Foto-ouvinte: a cara de São Paulo aos 459 anos

Vista desde a Vila Mariana

 

A partir desta semana, teremos aqui no Blog uma seção especial do Foto-Ouvinte com a “Cara de São Paulo aos 459 anos”. Cenas da cidades, ângulos desconhecidos, momentos do seu cotidiano registrados em fotos podem ser enviados para milton@cbn.com.br. Para começar publico foto feita pelo nosso colega de bancada, Thiago Barbosa, desde o apartamento dele no alto da Vila Mariana e com olhar voltado para a zona leste. É uma vista privilegiada, sem dúvida, que revela a dimensão de São Paulo e o horizonte tomado de prédios.

De nada

 


Por Maria Lucia Solla

 

 

Comecei a escrever sobre saquinho de supermercado, mas acabei dando num beco escuro, que atiçava as borboletas no meu estômago, e parei. Fui pensar e fazer coisas que também estavam na lista de urgência, e que me davam prazer. Criei, cozinhei, fotografei, dei uma olhada na logística dos meus planos, e recomecei a escrever no dia seguinte.

 

Estação de chuvas, você sabe, fica difícil desviar o pensamento. Para onde você olha está cinza, nebuloso, ameaçador, ou despejando água e soprando ventania que dá medo. A gente vê, lê e ouve sobre muita gente desabrigada e dolorida; gente que tenta não perder o pouco que acredita ter, enquanto a Natureza tenta reaver o que é seu de origem. Dizer o quê? Repetir a ladainha? Que a malha de canos que mora sob o solo já vem pipocando há muito tempo, mas outras prioridades mais cintilantes tomam o lugar da necessidade básica? Somos um país de terceiro mundo e novo rico. Fazemos plástica e implante de silicone, mas não cuidamos do que não é visível. Casaco de veludo e bunda de fora, como sabiamente diz a minha sogra, a dona Ruth.

 

Mas sabe como é o pensamento, você pensa que já espantou, e vem ele de volta querendo ser pensado. Me recusando a voltar à história do saquinho plástico, peguei um atalho e me dei conta de que no passado, nem tão passado assim, já que eu consigo me lembrar, a gente levava duas cesta de vime para as compras e vinha faceira da feira, do fruteiro, ou do armazém, com as cestas cheias e coloridas. Duas cestas porque temos dois braços. A gente comprava o que podia carregar.

 

Mas falar sobre o quê? Ligo a tevê e fico sabendo de uma pesquisa que diz que nós jogamos fora metade dos alimentos, in natura, processados e muitos ainda enraizados. Dizem que muitas vezes nem vale a pena colher o que não tem boa aparência porque o público alvo só compra o produto bonito. Vai fora um tanto tão escandaloso que poderia alimentar toda a população que passa fome no mundo.

 

Então pensei: vou falar sobre nada. Só que acabei me lembrando de um padre de Hamburgo Velho, no Rio Grande do Sul, perto de Porto Alegre, que eu não cheguei a conhecer, mas sobre o qual sempre falavam os meus sogros. Contavam que ele tinha um forte sotaque alemão e que nos enterros, quando jogava a terra sobre o caixão, dizia pô, pô, têra, têra, falando de morte e vida; da terra de onde vem o nosso corpo, e que nos alimenta e abriga, e da nossa volta a ela, literalmente em pó, para alimentá-la em retribuição. Eu acredito.

 

Acredito no ciclo da vida. Acredito que assim na terra como no céu, que assim fora como dentro. É só prestar atenção. Ou a gente presta atenção, ou não… e até a semana que vem.

 

Em tempo: Alguém sabe me explicar por que mulato virou pardo?

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Moda masculina conceitual

 

Por Dora Estevam

 

Até que ponto a moda conceitual pode ser levada a sério? Devemos achar bonito e aceitar os padrões da sillueta e dos figurinos propostos? São questões que desamparadas de imagem podem ser respondidas com muitos adjetivos positivos, mas, quando acompanhadas, a situação pode mudar. O que você diria se vir um homem pelas ruas da cidade ou em um escritório vestindo roupa feminina com cortes clássicos, excelente alfaiataria, cores sóbrias e acompanhadas de uma linda bota com babados na borda?

 

Chega de indagações, vou apresentar para você uma seleção de fotos do desfile do estilista JW Anderson, que ocorreu na London Fashion Week, a semana de moda que lançou a coleção inverno 2013-14, e quero que você tire as suas próprias conclusões. Intitulada de Matemática do Amor, Anderson praticamente subverteu as fronteiras entre a moda masculina e a feminina – agora quem usa a roupa da menina é o menino.

 

A coleção apresentada tem todas as características da moda feminina: babados nos shorts e blusas até o pescoço, tipicamente femininos, deram o tom decorativo a coleção. Os jornalistas de moda costumam dizer que Anderson não é apenas um dos designers mais emocionantes da moda, é, também, muito interessante e inteligente, criativo e inovador.

Outro estilista que optou por deixar a coleção afeminada foi o Christopher Kane. Tudo começou com uma camiseta que ele fez na coleção feminina com a estampa do Franskstein. Ele percebeu que os meninos estavam roubando as camisetas delas, daí decidiu desenvolver uma só para eles nesta coleção de inverno 2013-14. Na coleção tem também calça skinny, malhas com estampas de leopardo e grandes casacos peludos e fofinhos. Veja algumas criações nas fotos abaixo.

A estilista Vivienne Westwood também mostrou a coleção para eles. Os tradicionais xadrezes com pegada streetwear, detalhe para as sobreposições que ela faz nas produções.

Entre sacos empilhados de lixo, Meadham Kirchhoff mostrou a coleção para os homens na semana de moda londrina. Aqui, a subversão aparece nos meninos com sandálias e meias, pérolas e listras.

Se a ideia é se divertir com a moda então dê adeus aquele sweater cinza chato. Deu a louca nos irmãos Sid Bryan, Joe Bates e Mc Creery Cozette e eles mergulharam as malhas no mundo divertido dos desenhos. Eles adoram o mundo dos desenhos e a influência é sempre a música e a arte.

Por mim ficaria horas aqui mostrando as novidades do mundo da moda masculina, porém tenho que parar em algum momento se não o editor me mata, mas, para não dizer que tudo é subversivo e que a moda não é para quem entende de moda, vou postar algumas referências menos carregadas de energia conceito…se é que você me entende.

 

A coleção de Ford veio enraizada no início dos anos sessenta. O estilista elaborou uma coleção priorizando a silueta que veio mais fina mas não apertada. Paletós, camisas, coletes e belos sapatos.

Tá, mais um pouquinho e eu acabo. Um vídeo do desfile de Alexander McQueen, pode ser? Vamos lá, aperte o play e assista comigo.

 



Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda no Blog do Mílton Jung, aos sábados

Mundo Corporativo: dinossauros, mentirosos e insatisfeitos

 

A cultura de forte hierarquia ainda vale nas empresas brasileiras, mesmo que dissimulada pois todos sabem ser um traço dinossaurico. Este comportamento infantiliza as lideranças nas organizações e os liderados acabam delegando todas as decisões para cima e não exercitam o seu potencial. Diz a consultora Betania Tanure, entrevistada do programa Mundo Corporativo da CBN, que “quanto mais alto na organização hierárquica, autoritária, mais cercado de mentirosos você está”.

 

Pesquisa desenvolvida pela consultoria Betania Tanure e Associados, especializada em transformação de cultura empresarial, em novembro de 2012, mostra que 74% dos homens que ocupam cargo de liderança estão insatisfeitos com o nível de equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Este índice é ainda mais alto, 91%, entre as mulheres com filhos até 10 anos.

 

 

O Mundo Corporativo vai ao ar no site da rádio CBN, às quartas-feiras, 11 horas, com participação dos ouvintes-internautas pelo e-mail mundocorporativo@cbn.com.br e pelo Twitter @jornaldacbn

Campanha para eliminar a violência pela raíz

 

Este texto foi publicado originalmente no Blog Adote São Paulo da revista Época São Paulo

Polícia no SOS Morumbi

 

A violência na cidade de São Paulo tem assustado, apesar de os índices de criminalidade terem sido melhorados nos últimos dez anos. Nenhum número consegue impactar mais do que os casos de assassinatos, chacinas, assaltos e roubos que noticiamos diariamente. Recebo críticas frequentes de ouvintes e leitores que entendem que ao publicarmos tais fatos estamos apenas tornando ainda pior o ambiente urbano, enquanto outros mais radicais veem na divulgação desta violência uma conspiração – às vezes com interesses partidários, às vezes, regionais – contra São Paulo. Concordo que há uma super valorização das notícias relacionadas à segurança pública e situações menores acabam surgindo com o destaque das manchetes. É recomendável um pouco mais de ponderação no momento de realizarmos a cobertura jornalística sobre o tema. Deixar de tratar todos os B.Os com a mesma importância.

 

Exageros da imprensa e teorias absurdas à parte, é evidente que temos acompanhado desde o segundo semestre do ano passado um descontrole da situação, com quadrilhas de bandidos e de farda se enfrentando nas madrugadas. A troca do comando da Segurança Pública em São Paulo foi uma reação a esta realidade na maior parte do tempo negada pelo Governo Alckmin. Outro sinal da preocupação que existe foi a medida, anunciada nesta semana, que proíbe os PMs de socorrerem vítimas de violência, com a intenção de acabar com os casos em que o “suspeito morreu a caminho do hospital”.

 

Semana que vem, às vésperas do aniversário da cidade de São Paulo, grupos da sociedade civil entregarão ao prefeito Fernando Haddad manifesto convocando as autoridades a trabalharem com o objetivo de “eliminar a violência na raiz de suas causas”. O texto será levado, também, aos Governos Federal e Estadual, e alerta para a necessidade de se melhorar as condições sociais e econômicas da população como forma de reduzir as desigualdades e injustiças. Pede a qualificação e melhoria das condições oferecidas às polícias, e o combate a corrupção entre outras formas de se combater à violência.

 

A iniciativa é da Rede Nossa São Paulo, Centro Santo Dias de Direitos Humanos da Arquidiocese de São Paulo, Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, Instituto São Paulo contra a Violência, Pastoral Fé e Política da Arquidiocese de São Paulo e Sociedade Santos Martires. O manifesto será entregue ao Prefeito Fernando Haddad no lançamento da IV edição do IRBEM, que ocorrerá no dia 17 de janeiro, às 10h, no Sesc Consolação.

 

Leia o texto completo com a proposta das entidades a seguir:
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Procura-se mão de obra qualificada e honesta

 


Por Milton Ferretti Jung

 


Maria Helena e eu moramos em uma casa térrea na Zona Sul de Porto Alegre. Quando a nossa residência foi reformada em 2009, a loja, que se responsabilizou pela remodelação da cozinha, brindou-nos com um fogão de quatro bocas, desses que não possuem forno. Maria Helena, quase de imediato, arrependeu-se de ter aceito o presente, mas aguentou até julho do ano passado, estoicamente, cozinhar num aparelho sem o acessório que, para ela, era indispensável. Em julho de, 2012, depois de muito pesquisar, ela decidiu-se por um fogão de seis bocas e, claro, com forno: um Consul. Imaginamos que logo iríamos estrear o fogão. Como o dito era, porém, bem maior do que o maldito, fizeram-se necessárias modificações no móvel da pia.

 


Enquanto a gente não encontrava quem cortasse parte do granito dessa, o que possibilitaria o encaixe do fogão, esse foi colocado atrás da porta de entrada. Isso não representou problema, eis que entramos em casa, habitualmente, pela garagem. Afinal, pensávamos, não vai demorar para que Malena (apelido que minha mulher usa para entrar nas redes sociais) contratasse um marcineiro. O profissional que tínhamos em vista para executar o serviço demorou um tempão. Finalmente, apareceu.

 


Com as duas etapas vencidas, restava colocar o fogão no seu devido lugar, livrando a porta de entrada do obstáculo que lá estava, lembro, desde julho de 2012. Telefonamos para a empresa que nos vendera o aparelho, acreditando que ela tivesse assistência técnica em Porto Alegre. Tinha, aliás, ainda tem. Fomos informados pela atendente da Consul, após muita conversa e várias ligações, que o serviço seria realizado na sexta-feira (estávamos na segunda-feira). O horário de atendimento, na sexta, iria das 14h às 18h. Esperamos em vão. Por três vezes o pessoal da assistência técnica autorizada nos fez de bobos. Ninguém nos visitou. Descobrimos que a autorizada serve (ou desserve) não só à Consul, mas, também, à Brastemp. Desistimos dessa gente e ligamos para um distribuidor de GLP que, prontamente, veio à nossa casa, pôs o fogão no lugar e conectou-o à saída de gás, sem cobrar nada pelo serviço. Estamos agora necessitando de um eletricista. Profissionais desse ramo, confiáveis, são raros. Passaram vários pela nossa casa. Por enquanto, nenhum conseguiu montar um quadro de disjuntores capaz de evitar que ao se pretender ligar o motor da piscina, comece a funcionar o “split” do living. Podem me chamar de saudosista, mas, antigamente, mão de obra especializada era encontrada bem mais facilmente do que hoje em dia.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Novos prefeitos e velhas farsas

 

Por Carlos Magno Gibrail

O politicamente correto tem invadido as falas sociais apontando para a defesa das minorias, gerando uma tomada de posição dos setores menos radicais num processo positivo de debates.
Até mesmo o exagero do humorismo mais agressivo e grosseiro tem recebido providenciais puxões de orelha.

 

É de espantar, mas não surpreendente, o espetáculo politicamente incorreto que vários prefeitos das capitais demonstraram em suas falas de posse. Passaram das promessas em recursos e investimentos na campanha e apresentaram planos de cortes de despesas na posse. As palavras de campanha prometendo maravilhas em serviços e obras foram substituídas por “suspensão de todos os pagamentos”, “corte de gastos”, “contenção de salários”, “solicitação aos governos estadual e federal de recursos”, etc.

 

No Rio, Eduardo Paes do alto da reeleição com 64,6% dos votos, sem poder culpar o antecessor fez uma autocrítica e anunciou um “pacote de austeridade carioca”. Em Salvador, ACM Neto, em Manaus, Arthur Virgilio, em São Paulo, Fernando Haddad, em Recife, Geraldo Julio, assim como em Florianópolis, Campo Grande, etc, o mote foi a falta de recursos e o recurso do corte. Tudo muito diferente da campanha. Certamente é hora de mudar este status quo, buscando entender a formação e a evolução deste animal político para efetivar sua melhoria.

 

Danilo Gentili, o humorista politicamente incorreto, diz que o aluno ruim ou vira roqueiro ou vira humorista, e quem nunca foi aluno vira pagodeiro. Não há certeza de como se origina o político, mas temos convicção que através de um processo evolutivo darwiniano poderemos chegar a um padrão mais ético. Sabemos que Darwin concluiu que a evolução das espécies vem através de adaptações às novas condições ambientais, quando os mais aptos às mudanças sobrevivem, distanciando-se dos estados primitivos.

 

Ora, se mudarmos o tamanho do mercado eleitoral, isto é, restringirmos os eleitores àqueles que desejam votar, acabando portanto com o voto obrigatório, os candidatos terão que se entender provavelmente com menos consumidores/eleitores, embora mais envolvidos e mais conhecedores de política. Como na teoria de Darwin, quem ficará não serão nem os mais fortes nem os mais espertos. Apenas os mais aptos permanecerão enquanto os menos preparados serão excluídos.
Tudo indica que vale apostar e apoiar o voto facultativo.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras

Conte a sua história de São Paulo

 

Livro Conte Sua História de SP

 

Minha história com São Paulo começou em 1991 quando cheguei aqui para trabalhar em televisão. Foi aqui que voltei ao rádio, em 1998, para ser âncora na rádio CBN. Por todo este tempo, seja transmitindo notícias seja relatando casos de moradores, sempre contei histórias de São Paulo, mas foi em 2006 que passei a fazer isto de maneira formal com a criação de um quadro no programa CBN SP em homenagem aos 452 anos da capital paulista. O Conte Sua História de São Paulo transformou-se em livro, ganhou depoimentos gravados e a parceria do Museu da Pessoa, e se reforça a cada novo aniversário.

 

Neste mês de janeiro, convidamos você a escrever mais um capítulo da nossa cidade. Envie um texto contando momentos que marcaram sua vida, lembranças da escola, dos amigos, da rua em que viveu. Relate fatos curiosos, divertidos ou emocionantes que viveu na capital paulista. Estas histórias serão levadas ao ar na CBN, dez delas às vésperas do aniversário de 459 anos de São Paulo, de 14 a 25 de janeiro, dentro do Jornal da CBN. As demais farão parte do Conte Sua História de São Paulo, aos sábados, no CBN SP, no decorrer do ano.

 

Sua história pode ser enviada para o e-mail milton@cbn.com.br ou se você quiser compartilhar desde já com os raros e caros leitores deste blog, não se acanhe, escreva e depois divulgue na área destinadas aos comentários deste post.

 

Vamos escrever juntos mais uma história de São Paulo.

Foto-ouvinte: a desconstrução se transforma em arte urbana

 

Arte urbana

 

Foi comprado para atender o sonho de um dos milhões de brasileiros que trocaram as pernas pelas quatro rodas de um automóvel. Deve ter guiado seu dono a lugares desconhecidos por nós. Tão misteriosos quanto o seu rumo foram os motivos de seu abandono. Pode ter sido a ingratidão de quem usufruiu dele enquanto esteve forte. Talvez a pobreza que impediu o pagamento das taxas, impostos, multas, reparos e combustível necessários para rodar. Quem sabe a intervenção do ‘amigo do alheio’ que se apropriou indevidamente dele para depois descartá-lo? Provavelmente jamais saberemos detalhes da vida pregressa desta carcaça de automóvel encontrada em uma das ruas de São Paulo. A única certeza é que hoje o que antes foi carro hoje se transformou em uma espécie de arte urbana misturada a um cenário caótico e colorido.

 

N.B: Por desatenção desta blogueiro, o nome do autor da foto não foi registrado.

O medo nos mata atrás das grades

 

Segurança por fora

 

A morte de um senhor de 76 anos, em incêndio na Vila Formosa, zona Leste de São Paulo, na sexta-feira passada, ganhou detalhes ainda mais dramáticos no depoimento de um vizinho que tentou salvar a vítima, ouvido pela reportagem da rádio CBN. O homem contou que ao chegar na casa que pegava fogo tentou, desesperadamente, arrancar as grades das janelas. O máximo que conseguiu foi pedir para que o idoso se deitasse no chão e esperasse a ajuda que não chegou. O senhor morreu ali mesmo, deitado, impedido de escapar pelo fogo que consumia a casa de um lado e pelas grades de proteção do outro. O medo da violência urbana nos leva a colocar grades nas janelas e portas na ilusão de que estaremos protegidos. O pavor de termos a casa invadida é tanto que nos cega para outros riscos como a de tornar intransponível as rotas de fuga em caso de emergência como a vivida pela família da pequena e sem saída rua Horácio de Matos.

 

Minha casa não tem grades, mas muros enormes e com portões que impedem a visão para a rua. Descobri que havia construído uma armadilha quando tive a residência invadida por um bando que agiu tranquilamente sem ser importunado por nenhum vizinho que, por ventura, tivesse passado na minha calçada. Ninguém seria capaz de desconfiar o que acontecia lá dentro. Um especialista em segurança me contou que pesquisa feita com presos, condenados por assalto à residência, revelou que eles se sentem protegidos quando entram em casas com muros grandes.

 

Semana passada, Ethevaldo Siqueira divulgou no Jornal da CBN estratégia sugerida pelo SAMU – Serviço de Atendimento Móvel de Urgência para facilitar a busca de parentes de vítimas. Os técnicos pedem para que se coloque no celular o nome AAEmergência e o telefone para o qual gostaríamos que ligassem em caso de acidente. Imediatamente, recebi mensagens de pessoas entendendo que a medida seria um risco à segurança, pois em caso de sequestro relâmpago ou roubo do telefone, os bandidos saberiam para quem ligar. Outros disseram que a medida não teria sucesso pois os celulares têm códigos para impedir o acesso de terceiros.

 

Bloquear celulares, não registrar número de emergência, gradear as janelas e elevar ao máximo os muros de nossas casas são todos sintomas da mesma paranoia que nos leva a proibir os filhos de brincar na rua, deixar de sair à noite, esconder-se em condomínios fechados e dos vizinhos, aceitarmos vivermos em um BBB caseiro, com câmeras vistas pela internet, controlada à distância por estranhos, e GPS pessoal. Resultado do medo que nos cerca e da desconfiança que alimentamos do outro, que consome relações. Precisamos repensar alguns desses hábitos e avaliarmos se vale a pena seguirmos em frente restringindo cada vez mais nossas liberdades e morrendo, aos poucos, atrás de grades.