João Paulo Cunha só será cassado se Câmara quiser

 

Por Wálter Fanganiello Maierovitch

 

Cassação do mandato de deputado de João Paulo.Cunha causa polêmica.

 

O ministro Cezar Peluso, no seu último voto no Supremo Tribunal Federal (STF), decidiu pela perda de mandato eletivo do João Paulo Cunha (JP.Cunha).

 

Os  jornais não estão a poupar tinta para informar a perda de mandato de Cunha.

 

No jornal O Estado de S.Paulo de hoje está informado que os supremos ministros acham que a última palavra sobre cassação de mandato de deputado federal é do Tribunal e eles disseram que irão seguir o voto de Peluso, ou seja, cassarão J.P.Cunha.

 

Com isso,  Peluso abre uma polêmica constitucional.

 

No Código Penal está previsto a perda de mandato eletivo  como efeito da condenação definitiva:

 

“-artigo 92. São também  efeitos da condenação:
I. a perda do cargo, função pública ou mandato eletivo.”

 

A Constituição, ao tratar de deputados federais e senadores, afirma a perda de mandato em caso de decisão condenatória definitiva, com trânsito em julgado. Para os curiosos, está no art .55, inciso VI.

 

“-art.55. Perderá o mandato de Deputado ou Senador:
VI. que sofrer condenação criminal em sentença transitada em julgado.”

 

Mas, tem uma regra especial (princípio da especialidade) na  própria Constituição. Essa regra diz, com todas as letra, que a perda de mandato de deputado federal, –em razão de condenação definitiva em processo criminal-, será decidida pela Câmara, por voto secreto e maioria absoluta.

 

“– art.55. Perderá o mandato de Deputado ou Senador:

 

VI- que sofrer condenação criminal em sentença transitada em julgado.

 

parágrafo 2º.Nos casos dos incisos . . . VI, a perda do mandato será decidida pela Câmara dos Deputados ou pelo Senado Federal, por voto secreto e maioria absoluta, mediante provocação da respectiva Mesa ou de partido político representado no Congresso Nacional, assegurada ampla defesa.”

 

A  jurisprudência do STF  não dá razão a Peluso. E o ministro Moreira Alves disse que a decisão da perda do mandato de deputado, em caso de condenação definitiva, cabe à Câmara dos Deputados:

 

“Rextr. n.º.179.502-6/SP, em cuja decisão o Supremo Tribunal Federal pacificou o assunto: “Assim sendo, tem-se que, por esse critério da especialidade – sem retirar a eficácia de qualquer das normas em choque, o que só se faz em último caso, pelo princípio dominante no
direito moderno, de que se deve dar a máxima eficácia possível às normas constitucionais -, o problema se resolve excepcionando-se da abrangência da generalidade do artigo 15, III, os parlamentares referidos no artigo 55, para os quais, enquanto no exercício do
mandato, a condenação criminal por si só, e ainda quando transitada em julgado, não implica a suspensão dos direitos políticos, só ocorrendo tal se a perda do mandato vier a ser decretada pela Casa a que ele pertencer”.

 

Atenção, atenção. O constitucionalista Alexandre de Morais, –que é secretário de estado em São Paulo–, tem um estudo sobre isso e pode ser acessado por internet aqui.

 

Alexandre Morais avisa que a regra especial  de cassação só pela Câmara só vale para deputados federais e senadores. Para deputados estaduais, a condenação definitiva faz perder o mandato automaticamente.

 

Pano rápido. O STF, –como gosta de lembrar o ministro Celso de Melo–, é o guardião da Constituição da República. O seu maior interprete. Muitas vezes, uma interpretação desavisada pode levar à chamada ditadura judiciária. Que João Paulo foi considerado corrupto, venal, não há dúvida. Mas, na Câmara estão os representantes do povo e sobre isso não existe dúvida. Daí, e ensina o grande e saudoso Norberto Bobbio, a cassação sempre pertence ao Parlamento.

 

E será uma vergonha se a Câmara Federal não cassar um corrupto com trânsito em julgado

3 comentários sobre “João Paulo Cunha só será cassado se Câmara quiser

  1. “E será uma vergonha se a Câmara Federal não cassar um corrupto com trânsito em julgado”

    Ai as máscaras cairão, as peles de cordeiro em lobos também cairão.

    Dai melhor caminho será demolir a câmara e jogar o entulho no esgoto que é o Rio Tietê ou incinerar para não contaminar a população.

  2. Milton e caros leitores, somente prá acrescentar, foi citado que na Constituição Federal , princípio da especialidade, a decisão de casação seria efetivada pela Câmara por voto secreto. Mas em 04 de julho deste ano, foi aprovada no Senado Proposta de Emenda à Constituição que propõe o fim do voto secreto, exatamento respaldada nos últimos acontecimentos de casação promovido pela instituição.
    Esperamos que tanto o julgamento pela casação, bem como a aprovação da PEC, sejam simultâneas e a transparência ocorra de forma completa.

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