Éramos felizes e não sabíamos ?

 

Por Milton Ferretti Jung

“Éramos felizes e não sabíamos”. Ouve-se seguidamente essa frase. Quem ainda não a escutou? Ela serve para lembrar, com prazer, o passado, nem sempre se referindo ao que as pessoas viveram. Outro dia, por exemplo – socorre-me o Google – um diretor da Rede Globo disse que os radiodifusores sentem saudade do tempo em que não havia a ameaça das novas mídias em seu modelo de negócios.

Normalmente, porém, quem pronuncia a frase é gente que vivenciou na sua infância momentos inesqucíveis, comparando-os com a realidade dos dias de hoje.

Permitam-me que regresse aos meus oito anos ou pouco mais que isso. Minha família morava diante de uma pracinha. Essa não passava de um triângulo situado no encontro de duas ruas. A prefeitura tentou em vão transformá-la numa praça de  verdade, mas nós, seus usuários, nunca permitimos porque acabaria com nossos improvisados jogos de futebol, basquete, vôlei e outras brincadeiras. Na minha rua havia também muitos terrenos baldios, os quais, às vezes ,serviam para que uma turma maior participasse de “peladas”, eis que o chão da pracinha era não só inclinado como sem um mínimo de grama.

O tempo foi passando, a pracinha permaneceu incólume. Os terrenos baldios acabaram. Em seu lugar surgiram casas. Os guris cresceram, casaram, tiveram filhos, alguns edifícios substituíram as casas mais velhas. Ainda sobraram os que, na juventude,fundaram um clubezinho – o Tijuca – que congrega parte da turma antiga em jantares de confraternização.

Meus filhos, quando visitavam seus avós, que nunca se mudaram, chegaram a conhecer a pracinha. Meus netos, porém, nunca passaram sequer perto da residência avoenga. Eles estão noutra. Brincam,hoje,como muitas crianças da idade dele, com computadores,iPod,iPad,Nintendo,Play Station, etc.

O Fernando, mais moço da turminha, filho do Christian e da Lúcia,irmão da Vitória, possui até um blog e está tentando ensinar a tia Jacque a criar o dela. Gregório e Lorenzo, filhos do Mílton e da Abigail, desde menininhos lidam melhor com computadores  que muita gente grande. Eu jogo somente Tetris no PC. E olhe lá.

Quando paro para pensar, volta e meia me ocorre a frase com a qual iniciei este texto e me pergunto quem teria mais razão para usá-la: eu, meus filhos ou meus netos? Responda quem se achar capaz.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista, trabalha na Rádio Guaíba de Porto Alegre e é meu pai. Às quintas, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

15 comentários sobre “Éramos felizes e não sabíamos ?

  1. Acho que é mais usual nas pessoas de mais idade, que realmente viveram num mundo sem computador, video game, Internet. Pessoas que jogaram muita bola (famosa pelada), peão, bolinha de gude, impinaram pipa e brincaram de esconde esconde.
    De fato, a tendência é acreditar que o tempo era mais e melhor aproveitado. E eles tem razão!

  2. Milton,
    Sei te dizer quem menos tem razão para utilizá-la, pois só pode ter essa duvida que viveu o momento a que estamos nos referindo, pois quem não viveu tal momento não tem a dimensão do que poderia ter perdido.
    Eu já utilizei muito essa expressão no serviço, tinhamos um chefe que viviamos as turras e na troca dele achavamos que todos os nossos problemas estariam resolvidos.. ai bate a saudade daquele chefe, pois o que veio, embora não vivesse as turras com a gente, não fazia nada por nós. Lembro outro episódio que utilizo essa frase, recebiamos um sacolinha de lanche (um sanduiche frio, uma fruta, um suco e uma barra de cereal) diversos colegas reclamava, passamos a receber apenas um pão…”eramos felizes e não sabiamos”

  3. Me arriscaria dizer que todos são felizes ao seu tempo e aos seus experimentos. Brincadeiras do passado nunca deixarão de ser boas e os terrenos baldios, bom estes realmente só os mais velhos poderão dizer ( me enquadro neles). Eramos felizes e não sabiamos.
    Abraço

  4. Sr. Milton

    Sua pergunta é dificil de responder, cada um com suas ideias. Não me atreveria a isso.

    Saudade de quando a rua era nosso campo de futebol, pista de atletismo e ciclismo. Carrinho feitos com latas de sardinhas e óleo, bolas de pano, carrinhos de rolimã, etc.

    Ouvia rádio a tarde toda, aquelas músicas caipiras mesmo, até sonhava trabalhar em rádio. Por algum tempo quebrei galho na técnica desta mesma rádio e, hoje continuo ouvindo rádio. Com a única diferença de que antigamente era aquela traquitana grandona de valvulas e hoje ouço no PC a rádio CBN.

    Nunca imaginava chegar aos dias de hoje, com todo o avanço tecnológico, e tenho que confessar que hoje não saberia viver sem este avanço todo.

  5. Éramos felizes e não sabíamos. Por que talvez somente tenhamos descoberto o que era felicidade após as primeiras tristezas.

    Filosofia à parte, a verdade é que meus meninos são muito felizes com as diversões que têm à disposição e com o mundo que está diante deles com apenas alguns cliques.

    Imagino que a alegria deles se assemelhe a minha quando tive oportunidade de descobrir o mundo que era minha vizinhança.

  6. Sr Milton
    Realmente, “nos tempos de outrora” conforme descreveste em seu artigo de hoje tudo era mais natural, expontâneo, obigava as pessoas a usar de mais criatividade sobre vários aspectos, face a inexistencia da tecnologia que temos nos dias de hoje, que também pode nos proporcionar momentos de felicidade, realizações em tempo real, na velocidade mach, vapt vupt.
    Ao meu ver, a felicidade está dentro de cada um e a sua volta, dentro dos seus momen tos de vida e de existencia.
    Nas realizações, no dia a dia, na familia, mesmo levando em conta que familia nos dias de hoje é um tema extremamente complexo também por razões óbvias.
    Por outro lado, nos dias de hoje parece que estamos vivendo confinados em nossos lares, apErtamentos, em frente a TV, PCs, dentro dos automoveis, cada vez mais sofisticados e informatizados.
    Antes um engenheiro, aerquiteto, projetista utilizava a prancheta, grafiti, nankim para desenhar e fazer os projetos.
    Hoje com ajuda de um computador mediano e o auto cad, a virtualidade facilitaram muito a vida destes prodissionais.
    Por outro lado a criatividade, a arte que existiam ao traçar uma linha no papel vejetal, manteiga, com grafite deixou de existir.
    Pilotávamos aeronaves totalmente analogicas, vestíamos o avião.
    Voava-se VOR, VOANDO OLHANDO O RIO.
    Hoje basta tirar o avião do chão e em 500 pés aproximadamente, “aperta-se enter” no FMC, FMS, e o piloto automatico leva o avião ao destino com segurança até o toque no solo.
    E tem ainda o GPS.
    Mas confesso que aqui nos ,meus sessenta anos de vida não troco a minha infancia pela atual.
    Motivos n ão me faltam, mas não desmereço a infancia de hoje
    Porque sou pai e avô mtambém.
    Outros tempos!
    Apesar de atuar também na área de informática e design.
    Abraços
    Parabéns pelo tema de hoje.
    Armando italo

  7. Hj ensino muita coisa para meus sobrinhos das coisas que eu fazia e brincava na infância. Tbém aprendo muita coisa com eles nesse mundo de internet, games e Ipod da vida. Essa interação é importante. E tento mostrar que a gente é feliz com aquilo que tem no momento. E temos que saber que somos felizes. Eu por exemplo era feliz e sabia quando a minha cidade em Porto Murtinho a única diversão era cinema, circo e tomar banho no rio era o máximo.

  8. Sr. Mílton,

    todos nós dissemos no passado, dizemos hoje e, certamente, nossos netos dirão o mesmo no futuro.

    Sou um poço de dúvidas e não tenho as respostas, mas seus textos são deliciosos, e quanto a isso não tenho dúvida.

    beijo,
    ml

  9. .
    Com licença Sr.Milton Ferretti Jung,

    gosto muito de suas palavras, das pessoas com mais idade, normalmente tem muito acrescentar.

    Também acredito, que muitas coisas [atitudes, brincadeiras, histórias, etc…] tem se perdido, é não e por causa da tecnologia, mas sim em partes aos pais e avos…

    [lógico que existem muitos pais e avos que até gostariam, mas praticamente não lhes sobram tempo]

    …que deixam boas lembranças, histórias e etc… serem esquecidas, serem cobertas pelas novas tecnologias!!!

    Penso, que todos e todas tiveram, tem e terão seu lugar, se assim nós quisermos e nos esforçamos para tal, lógico!!!

    Não sei o Sr.Milton Ferretti Jung,
    mas realmente acredito que nós seres humanos não precisamos sentir tristeza e dor, para só assim saber o que é alegria e felicidade.

    Um abraço ao pai que não tenho mais,
    e uma ótima semana a todos!!!
    .
    ass: Douglas The Flash
    .
    S19x2dc1S!(x204Fev111401ISex4211AspPjNewM14fj513581402
    .
    http://eujafuiprejudicadoporservicospublicos.wordpress.com
    .

  10. Na parte que me toca atrevo-me a afirmar, com humildade, que era feliz e não sabia. O contato humano era direto e diario. Coisa boa pegar na mão de meus falecidos pais e mesmo levar um “pito” com o dedo no nariz e o chinelo na mão. Hoje, na era virtual, chego a receber e-mail de filho que está no quarto ao lado…pode(?).

  11. Prezado Milton Ferretti Yung,

    a curiosidade levou-me há dias, a rebuscar nuns velhos papeis que guardo no fundo de uma gaveta esquecida, um pequeno caderno, no qual, à guisa de diário, na minha já distante adolescência, eu já rabiscava fatos ou acontecimentos passados.

    São folhas esparsas de uma era longínqua e saudosa, e nas páginas amarelecidas do modesto livreto pude sentir todo um poema de ternura e saudade, toda a beleza das épocas remotas. Traços de coisas que se passaram, ensaios de incipientes composições literárias, inícios de contos brotados do fundo de nossa imaginação juvenil, fotografias de amigos que desapareceram, lembranças de namoradas que se diluíram na voragem dos anos que se sucederam…

    E a velha e modesta que era nossa casa, com seus encantos de então, com suas imagens características de pequenina e esquecida povoação do Interior, passou pela minha memória, envoltas nas brumas da saudade. Com que emoção, pois, curvado sobre o livrinho de anotações manuseando suas folhas desbotadas pelo tempo, sentindo-lhe o cheiro característico dos anos acumulados, eu sentia refluir os antigos sonhos cor-de-rosa, os mesmos laivos de grandeza instilados pela fonte da inocência, nascidas da pureza dos nossos sentimentos juvenis, quando aureolava à nossa vida mística, a deliciosa ondas das esperanças mais sublimes;quando acreditávamos que nas lindas noites de prenilúnio os fantasmas se reuniam à sombra da alta e frondosa árvore próximo da casa de minha avó. Quantas recordações.

    Julgo-me a violar um mundo de esquecimento e saudade, a ressuscitar personagens que há muito completaram o ciclo de sua existência, a reviver fases pela redoma sagrada dos anos acumulados.

    A nossa infância feliz e despreocupada, quando em tardes semelhantes, com as pernitas desnudas, brincava-se ruidosamente, afundando os pés nas enxurradas tumultuosas.

    Prezado Milton Ferretti Yung,

    belíssimo texto,vaguei, levado pela imaginação, para longe, para muito longe dos tempos atuais, para os domínios esquecidos de um passado distante, para a seara dulçorosa da minha infância despreocupada. Tudo revi, tudo se me apresentou como se por um passe de mágica o passado feliz se unisse ao presente tristonho.

    Meu abraço,

    Nelson Valente

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s