De passado que não vira presente

 

Com a primavera, quem volta ao Blog é nossa companheira Maria Lucia Solla, que aproveita de suas lembranças para retomar a caminhada ao nosso lado. Maria Lucia sempre esteve conosco aos domingos e estes seguem reservados a ela, apenas desta vez, provocado pelo tema importante das eleições que se aproximam, fiz questão de tê-la de volta ainda nesta segunda-feira:

 


Por Maria Lucia Solla

 

Olá,

 

falávamos de partidos, lá em cima no terraço, meu filho e eu, e lembrei de um texto publicado no blog do Mílton Jung, em 28.10.07, portanto há cinco anos e onze meses. 

 

Este é o texto:

 

De partidos partidos
 

 

dom, 28/10/07

Olá,

 

Tem-se discutido muito, e acaloradamente, sobre partidos e parlamentares e sobre o fato de estes trafegarem por aqueles, ao aceno da mínima vantagem. Ser da direita ou da esquerda não é mais uma questão de sentar-se à esquerda ou à direita do plenário, como em idos tempos, não é, Dr. Anderson? Os partidos por sua vez querem que o mandato e o parlamentar lhes pertençam para terem munição, estamos em guerra e não percebi. De todo modo, fica claro que se foi o tempo de convicções e de construção da democracia. Romântica e femininamente, imagino um tempo em que alguns governavam – leia-se trabalhavam – enquanto outros davam duro fiscalizando. De olho, implacáveis. Ao menor deslize, a turma no comando pulava miúdo. Mas se houve esse tempo, durou até que alguém percebesse que, por lá, dava para dar menos duro e ganhar mais mole.

 

E foi como água mole em pedra dura que a idéia fixa dessa meta se infiltrou e se alastrou feito praga, por todos os lados. A gente, então, começou a vender os próprios pensamentos, a entregar as paixões, crenças e a própria identidade, em troca de não viver, já que isso dá um trabalho danado. Ficou anestesiada de tanto fingir que estava tudo bem, para não sair do conforto da poltrona. E a coisa foi crescendo tanto e tão velozmente, que se romperam os diques e a lama transbordou, nos cobriu e sufocou. E a gente? Acostumou.

 

Pense comigo, nosso país é de terceiro mundo, somos pobres, não temos água, luz, estradas, transporte, saúde pública, educação, e nem comida para todos. E o que fazemos? Mantemos aparências esfarrapadas com uma criadagem política despreparada, sem experiência, sem cultura nem educação, que oferece, em bandejas de plástico, migalhas aos seus patrões, e nós os tratamos a pão-de-ló, com água mineral e bebida importada, servidas por copeiros em bandeja de prata, mesa farta, carros de luxo, um batalhão cada vez maior de subalternos, e avião importado.

 

Minha sogra abomina quem come mortadela e arrota peru. Pois é, dona Ruth, parece que nossa nação não anda bem de digestão.

 

Enquanto isso, países de primeiro mundo, com população mais rica, com pleno acesso a educação e saúde, e onde nem se imagina o que seja a dor de passar fome, têm muito menos empregados do que nós.
Voltando aos partidos, eles também geram aberração e mensalão. É o tal do cada um por si, do salve-se quem puder, coisa de republiqueta de quinta.

 

Portanto, enquanto nós, viventes do mesmo chão, continuarmos a contratar a corja, ela continuará oferecendo privilégios e benesses, aos que estão abaixo, acima, à direita e à esquerda, para eternizarem a farsa e o assalto miúdo às nossas carteiras e à nossa dignidade, as quais temos entregado de bandeja, como se nada valessem. Não é para isso que supostamente evoluímos como seres humanos, e que somos considerados cidadãos

 

Pense nisso, e até a semana que vem.

 

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.

4 comentários sobre “De passado que não vira presente

  1. Bom dia Malu,
    reza a História que nos países ricos, a gente educada não recebeu dos de cima a cidadania que tem. Ela lá, como é provável acontecerá por aqui, foi conquistada e a conquista foi do mesmo Povo acostumado a ouvir dizer de sua pouca erudição, torpeza.
    Há quem cometa a insanidade de crer que a Gente não entende, não sabe de escolha. Mas foi o Povo em milênios de História quem sempre soube.
    Para apressá-la era só acreditar na Gente, ouvi-la, dar-lhe crédito nas suas necessidades.
    Ou apenas a repetiremos e a História pode, na nossa concepção de tempo, demorar a desenrolar seus fios e ela sempre se apresenta ainda que relutemos em acreditar ou leiamos a diário que não se repete.
    Hoje Mirian Leitão no seu comentário do Jornal da CBN explicou direitinho o que eu te digo.
    abraço grande!

  2. ESTIMADA MARIA LUCIA,
    BOM DIA.
    VEJA A QUE PONTO CHEGAMOS,AO ABRIR OS JORNAIS DE HOJE EXISTE,PASMEM,CRITICAS AO FATO DE QUE UM GRANDE JOGADOR ALEMÃO KLOSE,QUE JOGA NA ITALIA,FALOU AO ARBITRO DE UM DETERMINADO JOGO QUE ELE HAVIA COMETIDO UMA IRREGULARIDADE NO GOL QUE ACABARA DE ANOTAR E QUE PORTANTO O GOL NÃO DEVERIA SER VALIDADO.
    PASMEM,JORNALISTAS NO BRASIL CRITICARAM A HONESTIDADE DO JOGADOR.
    LAMENTÁVEL.POBRE BRASIL.
    ABRAÇOS
    FARININHA.

  3. Farina do céu! Tá brincando!

    É como o cidadão pobre de marrédesi que encontra a mala de dinheiro e devolve.

    Mas isso é assim mesmo, vai ter gente aplaudindo e vai ter gente vaiando. Nem Maria Callas foi sempre unanimidade; ou foi?!

    Enfim, vamos devagar demais, né? Tá na hora de acordar e levantar o buzanfã da cadeira.

    Beijo com gosto de esperança

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