Conte Sua História de SP: os passeios de bicicleta na pista do aeroporto de Congonhas

 

Por Walter Whitton Harris

 

 

Na minha juventude, morava no bairro de Campo Belo, e as ruas eram de terra batida e não havia calçadas.

 

As ruas principais do bairro (Rua Prudente de Moraes, hoje Rua Antonio de Macedo Soares, e a Rua Vieira de Morais) que cruzavam com as outras, eram as únicas cobertas com paralelepípedos, alguns quarteirões com calçadas, outros não.

 

O movimento de automóveis era pequeno, com trânsito maior de caminhões e ônibus. Dependíamos destes ônibus e dos bondes para ir e vir do centro.

 

Andar de bonde, então, era uma aventura. No trajeto que ia da Praça João Mendes até Socorro, o bonde levava quase duas horas. Depois de descer a Rua Conselheiro Rodrigues Alves e passar pelo Instituto Biológico, entrava numa longa reta, com trilhos à semelhança de uma estrada de ferro.

 

Da mesma forma que uma ferrovia, as paradas tinham os nomes em placas presas entre dois postes com a identificação pintada em letras pretas sob fundo branco, cuja sequência até chegar em Santo Amaro eram: Ipê, Monte Líbano, Moema, Indianópolis, Vila Helena, Rodrigues Alves, Campo Belo, Piraquara, Frei Gaspar, Volta Redonda, Brooklin Paulista, Petrópolis, Floriano, Alto da Boa Vista e Deodoro.

 

Daí por diante, os trilhos voltavam a ficar embutidos nos paralelepípedos e viam-se muitas casas e lojas comerciais.

 

Pois o fato é que durante todo o trajeto desde o Biológico, havia grande número de chácaras e poucas casas, estas últimas se aglomerando junto às paradas dos bondes. Do Largo 13 de Maio, centrão de Santo Amaro, o bonde, que era fechado, descia até a Praça São Benedito. Quem quisesse atravessar a ponte sobre o rio Pinheiros e chegar à Praça de Socorro, fazia a baldeação para um bonde aberto. Pergunto-me até hoje o motivo disso. Será que a ponte não suportava o peso de um bonde maior, ou não havia passageiros suficientes e era vantagem retornar logo para a cidade com o bonde maior?

 

Íamos de bonde para o Colégio Estadual que ficava em Santo Amaro. Muitas vezes os nossos professores nos faziam companhia, pois poucos tinham seus próprios carros.

 

Lembro-me bem de uma ocasião em que os bondes pararam no Brooklin, um atrás do outro e tivemos de ir a pé até a escola, uma pernada e tanto. Os meus colegas e eu passamos em frente à fábrica de chocolates Lacta. Logo adiante, vimos o motivo. Na parada Petrópolis, um bonde em alta velocidade havia colhido um caminhão distribuidor de água da Fonte Petrópolis (que existe ainda hoje), arrastando-o por vários metros. Não me lembro se alguém saiu ferido. Havia garrafas de água e cacos de vidro por todo lado. Será que o motorneiro desceu o declive existente em frente à Lacta à toda e não conseguiu parar em tempo e pegou o caminhão que estava atravessando a linha?

 

A vida, na adolescência, era bastante pacata e singela. As andanças de bicicleta com um grupo de coleguinhas era uma delícia. Dois quarteirões depois de nossa rua, começavam as chácaras onde eram plantadas hortaliças que abasteciam a cidade de São Paulo. Havia estreitas passagens nas chácaras pelas quais íamos com nossas bicicletas até chegarmos ao Aeroporto de Congonhas. Naquele tempo, o aeroporto não era cercado e íamos até a cabeceira da pista e lá ficávamos observando os aviões passar por cima de nossas cabeças para pousar. Nem imaginávamos o perigo pela qual passávamos, porém a gente sabia que estávamos errados pois, vez ou outra, saíamos correndo de lá quando um jipe vinha em nossa direção, piscando os faróis. Era apenas um incentivo para ousarmos voltar. Será que cercaram o aeroporto por nossa causa?

 

A nossa rua de terra era um convite para se jogar “taco”, uma modalidade brasileira simplificada do “cricket”. A finalidade era derrubar, com uma bola (geralmente de tênis), uma casinha em formato de tripé feita com alguns finos galhos de árvore e que era defendida por quem estivesse com o taco. No jogo inglês, há três pequenos postes, unidos por travessas pequenas no seu topo que precisam ser derrubadas. Meu pai esculpiu um lindo taco para mim, que era invejado por todos os jogadores. Está guardado como lembrança daqueles tempos.

 

Outro jogo bastante gostoso era com bolinhas de gude. Fazíamos três buracos equidistantes alinhados na terra e um quarto buraco em ângulo reto com o buraco da ponta. Tínhamos de alcançar aquele último, mas também precisávamos afastar os adversários, atingindo suas bolinhas com a nossa.

 

Depois de fazer nossas lições de casa, ficávamos jogando até o anoitecer, quando nossos pais nos chamavam para jantar e dormir. É desnecessário dizer que voltávamos para casa resmungando e de mau humor.

 

Os dias passam céleres e eis que estamos retratando fatos de mais de cinquenta anos atrás! Como era bom não ter responsabilidades, não ficar preso dentro de casa em frente a uma televisão, que poucos tinham naquele tempo. Não havia computadores, nem éramos escravos de celulares, tablets etc. Eram outros tempos. Ah, tempos idos, que não voltam nunca mais…

 

O Conte Sua História de São Paulo tem sonorização do Cláudio Antonio e narração de Mílton Jung. O quadro vai ao ar, aos sábados, no CBN SP, logo após às 10h30 da manhã.

Desafio Intermodal chega a 10a. edição com bicicleta e moto mais eficientes

 

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Será realizado hoje, o 10º Desafio Intermodal da Cidade de São Paulo. O ponto de partida será a Praça Gal Gentil Falcão, na Avenida Eng. Luis Carlos Berrini, no Brooklin, com chegada em frente à Prefeitura de São Paulo(Centro), distante cerca de 10 quilômetros. Neste ano, participarão pessoas com bicicleta, carro e moto, que são os mais usados modais individuais, além de ônibus, trem e metro, que são os principais modais coletivos. Haverá, mais uma vez, participante fazendo o trajeto exclusivamente a pé (caminhando ou correndo), assim como patins, skates, ciclistas com bicicletas dobráveis compartilhando o transporte público.

 

O Instituto CilcoBr, que organiza o evento, preparou uma análise comparativa sobre os resultados registrados nos nove anos de Desafio que reproduzo, em parte, aqui:

 

Apesar do tempo ser o principal indicador para avaliar o desempenho de um modal, também levamos em conta os gastos dos modais com combustível e estacionamento, além da quantidade de poluição que o mesmo emitiu, portanto nem sempre o veículo mais rápido pode ser considerado o mais eficiente, até porque alguns modais mais rápidos possuem custos extremamente elevados (como o Helicóptero por exemplo) o que inviabilizaria a popularidade do mesmo, ou seu uso como uma alternativa eficaz para solucionar os problemas de congestionamentos das nossas cidades. 

 

Embora haja vários critérios para se avaliar, nessa análise feita por nós do Instituto CicloBR, vamos nos concentrar apenas no tempo dos modais mais utilizados e de acesso mais comum. Abaixo uma breve análise que realizamos quando comparamos o desempenho dos principais modais já testados nos Desafios realizados pelo CicloBR.

 

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Com base nesse gráfico, podemos analisar que desde as primeiras edições, tanto a bicicleta (seja por vias rápidas ou mais tranquilas), como a moto, foram infinitamente mais eficientes que o carro, que raramente fez seu deslocamento em menos de uma hora.

 

Nos primeiros anos, os participantes escolhidos, tanto para a bicicleta como a moto, eram pessoas que não tinham esses modais como principais formas de deslocamento, ainda assim conseguiram ser mais eficientes que o carro no quesito tempo. A partir de 2009, passamos a colocar ciclistas menos experientes por vias tranquilas e mais experientes por vias rápidas, escolha natural da maioria dos ciclistas que trabalham ou já trabalharam realizando entregas (também conhecidos como “Corriers”). O mesmo fizemos com os motoqueiros, quando não trabalham como motoboys, são motociclistas que usam seu veículo diariamente como forma de deslocamento.

 

Essa escolha acabou gerando uma relativa “disputa” entre esses dois modais, mas também serviu para mostrar a viabilidade desse serviço de entrega de documentos, que atualmente em São Paulo é monopolizados pelas motos.

 

Acesse aqui o estudo completo desenvolvido pelo Instituto CicloBr

Ciclistas usam petição para pressionar promotora que pediu interrupção das obras da ciclovia

 

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O grupo Vá de Bike, dos muitos que incentivam e inspiram o uso de bicicletas na cidade, publicou, no fim de semana, texto no qual lembra das duas petições escritas e apoiadas por 6 mil pessoas, 17 entidades e três empresas que foram entregues ao prefeito Fernando Haddad, em setembro do ano passado, com o objetivo de pressioná-lo a cumprir promessa de implantação de 400km de ciclovias, em São Paulo. Com os documentos, havia ainda lista de 18 razões para se apoiar as vias exclusivas de bicicleta na capital. Encontra-se nessa relação, a melhora da qualidade de vida, benefícios à saúde, economia de tempo e redução de poluição. Uma das razões, se opõe inclusive a tradicional reclamação de que ciclovias prejudicam o comércio: “ciclistas são clientes potenciais que passam em baixa velocidade e não exigem grandes áreas de estacionamento, podendo facilmente parar em frente a uma vitrine … Comerciantes da região do Largo 13 de Maio, em Santo Amaro – que têm suas lojas dentro da área onde houve restrição da circulação de automóveis desde 2013 – tiveram aumento nas vendas com as pessoas circulando a pé, em velocidade similar à de uma bicicleta”.

 

Seis meses depois e com metade da promessa cumprida, instituições que defendem o uso das bicicletas na cidade pretendem usar o mesmo artifício para que o Ministério Público de São Paulo recue da ideia de interromper a construção das ciclovias. Para lembrar, a Justiça de São Paulo acolheu parcialmente o pedido da promotora Camila Mansour Magalhães da Silveira, que entrou com ação civil pública questionando não apenas o método da implantação, pela inexistência de estudos técnicos, mas a própria importância desta política pública no plano de mobilidade do paulistano. O documento que já reuniu mais de 15 mil assinaturas, entre outros trechos, diz :

 

“Sabemos que há, em algumas regiões da cidade, localizados movimentos contrários à implantação de ciclovias. São em geral preocupações locais, que fazem sentido somente se enxergarmos nossos bairros como partes isoladas da cidade – um individualismo sem nenhuma lógica. Enquanto negam o direito coletivo de utilização segura das ruas em bicicletas, essas vozes defendem ainda que o espaço público (de todos) siga sendo utilizado para fins particulares: vagas de estacionamento exclusivo de automóveis, em detrimento de vias de circulação de pessoas utilizando o veículo bicicleta”

 

Para conhecer a petição completa, discuti-la e apoiá-la, se você entender que esta é uma alternativa a ser pensada pela cidade, clique aqui.

Conte Sua História de São Paulo – 461 anos: meus passeios na Galeria do Rock e o cheiro do churrasquinho grego

 


Por Rogério Loro

 


 


Quando meus pais disseram que mudaríamos para a cidade de São Paulo, eu sabia que muita coisa seria diferente na minha vida. Imagina o que seria para um garoto de 14 anos que nasceu e viveu em uma cidade do interior, se mudar para a capital.

 


Nossa nova casa ficava em uma rua sem saída no bairro da Vila Formosa, bairro que tratei logo de explorar com minha bicicleta. Pedalando em meio ao trânsito local, pude conhecer lugares como o Mercado Municipal, o CERET, a Praça Sampaio Vidal e a Praça Silvio Romero.

 


Fui estudar na escola SENAI na Rua Anhaia no bairro do Bom Retiro e para chegar até lá utilizava o Metrô saindo da Estação Tatuapé, passando pela Sé até a Luz, mas na volta dava preferência ao trem que saia da Estação Brás, pois ele era mais barato que o Metrô e o dinheiro economizado, eu juntava com o que meu pai me dava, para comprar meus discos e camisetas na Galeria do Rock no centro, lugar que conheci com meus amigos de escola.

 


O centro de São Paulo era um paraíso para nós, lá ficavam além da Galeria, a maioria dos cinemas, lojas de troca de discos e livros e componentes eletrônicos. Ruas como a Barão de Itapetininga, 7 de Abril, Santa Ifigênia e a Praça da República, faziam parte do nosso roteiro particular em busca de novidades e claro, dos inesquecíveis carrinhos de Churrasco Grego com suco grátis, que alimentavam toda a molecada com um precinho bem camarada. As recomendações de meus pais eram sempre as mesmas: “-Tome cuidado nas ruas, pois é muito perigoso andar pela cidade e não fique comendo bobagens por aí”. Ah, nossos pais sempre exageram, a cidade nem era tão perigosa e os lanches e as esfihas da Rua Mauá nem eram tão porcaria assim. No Vale do Anhangabaú, eu e meu pai pegávamos os ônibus da CMTC em direção ao Morumbi para assistirmos aos clássicos do Timão, ou quando os jogos eram no Pacaembú íamos caminhando da Praça Marechal Deodoro até o estádio, e sempre tive a impressão que as caminhadas eram sempre mais curtas do que nossas conversas.

 


Passei minha adolescência e me tornei um adulto, casei e constitui família sempre aproveitando todas as inúmeras oportunidades que a cidade oferece, cheguei a retornar para Jundiaí minha são cidade natal, mas acabei voltando para São Paulo atraído pelas inevitáveis oportunidades profissionais que ela oferece.

 


Hoje sigo minha vida ainda pedalando pela cidade, em meio a um trânsito muito pior do que na década de 80, a Galeria do Rock hoje parece ter muito mais jovens fantasiados de roqueiros do que aquela molecada da época com correntes de xaxim das samambaias da mãe penduradas no cós da calça, o centro da cidade me parece mesmo perigoso como os meus pais diziam, para ir aos jogos do Corinthians não preciso mais ir ao Vale do Anhangabaú, apenas caminho até o Itaquerão que fica próximo da minha casa, agora sem a companhia e as conversas com meu pai. Os lanches de Churrasco Grego?

 


Alguns ainda estão pelo centro da cidade, me falta agora coragem para comê-los.

 


Rogério Loro é personagem do Conte Sua Historia de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também a sua história da nossa cidade, escreva para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: a bicicleta do meu pai

 

No Conte Sua História de São Paulo, o texto de ouvinte-internauta Ademir Silva:

 

 

Nestes tempos em que se fala em mobilidade quero contribuir com a história (verídica) que vivi. No ano de 1958, nos mudamos do Tatuapé para a Vila Carrão, porém eu continuava estuando no Educandário Espírito Santo – colégio de freiras no Tatuapé, zona leste. Meu pai, Antonio Pinheiro da Silva, me levava ao colégio de bicicleta e depois seguia para o trabalho, pois ele era mestre de obra.

 

Lembro-me que durante mais ou menos oito meses, ele seguia do Tatuapé até o largo de Pinheiros de bicicleta, pois para custear meus estudos e sustento isso se fazia necessário. Ele sempre comentava que a maior dificuldade era a subida da rua da Consolação.

 

Nunca escutei qualquer reclamação por parte dele, e olhe que não existiam as grandes avenidas tais como Radial Leste e 23 de Maio. Nem mesmo as tais ciclovias.

 


Ademir Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe com as suas histórias da cidade de São Paulo enviando seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.

E as ciclovias!? Vão bem, obrigado (por enquanto)!

 

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Esses dias, publiquei aqui no Blog texto no qual me referia ao esforço que devemos fazer para mudar nossos hábitos. Falava da atividade física e do mau costume que temos de voltarmos ao sedentarismo duas semanas depois de feita a inscrição na academia mais próxima de casa. Pesquisas provam que precisamos de 66 dias para transformar uma ação em rotina. Lembrei-me disso ao ler e publicar o texto do colega de blog Julio Tannus no qual critica as ciclovias implantadas em São Paulo e a falta de planejamento na cidade.

 

Por anos nos acostumamos a usar o automóvel, meio de transporte privilegiado tanto pela forma como a cidade se espraiou sem que o sistema público conseguisse alcançar as franjas da capital quanto pelo incentivo à indústria automobilística. De maneira geral, nossas cidades transformaram-se em grandes aglomerados urbanos sem que suas administrações encontrassem formas de financiar a expansão necessária do transporte coletivo – e São Paulo é o exemplo mais bem acabado deste modelo (ou seria, mal acabado?). O resultado é o drama diário de paulistanos que passam parte do dia emperrados no trânsito enquanto tentam se deslocar de casa para o trabalho, do trabalho para a escola, e vice-versa.

 

Desconstruir essa lógica da cidade, convidando as pessoas a deixarem o carro em casa e em troca oferecendo sistema de ônibus e metrô mais eficiente e espaço para bicicleta, é tarefa para muito mais do que uma gestão. Um costume que exigirá investimento e envolvimento em ações conjuntas do poder público e privado. Imagino que ninguém têm a ilusão de que as faixas pintadas nas ruas e avenidas, seja para ônibus seja para bicicletas, resolverão esse problema. Porém, e aí começo a me distanciar do que pensa meu colega de blog, havia a necessidade de alguém disposto a dar a “pincelada” inicial.

 

A atual administração decidiu tomar para si a responsabilidade de implantar ciclovias como já havia feito com as faixas nem tão exclusivas de ônibus. Aposta que o número de ciclistas aumentará – como já se percebe em algumas vias – tanto quanto cresceu a velocidade dos coletivos. É verdade que se esqueceu de conversar com os cidadãos, o que poderia ter amenizado a reclamação inicial e evitado alguns atropelos e rotas impróprias. As faixas vermelhas, porém, servem de alerta aos motoristas de carro para algo que o próprio Código Nacional de Trânsito já prevê, mas nunca foi respeitado: o compartilhamento da via pública entre carros, caminhões, ônibus, motos e bicicletas. Em nenhum momento é exigida identificação dos ciclistas e da bicicleta, mas lhe é cobrado o respeito às leis de trânsito – mesmo porque a condução imprópria deste veículo tende a ser muito mais arriscada ao seu condutor do que a terceiros.

 

As dimensões e geografia de São Paulo devem servir muito mais de incentivo do que restrição para o uso da bicicleta. Com uma cidade deste tamanho (e altura) pode-se, por exemplo, pedalar em trechos menores e medianos, reduzindo a frequência com que usamos o carro, ou integrá-la ao transporte coletivo, como ocorre em algumas estações.

 

O que mais prejudica a implantação das faixas de ônibus e de bicicleta é a falta de confiança do cidadão no poder público. Poucos creem que as medidas persistirão e apostam que assim que a tinta começar a desbotar as boas intenções permanecerão apenas na propaganda de governo. Prevêem que as faixas de ônibus nunca se transformarão em corredores exclusivos, e as de bicicleta logo estarão tomadas por todo tipo de obstrução. E têm motivos para isso: nossa história, como o próprio Tannus, descrente, descreve em seu texto, está cheia de bons planos nunca executados e execuções mal planejadas.

 


Não deixe de ler o texto do nosso colunista Julio Tannus que gosta muito de bicicleta, mas não de como estão nossas ciclovias

E as ciclovias!?

 

Por Julio Tannus

 

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Trabalhei desde 1975 com o sistema de transportes na cidade de São Paulo: SISTRAN – Sistema de Transportes para a cidade de SP, no governo Olavo Setúbal na Prefeitura e Paulo Egídio Martins no Estado. Participei de projetos no Metrô e coordenei projeto para um novo sistema de trólebus. No governo Franco Montoro (governador) e Mário Covas (prefeito) atuei no projeto Participação e Descentralização.

 

Tudo engavetado!

 

Mudam-se os personagens e a peça é outra! O que é preciso mudar é essa estrutura política infame!

 

Lutei ferozmente, enquanto presidente e fundador da Sociedade Amigos da Região da Praça-do-Pôr-do-Sol para um novo Plano Diretor para a cidade de São Paulo, no governo Marta Suplicy: só faltou sair tiros, não fosse a intervenção da polícia, pois em uma das reuniões descobriu-se que o lobby imobiliário havia “comprado” alguns participantes para que votassem a favor de seus interesses.

 

Falando das ciclovias: essa medida é totalmente irresponsável, pois não há nenhum controle sobre as bicicletas, não se tem qualquer registro de quem é o proprietário, de quem está dirigindo, e assim por diante. Afora a questão da (in)segurança: se somos assaltados dentro de nossos carros, o que dirá em cima de uma bicicleta!

 

E há quem a defenda, citando como referêcia algumas cidades europeias. Amsterdã, por exemplo, é uma cidade totalmente plana, com uma população incomparavelmente menor e socialmente diferente da nossa.

 

E as ciclovias foram construídas nesse período totalmente atípico de falta de chuva.

 

Como diz o sociólogo Zygmunt Bauman sobre os dias atuais, quando, na visão dele, a experiência e a maturidade não têm mais vez: “aprender com a experiência a fim de se basear em estratégias e movimentos táticos empregados com sucesso no passado não funciona mais”.

 


Julio Tannus é Consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier)

Conte Sua História de SP: aulas no fusquinha 62

 

Por José Augusto da Silva Rocha
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

A vida de um professor é repleta de histórias e experiências, e comigo não é diferente. Iniciei a carreira em 1987 lecionando Ciências e Matemática na Escola Estadual Said Murad, na Zona Leste de São Paulo. Eu sempre gostei de Ciências e em minhas aulas procurava despertar o interesse dos alunos. A experiência que mais recordo foi a de 1989 quando os levei para conhecer a cozinha do McDonald’s, em um tempo em que não havia a prática do “visite nossa cozinha”. O objetivo foi trabalhar os micro-organismos e a saúde.

 

Já em 1992, na E.E. Jardim das Camélias, junto com os meus alunos, em especial o D’Ângelo, numa aula de física, criamos a primeira “Redação Móvel” transformando um fusquinha 1962 numa redação de jornal. Entre muitas outras experiências, a mais marcante, também em uma aula de física, na E.E. Professor Pedro Brasil Bandechicc, com os alunos, adaptamos uma bicicleta para atender as pessoas na rua como se fosse uma escola móvel, seguindo os passos do fusquinha 1962. Na aula, eu explicava aerodinâmica, Leis de Newton, inércia …, enfim, uma aula de física. Nesta época, estava estudando Filosofia, pois pretendia trabalhar com a matéria no Ensino Médio.

 

Em agosto de 2009, já lecionando Filosofia, e na mesma escola, em uma aula, explicando sobre a vida de Aristóteles, o aluno Wilson falou: “Professor Rocha, lembra da experiência da bicicleta na oitava série, vamos transformá-la num “Café Filosófico Móvel” onde o senhor poderia ensinar Filosofia na rua, como o Aristóteles fazia”. E, assim, iniciou-se mais uma história. Com o apoio dos alunos, começamos a desenvolver o projeto do café filosófico nas imediações da escola, como experiência e verificação da aceitação e participação do público. O envolvimento dos alunos foi 100%, incluindo outras turmas, pois eu ainda lecionava Ciências para o Ensino Fundamental. Após um semestre de trabalho, pude observar que o resultado foi positivo, pois aproximei os alunos e eles passaram a participar mais das aulas, tanto de Ciências como de Filosofia.

 

Em 2010, com a bicicleta totalmente readaptada, fomos para a rua desenvolver o café filosófico móvel, projeto que serviu como base, para outros, como o “A Educação como desenvolvimento local”, “Mediação Judicial” e o mais novo projeto que estamos realizando na E.E. Pedro Brasil Bandechicc com o objetivo, de despertar valores e respeito ao próximo, que se chama Justiça Restaurativa.

 

Hoje, ao comemorar 25 anos de magistério, só tenho que agradecer a todos os meus alunos, pois, com eles, aprendi mais do que ensinei. E a minha história não termina aqui, pois se educar é um atributo que Deus deu a todos e a alguns Ele chama de professor, sem perder a essência, hoje caminho em estradas paralelas. Em 2011, a convite de minha amiga, Dra. Margarete, fui fazer o Curso de Conciliação Judicial e descobrir ali a grande oportunidade de continuar contribuindo com a sociedade. Engajado neste caminho, o percurso da Justiça, em 2012, fui para a Faculdade de Direito, e posso me considerar um acadêmico de sorte, pois já iniciei o Curso com uma nova visão: o olhar,para a cultura da paz e não a cultura da sentença, que de certa forma, é ensinada nos Cursos de Direito. Neste ano, 2014, paralelo ao meu trabalho como professor, sou voluntário no CEJUSC Central, atuando como Conciliador e Mediador Judicial, iniciando assim mais uma história de minha vida, que mesmo, estando readaptada ainda pulsa em mim, o educador que nasci para ser. Muito obrigado a todos, por participarem direta ou indiretamente, de cada história, de nossa vida.

 


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, sábados, logo após às 10 e meia da manhã, no CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode participar enviando seu texto para Milton@cbn.com.br ou agendando entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.​

Do tico-tico à bicicleta de Natal

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Costumo escrever o texto para o blog do Mílton Jung nas terças-feiras. Sempre fico preocupado,entretanto,apesar de ser macaco velho neste tipo de função,com a escolha do assunto a ser abordado,apesar de todas as redações que produzi em minha longa carreira na Rádio Guaíba. São de minha lavra os textos de vários discos narrando feitos notáveis da dupla Gre-Nal e da Seleção Brasileira. Seja lá como for,obrigo-me, também, a guardar os jornais da semana,eis que esses talvez sirvam ao meu propósito.

 

Estou,porém,redigindo, na terça-feira, o que será postado na quinta com um assunto que,pela sua data,23 de dezembro,é véspera de Natal. Natal me traz lembranças de todas espécies.Em sua maioria são boas. Claro,as primeiras veem da minha infância. Quando eu era um meninozinho o meu avô por parte de pai,que morava conosco,construiu,com a sua habilidade de marceneiro,embora fosse vidreiro de profissão,um tico-tico bem mais forte do que os vendidos no comércio;um caminhão poderoso,com o qual eu podia brincar de bater nos dos meus amiguinhos,sem que sofresse dano algum,e outros brinquedos capazes de fazer a minha alegria a cada novo Natal.

 

Adolescente,o presente que vivia esperando dos meus pais era uma bicicleta. O Natal chegava. E o cobiçado presente não. E vinha um novo Natal. E nada de encontrar embaixo da árvore natalina a sonhada bicicleta. Foi,todavia,em um desses Natais que a minha irmã ganhou a bicicleta dela,enquanto eu fiquei,novamente, a ver navios. Acho que nunca fui capaz de pedir ao meu pai – era ele quem resolvia quem deveria ser mais bem presenteado – por que nunca fazia por merecer uma bicicleta. Os pais da minha época não eram tão comunicativos como fui com os meus filhos. Não faziam isso por mal ou porquanto gostassem menos dos seus rebentos do que os mais modernos.

 

Já tive a oportunidade de escrever, no espaço que estou usando no blog do Mílton,como acabei ganhando o presente natalino que me era negado. Quem, por acaso,leu a história do dia em que deixei de pedir emprestada a bicicleta de um amigo para que eu desse “uma voltinha”,faça de conta que não a viu. Eu sempre fui um péssimo aluno em matemática.Não apreciava as ciências exatas. Gostava,isto sim, de português,história e geografia. Como de hábito,fiquei em segunda época na danada que detestava. Estudei com um professor particular pouco antes do exame e captei o suficiente para não perder o ano. Sabem com que prêmio o meu pai afirmo que me daria se passasse? Uma bicicleta.

 

Bem no início da rua em que eu morava,na Zona Norte de Porto Alegre,havia uma loja que comercializava máquinas de escrever. Essa,resolveu por à venda uma…bicicleta. Era uma Sueca Centrum,com guardalamas e aros de alumínio,além de outros acessórios. Tratava-se de um bicicleta luxuosa e,evidentemente,a mais cara dentre as concorrentes. Aproveitei-a ao máximo,pedalando na minha zona,chegando ao centro e a locais mais distantes para passear com os amigos. O sonhado presente de Natal se tornou o mimo conquistado em um bem sucedido exame de segunda época

 

Como pai,vivi vários natais no período em que os meus filhos moravam comigo e com Rute,a mãe deles,que faleceu logo após a minha volta,em 86,da Copa do Mundo. Na véspera do Natal,em cuja noite os presentes eram distribuídos,seguíamos um programa imutável anos a fio. Eu levava os meus três filhos de carro até o topo do morro no qual se concentravam três emissoras de televisão e de onde se tinha uma vista magnífica de Porto Alegre. A mãe das crianças ficava em casa dando os últimos retoques na tradicional e espinhosa árvore de Natal e colocando aos pés dela – árvore,claro – os presentes da família. Agora,com 78 anos,sou mais do que pai,virei avô de quatro netos:dois nascidos e moradores da minha cidade – os do Christian e da Lúcia,Vivi e Fernando – que posso visitar no Natal. Já com o Gregório e o Lorenzo,filhos do Mílton e da Abigail,que nasceram e moram em São Paulo,geralmente fico apenas,por telefone, lhes desejando Feliz Natal.

 


Milton Ferretti Jung é jornalsita, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)