O medo nos mata atrás das grades

 

Segurança por fora

 

A morte de um senhor de 76 anos, em incêndio na Vila Formosa, zona Leste de São Paulo, na sexta-feira passada, ganhou detalhes ainda mais dramáticos no depoimento de um vizinho que tentou salvar a vítima, ouvido pela reportagem da rádio CBN. O homem contou que ao chegar na casa que pegava fogo tentou, desesperadamente, arrancar as grades das janelas. O máximo que conseguiu foi pedir para que o idoso se deitasse no chão e esperasse a ajuda que não chegou. O senhor morreu ali mesmo, deitado, impedido de escapar pelo fogo que consumia a casa de um lado e pelas grades de proteção do outro. O medo da violência urbana nos leva a colocar grades nas janelas e portas na ilusão de que estaremos protegidos. O pavor de termos a casa invadida é tanto que nos cega para outros riscos como a de tornar intransponível as rotas de fuga em caso de emergência como a vivida pela família da pequena e sem saída rua Horácio de Matos.

 

Minha casa não tem grades, mas muros enormes e com portões que impedem a visão para a rua. Descobri que havia construído uma armadilha quando tive a residência invadida por um bando que agiu tranquilamente sem ser importunado por nenhum vizinho que, por ventura, tivesse passado na minha calçada. Ninguém seria capaz de desconfiar o que acontecia lá dentro. Um especialista em segurança me contou que pesquisa feita com presos, condenados por assalto à residência, revelou que eles se sentem protegidos quando entram em casas com muros grandes.

 

Semana passada, Ethevaldo Siqueira divulgou no Jornal da CBN estratégia sugerida pelo SAMU – Serviço de Atendimento Móvel de Urgência para facilitar a busca de parentes de vítimas. Os técnicos pedem para que se coloque no celular o nome AAEmergência e o telefone para o qual gostaríamos que ligassem em caso de acidente. Imediatamente, recebi mensagens de pessoas entendendo que a medida seria um risco à segurança, pois em caso de sequestro relâmpago ou roubo do telefone, os bandidos saberiam para quem ligar. Outros disseram que a medida não teria sucesso pois os celulares têm códigos para impedir o acesso de terceiros.

 

Bloquear celulares, não registrar número de emergência, gradear as janelas e elevar ao máximo os muros de nossas casas são todos sintomas da mesma paranoia que nos leva a proibir os filhos de brincar na rua, deixar de sair à noite, esconder-se em condomínios fechados e dos vizinhos, aceitarmos vivermos em um BBB caseiro, com câmeras vistas pela internet, controlada à distância por estranhos, e GPS pessoal. Resultado do medo que nos cerca e da desconfiança que alimentamos do outro, que consome relações. Precisamos repensar alguns desses hábitos e avaliarmos se vale a pena seguirmos em frente restringindo cada vez mais nossas liberdades e morrendo, aos poucos, atrás de grades.

 

3 comentários sobre “O medo nos mata atrás das grades

  1. Bom dia Milton,
    eu estava conversando com uma amiga que vive em uma cidade no interior da Alemanha, quando descobri o tanto que o nosso problema de transito, de poluição, o que temos com as chuvas, enchentes e os deslizamentos e por ai vai, é parecido com o das grades no teu texto. Justamente por conveniências que nos são alheias e muitíssimo mais por uma questão de nos moldarmos a empresas e não o contrário, estamos nos amontoando uns sobre os outros e nem nos damos conta que no Brasil, contrário da Europa por exemplo, temos áreas livres a dar com grades. Falta planejar.
    O mercado só é realmente eficiente se for regulado com mão forte, mas pelo visto já deram um jeitinho de afrouxar os dedos dela.
    A conta de resolver esse nó, foi deixada no nosso colo e o mesmo mercado que nos jogou nessa situação corre frouxo sem planejamento, só lucro. Esta é apenas uma das explicações que tenho Milton, há outras. Seguramente já te ouvimos tratar delas na apresentação dos programas que você tão bem faz.
    É que este olhar em particular eu nunca tive. Fiquei aliviado e ao mesmo tempo chateado. Comprei um apartamento no vigésimo andar de um condomínio fechado, do tipo clube, e nem sei se o corpo de bombeiros tem escada que chegue onde eu vou estar. Rsrs
    O alívio foi que ainda não o recebi, só paguei. Estou brigando com o mercado faz 2 anos. =]
    Abraço

  2. As pessoas deveriam começar a perceber que são elas que estão ficando fechadas em carros com películas indevassáveis à visão, assim como estão presas atrás de grades e muros.
    Na rua que moro há entrada para uma rua fechada e o que se observa é que seus moradores não respeitam a rua aberta. Passam em velocidades extremas e dirigem como apenas o espaço que moram merece cuidados com as crianças e pedestres.
    Eles também não enxergam quem está preso. Ora, são eles.E, a boa educação fica também por lá, pois saem sem ela.

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