Do que não foi

 


Por Maria Lucia Solla

Dos pés de meias que perdi dentro de casa, na máquina de lavar e na de secar, perdi o interesse e perdi a conta também. Quem é que se preocupa, hoje, com meias? Meias você compra como fraldas, em pacotes, praticamente descartáveis.

Desencanada das meias, hoje me pergunto: para onde vão os sonhos que não se realizam, os beijos que permanecem na boca de origem, os abraços que deixam inertes, os braços?

Vêm de onde? vão para onde? para a Terra do Nunca? do Sonho, da Esperança, do Desejo?

Moram juntos os Sonhos de amor e os de desamor, de construção e de desconstrução, de vida e de morte?

Cheios de nós mesmos, e vazios de vida, nos tornamos veículo conveniente de sonho, esperança e desejo, que nos seduzem projetando imagens do que poderia ser, para depois nos deixar com o gosto amargo na boca, daquilo que poderia ter sido.

Onde nascem? Morrem?

Circulam em nós como se fôssemos bondes antigos, abertos, e seguem pendurados, rindo ou chorando, mas vendo a paisagem do caminho e deixando cada um de nós, lotado, sobrecarregado, e cada dia mais e mais sozinho.

E nós nos viciamos neles. É só um sonho acenar, que a gente breca desesperado, descartando na estrada, outro sonho desencantado.

Aprendemos que esperança e sonho mantêm a gente vivo.

Discordo.

Sonho e esperança escondem de nós, a vida. O que mantém a gente vivo é o estar no aqui, no agora, é o aceitar que esse lugar é o lugar onde chegamos, pegando carona com o imponderável. Só isso.


Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

25 comentários sobre “Do que não foi

  1. Oi Lúzinha , bom dia ! Concordo mais uma vez , o que nos mantém certamente são os pés no chão , a mente alerta e apenas o coração no mundo da “eterna esperança’ !
    Bjs e saudades , Maryur

  2. Malu, tenho que ser mais justo com os meus problemas e evitar que ganhem mais atenção do que precisam ter. Evitar amar a algum em particular, os problemas são ciumentos e podem crescer revoltados.
    Hoje é uma manhã de sol, pra meu medo de hoje, protetor solar. Vou ao sol Malu. Vamos?

  3. Maryur querida,

    os pés no chão e os olhos nas estrelas é a receita melhor que conheço. Só conheço! não confundir com “tenho intimidade”.

    Os nossos descompassos acontecem quando dissociamos as duas posições.
    Eu, vivo a maior parte do tempo, tentando calçar sapatinhos de chumbo, mas mesmo assim, flutuo, flutuo, flutuo.

    Quem veio das estrelas, quem tem intimidade com o imponderável, quem ainda se lembra da Terra do Nunca, não pode viver conformado, quanto mais feliz e deslumbrado com o mundo da matéria, e pronto.

    Hoje, o homem, criação do Criador, entrega sua alma em troca da promessa de que o deus criado por ele, o mantenha rico, saudável, bem-sucedido, bem-amado e bem-vestido. Já ouvi: Foi Jesus, o arquiteto da minha casa. Foi o Senhor (não-especificado) quem me proporciona viagens, joias, carros, etc.

    Aí então fica difícil distinguir entre sonho e realidade, entre loucura e sanidade.

    A arte é não deixar que se parta o fio que nos liga à alma. É manter bem limpo e desobstruído, o canal.

    beijo e ótima semana cheia de sonhos e de realizações,
    ml

  4. Sérgio,

    não encontrei nada melhor do que o teu pensamento, pra te responder. Portanto, aqui vai ele de volta

    “tenho que ser mais justo com os meus problemas e evitar que ganhem mais atenção do que precisam ter. Evitar amar a algum em particular, os problemas são ciumentos e podem crescer revoltados.”

    Sabe onde aprendi isso, na prática? No jardim e nas plantas. É fácil e rápido concluir que se você cuida mais de uma, ela vai que vai! Você dá banana para os passarinhos, eles vêm que vêm! O que não precisa de alimento?! Começando, é claro, por nós. O resto só existe enquanto estamos ligados no canal.

    Nem precisa continuar, né?

    Quanto ao sol, estou indo para os braços dele.

    beijo,
    ml

  5. Oi querida Malú!

    Se não é a vida para aprendermos e ter os pes no chão, como seria então?

    Olhar sempre para a saúde mesmo que as esquecemos dela.

    Beijos e uma ótima semana.
    Saudades

  6. Oi Malú,

    Os sonhos ficam estáticos esperando nossas ações para então se moverem! Podem morrer, se não corrermos atrás dos nossos objetivos!

    No meu caso dou importância ao sonho mas na medida certa.
    Gosto mais de fazer acontecer e não esperar a hora.

    Beijos e uma excelente semana

  7. Karen
    nesse aprendizado de pés no chão eu patino muito. Dou dois passos pra frente e um e meio pra trás.

    Mas, como o peixe que não pode voar e vive a sua vida, eu também. Se bem que nunca vi o peixe choramingando, e eu às vezes ainda vaso.

    beijo e vamos espantar essa saudade?
    Que tal um bolo de cenoura no meião da tarde?!

    beijo,
    ml

  8. cláudio,

    você tem os pés na terra e o olhar nas estrelas.
    Eu tenho os pés nas estrelas e o olhar na terra.
    Por isso a gente se interessa pelo que o outro diz.

    beijo,
    ml

  9. Olá Malu!
    “Aquilo que poderia ter sido”…
    Difícil responder, mas nos dá asas à imaginação para pensar, sonhar, acreditar e sobretudo, continuar vivendo.
    Lindo texto.
    Beijos
    Sandra

  10. Malu,

    Quem tem os pés no chão não sai do lugar. O sonho de Alberto Santos Dumont nos fez voar.

    O que seria de nós sem nossos sonhos?

    O que seria de nós sem os sonhadores?

    Quando corremos atrás de um sonho, um pé fica no chão e outro no ar.

    Beijos
    Boa semana

  11. beto,

    adorei tua reflexão, só que, de agora em dante, na academia que vou me atrapalhar: vou ficar tentando comprovar o que vc disse.

    Tenho QUASE certeza de que quando corro, num dado momento, meus dois pés ficam no ar.

    Vivo desses momentos!

    beijo,
    ml

  12. Oi Malú,

    Mudei a estratégia! Hoje sonho porém acordado.

    Nos dias de hoje não acredito em soluções sem envolvimento integral! Não posso sonhar com um futuro melhor para nossa cidade e nossa gente sabendo que dependemos de administradores corruptos, preguiçosos e viciados no arroz com feijão mal feito.

    Preciso estar de olhos bem abertos o dia e a noite também senão passam um minhocão sobre nossas cabeças mais uma vez.

    Beijos.

  13. cláudio,

    depois que impermeabilizamos a cidade inteira, derrubamos casas onde moravam de 2 a 4 pessoas e construímos prédios no seu lugar, onde moram 160; depois que, barbaramente nos livramos do passado achando que é assim que se constrói um futuro; depois que aprisionamos riachos, joguei a toalha!
    Não enxugo gelo.

    Nem que fosse para tirar MUITA vantagem. Nem assim.

    beijo,
    ml

  14. Oi Malú,

    Queria muito contar com você nessa luta pois ao jogar a toalha você perde a indignação e os problemas que você apontou continuarão prejudicando nossas vidas.

    Você disse: depois que impermeabilizamos a cidade inteira, derrubamos casas onde moravam de 2 a 4 pessoas e construímos prédios no seu lugar, onde moram 160; depois que, barbaramente nos livramos do passado achando que é assim que se constrói um futuro; depois que aprisionamos riachos …

    Percebe que você assumiu que nós mesmos somos culpados por tudo isso! Penso que devemos tentar reverter, ainda temos tempo.

    Precisamos melhorar nossos votos e cobrar mais! Pressão!
    Votar é fácil, difícil é cobrar as ações dos políticos que hoje atendem seus umbigos!

    Não desista da sua cidadania por favor!

    Beijos.

  15. Será mesmo que descartamos esses sonhos? ou será que sentimos saudades do que fomos um dia? e com essas saudades lembramos daquilo que seria o ideal na nossa vida perfeita?

  16. cláudio,

    e quem disse que não pode contar comigo?
    Só não me peça para ficar no pé da lomba para parar jamanta desenfreada com minha frágil pessoa.

    Ponte que vai, corredor de ônibus que vem, interesses daqui e interesses dali, pra mim, são jamantas desenfreadas descendo lomba abaixo.

    Na cozinha, sei que se o pão não ficou bom foi porque um dos ingredientes não estava bom ou não foi usado na medida certa,.

    Ora, a cidade é feita do quê? O país é feito de quê? De você e de mim. De gente como a gente: melhor aqui, pior ali. O ingrediente aqui somos nós, meu amigo e nessa massa eu me sinto apta a mexer.

    Vai em frente que eu estou do teu lado.

    Me faz lembrar da reflexão poética de Albert Camus:

    Ne marche pas devant moi
    Je ne te suivrai peut-être pas.
    Ne marche pas derrière moi
    Je ne te guiderai peut-être pas.
    Marche à côté de moi
    Et sois simplement mon amie.

    Não ande na minha frente
    Posso não conseguir te seguir
    Não ande atrás de mim
    Posso não conseguir liderar
    Ande ao meu lado
    e
    simplesmente
    seja meu amigo.

    beijo,
    ml

  17. bruno,

    é bem provável que a gente ainda guarde alguns sonhos desandados, mas (assim como dentro, fora; e vice-versa… Assim como em cima, em baixo, assim como no corpo, na mente e na alma…) assim como no computador, se você não se livrar de alguns documentos a máquina pifa…

    No meu caso, chega um dia que eu desisto de dar murro em ponta de faca, me viro, e sigo, e sempre encontro outro sonho que me acena tentadoramente.

    beijo,
    ml

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