A Ética tem futuro?

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Na natureza, na tecnologia, na sociedade, o mundo vem mudando. E,não é novidade para ninguém. Nem mesmo a falta de ética, que começa a atingir novas áreas antes preservadas tem ficado a margem deste processo.

 

Ruy Castro em “Muito antes” na Folha de domingo talvez embalado pelo bordão Lulista do “Nunca antes” e motivado pelos acontecimentos entre NOVACAP* e VELHACAP* onde políticos contraventores e contraventores políticos se associam, quebrando tradicional requisito para o sucesso de ambos, relembra éticas históricas. Elementos suficientes para algumas considerações.

 

No Campeonato Carioca de futebol de 1913, Belfort Duarte, jogador do América, com a mão impediu um gol do adversário. Como o árbitro não deu o pênalti, Belfort exigiu que fosse cobrado o lance.

 

No rádio norte americano até o ano de 1950 não se tocava uma determinada música a cada intervalo de 24horas para preservar o ouvinte de escutar de novo a mesma gravação. Bem, depois veio a “payola”, isto é o “jabá”, e a ética foi mudada. Mudança esta rapidamente aceita em território brasileiro.

 

No futebol nacional até os anos 70 não se aceitava misturar na camisa nomes de empresas ou produtos. Hoje, a necessidade maior de aumentar arrecadação chega até os fundilhos dos calções, cada vez maiores, assim como das camisas obrigadas até a serem desfraldadas para utilização das extremidades. E, as sagradas camisas anunciam até camisinha.

 

No cinema e na TV até os anos 70 o merchandising foi utilizado dentro do conceito indireto. Campari e Cinzano marcaram fortemente seu posicionamento. Chegamos agora em nossas novelas e filmes a interferir em roteiros para apresentar marcas e produtos.

 

Na SUPERCAP*, à véspera do dia da mentira, o Bar Léo foi fechado por faltar com a ética ao servir chope da Ashby como se fosse Brahma. Buscando maior margem para cobrir problemas financeiros, passou a comprar o Ashby que lhe rendia mais no Mark Up. Quando alguém reclamava servia Brahma. Em menos de três meses, diferentemente dos eleitores, os conhecedores do sabor original denunciaram a farsa e o Bar Léo foi impedido de operar. Seu invejável currículo não foi suficiente para impedir a ação judicial, pelo contrário. Fundado em 1940, considerado pelo famoso jornalista norte americano David Zingler como tendo o melhor chope do mundo, pela revista Playboy como um dos cinco melhores do mundo, pela Veja São Paulo por quatro vezes como o melhor chope da cidade, pela Brahma como “Diplomata do Chopp” e “Rei do Colarinho”, o Bar Léo terá que ajustar contas com a justiça, a Brahma e os consumidores. O peso da fama agravará a trama. Para reabrir precisará enfim, voltar à Ética.

 

*Para os menores de 40, NOVACAP, VELHACAP, SUPERCAP são apelidos de Brasília, Rio e São Paulo muito usados na fase de construção da então nova capital. Hoje menos nova e mais envelhecida, talvez envilecida.

 

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve, às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

10 comentários sobre “A Ética tem futuro?

  1. Realmente esse comportamento de lobo devorador é movido pela ambição desmedida à cata de milhões de “migalhas” de trouxas, tolos, ingênuos que retroalimentam esse tipo de conduta anti-ética pois ambos acreditam que qualquer coisa material que possa ser consumida, seja dinheiro, sexo, vai lhes preencher o vazio existencial…então quem mandou comer o rótulo???

  2. No que se refere ao Bar Léo, me faz lembrar um estória que ouço ainda hoje no interior do meu Paraná: “O sujeito quando ‘tá’ com vontade de tomar uma (cachaça), bebe um litro e ainda lambe o camelo (referindo-se a Jamel).” Isso para lembrar que quando o declínio financeiro aparece, esquece-se a ética e a moral e que se dane a história, vende gato por lebre.
    Infelizmente!

  3. Que pena, e eu costumava passar por ali toda vez que ia a Sta Efigenia.
    Tanto tempo pra fazer a clientela e o nome jogados pela janela assim tão rápido!
    Carlos, eu acho que não era tinha prestado muita atenção. Neste fim de semana assisti a um filme que de tanta propaganda, faltou só a camiseta com os nomes reais dos atores, um mico só.
    Abraço.

  4. Alice Peliçário,comentário 1
    Como sabemos as marcas surgiram no Feudalismo, quando os senhores feudais viram a necessidade de distinguir os produtos que levavam à comercialização, para garantir aos compradores a qualidade estipulada.
    Até hoje algumas marcas mantem a Ética e entregam a qualidade anunciada, e é por isso que vemos nomes pessoais assinando uma série de produtos.
    A escolha é do consumidor, e para isso é preciso informação, que deve ser buscada por quem compra. O discernimento serve para a escolha e para o uso, pois é evidente que “comer o rótulo” é um sério desvio do proposito equilibrado da compra e da utilização do produto ou serviço que se adquire.
    De qualquer forma a marca é uma garantia e um sinal de bom ou mal produto.Quem decide é quem a escolhe.

  5. Alecir Macedo, comentário 2
    Acredito que o motivo financeiro não seja condição necessária e suficiente para entregar um produto ou serviço diferente do prometido.
    No caso do Bar Léo uma das hipóteses e de que os novos administradores não conheçam o ramo , ou apenas tem uma ética diferente, ou melhor, não a tenha.

  6. Milton Jung, comentário 4
    Lembro até hoje da entrevista que você fez com a Gerente de Marketing da Volkswagen sobre os consumidores que tinham perdido o dedo no porta mala de um carro que trazia este risco. Uma vergonha, pois o argumento usado era que as pessoas não leram o Manual.
    Aliás, o ramo automobilístico, desde Ralph Nader e Arthur Hailey, jornalista e escritor respectivamente, sabemos que não se caracteriza pela Ética.
    Veja que a Hyundai além de auto elogios e citações depreciativas de marcas concorrentes, anuncia carro com nome de velocidade e encobre a potência do motor, que é ridícula para o design agressivo. Os anúncios do Veloster não indicam a quantidade de HP . Enquanto isso outra montadora informa como vantagem um veículo com motor de 120HP.
    Ora, como sabemos nem a Volkswagen, nem a Hyundai e nem a Ford estão más de finanças. É simplesmente uma questão de conduta.

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