O “dois andares” muito antes de Jânio Quadros

 

O ônibus de dois andar que é parte do cenário de Londres, na Inglaterra, rodou em algumas cidades brasileiras e apesar de ter tido vida curta deixou sua marca na história do transporte de passageiros e ganhou o apelido de Fofão

Fofão, ônibus de dois andares

Por Adamo Bazani

Foi em São Paulo, trazido por Jânio Quadros, que os ônibus de dois andares ganharam as manchetes no Brasil e geraram enorme polêmica. Ao contrário do que a maioria imagina, porém, estes modelos não transportaram passageiros apenas na capital paulista. Foram usados em diversas cidades brasileiras, como Osasco na Região Metropolitana, com o mesmo resultado: uma decepção. Nem tanto pelos ônibus em si que tinham bom desenho, estabilidade e potência, mas pela falta de estrutura viária.

Fofão era o apelido desses ônibus batizados oficialmente de Thamco O.D.A – ônibus de dois andares. Eles começaram a rodar em Osasco na gestão do prefeito Francisco Rossi (1989-1993). As primeiras quatro unidades foram compradas pela CMTO- Companhia Municipal de Transportes de Osasco, em novembro de 1990, mesmo ano em que estavam sendo aposentados os 30 ônibus que operavam na capital.

A CMTO usava os Thamco ODA da mesma forma que a CMTC – Companhia Municipal de Transportes Coletivos – na cidade de São Paulo. Eles transportavam passageiros em linhas centrais que serviam os terminais e pontos de transferência. A altura destes veículos, porém, era incompatível com o circuito que faziam e os ônibus por onde passavam arrancavam galhos de árvores e fios elétricos, provocando a mesma polêmica da capital. Não demorou muito para serem aposentados.

Apesar disso, a sensação de ter um veículo como os londrinos for marcantes, relatam moradores que usaram os ônibus de dois andares. Havia pessoas que esperavam o ônibus no ponto só para passear no andar de cima. Desdenhavam a passagem de um modelo convencional apenas pela oportunidade de rodar no Fofão.

Apesar da vida curta, o modelo foi um clássico e deixou sua marca na história do transporte no Brasil. E mesmo que a ideia de utilizá-los em linhas normais tenha sido abandonada tão rapidamente, dois modelos Fofão ainda poder ser vistos em Osasco. Habitualmente, eles são usados no Projeto “Redescobrindo Nossa História” com um desenho que lembra mais os ônibus de turismo que rodam em Nova Iorque do que os de transporte de passageiros de Londres. Tem o teto cortado e oferecem uma visão melhor para as visitas a pontos turísticos da cidade como o Viaduto Metálico Reinaldo de Oliveira, av. dos Autonomistas e Parque Chico Mendes

O Fofão de Osasco é pintado de vermelho e ilustrado com imagens antigas da cidade e de pontos turísticos. Nem sempre foi assim. Apesar de Francisco Rossi, a exemplo de Jânio Quadros, ter tentado “londrinizar” o transporte na cidade, na época em que estava em operação nas linhas municipais o ônibus de dois andares era branco, padrão da empresa que operava o transporte em Osasco.

Apenas por curiosidade: a CMTO imitou diversos passos da CMTC, segundo profissionais do transporte de Osasco. Não apenas pela compra do Fofão. Assim como em São Paulo, a companhia inicialmente operava o sistema – isto ocorreu em 2006 – para depois ser apenas a gerenciadora. Na capital, a transformação ocorreu em 1993. Se é verdade ou não que a companhia de Osasco copiava a paulistana é coisa que demanda longa discussão, mas que a empresa se tornou economicamente inviável como operadora, a exemplo da CMTC, é um fato.

Fofão incentivou uso de articulados

Fofão adaptado para passeio turístico

Como uma banda de música que fica pouco tempo no cenário mas muda as concepções da época, assim foi o Fofão no setor de transporte de passageiros. Marco na história das cidades, seu “fracasso” serviu de base para as administrações públicas investirem em outro modelo de grande capacidade: o articulado, que era também uma experiência na época do Fofão.

O ônibus de dois andares dos anos 80 chegou ao Brasil pelas mãos do prefeito Jânio Quadros, em São Paulo. Ele queria um transporte com a qualidade europeia, mas que, acima de tudo, chamasse a atenção. Não se deve esquecer que ônibus e campanha política sempre estiveram lado a lado. Vide a história do ex-Fura-Fila de Celso Pitta, ex-Martão e ex-Passa Rápido, da Marta Suplicy, e, atual, Expresso Tiradentes, de Gilberto Kassab.

A CMTC teve papel importante na criação do modelo de dois andares. A Companhia contribuía com um corpo de técnicos e engenheiros para o desenvolvimento de várias tecnologias. Foi assim com os trólebus – muito da tecnologia dos ônibus elétricos foi implantada através de parcerias entre fabricantes, encarroçadoras e CMTC. Foi assim como o Fofão.

Diferentemente do que queria Jânio, a CMTC não pode desenvolver sozinha um modelo de dois andares. Foi aí que entrou a parceria com a Thamco, empresa fundada em 1985, após o empresário Antônio Thamer (por isso o nome Thamco – Thamer Comércio e Indústria de Ônibus) ter comprado a massa falida da Condor, antiga Ciferal Paulista. Em 1987, a empresa aceitou o desafio proposto pela CMTC e no fim do mesmo ano entregou as primeiras unidades para a cidade de São Paulo.

Com colunas reforçadas, o ônibus foi uma inovação. Era um “monstro” nas cidades. O modelo saía de fábrica com 10,80 metros de comprimento e 4,26 metros de altura, com capacidade para 72 passageiros sentados e 40 em pé. Na parte superior, muito baixa, com altura interna de 1,70 metro, não podia viajar passageiro em pé. O modelo foi encarroçado pela Thamco sobre Chassi Scania K 112 CL, de 203 cavalos de potência.

Dois anos depois, a Thamco lançou o Gemmini, ônibus rodoviário de dois andares. Hoje no Brasil, podem ser vistos alguns desses modelos pelas estradas. São o DD – Doublé Decker, como o Busscar Panorâmico DD, e o Marcopolo Paradiso DD.

O simpático Fofão chamou a atenção de várias cidades brasileiras. Além de São Paulo e Osasco, circulou por Goiânia, Recife e Uberlândia, em todas rodou por pouco tempo, inviabilizado pela estrutura desses municípios. Ao contrário do que ocorre na Europa, América, Ásia e África, onde os ônibus urbanos de dois andares são sucesso. Entre as cidades que os empregam em grande escala, estão a tradicional Londres, Johannesburgo, Cidade do Cabo, Hong Kong, Cingapura, Berlim e Porto. Lá, os gigantes circulam sem nenhum problema.

Até Londres, que em 2005 aposentou os Route Master, símbolos da cidade, já está com modelos novos e projetos de outros ainda mais modernos, dando a entender que no mundo os ônibus de dois andares ainda vão ficar por um bom tempo fazendo parte da vida de milhões de passageiros.

No Brasil, além de modelos urbanos adaptados para passeios turísticos, como o Nusscar Urbanuss Pluss no sul do País e em Manaus, não há mais operação com ônibus de dois andares em serviços municipais ou intermunicipais. Mas por ironia, o País é exportador de ônibus urbanos deste tipo.

A Marcopolo, em 2001, foi responsável pelo envio de uma enorme quantidade de ônibus que integraram o projeto de transportes Metrobus, de Johannesburgo na África. Os ônibus foram construídos sobre a base de um modelo de um pavimento no Brasil: o Viale, que sofreu adaptações. O Viale DD, que ainda roda com sucesso na cidade sulafricana, tem piso baixo para acesso de pessoas com mobilidade reduzida e é encarroçado sobre chassi Volvo B 7 TL.


Primeiro modelos, rodaram em 1920

Daimelr Guy 1927

Apesar de ter ganhado fama com Jânio Quadros, o ex-prefeito de São Paulo não é o “pai” do ônibus de dois andares no Brasil. Nos anos 20, o País já havia tido sua experiência com o modelo.

Em 1927, a Viação Excelsior criada naquele mesmo ano – em 23 de novembro -, subsidiária da “The Rio de Janeiro Tramways, Light anda Power Co”, ou, simplesmente, Light, importou 14 unidades de um ônibus de dois andares para serviços municipais no Rio. O veículo com motor Daimler e chassi Guy transportava 28 passageiros no piso inferior e 34 no superior.

Inicialmente chamado de Imperial, nome usado na Europa e em Buenos Aires, o ônibus logo foi apelidado pela população da cidade do Rio de Janeiro de Chope Duplo, um nome irreverente, mas que mostrava a dimensão do veículo.

A fiação baixa e as vias estreitas fizeram com que, anos depois, os Daimler Guy de dois andares tivessem o pavimento superior recortado sendo transformados em ônibus convencionais. Já no mundo, os primeiros ônibus de dois andares datam dos primeiros anos de 1900, na Alemanha e Inglaterra.

Como se vê, a falta de uma concepção urbana mais organizada, com vias que apresentam melhor estrutura para circulação de veículos de massa de grande porte, é problema antigo que não foi resolvido ainda. Quantos bairros populosos teriam demanda para ônibus grandes e articulados, mas não podem por falta de vias adequadas – que, aliás, muitas vezes não são capazes de receber sequer ônibus convencionais. Não se trata de ressuscitar o Fofão – embora o modelo sempre seja uma atração -, mas de repensar as prioridades para os diferentes modos de transporte.

Quem ainda quiser conferir um Fofão e relembrar uma época no mínimo inusitada dos transportes das cidades, pode procurar os dois veículos em Osasco, sem esquecer, porém, que eles não estão originais. A Viação Caprioli, de Campinas, mantem um exemplar comprado da CMTC, que é sempre exposto em eventos de ônibus e veículos antigos. A cidade de São Paulo também restaurou um exemplar.

Adamo Bazani é repórter da CBN, busólogo, escreve no Blog do Mílton Jung e adoraria ter andado de Fofão nos anos de 1980.

11 comentários sobre “O “dois andares” muito antes de Jânio Quadros

  1. Lembro de ter andado no Fofão algumas (poucas) vezes na Brigadeiro Luis Antonio, tanto no sentido centro quanto no sentido do Ibirapuera…
    Lá em cima era quente pra caramba, e o “pé-direito” era um tanto reduzido, mesmo pro meu 1,70m de altura! E parecia que eles “sofriam” para subir as ladeiras da Avenida em velocidade tão reduzida… Os motoristas tinham mesmo que ser “de circo” pra conseguir dar conta!
    —–
    Hoje há ônibus de dois andares também em Curitiba na Linha Turística, com o teto aberto, como o de Osasco.

  2. Adamo, o Janio Quadros era um especialista em Marketing.Dentro deste contexto criou uma série de ações positivas. Inclusive uma campanha de recuperação e de compra de novos onibus. Os veículo traziam então pintado na lateral a informação se eram novos ou recuperados.
    Os de dois andares foi uma pena a sua extinção.

  3. Caro Adamo
    Tenho acompanhado seu blog, que está muito interessante.
    Aqui em Porto Alegre um desses Thamco ODA fez serviço de transporte de clientes do Shopping Center Praia de Belas, que pertence ao grupo Iguatemi. Suponho que fosse um dos veículos desativados de Osasco, e não sei o motivo da suspensão do serviço.

  4. Uma pena que esses ônibus de dois andares tenham tido uma vida tão curta em S.Paulo. Acho que eles seriam bastante eficientes em alguns corredores de ônibus, desde que se tomassem os cuidados necessários para não ficar preso em fiação aérea, galhos de árvores, pontes e viadutos….

  5. Olá Adamo

    andei muitas veses nos fofoes do Janio
    Com seus motoes Scania, subir a Bigadeio Luiz antonio era moleza.
    Indagando um dos motoistas, sabendo que estes onibus seriam desativados, fui informado que a desativação deste modelo seria devido ao alto custo da manutenção, dificuldades para tafega em determinados locais.
    Bem que a pefeitura juntamente com a secretaria dos transportes poderiam eavaliar a reinclusão deste tipo de onibus.
    Abraços
    Armando Italo

  6. Grande Adamo
    Primeiramente venho parabeniza-lo pelo excelente trabalho.
    Andei durante muito tempo no Fofão de Osasco, que fazia linha normal, a linha 032-Novo Osasco – Helena Maria.
    Naquela época sim achavamos que o transporte em Osasco daria uma guinada. Utopia, pois depois disso só vieram OF.
    Infelizmente, Osasco não seguiu o exemplo de São Paulo, e articulado por aqui, infelizmente, nem em sonhos!!!
    Não temos nem mesmo veiculos de motor traseiro!!
    Abraços!!

  7. Muito boa esta materia pene que nossos governantes não olhem para estetipo de transporte que ocupa menos espaço que um articulado e pode transportar o mesmo numero de passageiros.

  8. Eu considero que os DD são uma ótima solução para o transporte urbano, desde que não seja usado em linhas muito curtas.
    A principal vantagem é o conforto, diante da possibilidade de transportar muito mais passageiros sentados – no andar de cima só as escadas atrapalham, não há caixas de rodas, motor, portas, motorista e nem a necessidade de reserva de assentos para deficientes e idosos, pois tudo isso se resolve no andar de baixo.
    Os problemas relacionados à altura são de solução fácil, afinal, o itinerário é sempre o mesmo. Basta verificar que todas as grandes cidades estão criando linhas turísticas com ônibus nessa configuração.

  9. A Thamco fabricou o seu “fofão” para o Recife – PE para a fianda CTU-Recife que também era resposável pelos trólebus. DAs capitasi, creio que só São Paulo e Recife os tiveram.

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