De cartas

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

E a senha serve para quê?

 

Senha era coisa de pós-guerra, quando cada família recebia uma, para comprar mantimentos básicos a preço de tabela. Mas não foi aí, o começo do seu reinado. Os egípcios já usavam senhas. Ah, os egípcios!

 

A senha para fins eletrônicos nasceu no início dos anos 1960, no Massachusetts Institute of Technology, e está dominando o mundo. é a mais nova pandemia. Seu reinado engorda como a dona Redonda, e por mim, poderia explodir. Tem senha que não acaba mais, e eu realmente não me dou bem com elas. Perco tanto tempo e energia tentando administrar senhas e nomes de usuário quanto os hackers tentando quebrá-las. Porque não inventam um leitor de digital acoplado ao computador? Onde estão os inventores deste Brasil?

 

Agora a App Store cismou comigo. Mudei meu e-mail, fui lá, bonitinho, como manda o figurino e mudei os dois campos: usuário e senha. No lugar no endereço antigo, o novo. A senha, no entanto, imaginada às pressas, é mais fácil de ser decifrada do que palavras cruzadas para criança. Prometo inventar uma bem cabeluda! Recebi a confirmação, tudo certo, dona Maria Lucia, sua senha já foi trocada. E lá fui eu, toda faceira, fazer o upgrade de programas que são essenciais para o meu trabalho.

 

Qual foi a retribuição da App Store? Há dias não reconhece meu novo endereço de e-mail. Entro na sala de gerenciamento da minha conta, e lá está, tudo certinho, com tique verde pra dizer que está tudo ok. Mas eu digo primeiro: não está tudo ok. Grrrrrrr!

 

Estou prestes a jogar a toalha, me livrar das máquinas e voltar a escrever em lindos cadernos. Vou comprar verduras na quitanda da esquina, o jornal na banca, na rua de trás, ler lindos livros de papel e escrever cartas. Muitas cartas.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

7 comentários sobre “De cartas

  1. Oi Lú, é isto mesmo a tecnologia às vezes enlouquece, e o pior nos sentimos impotentes prá resolver tais problemas. No velho e bom caderno sempre podemos apagar, arrancar uma página e por aí vai, sem interferências de provedores, etc

  2. Oi Malu,
    existe uma tal política de segurança ( para a sua ….) que dita não ser possível o mesmo aparelho usar duas contas da loja sem um espaço de alguns dias ( creio que 90) entre um a e outra. Pode ser que a troca de mail tenha sido entendida assim. Na verdade isso é feito pelos servidores e com eles não há diálogo… Se vc insistir com a senha que eles consideram errada, é a conta que fica inativa até que seja trocada a senha…Coisa de doido, mas é tudo para a sua segurança, dizem.
    bjo e boa semana pra nós todos.

  3. AMIGA MARIA LUCIA,
    BOA TARDE.
    CONCORDO CONSIGO,VOLTAREMOS A ESCREVER EM CADERNOS,PROVAVELMENTE ELETRONICOS,POIS TUDO VOLTA-A HISTÓRIA,A MODA,ETC
    ABRAÇOS
    FARININHA.

  4. Olá, este é o comentário de Sebastião Mario Moura, de Minas Geras, por e-mail:

    “Realmente essa é a devassa da tecnologia, não vamos demonizar o MIT, certamente o mundo precisa desses saltos tecnológicos.
    Entretanto, a cada dia perdemos mais nossa identidade, passamos a ser meros números. Temos o vizinho do 140, do prédio2000, nosso veículo está na garagem X, nosso computador e celular certamente serão inutilizados no momento que cessar nossa existência, porque conosco perecerão as senhas…
    Corremos atrás de tantas coisas para nossa comodidade e acabamos sendo incomodados por essas mesmas coisas.
    Perdemos o calor de nossas amizades e nos contentamos com a frieza do facebook, emails. Também tenho saudades dos tempos que escrevíamos e recebíamos cartas. Tempos que não são assim tão longínquos, mas parecem ter ficado em nossos arquivos lixeira, os quais em qualquer momento são deletados e desaparecem.
    Saudades dos tempos que as cartas vinham com o cheiro de quem as remetia e nos trazia uma grande satisfação em abri-la e lê-la ..
    acho que também estou envelhecendo rápido, parem o mundo que eu quero viver, sonhar, amar, mesmo que seja um pouco, se der tempo e não cair o sinal. Será que a nossa vida está se transformando numa INTERNET, tênue , insegura, impessoal, violável, fria… Melhor acordar para sentir os cheiros (só sentimos os odores) que andam tão insignificantes nesses tempos do MIT.”

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