, depois de ter ido à igreja, toca a estátua da Mãe Preta e pede: “Me ajuda minha Mãe!” Quem não soube dizer o que fazia em cima da estátua, nesta quinta-feira, 19, no Largo do Paissandú, Centro, foi o morador de Rua Antonio de Categeró, que gosta de ser chamado de Negrão, apelido que ganhou na Vai-Vai. O sem-teto afirma ser um legítimo descendente de escravos, e protestou contra o fechamento da igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos no dia da Consciência Negra. Negrão, há muito tempo tem uma ideia: colocar no Largo do Paissandú uma estátua gigante de Zumbi dos Palmares, ao lado da Mãe Preta. “Mas tem que explicar direitinho, senão o povo vai continuar confundindo tudo, já existe a maior política aqui na praça entre a mãezinha (Mãe Preta) e a santinha” (Nossa Senhora dos Homens Pretos), disse Negrão.

Foto-ouvinte: O Menino e o Carnaval

Imagem de O Menino e o Catavento, centro de São Paulo (Devanir Amâncio) 

O menino e seu olhar ingênuo para o catavento não resistiram ao entuasiasmo do Carnaval. Vestido com um camisa rosa desbotada, quase branca de tão lavada,  e uma cueca esfarrapada, fez graça a todos que passeavam no Largo São Francisco, no centro de São Paulo. A travessura só era completa aos curiosos que teimavam em dar a volta na obra de O.M. di Palma e avistavam os fundilhos pretos ressaltados pelo vermelho do pano da cueca.

A cena foi registrada por Devanir Amâncio, da ONG Educa São paulo, na segunda de Carnaval. Tendo passado as festas de Momo, bem provável o menino já se despiu da fantasia.