Fora da Área: a Alemanha conquistou todo mundo

 

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Havia uma camisa da Alemanha vestida ao meu lado. Era da Copa de 2010, preta com listras douradas sobre o ombro e o emblema da Deutscher Fußball-Bund no lado esquerdo do peito e embaixo de três estrelas. Foi naquele mundial que os alemães mostraram seu cartão de visita para a Copa no Brasil ao chegar em terceiro lugar com vitória por 3 a 2 contra o Uruguai, no último jogo. Antes tinham vencido a Inglaterra por 4 a 1, nas oitavas de final, e a Argentina por 4 a 0 (sim, os argentinos também já foram goleados), nas quartas, e somente não estiveram na final devido a derrota por 1 a 0 para a Espanha que, como todos sabemos, saiu-se campeã. Na época, escrevia o Blog Fora da Área para o portal Terra, que me levou à África do Sul, e nas muitas conversas com os colegas de trabalho tinha-se a nítida impressão de que a Alemanha chegaria ao Brasil para ser campeã. Tudo que assistimos no Mundial, que se encerrou nesse domingo, confirmou aquela previsão.

 

Verdade que por alguns anos esquecemos da superioridade deles no continente africano e imaginamos que o Brasil, por jogar em casa, faria páreo aos alemães. Como sabemos – e vamos lembrar eternamente – não fizemos. Verdade que se Higuain tivesse acertado o pé na rara bobagem feita pela defesa montada por Joaquim Löw, ou Messi, naquela escapada pela esquerda, ou Palácio, ao encobrir Neuer, a Argentina poderia ter comemorado o título. Verdade que muitas outras coisas poderiam acontecer nessa ou em qualquer outra das partidas do mundial porque sabemos que o futebol é fantástico em sua imprevisibilidade: a bola que vai para fora pode desviar em um pé descuidado e parar dentro do gol; ou o árbitro pode interpretar pênalti em lance fortuito do zagueiro; ou o goleiro sair em falso; ou, simplesmente, dar um apagão (substantivo que, recentemente, ganhou novo sentido no Brasil para explicar erros de planejamento e infraestrutura). Mas a suprema verdade desta Copa é que a Alemanha se preparou como poucos para evitar surpresas e mereceu como ninguém esse título.

 

O plano traçado na última década teve requintes de crueldade para os adversários. Em campo a Alemanha construiu uma seleção capaz de atemorizar qualquer um que se intrometesse no caminho do tetracampeonato, enquanto fora dele conquistava a simpatia de todos os torcedores (talvez por algumas noites não a dos argentinos, o que é compreensível). Melhor exemplo dessa estratégia foi o fenômeno que surgiu logo após o Brasil ter sido trucidado nas quartas de final. Nem mesmo o mais indignado torcedor brasileiro parecia capaz de odiar os alemães. A maioria os aplaudiu e outros tantos aderiram a causa. É o que explica, em parte, o Maracanã vibrar com as defesas de Neuer; a firmeza de Hummels e Boateng; a bola passando do pé de Lahm para o de Kramer, o de Höwedes, o de Özil e o de Klose, com mínima margem de erro; o jeito peladeiro de ser de Müller; a dedicação e talento de Schweinsteiger; e, claro, a arrancada de Schürrle que propiciou o lindo lance do gol da vitória marcado por Götze.

 

Sou obrigado a confessar, caro e raro leitor deste blog, que também fui vítima da tática germânica montada para conquistar o campo e o coração dos inimigos. Além daquela camisa da Alemanha de 2010 (a propósito, vestida por um dos meus filhos), que estava ao meu lado, fui flagrado em intensa comemoração logo após o gol do título. E não tenho vergonha em contar isso, porque sei que você entenderá meu sentimento diante de um futebol bem jogado e planejado. Ao final, a Alemanha conquistou todo o Mundo.

Fora da Área: para quem vou torcer?

 

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Foi cansativo driblar os textos que me ofereceram para ler, nesta semana, sobre a final da Copa do Mundo, mas consegui eliminar de todos eles a expressão “hermanos” que, insistentemente, acompanhava as notícias relacionadas a Argentina. Não porque cultive qualquer incomodo com os argentinos, muito antes pelo contrário. Como sabe bem o caro e raro leitor deste blog, sou gaúcho, gentílico de todos os nascidos no Rio Grande do Sul, mas que também identifica o povo ligado à pecuária em especial os da região dos pampas, da Argentina e do Uruguai. Portanto, a proximidade vai além da geografia, se faz pelos hábitos, expressões e atitudes. Não gosto de chamá-los de “hermanos” simplesmente porque se transformou em lugar comum e uma de nossas tarefas no jornalismo tem de ser a pureza da língua e a limpeza do discurso. Portanto, lembrando brincadeira do colunista Ancelmo Gois, de O Globo, sempre que depara com o exagerado uso de expressões estrangeiras: “hermanos” é o c…..

 

Não gosto de “hermanos”, mas não tenho nada contra eles. Por isso, apesar de muitas vezes compartilhar das brincadeiras que os brasileiros costumam fazer todas as vezes que se referem aos argentinos, os admiro pela bravura, pela elegância no vestir (mesmo diante da crise econômica) e pela carne saborosíssima. Sendo assim, não haveria qualquer motivo para torcer contra a seleção comandada pelo técnico Alejandro Sabella nesse domingo na final contra a Alemanha, no Maracaña. Mesmo porque eles tem Messi, jogador que potencializou à sua genialidade síndrome apontada como uma forma branda de autismo, a de Asperger. Joga com rara qualidade e a cada partida nesta Copa parece melhorar a capacidade de extrapolar com seu sorriso sem jeito os limites emocionais que o transtorno o impõe. Vê-lo jogando é um privilégio. A Argentina, claro, tem Messi, mas também tem Mascherano, tem Zabaleta, tem Di Maria e tem uma torcida de causar inveja. Isso não quer dizer que torcerei para os argentinos.

 

Nascido de família meio italiana e meio alemã, lá no Rio Grande do Sul, escolhi o Jung como sobrenome para me acompanhar na vida profissional. Nem me pergunte porque abri mão do Ferretti que se parece muito mais com a minha personalidade. Mas sendo Jung teria motivos que chega para torcer pela Alemanha. Parentes, que devem viver nas colônias germânicas formadas no meu estado natal, certamente ficarão bastante satisfeitos com a vitória da equipe comandada por Joachim Löw. Se me faltassem motivos para torcer, a seleção ainda tem como maior destaque Thomas Müller, atacante que carrega o sobrenome da minha mãe, não bastasse jogar bola como poucos. Independentemente dessa familiaridade, o tetracampeonato da Alemanha teria um fator pedagógico para o futebol mundial devido a estrutura construída pelo país para chegar ao nível atual, desde a derrota para o Brasil, na Copa de 2002. Sim, na semifinal fomos vítimas de uma criatura que se reconstruiu a partir da lição que aprendeu ao perder para nós por dois a zero no Mundial do Japão e da Coreia. O governo alemão ajudou a reestruturar os times de futebol do país e os obrigou a adotar escolas na região em que atuam, nas quais professores foram capacitados a partir de conhecimento desenvolvido em cursos da Uefa, novos talentos foram identificados e submetidos a uma série de conhecimento técnico e tático e preparados física e psicologicamente. Para se ter ideia, Özil tinha 14, Müller 13, e Kross 12 anos, quando isso começou. O que vemos em campo não é resultado do acaso ou do improviso, como costume aqui no Brasil. O título alemão seria um incentivo a quem acredita em planejamento, trabalho, competência e, claro, muito talento. Isso não quer dizer que torcerei para os alemães.

 

Entre Argentina e Alemanha, no domingo, ainda escolho o Brasil, pois, como já escrevi neste blog, sou torcedor contumaz da nossa seleção.

Fora de Área: problema resolvido, já encontramos o culpado

 

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No meio das lágrimas e vergonha dos jogadores brasileiros, ainda dentro de campo, Luis Felipe Scolari bateu no peito e assumiu a responsabilidade pela goleada. O gesto foi reproduzido em palavras na entrevista coletiva logo após a partida e não esperava outra atitude do técnico que fez história no futebol brasileiro e não merecia levar para o currículo a tragédia que assistimos na semifinal da Copa do Mundo. Independentemente do comportamento dele, a Alemanha ainda não havia completado o estrago no currículo da nossa seleção e boa parte dos dedos já apontava para o técnico como o culpado pela perda da vaga à final diante de uma placar catastrófico. A despeito de termos alguns jogadores afastados do grupo depois do Mundial, pelo visto a responsabilidade vai recair sobre as costas largas de Felipão. Como é praxe no Brasil, tanto quanto estamos sempre em busca de heróis que salvem a pátria de todos os seus males, também somos prósperos em encontrarmos um Cristo para pagar nossos pecados. Felipão foi o condenado agora, assim como Barbosa, em 50, Ronaldo, em 98, e Dunga, em 2010, apenas para lembrar alguns desses nomes. Com isso nos livramos da necessidade de analisar mais profundamente nossas incompetências e, principalmente, de encarar mudanças estruturais que exigem coragem e troca de poder. Esse, para mim, é o ponto crucial no esporte brasileiro: encontrar pessoas com capacidade de reorganizar o desenvolvimento de talentos, investir em administrações profissionais e adaptar nossa formação tática às estratégias mais modernas.

 

Felipão pagou por não ser Felipão, treinador que nunca se incomodou com a crítica, entendia o tamanho de seu time, posicionava-o dentro dos limites de cada um de seus jogadores e sabia que à vitória se chega por caminhos muitas vezes tortuosos. Apostou na formação tática que vinha jogando até aquele momento, apenas substituindo nomes por suspensão ou lesão para enfrentar a Alemanha, quando poderia investir na presença de mais volantes e voltar a ouvir que é um retranqueiro e traía a forma de se jogar no Brasil, mas, talvez, sair com uma derrota menos escandalosa. Sim, porque o risco de uma vitória nossa frente ao poder alemão e as limitações brasileiras era pequeno apesar de possível, afinal sabemos que o futebol é das poucas modalidades em que forças diferentes podem se enfrentar e o mais fraco sair vitorioso. É baseado nessa verdade, por sinal, que sempre mantenho minha crença na conquista mesmo sabendo das dificuldades que vínhamos enfrentando. Sou um torcedor contumaz do meu time, da nossa seleção e de algumas personagens que aprendi admirar: Felipão é uma delas. Mais do que ser goleado na semifinal da forma como fomos, lamento por Luis Felipe Scolari ter sido escalado na função de culpado de todos nossos males. Seja porque é injusto com seu histórico e méritos seja porque servirá para mais uma vez não aprendermos com nossos erros e aproveitarmos essa derrota para fazermos as mudanças necessárias.

 

Fato consumado, e a espera de um milagre que nos faça sair com um mínimo de honra neste Mundial, vencendo a Holanda no sábado, em Brasília, fico com a impressão de que o Brasil é um país fadado a perder suas Copas em casa. Parece ser o preço que pagamos ao destino por sermos o maior campeão de todas as copas. E isto ninguém vai tirar da nossa história.

Que Barbosa agora descanse em paz

 

Diante da vitória acachapante da Alemanha e da forma surpreendente como o Brasil perdeu a vaga à final da Copa, tive dificuldade de encontrar inspiração para escrever a você, caro e raro leitor. Ainda bem que antes de tentar escrever qualquer coisa, recebi o texto abaixo, assinado pelo colega de blog Carlos Magno Gibrail. Aproveito a forma precisa, observadora e definitiva com que ele analisa o Mundial no Brasil, e antecipo a publicação do artigo enquanto ganho um tempo para me refazer do impacto da goleada desta terça-feira.

 


Por Carlos Magno Gibrail

 

Os números e os fatos têm demonstrado que estamos realizando uma COPA de sucesso. Tanto no aspecto técnico do futebol quanto nas condições operacionais. Dentre os principais quesitos, a COPA 14 ocupará posição de destaque na história do futebol. Apenas o número de público ficará em segundo lugar, em torno de 60mil espectadores por jogo. Nos Estados Unidos, a média foi de 70mil. Até mesmo o número de gols, que graças à contribuição brasileira dada aos alemães deverá ser o maior de todas as COPAs. Os demais aspectos também têm superado as previsões. A quantidade de sul-americanos que marcaram presença, o clima amistoso que foi dado aos turistas e sua reciprocidade, a postura simpática da maioria das seleções com a nossa cultura, e até mesmo fatos marcantes. Como a mordida celeste, a joelhada que gerou a mais séria contusão, e a goleada de sete que marca o Mineirão e desagrava o Maracanã.

 

Diante deste ambiente amigável, ficou evidente a preferência de consumo dos turistas por produtos e serviços típicos. Restaurantes a quilo, comidas da terra e a caipirinha se sobressaíram. Sem falar nos bairros com lifestyle que teve a Vila Madalena, em São Paulo, como um dos destaques. Ela foi literalmente invadida e consumida. Cerveja e caipirinha que o digam.

 

Do início até hoje o cenário real da COPA 14 evidenciou total reversão da expectativa. A COPA das COPAs.

 

A questão agora é saber se os três dias restantes de jogos continuarão dentro deste clima. Tudo indica que sim. Afinal, em matéria de COPA em casa evoluímos de um vexame de 2×1 ao desastre de 7×1. Com a seleção brasileira composta de jogadores e técnicos internacionalizados, suporte globalizado, todos ricos e famosos. Que Barbosa agora descanse em paz.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

Fora da Área: #SomosTodosNeymar #SóQueNão

Máscaras de Neymar estão sendo distribuídas pela internet em campanha de apoio ao atacante que teve, como ele próprio disse, o sonho de disputar a final da Copa do Mundo abortado pela violência com que foi atingido pelas costas. A ideia, lançada pelo Grupo ABC de comunicação, é que a torcida brasileira vá mascarada ao estádio repetindo manifestação que havia sido realizada quando Neymar estava no Santos, em jogo contra o Colo-Colo, pela Libertadores, em 2011. Se naquela época a inspiração era o Carnaval, desta vez é o drama que está vivendo o jogador. Agregado a campanha está a hashtag #SomosTodosNeymar que, não por acaso, segue a linha do #SomosTodosMacacos criado pela mesma agência quando Daniel Alves foi alvo de atos de racismo na Espanha. Do ponto de vista promocional e motivacional tudo é válido, afinal o baque com a fratura da terceira vértebra da lombar foi enorme, pois tira no momento mais decisivo o jogador em que o Brasil depositava total confiança. Torcedores e equipe sofrem com o acontecido. Sem contar o sofrimento pessoal de um jovem que dedica a vida ao futebol, é expurgado da primeira Copa, na África do Sul, por não ter experiência suficiente e, na segunda, é abatido pela agressão traiçoeira.

 

Agora, caro e raro leitor deste blog, sabemos todos que não é preciso ser nenhum especialista no tema para entendermos que #SomosTodosNeymar #SóQueNão (usufruindo de outra hashtag de sucesso no Twitter). Ou seja, por mais que Luis Felipe Scolari procure no seu grupo de jogadores e mesmo se pudesse buscar em outros elencos não encontrará alguém à altura do craque. Neymar tem o dom, como tiveram Pelé, Garrincha, Maradona, Messi, Zidane, Beckembauer e poucos outros que fizeram a história desse esporte mais rica e bonita. Ele nasceu para exercitar a arte do futebol e por isso foi capaz de marcar gols após a sequência inimaginável de dribles naquela vitória contra o Inter (3×1) ou na derrota para o Flamengo (5×4), ambos na Vila Belmiro, quando jogava com a camisa do Santos. Se transformou em um dos maiores jogadores do mundo com pouco mais de 20 anos e alcançou marcas que impressionam vestindo a camisa do Brasil. Atualmente é o sexto goleador da seleção com 35 gols marcados, quatro nesta Copa.

 

Scolari sabe que não tem ninguém com o mesmo talento de Neymar nem procura alguém semelhante. Pode usar William, Bernard ou quem sabe três volantes. Talvez peça para Oscar ocupar o espaço do nosso camisa 10. Só saberemos pouco antes do início do jogo, pois vai anunciar em cima da hora para não dar mais munição a seleção da Alemanha. No vestiário (e deve estar fazendo isto desde que foi comunicado da eliminação do seu goleador), porém, mobilizará a equipe com o discurso de que Neymar estará incorporado em cada um dos que entrarem em campo na esperança de que consigam doar 110% das suas capacidades. De que Oscar desabroche, Hulk chute a bola fora do alcance do goleiro e Fred, em pé ou deitado, desencante de vez. E, assim, transforme em realidade o que só existe até agora na versão virtual: #SomosTodosNeymar.

Fora da Área: Neymar abatido pelas costas faz parte de um roteiro épico

 

 

Terminei a sexta-feira assistindo, na tv à cabo, à 42 – A História de uma Lenda, que tem como personagem principal Jackie Robinson (Chadwick Boseman), primeiro jogador de beisebol negro a entrar na Major League, na década de 1940, recrutado pelo dono da equipe dos Dodgers, do Brooklyn. O executivo Brach Rickey (Harrison Ford) desafiou o racismo que manchava os Estados Unidos enquanto Robinson suportou as mais absurdas ofensas e agressões de torcedores, colegas e jogadores, demonstrando abnegação e talento. A atitude deles escreveu capítulo importante do combate à segregação e transformou Robinson em lenda atualmente representada pela sua camisa 42, número que foi aposentado pelo beisebol americano, em 1997, e é vestido por todos os jogadores no dia 15 de abril, data que ele estreou na liga “dos brancos”. Evidentemente que os roteiristas precisam se esforçar e adaptar as histórias à tela e ao tempo e nos apresentam um resumo de fatos marcantes, alguns reescritos para glamourizar a cena. Mas é inevitável que percebamos como o esporte por sua própria beleza e dramaticidade é protagonista de momentos fantásticos que, apesar de surgidos de forma espontânea, parecem terem sido previamente escritos por alguém disposto a criar um filme inesquecível.

 

Nestas três últimas semanas, temos sido espectadores da Copa do Mundo de futebol com suas histórias incríveis contadas ao vivo, sem roteiro prévio, e captadas por centenas de câmeras ultramodernas que registram lances, gestos, expressões e palavras por diferentes ângulos e reproduzidas à exaustão e lentidão suficientes para estender nosso sorriso e sofrimento até o próximo capítulo. O corpo de Neymar estendido no gramado quase ao fim da partida contra a Colômbia, vítima de agressão sofrida pelas costas, é uma dessas imagens que serão eternizadas e nos ajudarão a entender o fim do filme, feliz ou não. Fico imaginando que roteirista, se não a nossa própria vida, seria capaz de escrever aquele instante. O maior craque da seleção local, aquele em que o país que sedia a competição deposita sua esperança, abatido pelo adversário com um tiro certeiro, traiçoeiro, sem direito à defesa. Com o rosto esfregando de dor na grama, ele agoniza à frente de seu público e seu choro é compartilhado pela enorme arquibancada que a Nação se transformou desde que se iniciaram os jogos. A alegria que se desenhava com a classificação à semifinal ganha tons de cinza e a incerteza se torna unânime mesmo entre os mais otimistas. O que será de nós a partir de agora? O escritor conduz a plateia a imaginar o pior.

 

Desculpe-me se você, caro e raro leitor deste blog, está cético com nosso futuro nesta Copa. Eu tendo a enxergar em cada drama o ponto de virada da história, como se fizesse parte da estrutura mítica que os contadores usam para criar narrativas poderosas que impactam todos nós e nos levam a grudar os olhos nas páginas seguintes, ansiosos por descobrir o final, certo de que o autor está pronto para nos impressionar. Não acredito nos que pregam a derrota antecipada pela ausência de Neymar nas duas partidas finais deste Mundial. Os vejo como incapazes de compreender o enredo planejado pelo destino que nos quer campeão. Temos, porém, de provar que somos merecedores desta conquista e fortes para suportar o gol contra no início da história, o futebol mal jogado nas primeiras partidas e a bola que explodiu na trave no minuto final. Vamos forjando nossos ídolos: o goleiro que chora antes de se transformar em herói ou os zagueiros que desbravam o ataque para nos fazer vencer. Até o título precisaremos ainda encontrar aquele que vai substituir o insubstituível – talvez vestir a todos com o nome do craque ferido na camisa. E esperar pela redenção de muitos dos que ainda não estiveram a altura de seu nome. Dentre eles, o escritor haverá de escolher um para marcar o gol definitivo, que nos permitirá chorar diante da imagem do capitão levando a taça às mãos de Neymar, sentado em uma cadeira de rodas.

 

Insisto em acreditar que Luis Felipe Scolari saberá, como nenhum outro, escrever esta história para nós.

Fora da Área: e se o Brasil perder?

 

 

Ao fim do único jogo da Copa que assisti ao vivo, na Arena Corinthians, fui apresentado a Matthew Cruickshank, um dos responsáveis pelos desenhos que animam a página do Google, conhecidos por doodle. Ele nasceu em Londres, na Inglaterra, país pelo qual acabara de torcer sem muito sucesso, pois os ingleses haviam perdido para o Uruguai por 2 a 1, o que praticamente os eliminou do Mundial ainda na fase de grupos. A derrota não foi suficiente para tirar o bom humor de Matthew que começou nossa conversa dizendo que o ônibus em que estávamos sacudia tanto, devido aos buracos nas vias que deixam o estádio, em Itaquera, que ele pensou estar em São Francisco, cidade onde mora e sempre ameaçada por terremotos. Ele tinha outros motivos para estar satisfeito, a começar pelo fato de pela primeira vez a equipe de doodlers ter deixado a sede americana do Google para vivenciar o evento que inspira suas ilustrações. Em lugar de planejar com dois, três meses de antecedência os desenhos, o desafio imposto a eles foi criá-los com apenas duas, três horas baseado na experiência que estavam tendo no país da Copa. Por isso, Matthew está sempre em busca de ideias. Papo vai, papo vem, ele não se conteve e me perguntou: “e se o Brasil perder, o que eu desenho?”. Confesso que fui surpreendido, pois até aquele momento não havia me passado pela cabeça essa possibilidade. Desde que o Brasil se prepara para o Mundial, e me refiro aqui a nossa seleção, a meta é uma só: ser campeão. Meta não. Obrigação que o país se impôs. É como se o título de 2014 tivesse o poder de apagar da memória do mundo a derrota contra o Uruguai na final de 1950. O que considero uma bobagem, pois uma coisa não tem nada a ver com a outra e se não vencermos a vida segue amanhã, os filhos vão para a escola, você para o trabalho e os problemas a serem enfrentados serão os mesmos de ontem.

 

No início dos preparativos, a seleção teve resultados titubiantes, trocou o técnico quando dava sinais de recuperação, ganhou novo rumo e confiança. A vitória na Copa das Confederações fez aumentar o otimismo dos torcedores e da própria seleção. Lá se enxergou pela primeira vez que, mais do que uma obrigação, tínhamos chances reais de sermos campeões. Jogar em casa nos oferecia vantagem sobre os adversários que se somava a nossa própria história no futebol, marcada por grandes espetáculos e cinco títulos mundiais. Foi por isso que, antes dos jogos se iniciarem, Parreira disse – e me parece foi mal compreendido – que tínhamos uma mão na taça. E é por isso que temos assistido a cenas explícitas de emoção, tensão e pressão protagonizadas por nossos jogadores, sobre as quais já escrevi e defendi aqui neste Blog. Jamais pensamos no risco de sermos derrotados (houve até quem acreditasse que ganharíamos apenas porque a Copa já estava comprada, sem perceber a falta de lógica da tese).

 

As partidas da Copa, nosso desempenho abaixo do esperado e a decisão levada para os pênaltis contra o Chile mostraram que não somos imbatíveis. Para muitos, abalaram a confiança que tinham na equipe brasileira. Colocaram em nossa perspectiva o risco de mais uma decepção em casa, a possibilidade de perdermos o Mundial. Fez com que muitos de nós repetíssemos a indagação do recém-conhecido Matthew: “e se o Brasil perder?” Pois vou lhe dizer sem pestanejar que, para mim, todos esses acontecimentos até aqui apenas fortaleceram a ideia de que somos capazes de superar nossas próprias fraquezas e com humildade e perseverança nos tornarmos habilitados a disputar a final. Fred, o goleador sem gols, Thiago Silva, o capitão que sabe chorar, e Hulk, o atacante que nasceu para ser Cristo, são alguns dos muitos personagens que passam por um período de provação e assim são forjados para terem sua história enaltecida. Serão transformados em heróis, lembrados para o todo e sempre (até que dure). É nisso que acredito. Por tanto, caro Matthew, invista seu tempo imaginando como ilustrar a página do Google quando o Hexa chegar – até porque se o Brasil perder, melhor nem imaginar.

Fora da Área: a cara da nossa torcida na Copa 2014

 

A Copa das Selfies registrou nos 48 jogos da fase de grupos o envio de mais de 32 milhões de fotos, segundo informou Ethevaldo Siqueira, no quadro Mundo Digital, do Jornal da CBN. O SindiTeleBrasil, que reúne as empresas do setor, relatou que durante essas partidas foram feitas 2,5 milhões de ligações telefônicas e em torno de 31 milhões de conexões para envio de dados. A frente de todos esses números, estão milhões de torcedores que foram aos estádios ou curtiram a festa do futebol. Para ilustrar essas marcas, convidei ouvintes do Jornal da CBN a enviarem suas fotografias pelo Twitter @jornaldacbn. Consegui reunir 77 fotos, algumas de colegas nossos da rádio como você poderá ver no painel a seguir:

 

Fora da Área: quem chora por último chora campeão

 

 

Chorei muito na vida. Nas conquistas pessoais, nas vitórias de amigos e nas mortes, também. Nas arquibancadas do velho Olímpico Monumental chorei muitas derrotas. Os colegas mais próximos começavam a me preparar a medida que o jogo se aproximava do fim, pois sabiam que meu choro era inevitável diante da partida perdida. Quando fui para dentro do campo ou das quadras, chorei mais ainda. De alegria, mas principalmente de raiva por não alcançar os resultados que sonhava. Chorava ao ver injustiças acontecendo à minha frente. Às vezes o choro me levava ao descontrole e as lágrimas se transformavam em violência. Tinha de me conter. A maioria das vezes, ser contido. Ao deixar o esporte competitivo, voltei a chorar de emoção em especial nas vitórias de meu time do coração. O esporte, sempre o esporte a mexer comigo. O mais feliz de todos os choros foi na incrível conquista da Segunda Divisão, em 2005, quando o Grêmio foi protagonista da Batalha dos Aflitos. Naquele dia, levei os filhos a chorar, também. E não tive vergonha. Me orgulhei. Até hoje quando revejo o filme que conta essa epopeia, os olhos enchem de água. Encharco as vistas com muito mais facilidade do que se possa imaginar, às vezes com notícias que me tocam, favores que recebo ou me permitem oferecer.

 

Talvez é de tanto chorar que não me surpreende a reação dos jogadores brasileiros nesta Copa. A cantoria do hino à capela nos estádios tem tocado muitos deles. É nítida a tensão com que cada um está enfrentando a responsabilidade de disputar o Mundial dentro do Brasil. São todos muito jovens e forjam suas personalidades jogo a jogo. A reação de Julio Cesar antes de partir para seu maior desafio, a cobrança de pênaltis na decisão da vaga às quartas de final, contra o Chile, chegou a me assustar, pois transparecia insegurança. Descobrimos, após duas defesas, que era apenas agradecimento pelo destino lhe oferecer a oportunidade de reescrever a história na seleção. Os olhos marejados de Thiago Silva, o capitão, desde a primeira partida, poderiam embaçar sua liderança, mas a torna transparente e humana. Nada disso, porém, tem convencido muitos críticos e torcedores que se incomodam com os chorões da nossa seleção. Não é por acaso. Crescemos ouvindo que homem que é homem não chora. Meninos não choram (Boys Don’t Cry), é o que diz o refrão da música do The Cure, que conta a história de personagem que ri diante do sofrimento do amor perdido, “escondendo as lágrimas em meus olhos”.

 

Os meninos do Brasil não escondem as lágrimas de seus olhos. Não têm vergonha da sinceridade de suas lágrimas. E compartilham seu choro com toda a Nação. Que continuem a nos fazer chorar, também. Até a final desta Copa do Mundo, porque quem chora por último, chora campeão.

Fora da Área: com sofrimento, emoção e lágrimas ganhamos os que torcem pelo Brasil

 

 

Falei com o pai por telefone pouco antes de a partida começar. Assim como na minha, na casa dele também tem quem não torça pela seleção do Brasil. Sentimento que, confesso, não consigo entender especialmente em Copas do Mundo. Não que as pessoas tenham o dever de vibrar com as coisas do futebol, mas bem que poderiam ser solidárias aos milhões de brasileiros que buscam na bola o prazer do sorriso. Mas vamos deixar para lá tudo isso, afinal este texto é para comemorar a passagem do Brasil às quartas de final e o iniciei pela conversa que tive com meu pai porque ele havia me perguntado quem seria o maior torcedor da seleção aqui em casa. Respondi de bate-pronto que era eu, pois os meninos nunca tiveram esta ligação que tenho com o futebol e muitas vezes assistem às partidas de canto de olho, pois o grosso do olho está voltado para as acirradas disputas no League of Legend, jogo eletrônico com maior número de adeptos no mundo, no qual ambos são craques. Verdade que, nesta Copa, o interesse deles aumentou de forma considerável, provavelmente resultado do barulho que o Mundial provoca na internet e entre colegas na sala de aula. Saiba, porém, caro e raro leitor deste blog, que após ter visto o que vi durante a disputa de vaga contra o Chile vou ter de voltar a ligar para meu pai e corrigir a resposta.

 

Diante da televisão, a medida que o Brasil revelava-se incapaz de apresentar um desempenho a altura da nossa expectativa, meus dois guris, sentados, um no sofá e o outro no piso, sofriam como somente os torcedores de futebol sabem sofrer. Um esfregava as mãos no rosto insistentemente, enquanto o outro se agarrava nas almofada como tentando se proteger dos riscos de gols que surgiam a cada falha do nosso sistema defensivo. Um se calava, querendo entender por que o Brasil não era capaz de ficar com a bola em seus pés, enquanto o outro praguejava para se desfazer do nervosismo. Compartilhavam comentários sobre o sumiço de Neymar e a tentativa de drible de Neymar; o erro de Hulk e a tentativa de chute de Hulk; a ineficiência de Fred e a de Jô, também; o toque de bola do Chile, a velocidade do Chile. Pô, o Chile de novo!Que susto! Juntos reclamamos o gol anulado, a falta não marcada e o impedimento assinalado, mesmo sabendo que o juiz tinha razão. Torcemos pelo fim do jogo, pois temíamos o gol adversário. Ficamos satisfeito com o Brasil da prorrogação e com medo da decisão nos pênaltis. Que isso! Gritamos antes do silêncio que tomou conta da sala na bola que explodiu no travessão de Julio César no último minuto de jogo.

 

A vaga decidida nos pênaltis era novidade para eles em Copa do Mundo. Assisti de mãos dadas com o que estava mais próximo. Mãos que suavam frio. Que tapavam os olhos. Que se contraíam na cobrança chilena. Que se contorciam na cobrança brasileira. Que socavam o ar na comemoração de cada gol marcado e voltavam a se juntar por Júlio César. Angústia transformada em alegria na bola final que bateu no poste, e em pura emoção ao vermos as lágrimas do nosso goleiro que chorou copiosamente diante das câmeras, diante do Mundo – cena que me dá a certeza de que raras atividades permitem a dor e a redenção em praça pública como o futebol. E por isso sou um torcedor de futebol e fico ainda mais feliz em descobrir que meus filhos, também.