De ser ou estar

 

Por Maria Lucia Solla

De ser e estar

O que te deixa entusiasmado; o palpável, o impalpável? Em grego, Ενθουσιασμος (enthusiasmós) quer dizer estar inspirado por Deus, conter Deus. Dou um pitaco e digo que estar entusiasmado é refletir o Criador que inevitavelmente habita você, e você Ele. O fato de não refletir entusiasmo não quer dizer que o Criador lhe vire as costas, nem que você vire as costas a Ele. O deus criado pelo homem talvez vire; o Deus indizível, impensável, indescritível, intraduzível, não.

Ontem uma pessoa de uma religião – que não é a minha porque não tenho nenhuma, por opção – me disse que não tenho deus em mim. Que deus quer fazer um trabalho na minha vida, mas que eu não deixo. E que eu com certeza não estava entendendo o que ela queria dizer, mas que um dia eu entenderia. Não entendi, mesmo.

Suas palavras tinham tom de engessada certeza; de acusação. Fiquei chocada. Perguntei por quê, como assim, como ela podia dizer aquilo? Mas nem precisava responder, eu não comungo da sua crença. Tentei manter a calma, que é minha companheira até não aguentar o tranco e me deixar na mão, mas ficou puxado. Não é a primeira vez que sou atacada por religiosos, com assédio ou enfrentamento. Há algum tempo, um amigo que tinha encontrado o seu caminho, entre as religiões pelas quais já tinha passado, me perguntou se eu achava que era filha de deus. Quando respondi que não achava, que tinha certeza porque ao Criador é impossível não me conter, como contém toda a Criação – homem, mulher, criança, branco, negro, amarelo e vermelho, planta, animal, estrela, sol, lua, pedra, – ele disse que, nana-nina-não, eu não era filha de deus, eu era apenas criatura. Perguntei o que eu deveria fazer para que esse deus me reconhecesse como filha, e ele disse que eu teria que ir à igreja dele, confessar minha condição de criatura – como se isso fosse pecado – etc., etc., etc. Na avaliação dele, havia um vazio em mim, e esse buraco poderia ser preenchido unicamente daquela forma, naquele lugar, através daquelas pessoas. De outra forma para mim não haveria salvação. Não discuti porque não acredito em discussão e sou fraca no jogo. Cada um sabe de si, ou ao menos procura saber. Agora, desta vez, atacada por outra fonte da mesma religião, meus lábios tremeram. Mais uma vez eu era discriminada, diminuída, menosprezada por não ser nem pensar igual. Por não ser um deles.

Se religião – futebol e política – desse senha para entusiasmo, bem-estar e qualidades quetais, religiosos não matariam em nome de Deus, não apontariam o dedo uns para os outros se vangloriando de serem guardiões da verdade, vendo na verdade do outro, mentira. Não é assim?

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

13 comentários sobre “De ser ou estar

  1. Outro dia, pelo facebook, uma pessoa também se viu no direito de apontar o dedo para um monte de religiões e crenças, como se todas fossem erradas e só a dela a certa. Como se ninguém soubesse a tal da “verdade” e só ela soubesse. Fora, que criticou os homossexuais e outras coisas, como não pertencentes ao direito de ser amados por Deus. Perguntei a ela porque se achava a dona da verdade, porque se achava no direito de julgar se nem Ele jamais fez isso. O que ela fez foi simplesmente deletar minha mensagem. Cheguei a conclusão que o silêncio, muitas vezes é melhor mesmo do que uma discussão. O que importa é o que pensamos. O que o outro pensa é apenas dele.

  2. Bom dia, Alpha India,

    Cavok, cavok, cavok e, lá no fundo, você ainda vai encontrar muita incompreensão.

    Como é que a paz vai se instalar onde não há lugar para ela?
    Estamos todos muito cheios de nós mesmos.O que salva são os que não se abandonam nos momentos de dor e não se chegam só na hora da festa.

    beijo e bom domingão,
    ml

  3. Discriminada e possivelmente descriminada. “”Lá vai aquela ali que não tem Deus dentro de sí…”

    Liga não minha querida. Esse povo se acha dono de tudo de todas as verdades.
    Sou cristão e sou muito pequeno prá compreender Deus.

    Uma coisa eu tenho certeza:

    Agora eu sei porque tem tanta gente que é ateu ou “atoa” rsrsrsrs

    Sabe qual o livro preferido desses pseudos “doutos” ???

    ” O evangelho segundo EU ”

    Abraços

  4. Su,

    é verdade.
    Somos o que comemos, o que pensamos, o que dizemos. Somos a nossa expressão.

    É importante respeitar, e respeito não se aprende na escola nem se compra no Shopping, embrulhado pra presente. Respeito é um valor social como tantos outros; se cultiva.

    beijo e obrigada,
    ml

  5. Mama,

    Já dizia Rudolf Steiner… que o Deus que os homens se dirigem quando reza, nos tempos atuais, é “no máximo um anjo da guarda de cada um de nós”.

    A dimensão de Deus na mente humana atual é tão ínfima, tão próxima da nossa crosta terrestre, que esbarra na possibilidade de estarmos acendendo velas pro Capeta, mais do que rezando para o “Ser Supremo qué é a Absoulta Verdade”, ou Aum Tat Sat!

    Filosofias à parte… Sigamos orando para dentro, mais do que para “cima”… o caminho é bem mais curto.

    Saudades do papo, do sorriso e do teu carinho…

    Bjs

    Pi

  6. Filho meu,

    sim; muita saudade; tanta que nem pra medir.
    Sei que você sabe o meu coração e que sente o mesmo; tanto na saudade quanto na percepção do divino.

    Lembro de um tempo não muito longe em que eu não sabia sentir saudade. Simplesmente não sabia. O estar ali fisicamente era bom, mas vocês viajavam, e eu ficava em casa sorrindo todo o tempo, imaginando vocês no lugar onde estavam, e eu dizia para as pessoas: não entendo essa saudade que as pessoas dizem que sentem. Basta eu saber que eles existem e estão felizes. Pra mim, basta.

    E eu não entendia mesmo.

    Hoje, não só entendo como preferia nunca ter aprendido.

    Amo você,

    mm

  7. Ezequiel,

    estava no carro, agora há pouco, voltando pra casa e pensei: Puxa! faz tempo que ninguém me faz rir. Tô ficando engasgada.

    Pois bem, desengasguei!

    Só posso agradecer.
    A-do-rei o ”Lá vai aquela ali que não tem Deus dentro de sí…”

    Beijo, super obrigada e boa semana,
    ml

  8. Milton, bom dia!

    Me impressionou a superficialidade das declarações da advogada trabalhista entrevista hoje de manhã sobre o “situação dos sindicatos”.

    Sou diretor de um Sindicato de Trabalhadores e sei que a situação atual é totalmente diferente do colocado pela entrevistada.

    Pela verdade dos fatos, solicito que este orgão de imprensa busque os representantes do movimento sindical para os esclarecimentos devidos.

    Grato pela atenção.

  9. Entusiasmo é quando o nosso coração fica todo florido de Deus e acredito que estas pessoas presas a religiões e fanáticas possuem espinhos no lugar das flores e nem percebem.
    Nós que sentimos o Sagrado em tudo e não só na presença de pregadores que decoram a bíblia e a usam como desodorante somos leves e não discutimos porque discutir é duvidar de nossa conexão com a Divindade.
    Temos um privilegio enorme de nossos Santuário Sagrado ser percebido sentido no seu espaço original porque sabemos que aonde formos estaremos levando nossas flores.
    Abraços entusiasmados.

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