de morte e vida

Por Maria Lucia Solla

que joão permita
e perdoe a ousadia
de falar de morte e vida
do prosaico dia a dia
de quem nem é severina
mas simplesmente maria

vida e morte
nada a ver com sorte
morte e vida
a ver
com chegada e partida

apenas duas pontas
de linha
sem começo
de caminho
sem fim

apenas bons motivos
para falar de você
e de mim
de encontro
e desencontro

vida é ausência de morte
sendo morte a cada dia
início da carne
da alma o transporte

e serve de pano pra manga
da vã e nem tão vã filosofia

vida é quadro mutante
de olhares arfares
chegares partires
sonhos
e reveses medonhos

morte ganha sempre
mas
finda com a vida um caso
vence numa jogada
de carta marcada
e
determina da vida o ocaso

morte do corpo vida da alma
diz quem diz conhecer
da morte a morada

mas que não venha depressa
seja ela o que for
que chegue com muita calma
dançando
rodopiando
sapateando
pra que eu tenha tempo de arrematar da vida
todos os fios
até então tecidos
outros tecer
e resgatar os esquecidos

porque só a vida
vai chegando de mansinho
e a morte chega assim
de supetão
quando se sente que a vida
ainda nem começou

se ela se anunciasse
se viesse sibilando
em vez de chegar chispando
e desse tempo para que o olhar
mergulhasse e visse mais fundo na alma

a morte entrega de si uma amostra
na sonolência da tarde fria
na chegada da noite
na partida do dia
dá uma provinha
do que seja
quando a vida
de cansada arqueja

morte
na incerteza da vida
é na vida
a única

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

27 comentários sobre “de morte e vida

  1. Malu,

    Como todos os sábados, depois de deixar a dondoca do salão de beleza, me reúno com meus cunhados e sobrinhos mais velhos para beber umas cervejas e falar “M”. Em um desses sábados, no caminho do encontro, em plena avenida me engasguei literalmente ao ponto de ter que sair do carro irresponsavelmente. Meu desespero pedindo socorro através de mímica, causava espanto nos transeuntes que não atendiam meus apelos e assistiam de rabo de olho minha possível morte. Mas de repente, sinto um “tapão” nas costas o qual certamente salvou minha vida. Já recuperado, vejo que meu divino agressor era um daqueles caras grandões com cara de nazista em que se espera tudo, menos gentileza. Pois bem, depois dos agradecimentos, percebo que aquele senhor de aparência assustadora e nítida timidez, é meu vizinho do condomínio dos mais misteriosos, que raramente se vê. O bacana foi descobrir que, a reclusão daquele homem de aparência truculenta, tem o motivo de ele ser muito ocupado com seu belo e enorme orquidário, que é sua paixão, em que tive o prazer de conhecer.

    Conclusão: O engasgo e a proximidade da morte, me trouxe mais um amigo que se tornou guardião de minhas plantinhas, que nas mãos dele jamais morrerão.

    Triste: Saber que posso morrer de bobeira na multidão, que se torna platéia!

    Beijos e boa semana cheia de vida!

  2. Lu querida, a única certeza que temos desde que nascemos é que um dia iremos morrer, o problema é quando, como e por que?
    “Quando você nasceu todos sorriam e apenas você chorava, viva de tal forma que quando você morrer todos chorem e apenas você possa sorrir!”
    Beijocas
    Maga

  3. Mama,

    Nenhum de nós jamais morreu nem morrerá para contar. Mudanças podemos descrever, mas a morte, carece de descrição por inexistente que é… traço de nossa incapacidade de seguir com o coração aqueles que julgamos terem se afastado de nós… egoístas que somos.

    Por sinal, mais vivos a cada degrau alcançado… assim, mais vivos os que morreram para nós… nasceram para o Universo, de passo em passo… Conhecemos Deus… ou alcançamos a possibilidade de reter consciência das gotas da Revelação à medida que nos tocam, e molham os cabelos…

    Astuto é o ego, que nos faz crer que morre, fenece e desgasta em pó tudo que se passou… agarrado à materialidadeViva a Vida! como náufrago que resiste deixar a bóia em troca do navio de resgate!

    Caronte pilota a Barca e nos leva contente, seguir o rumo da Casa do Pai mais tantas vezes quantas se fizer necessário para desejarmos ficar com Ele… paciente Ele aguarda!

    Viva a Vida!

  4. Alpha india november,

    eu nunca assisti nada do zé do caixão, mas conheço a figura sorumbática assustadora, trevosa.

    Não me identifico; nem forçando!

    beijo e boa semana,
    ml

  5. beto,

    nossa! que viagem na realidade!

    E, ler o teu comentário logo após assistir Crash, com a Sandra Bullock, me fez literalmente ver a tua imagem agonizante na rua e o grandão no papel de anjo da guarda que, com o maior coração do mundo e um senso estético de dar inveja a poeta, cuida de plantas.

    Estamos todos ligados. Somos todos um não é linguagem babaca e nem figurada dos Figuras (!) da Nova Era. É a pura verdade.

    O que nos afasta, uns dos outros, é o medo, que nos faz compactuar com a neurose destrutiva, dar as costas e abrir mão do amor. Só isso.

    Assiste ao filme e depois me diz.

    beijo e boa semana,
    ml

  6. magutcha,

    São os chineses que vestem branco, comemoram e festejam a morte, e vestem preto e choram o nascimento?

    Quem sabe… Quem sabe…

    beijo e boa semana,
    ml

  7. Malu,

    Assisti este filme há uns dois meses atrás, e na época tirei a seguinte conclusão: Em determinadas situações, podemos ter reações que desconhecemos. Nossa planeta gira, e, quando nos esbarramos, não é mero acaso.

  8. Oi querida , de volta a teus belos presentes dominicais , gostei do tema , afinal são nossa únicas certezas : Nascer e Morrer ! Então , quanto a vida tentemos levá-la da melhor maneira , e a morte esperemos que seja rápida .
    Bjs saudosos , Maryur

  9. meu filho muito querido, metade do meu legado para o mundo,

    me admira e fascina tua capacidade de fazer rir e fazer chorar. Nunca um riso ou um choro que expressem só alegria ou só tristeza. São risos e choros que me fazem mergulhar na vida e compreender melhor cada minuto vivido; na linguagem da alma, que você me traz.

    Hoje, lendo você, ri e chorei.

    Amo e sou privilegiada por ser
    tua mãe,
    mm

  10. Malu,

    Me permita contar mais uma de minhas historias:

    Tive uma namorada que, gostava de me presentear com roupas. O término de nosso relacionamento, foi algo semelhante a drama de escritor de novelas, com todos os requintes. Certo dia, com muita raiva ouvi no rádio e vi na TV que, havia tido um grande incêndio em uma favela e, estavam pedindo doação de roupas. Enchi o porta-malas com as roupas que havia ganho da dita cuja e lá fui eu, Só que me deram endereço errado e acabei entrando em uma favela na Av. dos Estados. Me embreei pelas vielas e, apesar de ser mulato, sentia que as pessoas me olhavam como se fora um ET. Depois de pedir informação, consegui encontrar o que seria Associação de Moradores. Quando abri o porta-malas, juntou um monte de gente com olhar pidão, que me fez tremer as pernas. Uns jovens com aquele estereótipo de “manos” diziam: – nossa mano, que camisa da hora!.hahahaha! Encarnado em um The Flash, deixei rapidinho parte de meu guarda-roupa, e segui para minha casa. O que aconteceu não sei! Só sei que por uns meses, aquela favela teve os favelados mais elegantes de Sampa…hahahah!

    Depois de tomar um banho e beber uma cerveja, pensei: *orra meu, vc é louco?

    Pois é, a vontade de limpar um passado, me levou a fazer algo que em “sã” consciência jamais faria.

    Por outro lado, tive uma grande lição: O bicho ser humano, não é tão feio quanto se pinta, e algumas vezes sentimos medo apenas por não saber do que se trata.

    Eu e a Flavinha, estamos amadurecendo a idéia de termos um filho. E, como somos multirraciais e nossas famílias tiveram lutas semelhantes, um dos legados será: ser desprovido de preconceitos, sejam eles quais forem.

    Malu, obrigado! Todos seus textos me incentivam a dedilhar os teclados.

  11. beto,

    nossa, a música veio no dia certo, né?
    Certeiro, você!

    Achei o mesmo vídeo com a letra da música, que dedico aos meus netos, aos meus alunos de inglês e a quem passar por aqui. Thanks a você.

    Sabe beto, eu já entrei, -não tenho noção espacial nenhuma- sem querer, duas ou três vezes, numa fav… oooops, comunidade, e senti medo. Depois senti vergonha de ter sentido medo. Depois ri de nervosa e, finalmente chorei de tristeza.

    Agora, quanto a multirracial, somos todos. Uns mostram na pele, outros nos olhos, outros na árvore genealógica, mas nós, filhos da terra, não podemos mais falar de raça. Poucos podem, e esses nem se ligam nisso!

    E, nesta resposta multiassuntada… ainda digo: dedilha esse teclado, areja a poesia que mora no teu coração. Fico feliz de você pensar que eu tenho uma parcela de culpa nisso.

    beijo,
    ml

  12. A morte é, sim, um pouco grosseira, mas não é por mal, é apenas o jeitão dela.
    Quantas Malus já não se foram de dentro de você? E você nem morreu por causa disso.
    Aliás, se os números e o universo são infinitos, e a vida sendo parte do universo e o universo, da vida, como sendo um só, não são as interrupções falsas que devem causar angustias…
    beijos

  13. bruno,

    desde ontem estou pensando no teu comentário.
    Sim. Muitas malus já se foram; deixaram legados e, é verdade, não levaram nada da minha essência.

    Espero poder sempre, muito além das falsas interrupções, pelas vidas e pelas mortes, reais e irreais, que eu vier a percorrer, fazer parte da tua existência e ter acesso à tua sabedoria, gentileza e poesia. À tua luz!

    beijo,
    ml

  14. Hahahaha! Boa!

    -47 anos
    -ex-empresário de publicidade e estética
    -casado a 11 meses com uma professora de história e pedagoga
    -mulato claro
    -olhos castanhas claros
    -rugas tímidas
    -totalmente careca
    -1,73 de altura
    -76 kg
    -89 cm de barriga
    -114 cm peitoral
    -56 cm coxa
    -44 cm braço
    -ex-fumante
    -caminhadas diárias
    -natação no verão
    -musculação em casa
    -barítono amador
    -amante de musica
    -amante de cinema
    -amante de artes cênicas
    -amante de artes plásticas
    -amante de balé clássico
    -marceneiro, eletricista e pedreiro caseiro
    -cozinheiro de pratos tradicionais
    -etc…

    Este papo de doido que, o que vivemos morre, comigo não cola (com.22)..hahahaha! Mesmo sendo ignorante, minha essência está em tudo que vivi. E o que penso ter morrido, pode renascer para me ajudar em algum momento.
    Ex: conquistei meu sobrinhos, jogando taco com eles na praia. Coisa que aprendi quando criança e resgatei assim que precisei.

  15. Pingback: Maria Lucia Solla fez a passagem | Mílton Jung

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