Preservem os ciclistas

 

Ciclovia na Radial Leste

 

A morte de mais uma ciclista na avenida Paulista, sexta-feira, ocorreu no dia seguinte a reportagem publicada no Jornal Nacional a qual mostrava que a bicicleta ganhava espaço na cidade. Ao assisti-la na noite de quinta-feira, além da satisfação de ver meu incentivador Andre Pasqualini como personagem, pensei como esta poderia influenciar a visão das pessoas e, principalmente, atenuar o medo que meu pai sente sempre que tem notícias de que irei pedalar na cidade. Ele, por mais de uma vez, escreveu nos posts de quinta-feira aqui no Blog, às muitas restrições que tem ao uso da bicicleta em ruas tomadas por automóveis, e defendeu a ideia de que o comportamento dos motoristas e a diferença de forças entre os dois modos de locomoção são um risco a vida de quem pedala. Importante ressaltar que meu pai, aos 76 anos, gosta de dar suas pedaladas aos fins de semana e aproveita a proximidade para exercitar as pernas de casa até as margens da praia de Ipanema, no Rio Guaíba, na zona sul de Porto Alegre. Em seus textos já confessou, porém, que prefere usar as calçadas e faz questão de descer da bicicleta toda vez que precisa atravessar a rua até chegar a ciclofaixa disponível ao longo do rio. Ao ler as notícias que chegam de São Paulo, seu temor de que serei vítima de acidente vai se acentuar, não tenho dúvidas. Quase consigo ouvi-lo: “não te avisei ?”

 

O fato é que ciclistas morrem todas as semanas na cidade de São Paulo – um por semana, dizem as estatísticas oficiais. Quando esta se registra em avenida tão conhecida ganha caráter simbólico, provoca protestos, mensagens indignadas e pedidos de punição exemplar. Em Porto Alegre, não é diferente, foi lá que um tresloucado acelerou seu carro e atropelou vários ciclistas durante uma bicicletada. Lembra? Fez um ano há poucos dias. Precisamos, porém, perceber que além de ciclistas, morrem pedestres, também. E muitos. Assim como motociclistas e motoristas de carros – estes últimos em menor número. Nem por isso, defendemos o fim dos passeios a pé – apesar de que este parece ser o sonho de alguns governos de tanto que incentivam o uso do transporte motorizado individual.

 

Onde quero chegar com este texto, é mostrar a você que me acompanha no Blog que não adianta deixarmos as bicicletas em casa sob a alegação de que do jeito que as coisas estão é praticamente um suicídio encarar o trânsito pesado. Sei que esta é a primeira reação da maioria, eu mesmo pensei duas vezes antes de sair pedalando no fim de semana, em São Paulo. Meu temor havia aumentado. Mas isto é o que desejam aqueles que seguem acreditando que os carros são os donos das ruas. Nós precisamos é ocupar, cada vez mais, as cidades com bicicletas, pois enquanto pedalar for um fator surpresa no trânsito, muitas mortes vão ocorrer. Precisamos transformá-la em lugar comum, abrir espaço e tomar as vias públicas, ganhar o respeito dos demais que a utilizam a bordo de um automóvel, ônibus ou caminhão – e, também, respeitá-los, seguindo as regras de boa convivência e de trânsito. Ao menos assim, quando souber que fui andar de bicicleta, meu pai, em lugar de medo, terá orgulho. E eu, também, da cidade que escolhi viver.

10 comentários sobre “Preservem os ciclistas

  1. Milton, boa tarde.

    Sou vendedor externo e passo boa parte de meu dia no trânsito de São Paulo.

    Compartilho totalmente seu pensamento e , levando em consideração o que vejo no dia dia, posso dizer que enquanto os condutores (seja qual for o tipo de veículo), ao assumir o volante, esquecerem que também são pedestres e que a civilidade não pode ser deixada do lado de fora do carro, continuaremos vivendo no caos e correndo perigo, seja dirigindo, caminhando ou pedalando.

    Grande abraço

    Rodnei

  2. Milton, parabéns pela lucidez. Fiquei estupefato com as opiniões de nossos colegas jornalistas e das cartas de leitores em jornais no dia seguinte à morte da ciclista Juliana Dias. De repente, a culpa era dela, a maluca que estava andando de bicicleta na Paulista. Na Folha, um urbanista deu entrevista dizendo que não cabe bicicleta no trânsito, porque ele já está cheio de carro. É como dizer que não cabe linha no buraco da agulha porque o buraco já está ocupado por um fio de alta tensão. É incrível a falta de visão de pessoas que agora mesmo estão presas no trânsito, vendo seus filhos pequenos com bronquite por causa da poluição e seus pais impedidos de andar na rua como seu pai, porque a rua é absolutamente inóspita em São Paulo. Um abraço.

  3. Cabe tb lembrar que cada ciclista a mais nas ruas aumenta a segurança de todos. Dados que até a Cet prova. Aumentou o número de ciclistas, diminuíram os mortos.

  4. Enquanto as ciclovias forem insuficientes na maioria das cidades brasileiras,talvez em todas,prefiro continuar vendo meus filhos e meus netos me imitando,isto é,pedalando nas calçadas e cuidando para não atropelar os que preferem caminhar. Prefiro vê-los menos engajados em campanhas que possam lhes causar perigos e que tratem de levar suas bicicletas aos parques,onde estarão longe dos veículos de quatro e inclusive dos de duas rodas,igualmente perigosos quando dirigidos por malucos.

  5. Do jeito que parte da imprensa coloca o assunto, tem-se a impressão que o motorista já sai de casa com um objetivo: passar por cima dos ciclistas. E não é bem assim. O Trânsito da cidade é complicado para se dirigir. Quando a gente assume um volante nossa atenção tem que ficar ligado em tudo que ocorre ao nosso lado. Temos que prestar atenção no carra que vai a nossa frente para de repente ele brecar e a gente não colidir na traseira dele. Olhar no retrovisor direito e esquerdo, prestar atenção no carro que está atrás, nesse meio tempo tem uma moto que passa a menos de 20cm do seu retriovisor, um õnibus força passagem e vc é obrigado a mudar de faixa, logo vem 2 motos te ultrapassando um pela esquerda e outro pela direita, nesse meio tempo um pedestre tenta atravessar a rua e vc pára o seu carro e o que vem atrás mete uma buzina e passa rasgando, nesse meio tempo um caminhão te dá uma fechada, um outro entra com tudo na avenida e vc breca o carro para não bater, um outro que passa no vermelho, nisso uma ambulância pede passagem, um viatura passa a um milhão, buzina e mais buzinas, e de repente um segundo que vc olha no retrovisor para mudar de faixa um carro pára com tudo e vc tenta brecar e de repente pode colidir com uma moto, um pedestre, um carro, um ônibus, uma carreta ou um ciclista. De repente seu carro vai para no poste e vc morre ou vc pode matar alguem. Sinceramente, não acredito que ninguém saia de casa e premeditadamente diga: hj eu vou atropelar um motoqueiro ou um ciclista. O acidente acontece num piscar de olhos. E pode acorrer com qualquer um de nós. Só que do jeito que passam a informação parece que todos que andam de carro é contra as bicicletas. É claro que no meio de milhões de motoristas sempre vai ter aquele que dirige imprudentemente e às vezes até causa um acidente e morte. Mas a grande maioria quando ocorre um acidente é porque realmente não tinha o que fazer para evitar o acidente. Ás vezes é até uma vitima que acabou vitimando outra pessoa. O trânsito de SP é estressante e um discuido tanto vc pode matar como morrer. Amo Bike, mas não me sinto seguro para andar de bike justamente por esses motivos que citei. Ultimamente estou andando mais de ônibus e metrô porque esse trânsito te deixa com estafa e cansado no fim do dia. Ando de carro só aos sábados e domingos. É mais relaxante. Mas não acredito que tenha o chamado Carros contra ciclistas. O que pode ter é um ou outro idiota de carro na pressa tentando apavorar um ciclista. Mas a maioria dos motoristas respeita e convive bem com os ciclista. Da mesma forma como teve a campanha para respeitar pedestre tbem deveria ter campanha para respeitar ciclistas.

  6. Prezado Milton Jung, aprecio e muito, esta defesa e luta em prol das bicicletas na amada, porém estressante São Paulo.
    Tenho 39 anos e me lembro claramente que há mais ou menos 25 anos atrás, pedalava e muito pelas ruas da V. Carrão, Tatuapé, Mooca, zona leste da minha querida “Sampa”. Não era difícil aos sábados ou domingos reunir a turma e dar um grito dizendo “e aí…. vamos fazer um bate e volta até o Ibira?”. E lá íamos nós em três, quatro, cinco, dez moleques, pedalando felizes até o Parque Ibirapuera, sem muitas preocupações, onde o acidente mais grave era um tombo com uma ralada no joelho ou cotovelo….
    Hoje morro de vontade de comprar uma “magrela”. Aliás uma não, mas três, sendo uma para minha esposa, para o meu filhote de três anos e uma para mim. Porém me falta coragem…. pois o medo nas ruas predomina.
    A pergunta que não quer calar é: até quando, até quando terei que ficar só na vontade e continuar a ser refém de uma comunidade que atualmente perdeu os bons princípios de 25 anos atrás ? Até quando ?

  7. Acho que o poblema e a cultura do país que é difícil de mudar, veja por exemplo que muitas pessoas a 10 e 15 atras exergava que: as pessoas que andavam de bicicleta ou de moto , como pessoas que nao tinham condiçoes de comprar um carro. Vejo que hoje ta mudando muto este conceito . Porem veja que aquele individuo que nao pretende pedalar na vida ou pilotar , ele nunca vai respeitar uma moto ou bicicleta como veículo.

  8. Olá, Milton
    Hoje, durante toda manha ouvi preso no trânsito diversos comentários sobre o nosso caótico trânsito de São Paulo, a proibição dos caminões em determinados horários na marginal e as ciclovias e ciclo faixas.
    Tenho o privilégio de realizar grande parte das minhas atividades a pé e frequento quando posso a ciclovia da marginal pinheiros.
    Apoio que o paulistano deve utilizar meio de transporte público e andar de bicicleta, mas não querendo ser pessimista, não vejo uma luz no fim do túnel.
    Mas o que realmente gostaria de comentar é que a população não tem respeito nenhum com o próximo, seja o condutor de um veículo automotor, motocicleta ou bicicleta. Eu pude observar na ciclovia da marginal Pinheiros, local restrito à bicicletas, que por volta de 50% das pessoas NÃO UTILIZAM CAPACETES. Neste último Domingo, pude presenciar uma jovem entre 25 a 35 anos estendida no chão, consciente, com traumatismo crâneo-encefálico, aguardando socorro, juntamente com o grupo de amigos, todos sem capacetes. Assim como airbags e cinto de segurança podem salvar vidas no trânsito, a utlização de capacetes para motociclistas e ciclistas podem salvar ou minimizar os danos provocados por acidentes.
    Andar de bicicleta é bom, é saudável, mas deve ser realizado com segurança. Não basta somente a criação de ciclovias e ciclofaixas é necessário educar também o ciclista, seja amador, de final de semana ou mesmo profissional.

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