A ciclofaixa de Moema e o respeito ao espaço público

 

Começo por esclarecer que não fui até lá. Escrevo baseado nas reportagens, comentários em blogs e no Twitter e no que conhecemos das pessoas e hábitos de São Paulo. Houve muita confusão no primeiro dia de funcionamento da ciclofaixa no bairro de Moema, zona oeste da capital, com carros estacionados em local proibido ou parados em locais permitidos mas injustificáveis, motoristas e ciclistas desorientados, sinalização atrapalhada e organização precária. Todos aspectos que podem ser facilmente resolvidos com ajustes simples e um pouco mais de tempo. Há, porém, questões bem mais complexas que a cidade ainda precisará encarar, a começar pela cultura em favor do automóvel que nos domina. Mais do que isso: há um egoísmo que nos pauta e cega, impedindo a reflexão sobre a necessidade do convívio entre os diferentes e o entendimento de que o espaço público é do público, portanto de todos. Comentários publicados neste blog deixam evidente o tamanho do problema (leia o post “por que punir Moema com ciclovia?”).

Muitos de nós ainda imaginamos que o estacionamento diante de nossas casas e prédios é área privada na qual apenas nós ou nossos autorizados podem ocupar. Ai de quem se atreve parar ali, corre o risco de ver seu carro alvejado. Somos os mesmos que reclamamos, porém, quando restaurantes e bares agem assim diante de seus estabelecimentos para privilegiar os clientes.

Estamos pouco nos lixando se as estações de metrô ou pontos de ônibus são distantes e mal localizados, mas nos incomoda profundamente se temos de deixar nossos carros uma quadra atrás. Curioso é que em shopping podemos subir vários andares, percorrer enormes corredores e nos perder em labirintos de lojas até encontrar a nossa favorita. E pagamos caro pela vaga, sem reclamar.

O que mais me incomoda, contudo, é a dificuldade das pessoas em dialogar, conversar de forma civilizada, sem ofender, dando tempo para ouvir o contraditório, tendo chance de refletir sobre o que o outro pensa, quem sabe até repensar. Seja como for, a faixa pintada no piso e as bicicletas desenhadas no asfalto são sinais de que alguma coisa começa a mudar nesta cidade. A lentas pedaladas, mas estão mudando para melhor.

A foto deste post é do site Vá de Bike, que fez avaliação da ciclofaixa de Moema e apontou alguns problemas na semana que antecedeu a inauguração do sistema.

22 comentários sobre “A ciclofaixa de Moema e o respeito ao espaço público

  1. Sem me aprofundar muito no assunto, me chamou atenção na edição de sábado do SPTV, quando uma lojista da região soltou a seguinte pérola:

    “Minhas clientes são milionárias, você acha que elas vão chegar até minha loja de bicicleta com aqueles saltos altos”

    Consciência ambiental é somente para baixa renda?

  2. Tem gente que é tão pobre que só tem dinheiro.
    Esta lojista representa, para mim, a pobreza mais difícil que São Paulo terá que combater, e já é tarde!

  3. Fico observando essa história da ciclofaixa de Moema e algumas coisas me chamam a atenção: Primeiro, penso que os ciclistas da região de moema não têm motivo para andar de bicicleta nas ruas do bairro quando têm ao lado um parque maravilhoso como o Ibirapuera, com ciclofaixa excelente. Segundo, por que a prefeitura investe tempo e dinheiro em uma região nobre, quando tantas regiões da cidade apresentam problemas de infraestrutura bem mais sérios. Terceiro, por que as pessoas se revoltam ao ver uma manifestação de opinião como a da lojista que vê futuros problemas para seu meio de subsistência. Num mundo de hipocrisia, onde os políticos pegam seus jatinhos para sobrevoar a miséria, onde a imprensa “livre” investe tempo e dinheiro para saber se um cantor famoso menor de idade foi estuprado por uma fã que está grávida, onde um canal de televisão gasta uma tarde inteira de domingo para que uma dupla de cantores irmãos fique justificando um momento de loucura, onde estudantes que provavelmente são filhos dessas senhoras dos saltos altos e carros importados fazem uma manifestação injustificável na USP. Sinceramente, a declaração da lojista foi horrível, mas ela apenas traz à tona uma realidade: dentro de cada um de nós existe esse ser, egoísta e odioso, e que nos mostra o quanto ainda temos que evoluir.

  4. Moro no Campo Belo, e trabalho na região de Pinheiros. Vou ao trabalho de Bike diariamente, exceto em dias de chuva.

    Me aventuro pelas ruas, inclusive na Faria Lima, onde muitos motoristas se irritam em favor de seu individualismo egoísta. Mas fico contente em ver na quantidade de ciclistas que encontro no caminho, desde simples operários, até engravatados em biles dobráveis.

    Essa iniciativa da ciclofaixa é uma luz no fim do túnel para nós “commuters”, além de apontar uma solução para o caótico trânsito paulista. Porém, talvez devido a inexperiência no assunto, e querendo agradar a todos, não tenham decidido da melhor maneira. Vejo aquelas vagas zona azul ao lado da ciclovia como perigosas aos ciclistas e motoristas, com relação á abertura de portas. E causa uma estranha sensação de estacionar no meio da rua, apesar da sinalização horizontal.

    Enfim, acho louvável a iniciativa, mas não sei se foi implantado da melhor maneira. Temos que ver daqui alguns meses e saber se todos se adequam a nova realidade.

    No meu caso, sou um ciclista responsável, obedecendo ás leis de trânsito, e na medida do possível ocupo o espaço de um veículo para manter a minha segurança, apesar da grande maioria dos motoristas discordarem. Sinto que se houvesse o uso de faixas compartilhadas, a mudança de atitude viria de forma mais natural e menos traumática.

    De qualquer jeito, tenho esperança que com essas iniciativas as pessoas possam ter condições de melhorarem suas qualidades de vida

  5. Sou um entusiasta da implantação de ciclovias e ciclofaixas pela cidade. Mas essa aí de Moema, espremida entre o meio-fio e a Zona Azul, me deixou espantado.

  6. Bom Dia Milton e aos colegas Blogueiros.

    Meus caros Armando/Alcir, essa senhora das clientes milhonarias mostra bem a segregação entre as classes dessa cidade/estado.
    Essa encrenca toda mais uma vez, mostra que essa cidade não tem prefeito e o estado não tem governo. Existem sim dois coroneis que se diz governandor e pefeito. Eles tomam as medidas ao seu bel prazer e deixam a confusão para o povo. E aí surgem as divisão de classe. Logo logo, SP, vai tornar uma India, a população, vão se classificar por castas.
    Bom na India, salvo a minha ignornância, tem duas: os daletes e os bhramas. Em SP, vão ser quais? Alkimim e Kassab?

    Abr,

    JS.

  7. Ele pode vende tênis caríssimos, incentivando-as à prática esportiva. Afinal, é o custo da atividade e o status que ela proporciona que move muita gente.

  8. Aqui na Vila Itaim foi instalado a “ciclocarreta”. A carreta sobre na calçada, derruba o poste, quebra a tampa de bueiro e a Prefeitura “fecha os olhos”. Sou a favor primeiro, do pedestre da periferia poder andar na calçada, o que não acontece hoje.

  9. Como é difícil mudar a cultura de uma Cidade caótica como a de São Paulo infelizmente onde, transportes alternativos como a bicicleta são desprezado.
    Resumindo transito cada vez mais caótico.

  10. Mais uma contribuição para o debate, essa aqui é minha criteriosa avaliação sobre as Ciclofaixas de Moema, até porque eu fui um dos entusiastas que trabalharam para isso virar realidade.

    http://bicicreteiro.org/2011/11/08/mais-uma-quebra-de-paradigmas-a-ciclofaixa-de-moema/

    Como disse no meu texto eu ignoro aqueles que colocam suas questões pessoais ante as questões comuns. Aquela senhora que se achava dona da vaga, tenho certeza que em breve, principalmente depois de realizar uma nova viagem para a Europa e observar os ciclistas (algo que ela não fazia antes) verá que essa mesma atitude sua lá seria considerado algo de gente desequilibrada.

    No mais, apesar de algumas falhas normais em projetos pioneiros e inovadores, só consigo enxergar coisas positivas nessa iniciativa.

    []s

    André Pasqualini

  11. Esta mesma cliente “milionaire”, acha CHIQUE alugar uma VELIB e andar no centro de PARIS, acha também maravilhoso tirar fotos no METRÔ DE PARIS.
    Agora quando se trata de BRASIL, isto é coisa para pobre ?
    Pelo escândalo que esta senhora fez na TV, achei que tinham tirado o estacionamento dos carros da rua, ao contrário, marcaram o estacionamento ao lado da ciclovia. Acostume-se com a bicicletas empresaria “milionaire”, o futuro das grandes cidades está nisso.

  12. Estamos organizando um protesto bem humorado via Facebook

    https://www.facebook.com/event.php?eid=220006944734845&view=wall&notif_t=event_wall

    Bicicletada de gente diferenciada em Moema em frente às declarações dessa comerciante Sra Carol Mafuf que saiu em defesa do seu comércio e das suas clientes mihonárias.

    Quem sabe jogamos uma luz na consciência dessas pessoas e conseguimos convencê-las a sair do salto e andar de bike com a gente!

    https://www.facebook.com/event.php?eid=220006944734845&view=wall&notif_t=event_wall

    Divulguem!

  13. Nas minhas palavras, o que o MJ escreveu: Ciclovia é coisa de país de quinta categoria.

    Em grande parte dos países desenvolvidos o ciclista é respeitado sem a necessidade de uma faixa exclusiva. Alia-se à isso, estruturas públicas de apoio como estacionamentos, manutenção e até mesmo serviços de aluguel de bikes.

    Passo, de carro, na Av. Ver. José Diniz e colecionei uma série de fotos de carros usando a faixa “exclusiva” de ônibus. A placa de todos está visível. Posso enviar para a CET para um multinha póstuma? Não, né? Mas será um caminho esse tipo de monitoramento que já ocorre nas redes sociais?

  14. Bom Dia Milton e aos Colegas do Blog.

    Pessoal vcs, estão falando dessa ciclovia de Moema e dos transtornos que estar criando. Já viram a ciclovia da Radial leste? Nessa ciclovia só não passa carro. Mas a mesma foi feita encima da calçada para pedestres. E na manhã, pedestre e ciclistas particam seus exercicios fiscos tudo juntos. Acreditem se quiserem.
    Camvenhamos, é ser muito burro e incompetente para fazer umas merdas dessas. E é justamente o que esse prefeito farabuto e seus asseclas são. O dinheiro é deles não é mesmo?
    O poior de tudo isso, é ver pessoas apoiando esses vermes malditos.

    Abr,

    JS.
    ,

  15. na verdade se a maioria das pessoas soubessem o beneficio da bicicleta,deixassem o carro em casa .e respeitasse mais os ciclistas não precisaria ter todo esse trabalho de fazer ciclovias.mas nos cabe mais educação do transito. para que isso seja possivel.

  16. Mílton, concordo plenamente com seu comentário, parabéns por expor com franqueza a questão mais importante dessa história: o egoísmo cego e a estupidez da população em assimilar novos hábitos, em ter um novo olhar. É o mesmo pessoal que adora dizer que anda a pé em NY e aqui não consegue olhar além do próprio umbigo, vai de carro até na padaria da esquina. O projeto piloto de Moema tem que ter ajustes, é claro, mas já é um passo para a melhora. O espaço público é de todos, pedestres, ciclistas, motoristas (aliás, a ordem de prioridade é essa, sempre a partir do mais frágil). Por que é tão difícil assimilar isso?

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