Cidadão com medo é vida longa para vigia de rua

 

Zé da Rua trabalhava com um apito e montado em uma bicicleta. Sempre preferiu à noite para exercer sua atividade até que um pessoal de moto se aproximou e sugeriu que ele desse expediente de dia, pois eles iriam tomar conta da segurança noturna. Valorizando a própria vida, logo convenceu os moradores do quarteirão de que seria muito mais útil controlar as casas quando os donos estivessem fora, trabalhando ou na escola. Hoje, abandonou o apito e trocou a bicicleta pela moto que conseguiu comprar com o dinheiro que arrecada de 20 moradores, a maioria velhos conhecidos do Zé. Dois dos quais foram inclusive trancados com ele em uma mesma sala durante assalto com refém.

Grande parte das ruas de São Paulo e cidades de médio porte contam com a presença destes guardinhas, um serviço na maioria das vezes informal e vulnerável. Em alguns casos explorado por policiais ou grupos que mais se parecem com milícias que coagem os moradores a pagar pela suposta segurança.

Os vigilantes de rua ganharam destaque nesta semana após o delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo impor a eles a responsabilidade pela falha no sistema de segurança que permitiu o assalto a casa do secretário de Transportes Saulo de Castro, que na gestão anterior de Geraldo Alckmin era o responsável por combater a violência, no Estado.

O delegado Marcos Carneiro Lima disse que “somente a polícia não consegue resolver problema desta envergadura” e propôs que todos vigilantes fossem cadastrados e fiscalizados. Sugeriu que passem a atuar como olheiros da polícia.

“O delegado falou o que não devia”, criticou o pesquisador dedicado à segurança pública Guaracy Mingardi.

A ideia o fez lembrar do inspetor de quarteirão, figura que existiu em diferentes épocas no País com funções bastante distintas nem sempre nobres. A última referência foi na década de 1980 quando os homens que atuavam na função, escolhidos pelo delegado, ganhavam carteirinha e passavam a abusar de seus poderes: “alguns brincavam de ser polícia e davam tiros”.

O governador Geraldo Alckmin e o secretário de Segurança Antonio Ferreira Pinto também consideraram a ideia desproposital, apenas fizeram isso de forma polida e tentaram defender o colega de governo com o velho jargão: “foi mal interpretado”.

Ambos aproveitaram a oportunidade para lembrar a derrubada nos índices de violência no Estado, noticiada com destaque nos últimos dias. Números oficiais mostram que temos 10,48 homicídios para cada grupo de 100 mil habitantes, próximo do que a Organização Mundial de Saúde considera razoável.

Há um dado, porém, que intriga.

Calcula-se que há cerca de 1,8 milhão vigias de rua, 400 mil no Estado de São Paulo. Todos irregulares, pois a Constituição prevê que esta é área exclusiva das polícias Civil e Militar, explica Carlos Roberto Silveira, do Sindicato dos Vigilantes e Segurança de São Paulo

Se o avanço no combate à violência foi tão significativo quanto mostram as estatísticas fica difícil entender porque a população se submete a contratar de forma precária vigilantes que oferecem serviço de qualidade duvidosa. Sem falar na quantidade de equipamentos disponíveis em torno da casa: muros altos, cerca elétrica, alarme e câmeras.

É esta a resposta que o cidadão busca pois está cansado de ter de pagar dobrado para um mínimo de tranquilidade. Sai dinheiro de impostos para financiar a segurança pública e do salário para a privada. E o medo permanece, conforme levantamento ‘Características da Vitimização e do Acesso à Justiça’, do IBGE: a sensação de insegurança afeta 47,2% dos brasileiros, 21% dos quais dentro de casa

Walter Maierovitch, do Instituto Brasileiro Giovanni Falconi, por telefone repetiu o que havia escrito recentemente em sua coluna semanal na revista Carta Capital: “o medo de se tornar vítima de crime virou um problema social e não só no Brasil. É causa da desconfiança, afastamento da vida comunitária, paranoia, autodefesa, enclausuramento etc”.

Meu ex-colega de CBN, sempre por mim consultado quando a coisa está complicada para o lado do cidadão, conta conversa que teve com Gianni de Genaro, que foi chefe da polícia italiana, na qual este sustentou que não adiantava apenas ter um número suficiente de homens em patrulhamento ostensivo ou em ações preventivas. Os policiais tinham de ter capacidade de dialogar com as pessoas e compreender suas reais necessidades, em cada comunidade.

Em cidades e países ricos, a exposição de tecnologia para vigilância também colaboram no combate ao crime, desde que usada inteligência de prevenção, como ocorreu em Nova York no governo Rudolph Giuliani.

Para Maierovitch é preciso reduzir a sensação de insegurança e restaurar a confiança no policial que deve estar próximo da população – o que não se faz pela força: “É sabido que a baixa dos índices de violência, por si só, não reduz o medo”.

Enquanto houver medo, Zé da Rua terá vida longa no emprego.

4 comentários sobre “Cidadão com medo é vida longa para vigia de rua

  1. Foi-se o tempo em que os vigias tinham que ficar a tentos a ladrões de galinha, municiados somente com uma faca.
    Bastava um grito do vigia e os ladrões de galinha saiam correndo
    Hoje quem sai correndo é o vigia, pois ladrões de galinha já não existem mais.
    E faca para ladrão nos dias de hoje esta demodê.
    O negocio é AR15, metrancas, bazucas, ponto 30, 50.

  2. Sinceramente acho que os índices nunca irão baixar será do que se tem pra mais e talvez com algumas baixas em alguns momentos, sabe-se lá porque. Enquanto imaginamos muitos investimentos na área o Governo prevê cortes no orçamento o que é correto no momento em que se gasta além da conta. Porém aguardaremos mais um bom tempo até que os investimentos realmente venham. Se é que virão.
    Voltando ao assunto do Zé da Rua que não é o caso deste Zé que relatas, existe também uma espécie de coação por parte destas “Empresas Partiulares” de segurança que surgem do nada, de maneira que se tu pagas a segurança e eu da casa ao lado não, fica no ar aquele clima de: bom meu amigo eu te avisei.
    De exemplo a minha rua em Porto Alegre. A ficha corrida dos pseudo seguranças não é publicável em currículo nenhum a não ser naquele currículo que o delegado adora ler quando esse sujeito bate lá de mãozinha pra trás.
    Ser segurado por sabe-se lá quem. Pessoas que acabam por saber todos os hábitos que se tem como hora de levantar, almoçar, chegar, viajar. Vigiados para o bem ou para o mal ficamos a merce de figuras que surgem do nada. E eu ainda levo de presente uma guarita que mais pararece a “casinha” bem na frente de casa. Resultado. Final do dia na minha rua quando a “firma” começa a trabalhar junta um bando de muquirana sentados ao meio fio que as pessoas ao virem me visitar ligam pra saber se não deu fuga do Presídio de Segurança Máxima de Charqueadas.
    São os Zé quebra galho!
    Abraço

  3. Prezado Milton Jung,

    não pode haver indiferença do Estado, enquanto cresce essa lamentável criminalidade. Se o cidadão fica responsável pela sua própria defesa, fazendo justiça por conta própria, com a privatização do poder de polícia, corremos o risco de uma guerra civil. Não é isso que se deseja – e certamente a solução passa por uma educação de boa qualidade estendida a todos.

    Afinal de contas: polícia é um ramo da administração pública, encarregada de manter a ordem e a segurança pública, no interesse do indivíduo e do estado, pela vigilância e repressão ao crime.

    Abraços,

    Nelson Valente

  4. Boa Tarde Milton e aos Colegas do Blog,

    Na verdade, essa situação só vem mostrar a incompetencia do governo estadual que ai esta. Considero um obsurdo o que eles pretendem. Querem jogar a batata quente no colo da população. Já faz algum tempo, que quem manda na segurança publica desse estado é um cara chamado marcola.
    Ele escolhe a dedo, o shoping que vai assaltar, quem ele manda sequstra, a mansão ou apartamento que vai fazer arrastão. Com certeza, com aval e cobertura de setores da Pc/pm do estado que esta pior ou igual a pm do RJ.
    É tudo balela esse negocio que a criminalidade do estado esta diminuindo. Esta dimunindo tanto que os autos funcionarios do governno estão sendo assaltados. Por outro lado, a população do estado, tem a sua parcela de culpa, eles só estão ai, por que foram votados.

    Abr,

    JRSS

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