A psicologia de ser do contra

 

Por Frederico Mesnik

Sir John Marks Templeton, um dos maiores gestores da humanidade disse certa vez que é impossível gerar um retorno superior aos seus investidores sem fazer algo diferente do que a maioria. Essas palavras sábias são esquecidas no cenário atual de alta volatilidade, pouca visibilidade e estratégia míope de que devemos nos posicionar hoje para o mercado de amanhã e fazer o mesmo depois de amanhã e assim por diante.

Em certa ocasião e em sintonia com a opinião de Sir Templeton, Sir John Maynard Keynes disse: “The central principle of investment is to go contrary to the general opinion, on the grounds that if everyone agreed about its merit, the investment is inevitably too dear and therefore unattractive”.

O princípio central de gestão é ser contra o consenso, baseado no fato de que se todos concordam sobre seu mérito, o investimento é inevitavelmente muito desejado e, portanto não atraente. Infelizmente, o mercado de hoje é caracterizado por investidores preocupados em não ter retornos abaixo do seu benchmark e com medo de ir contra a multidão.

Um estudo recente do Professor Partha Dasgupta da St. Johns College mostrou que num horizonte de dois anos, as principais ações compradas por investidores institucionais tiveram um rendimento médio de 17% abaixo das principais ações que estes mesmos investidores venderam, no mesmo período de tempo. Este estudo foi estendido para fundos de ações (large caps, small caps) sendo value ou growth com resultados similares, mostrando que independentemente do seu universo, ser do contra traz resultados no longo prazo.

Não estamos dizendo que ser do contra basta para ganhar dinheiro. Aliás, estar junto com a multidão parece ser a opção menos arriscada. O que estamos querendo dizer é que os fundamentos e nossas convicções ditam nossas decisões de investimento, mesmo que sejam contrárias ao consenso do mercado.

A maior falha de um gestor é a incapacidade de distinguir entre fundamentos e expectativa refletida nos preços dos ativos. Uma casa de apostas é uma boa metáfora para ilustrar a diferença. Aqui temos duas variáveis: os fundamentos que indicam a probabilidade do time ganhar (track-record, jogadores, técnico, situação financeira do clube, árbitros, condições do campo e do tempo, etc) e a expectativa, que podemos ver claramente no quadro de apostas, refletindo o preço em proporção ao prêmio ou no caso dos times, o rateio. Um time com alta expectativa de ganhar a partida e o campeonato paga menos do que aquele com baixa expectativa.

Um bom gestor foca não só no sentimento geral, nas expectativas, mas também em como os sentimentos podem levar a grandes possibilidades de arbitragem entre os fundamentos e as expectativas. Às vezes nos enganamos de que estamos agindo de forma racional e avaliamos todos os prós e contras das diversas alternativas. Mas isso não é verdade na maioria das ocasiões, pois em muitos casos decidir a favor de X não é mais nada do que gostar de X. Compramos carros que gostamos, escolhemos casas e férias que gostamos e depois justificamos nossas escolhas de diversas maneiras. Além do mais, o que gostamos é altamente influenciado pelo que outras pessoas gostam, e escolher boas opções de investimentos é muito mais do que simplesmente comprar o que gostamos.

Um gestor precisa de independência para ter conforto e convicção de apostar contra a multidão quando há uma possibilidade de arbitragem entre os fundamentos e as expectativas. Esta independência torna-se difícil, pois quanto maior este gap, maior a pressão para ser parte da maioria. Além disto, a independência precisa ser objetiva para dar habilidade ao gestor de formar suas opiniões sem ser influenciado por fatores externos. Afinal, os preços não só informam os investidores, mas influenciam suas decisões.

Um bom investidor também precisa ter orientação de longo prazo, pois o ato de investir é inevitavelmente um exercício de probabilidade e precisamos ter a percepção de que o mercado pode demorar a revisar nossas expectativas.

Ter opiniões próprias que às vezes vão contra o consenso não é fácil. O primeiro passo é esclarecer os motivos e endereçá-los, trazendo credibilidade e transparência ao mercado. O importante não é acertar sempre, mas ter a convicção e coragem de correr contra a manada, pois é aí que estão as melhores opções de investimentos.

Frederico Mesnik é gestor de recursos, mestre em Administração de Empresas pela London Business School, especialização em Finanças pela Universidade de Chigago, GSB, e escreve no Blog do Mílton Jung

6 comentários sobre “A psicologia de ser do contra

  1. Frederico.

    Não gosto de aplicar em ações, as que tenho recebi de meu pai, e não tenho pretenção em vendê-las, me contento com os juros e dividendos, embora pequenos.

    Meu pai também me ensinou que devemos diversificar ao aplicar nosso dinheiro.

    Mais uma coisa que herdei de meu pai, foi o gosto por investir em imóveis para alugar. Sabe aqueles pequenos, próximos à estações de metrô, com condomínio baixo, 2 vagas de garagem, de preferência comprados na planta? Uma belezura para alugar logo assim que o prédio é entregue.

    Outra atutide que considero importante é ter faro e reconhecer a hora certa para nos desfazermos de um imóvel, de preferência para grandes incorporadoras e comprarmos outro(s) com o dinheiro da venda.

    Acho que deu para perceber que sou conservadora, embora fuja de poupança, gosto de VGBL (mesmo rendendo pouco, meus filhos não pagarão ITCMD quando eu morrer) e CDB.

    Estou agindo de forma muito errada?

    Abraço.

    Walnice

  2. Olá Marcos,
    Investimentos na Bolsa devem ter horizonte de longo prazo, o que significa que jamais deve-se aplicar aquela porção que tem algum tipo de compromisso, seja lá qual o prazo. Dinheiro para casar, para comprar um carro, reformar a casa, ficam na renda fixa. A Bolsa acolhe a poupança longa para que não seja um risco, mas sim um caminho longo e variável para retornos polpudos.

    Já ser do contra exige uma análise minuciosa das empresas e dos seus respectivos valores intrínsecos para que possamos ter a oportunidade de comprar os ativos mal precificados, aqueles cujo valor ainda não foi precificado. Para tanto, precisamos conhecer bem o que estamos fazendo para não errar a mão, trabalho para os bons gestores.
    Abraços

  3. Olá Walnice,

    Obrigado pelo seu comentário. Gosto da diversificação de parte do capital em imóveis, sobretudo aqueles que você descreve. Porém, como mais uma classe de ativos diante de tantas existentes por aí. Não devemos concentrar e sim diversificar.

    Há uma falta de informação sobre a Bolsa, pois ações, como os imóveis, são ativos reais, uma vez que você se torna dona de um pedaço de uma empresa. A vantagem é a liquidez, pois há sempre um comprador no momento em que queremos vender.

    Por outro lado, como disse no comentário anterior, devemos alocar na Bolsa somente aquele capital que não precisamos, pois nunca sabemos o preço que o mercado paga pelo nosso ativo no momento em que precisamos vender.

    As pessoas assustam-se com a Bolsa porque seus preços são instantâneos e podemos acompanhar sua variação a cada momento. Agora, imagine se pudéssemos ver os preços dos seus apartamentos a cada instante? Com certeza haveria oscilação!

    Os ativos mudam de preços a cada instante, mesmo aqueles em que não temos uma referência diária. E cada um varia por algum motivo.

    Ao diversificar seu capital em diversas classes de ativos você esta diversificando seu risco, pois quando uns fazem zig outros fazem zag. Além disso, deve-se sempre ter algo disponível, líquido.

    Abraços.

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