Fora da Área: a Alemanha conquistou todo mundo

 

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Havia uma camisa da Alemanha vestida ao meu lado. Era da Copa de 2010, preta com listras douradas sobre o ombro e o emblema da Deutscher Fußball-Bund no lado esquerdo do peito e embaixo de três estrelas. Foi naquele mundial que os alemães mostraram seu cartão de visita para a Copa no Brasil ao chegar em terceiro lugar com vitória por 3 a 2 contra o Uruguai, no último jogo. Antes tinham vencido a Inglaterra por 4 a 1, nas oitavas de final, e a Argentina por 4 a 0 (sim, os argentinos também já foram goleados), nas quartas, e somente não estiveram na final devido a derrota por 1 a 0 para a Espanha que, como todos sabemos, saiu-se campeã. Na época, escrevia o Blog Fora da Área para o portal Terra, que me levou à África do Sul, e nas muitas conversas com os colegas de trabalho tinha-se a nítida impressão de que a Alemanha chegaria ao Brasil para ser campeã. Tudo que assistimos no Mundial, que se encerrou nesse domingo, confirmou aquela previsão.

 

Verdade que por alguns anos esquecemos da superioridade deles no continente africano e imaginamos que o Brasil, por jogar em casa, faria páreo aos alemães. Como sabemos – e vamos lembrar eternamente – não fizemos. Verdade que se Higuain tivesse acertado o pé na rara bobagem feita pela defesa montada por Joaquim Löw, ou Messi, naquela escapada pela esquerda, ou Palácio, ao encobrir Neuer, a Argentina poderia ter comemorado o título. Verdade que muitas outras coisas poderiam acontecer nessa ou em qualquer outra das partidas do mundial porque sabemos que o futebol é fantástico em sua imprevisibilidade: a bola que vai para fora pode desviar em um pé descuidado e parar dentro do gol; ou o árbitro pode interpretar pênalti em lance fortuito do zagueiro; ou o goleiro sair em falso; ou, simplesmente, dar um apagão (substantivo que, recentemente, ganhou novo sentido no Brasil para explicar erros de planejamento e infraestrutura). Mas a suprema verdade desta Copa é que a Alemanha se preparou como poucos para evitar surpresas e mereceu como ninguém esse título.

 

O plano traçado na última década teve requintes de crueldade para os adversários. Em campo a Alemanha construiu uma seleção capaz de atemorizar qualquer um que se intrometesse no caminho do tetracampeonato, enquanto fora dele conquistava a simpatia de todos os torcedores (talvez por algumas noites não a dos argentinos, o que é compreensível). Melhor exemplo dessa estratégia foi o fenômeno que surgiu logo após o Brasil ter sido trucidado nas quartas de final. Nem mesmo o mais indignado torcedor brasileiro parecia capaz de odiar os alemães. A maioria os aplaudiu e outros tantos aderiram a causa. É o que explica, em parte, o Maracanã vibrar com as defesas de Neuer; a firmeza de Hummels e Boateng; a bola passando do pé de Lahm para o de Kramer, o de Höwedes, o de Özil e o de Klose, com mínima margem de erro; o jeito peladeiro de ser de Müller; a dedicação e talento de Schweinsteiger; e, claro, a arrancada de Schürrle que propiciou o lindo lance do gol da vitória marcado por Götze.

 

Sou obrigado a confessar, caro e raro leitor deste blog, que também fui vítima da tática germânica montada para conquistar o campo e o coração dos inimigos. Além daquela camisa da Alemanha de 2010 (a propósito, vestida por um dos meus filhos), que estava ao meu lado, fui flagrado em intensa comemoração logo após o gol do título. E não tenho vergonha em contar isso, porque sei que você entenderá meu sentimento diante de um futebol bem jogado e planejado. Ao final, a Alemanha conquistou todo o Mundo.

5 comentários sobre “Fora da Área: a Alemanha conquistou todo mundo

  1. Milton, eles só encontraram uma dupla brasileira que hoje tem desfeito o bem feito de ontem. Paula Lavigne e Caetano Veloso.
    Como vimos dentre os vários clips alemães de agradecimento ao Brasil, usaram uma música do Caetano em um deles. Paula Lavigne proibiu e explicou que não era por dinheiro, mas…
    Pior a explicação do que a proibição. A dupla quer mesmo é GRANA.

  2. Ao contrário do meu filho que tinha um filho vestido com a camisa alemã ao seu lado na tarde da final da Copa,conforme se lê no texto acima,eu havia ganho de presente do Christian,meu caçula,uma imensa bandeira da Argentina. Maria Helena,minha mulher,torcia pelos “hermanos” desde sempre (gosto não se discute),razão pela qual,tão pronto Christian desembarcou do seu incrementadíssimo Fusca 74 em frente à nossa casa,tratei de colocar a bandeira na grade da janela do living. Era sábado.A Seleção Brasileira nem tinha ainda levado três pancadas da Holanda. E a bandeira já chamava a atenção dos vizinhos passantes. Explico o que levou o meu filho mais novo a presentear Malena. Mal terminado o jogo em que a Argentina derrubou a Holanda,o fanatismo da minha mulher,fez com ela que procurasse em casa algo que espelhasse a sua alegria com a sofrida vitória dos companheiros de Messi. Maria Helena encontrou apenas um lençol e postou a foto dele no seu Face. O Christian,por sua vez,fez um comentário dizendo que não havia entendido o que aquilo significava e disse que tinha em casa coisa melhor. E tinha conforme, vimos. Bandeirão na grade da janela bem esticado,chegou a hora de assistir à peleia. Malena torcia para a Argentina,claro. Eu fiquei com dois corações,sem saber direito por quem torcer:para os argentinos de Maria Helena ou pelos alemães,lembrando o meu bisavô Jung? Acabei optando pela neutralidade. Creio que foi a primeira vez que acompanhei um jogo de futebol sem torcer por um dos contendores.

  3. É, espero que o planejamento da Alemanha possa servir de paralelo ao Brasil.
    Também torci para a Alemanha e nos palpite com os amigos, errei somente o adversário. Seria a Holanda, para mim.
    Mas além dos lances perdidos durante a partida há sempre um conjunto de fatores que favorecem um campeão. Ele não só acredita no título, como toma atitudes sérias para que isto seja factível.
    Afinal, para se atingir um objetivo perdido anteriormente, é imprescindível executar um novo plano de forma diferente. E eles o fizeram.
    Como em uma economia de mercados, quem está no topo será copiado e será o concorrente a ser derrubado. Outros virão e espero que estejamos entre eles.

  4. Na de 2010 também fui conquistada! Mas nesta, os alemães surpreenderam pela sua forma gentil, delicada, elegante e amorosa de ser. Não são os adjetivos que normalmente são aplicados a eles. E, se essa Copa deixou legado, creio que foi a faxina dos japoneses e a lição de aplicação, constância e planejamento dos alemães aliados ao seu calor e carinho! Talvez o estereótipo “frieza alemã” não caiba mais ser utilizado!

    Caetano me deixou indignada com o fato de pedir para suspender o vídeo! Poderia ter tornado sua música conhecida e…. ganhar muitos €€€€€€€€uros!
    Brasileiros adoram os brasileiros, gostam do Brasil, aprendem português (nas Volksschule – escolas do povo) e usam a música para facilitar o aprendizado! Ok, gostam também da nossa música!

    • Rosely,

      Muito bem lembradas as atitudes de japoneses e alemães e relacioná-las ao legado da Copa. Porém, temo que essas sejam apenas lembranças da Copa, pois seria legado se aqui no Brasil reproduzíssemos este comportamento.

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