Conte Sua História de SP: perdi minha sandalinha vermelha

 


Por Elizabeth Pricoli Vilela
Ouvinte-internauta da CBN

 

Minha lembrança mais remota, data do ano de 1954, quando eu tinha 2 anos de idade. Nesta época comemorou-se o Quarto Centenário da Cidade de São Paulo. Lembro-me, nebulosamente, daquele entardecer quando dos céus, uma chuva de prata cobriu a cidade. Aviões da FAB, voando sobre nós, derramavam pequenas flâmulas de papel prateado. Foram três dias de festas, em torno do dia 9 de julho quando a comemoração do aniversário da cidade se juntou à da Revolução Constitucionalista.

 

Ouça o texto que foi ao ar no Conte Sua História de São Paulo sonorizado pelo Cláudio Antonio

 

Aquela foi uma época feliz, especialmente para as crianças, que como eu, moravam na rua Dr. Dolzani, do Jardim da Glória, distrito da Vila Mariana. Formávamos grupo de idades próximas e brincávamos nas calçadas, ou andávamos de bicicleta pelas ruas, sem medo, porque ninguém sentia falta de segurança. Fazíamos excursões por ruas menos habitadas, onde terrenos baldios, ruas de terra, nos proporcionavam cenários para brincadeiras de mocinho e bandido, como víamos nos filmes da TV. Eu era o Roy Rogers, outra amiguinha o Zorro, outra o Bat Masterson, mas ninguém queria ser o índio Tonto, companheiro do Zorro, porque seria alvo de gozação da turma. Havia também uma mina de água na redondeza, que enriquecia ainda mais nossas aventuras. Vez ou outra, moleques atrevidos nos importunavam, dos quais fugíamos correndo de volta para nosso forte seguro. A influência dos seriados americanos era grande.

 

Recordo-me com carinho do Prof. Sérgio. Ele lecionava para o pré-primário numa escola pública de madeira, elevada sobre estacas, próxima à rua Maris e Barros. Fui sua aluna aos 6 anos e com ele aprendi a ler e escrever, além de todas as tabuadas, a dos 2 até a dos 9! Naquele ano de 1958, a escola foi demolida e ele levou seus alunos para a sala de aula no quintal da sua casa. Ele foi um professor exemplar, não me lembro dele irritado ou gritando com alguém. Éramos comportados e queríamos aprender. Vem à minha memória o esperado recreio quando comia a paçoquinha Amor, que era muito diferente do que é hoje e custava um cruzeiro. Aliás, recordo-me de vários sabores da minha infância, o do Toddy, por exemplo, era um pó finíssimo de cor rósea e delicioso, acondicionado em potes de papelão e tampa metálica.

 

O bonde ainda circulava pela cidade. Certo dia, recebemos a visita de um tio que morava no interior e programamos visitar uma tia que morava no Campo Belo. Tomamos o bonde que saía da Praça João Mendes em direção a Santo Amaro. Ao descer no ponto desejado, eu enterrei meu pezinho na lama e ao retirá-lo, perdi minha sandália vermelha novinha. Um ou dois anos atrás, li no jornal que as obras do Metrô da linha lilás, descobriram restos dos trilhos na região. Logo pensei, será que encontraram minha sandalinha?

 

Já mocinhas, na década de sessenta, frequentávamos o cine Astor, no Conjunto Nacional. Depois da sessão, sentávamos à mesa na calçada do restaurante Fasano para tomar sorvete em taças de prata, apreciando o movimento da Paulista. Era um luxo!

 

Em 1970, o Brasil sagra-se tricampeão do mundo no futebol. Eu cursava o preparatório para o vestibular no Objetivo, que naquele ano mudara-se para a Av Paulista no prédio da Gazeta. Na segunda-feira após o campeonato, não houve aula, saímos desfilando pela avenida, eufóricos com a vitória, alheios ao que ocorria nos bastidores da ditadura.

 

No ano seguinte, já na faculdade, tomei ciência da situação política do país. Colegas desaparecidos, o autoritarismo militar, a repressão policial. Os meios de comunicação censurados iludiam-nos com a idéia que se combatia o comunismo. Felizmente, hoje, podemos saber da real situação do país e parabenizo a Rádio CBN e a TV Cultura por nos manter atualizados e críticos diante da política brasileira, cujos representantes ainda nos causam muita revolta. Há uma longa jornada pela frente até a plena cidadania.

 


Participe do Conte Sua História de São Paulo, envie seu texto para milton@cbn.com.br ou agende uma entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.

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