De remédios

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Falávamos de remédios, suas fórmulas, marcas, grifes e genéricos. Esse tem sido um assunto recorrente na pauta de papos aqui em casa, lá em cima, no jardim, em volta da mesa redonda. Nos perguntávamos principalmente como funciona essa coisa de grife e genérico. Alguém me diz se isto faz sentido: digamos que eu tenho um laboratório de produtos químicos, e um dos meus pesquisadores pesca uma fórmula que navegava no mar dos pesquisadores. Próximo passo é a comprovação de sua eficiência nos casos previstos disso, daquilo e daquilo outro. São os animais, as cobaias, que primeiro se submetem a testes que nem sempre dão certo. Feito receita de suflê. Só que como os animais não têm necessariamente nem isso, nem aquilo, e muito menos aquilo outro, é preciso que as doenças neles sejam provocadas, para então dar início à tentativa de curá-los com a nova receita. Se um percentual desses animais, que foram feitos doentes, se curarem ou ao menos sobreviverem, então recebo autorização para aliciar um número de pessoas que não têm dinheiro para continuar a comprar as drogas necessárias para abrandar ou mesmo curar seus males, ou não têm coisa melhor a fazer na vida, para substituírem os animais. Não vem me dizer que se submetem a isso por amor aos nossos irmãos, os humanos, ou que se entregam de bandeja pelo desenvolvimento da ciência.

 

E assim, a partir desse passo, se os resultados forem satisfatórios, segundo critérios que desconheço, passo a ter uma fórmula aprovada para combater ou abrandar os sintomas dos tais males, e consigo um atestado de comprovação da sua eficiência por um órgão governamental.

 

Nós que ainda reclamamos da burocracia e da dificuldade aqui no nosso patamar de vis mortais, nem podemos imaginar quantos despachantes e lobistas, quanto tempo, quanta paciência, quanto rapapé e quanto dinheiro são necessários para a autenticação de um trem desses e sua consequente fabricação.

 

Obstáculos superados, muito tempo e muita verba depois, diploma da fórmula na mão, lá vou eu reproduzir essa receita, pagar pela criação de peças de propaganda, desenhar embalagens atraentes para convencer o prezado público de que ele precisa daquela receita, e fazer muita visita, oferecer mimos, amostras, e às vezes mais do que isso, aos médicos das áreas específicas. Confecciono então caixas de dez ou de quinze comprimidos, quando a dosagem usual mínima são cinco. Aliás, nas andanças por hospitais e farmácias, descobrimos que existe uma lei que diz que podemos pedir para abrir a caixinha e comprar metade dos comprimidos, pagando portanto metade do preço, ou um terço deles, ou a quantidade prescrita pelo médico, de acordo com minha idade, peso, condições físicas, histórico do mal que me aflige, entre outros, mas as farmácias não são obrigadas a obedecer essa lei (!) se não tiverem em suas dependências uma sala com especificações laboratoriais de higiene e uma série de exigências determinadas por um desses órgãos governamentais. Daí que como todos os donos de grifes de farmácias ou os seus franqueadores dizem que não têm recursos para projetar e executar a tal sala, e como existe outra lei dizendo que ninguém pode obrigá-los a fazer isso, ninguém faz. Resultado, ninguém vende o número de comprimidos que precisamos, e fica por isso mesmo, e pronto. Levamos os tais comprimidos para casa, tomamos a quantidade prescrita e esperamos que seu prazo de validade vença, ou vai que…, para aliviarmos o armarinho dos remédios, que representam um risco enorme e causam acidentes sérios com crianças que estão na fase de descobrir o mundo a partir de suas casas, dos armários de panelas e de tudo que possam alcançar se esticando ou trepando em banquinhos mambembes para chegar ao desconhecido.

 

Mas aí transitamos também por outra lei; a dos genéricos. Agora, vamos pensar juntos: se eu confecciono uma receita de droga com nome de Bolo e o mesmíssimo item sem nome, mas com a sua receita no rótulo, eu deveria vender aquele que tem a receita no rótulo, mais caro do que vendo o outro que tem apenas quatro letrinhas. Mas parece que também não funciona assim. O item sem nome, o genérico, custa, às vezes, menos da metade do preço do produto que só traz quatro letras em seu nome. E tem mais, se eu sou dona da receita, devo disponibilizá-la para que possa ser elaborada por outros laboratórios, ou pelo meu mesmo. O importante aqui, e meu maior ponto de interrogação, é saber como é possível fabricar a mesmíssima coisa, com nomes diferentes, pela metade do preço. E aqui não falamos de bolsa ou cd pirata. Falamos de vidas, de bem-estar e de saúde; da vida do cidadão.

 

Será que só eu tenho estas perguntas? Quanto a mim, é só o que tenho, por isso, entro com as perguntas, e se você puder e quiser me ajudar, entre com as respostas, ou não, e até a semana que vem.

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

16 comentários sobre “De remédios

  1. Querida falar deste tema “racha a cuca”, imitando o site de passatempos, já que por mais que rache a minha cuca,não sei bem como concluir o que penso, no mínimo, sempre tem me lembrado mais uma maracutaia, bjs Maryur

  2. Malu, bom dia!!!!!

    A explicação que eu tive do meu Endocrino, é que existe, até entre as “grifes”, uma diferença na formulação…. Não no componente ativo, que no meu caso o hormônio da tireóide, mas na “massa” do remédio. Existem “massas” que combinadas com o principio ativo reagem melhor. E cada pessoa tbm absorve de uma maneira. No meu caso, tenho que comprar Chanel mesmo… Kkkkk já até tentei uma C&A, mas não deu certo… E confesso que penso muuuuitoooo antes de comprar um genérico, pq, afinal, ninguém faz milagre, não é????
    Bjo

  3. Nada disso seria necessário, os genericos se o governo fosse justo na tributação, impostos que pagamos quase o dobro em tudo que compramos
    Para que genéricos então?
    Basta o governo ser mais duro e menos interessado $$$$$ pelo grande lobby que constitui a industria quimica e farmaceutica e pronto
    Nada de genericos, vai se saber la como são feitos e como feitos para custarem mais baratos.
    Tem muita coisa”inexplicavel” ai sobre os genericos ne?
    Sera que estão querendo tapar o sol com uma peneira, pensando que nós pagadores de impostos mais excorchantes do planeta, somos verdadeiros trouxas e inocentes?
    a vai!

    Cavok e bom domingo

  4. Maria Lucia,

    Ocupo o espaço para falar de parte de suas queixas. A venda de remédio a granel é iniciativa que foi levada por organizações sociais ao Congresso Nacional, onde está adormecido projeto de lei que obriga os laboratórios a fabricarem remédios nestas condições para evitar deperdícios de dinheiro e medicamento pelo consumidor e riscos à saúde dele. Remédio sobrando na prateleira de casa não apenas pode ser consumido de maneira errada como em excesso, com doses que iriam além da recomendada pelo médico. Propiciam, também, a auto-medicação. Aquele remédio que resolveu um problema meu ano passado, por indicação médica, neste ano pode ser usado indevidamente sem consulta médica. Um perigo.

  5. Se eu não me engano, antigamente havia um “sistema” chamado “close-up” que na verdade era a cópia da receita onde os grandes laboratório sabiam exatamente quem estava prescrevendo e qual o medicamento.
    Na época os grandes laboratórios “agraciavam” determinados médicos com passagens para estes participarem de congressos. Não sei como está hoje, mas milagres ninguém faz, se é que eu fui claro.
    Quanto aos genéricos não sei responder.

    Agora quanto aos “B.O’S” a mágica consiste no seguinte:

    A técnica chama-se “empurroterapia”, onde o “paciente” chega no balcão da farmácia e o funcionário vende aquele que lhe dá mais comissão. Não precisamos falar que quando o dono da farmácia compra 30 caixas, lhe é entregue 35, ou seja: 5 de “graça”

    Se tivessemos um sistema de saúde onde fossemos bem atendidos não precisando-se esperar 30/40/50 dias prá ser marcada a consulta esse “comércio” não sobreviveria por muito tempo.

    Por enquanto vamos esperar os ajustes , pois o “ex” presidente disse que o nosso sistema de saúde beira a perfeição e como ele é modesto vai se tratar naquela “porcaria” do Sírio-Libanês.

    Abraços revoltados com tanta mentira.

  6. Ana Laura, cunhada minha,

    cada vez eu entendo melhor e continuo admirando o Chacrinha, onde quer que ele esteja. Não tinha a mínima ideia dessa parte da receita. Ainda tem mais essa? E quem é que supervisiona essa massaroca?

    Deus salve o povo que é governado, se acomoda e não se governa.

    Obrigada, minha linda.

    Beijo no Oswald e no Daniel

  7. Farina, amigo de sempre,

    estou melhor, sim. Hoje vou ouvir o veredictum do ortopedista, e vamos ver qual foi a extensão do estrago. Mas vc sabe que eu sou dura na queda, e agora dura na batida também. rsrs.

    Beijo na Vivi

  8. Alpha India November,

    é verdade, é verdade.

    Nesta fase de aprendizado intensivo compramos dois genéricos: um feito na China e o outro feito na India. Ora! Tô no escuro! Aqui estão me faltando até as perguntas… O que será que será… lará larálará… Vou parar tudo e ouvir um pouco do poeta Chico!

    Beijo e boa semana,
    PS: E tomar o remédio para fazer dormir as dores, que não é genérico. É Chanel como o da Ana Laura. Ó céus…

  9. Mílton,

    você não ocupa lugar. Você abrilhanta todos os cantos.

    Tua colocação me faz olhar para o meu umbigo. Quantas vezes eu fiz isso, no sufoco de algum sintoma, tomei uma reta até o famoso armarinho e peguei algum comprimido que eu “imaginava” que pudesse me fazer bem. Há tempo não faço mais.

    Bem lembrado.

    Beijo e boa semana,

  10. Ezequiel, você foi claríssimo!

    É verdade. E esse balaio tem mais. Tenho encontrado coisas assustadoras. Ontem, falando com uma amiga, mulher e companheira de um dos maiores imunologistas deste país, ouvi e aprendi muito. Nossa medicina está entre as melhores do mundo. Não tenho mais nenhuma dúvida quanto a isso, mas como em todas as áreas me dou conta de que há profissionais que se encontram em todos os patamares, de açougueiros a gênios que se entregam à missão com ficha limpa e medalha de louvor. O pobrema é a “administração”…

    Eu ainda tendo esperança. É o que me move.

    Obrigada pela visita e pela colaboração.

    Beijo e boa semana,

  11. Maria Lucia,

    Em um país onde os representantes dos grandes laboratórios farmacêuticos mundiais necessitam visitar clinicas médicaspara divulgar seus produtos, não precisa muito para parar e pensar que tudo está errado… Desde o médico que recebe os representantes em troca de amostra grátis até os ingênuos pacientes que se medicam com os remédios que sobraram em casa, pois não podem ir ao médico novamente ou não tem condições financeiras.

    Estou contigo!! Ainda tenho esperança…

    Um abraço.

  12. Estela,

    bem-vinda na nossa sala.

    Que bom!! É isso aí. É por causa dessa disposição de olhar, tentar entender e falar, cantar, fazer poesia, exercer nosso lado duro, mas… sem perder a ternura que eu continuo a ter cada dia mais esperança e confiança.

    Obrigada por tua colaboração e volte sempre que quiser, dizendo o que tiver pra dizer.

    beijo,

  13. Olá, Maria Lucia, gostei muito de seu comentário, realmente precisamos elucidar mais este tema, vou postar um comentário aqui, pois estudei e me informei junto a ANVISA e a mesma me passou muita segurança em relação a esse assunto, vamos lá:

    A ANVISA, que é um dos órgãos mais sérios e respeitados que existem no Brasil, garante que independentemente da marca do medicamento, seu conteúdo é o mesmo desde que o principio ativo seja o mesmo. Vamos citar, por exemplo, o ácido acetilsalisílico, que é um dos medicamentos mais conhecidos pela população, e que antigamente, detinha uma marca comercial e era de uso exclusivo de um laboratório farmacêutico, hoje a marca continua, mas há inúmeros genéricos Se você comprar o remédio, da marca X, Y ou Z, qualquer uma, a eficácia do medicamento é a mesma, comprovadamente. Antes de o medicamento ser lançado no mercado por outros laboratórios, são realizados testes de biocompatibilidade em seres humanos, sobre rígida supervisão da ANVISA. Um grupo de pessoas ingere um determinado medicamento, uma parte deles utiliza o medicamento de marca cuja licença já expirou, e o outro grupo, fica com a ingestão do remédio fabricado por outros laboratórios. Após algum tempo, são colhidos amostras de sangue desses pacientes, e os resultados devem ser idênticos em relação ao medicamento no sangue, entre todas as pessoas ali analisadas.

    Abraços,
    Daniel Covolo Mazzo

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