De troca de casca

 

Há três meses esperava por esta oportunidade: voltar a publicar os textos de Maria Lucia Solla no blog. Como você sabe, caro e raro leitor, este é um espaço aberto a colaboradores. Escrevem aqui amigos, colegas e ouvintes por vontade própria. Solla foi a primeira, lá em 2008, a enxergar no Blog oportunidade de conversar com as pessoas. Abriu a porteira para tantos outros que tiveram vontade de se expressar, alguns dos quais estão até hoje ao nosso lado. Ficamos muito felizes de tê-la de volta:

 

Por Maria Lucia Solla

 

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Olá,

 

faz tempo que não me traduzo em palavras.

 

São sensíveis, as palavras, como notas musicais. Se rebelam e se escondem quando mais precisamos delas.

 

E quando estamos confusos, então!, entram em cena na marcação errada, tropeçam umas nas outras e desafinam na tradução da nossa percepção da vida.

 

Quanto à minha percepção, anda tentando se entender com as palavras, para entrar em sintonia com elas. Tem dias que, de boa vontade, as duas chegam à mesa de negociação; mas se dispersam na boca miúda e não chegam a conclusão aceitável para lado nenhum. A percepção enlouquece e se descabela tentando um acordo. As palavras encasquetam e não cedem. Cansadas das surras que têm levado!

 

Manifestam-se.

 

Nada de novo no que digo. Somos do mesmo roteiro. Estamos vivos. Todos. Aqui.

 

Eu ‘troco de casca’ periodicamente. É uma trabalheira danada. Todos trocamos; nem todos se dão conta, mas se descascar e depois se acostumar com a nova casca é tarefa para ninguém botar defeito. É dor de parto. A gente chora, esperneia, emburra, mas é igual nascer de novo, cada vez. Para uma nova vida. Não é trajeto macio. Ao menos não tem sido, para este ser que vos fala, mas é o começo de um novo caminho, de novas conquistas, de mais gratidão e esperança.

 

O horror e desgraças que temos presenciado aqui lá e acolá, não nasce do aumento da abobrinha, do tomate, da insatisfação do trabalhador dos dois lados do balcão, do mosquito da dengue, da chuva ou da seca. Nasce da diminuição do respeito, da educação, do caráter, da – o que na minha época se chamava – formação do cidadão. Traduzindo para os dias de hoje, preparação para viver em sociedade.

 

Bem, é hora de acordar e mudar o foco. Cada um se expressando pelo seu melhor. Escolhendo o positivo, a gratidão, a generosidade. Os quatro elementos já deram o que parece ser o último aviso. A Água, a Terra, o Ar e o fogo. Pelo planeta inteiro.

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 

Obrigada a você “caro-e-raro-leitor”
Obrigada, Mílton Jung.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Escreve no Blog do Mílton Jung

15 comentários sobre “De troca de casca

  1. Oi Malu!!! Que beleza! Que trem bom! Ha tempos eu não visitava o blog. Hoje vim espiar a movimentação do histórico Grenal, mas acho que só mais tarde, na Avalanche. E qual não foi minha suspresa ao ver vc de volta!!! Que bom querida. Crescer dói né? É assim mesmo flor! “Como la cigarra”, lembra? Vc alegrou meu domingo. Bjo goiano. Eliza Ribeiro

      • Malu, às vezes qdo a gente está confusa as palavras somem é pra nos proteger. É o jeitinho que elas têm de retribuir o cuidado e o carinho com que vc as trata.

        Não deu né Milton? Que ruim. E você não tem como fugir das palavras.

  2. Olá, Elizabeth,

    e você alegrou o meu!

    Bom, muito bom, poder encontrar amigos n.
    É como recomeçar a andar.
    Sim, crescer dói, mas estou aprendendo que a dor não precisa ser sofrida, e que é possível viver contente – mesmo se chove e você queria sol – vivendo um dia de cada vez. A tarefa fica menos difícil.

    Beijo e boa semana,

  3. Mílton,

    obrigada pelas gentis boasvindas.

    Quero declarar que atesto sob juramento que escrevo por vontade própria! E que sinto muito prazer ao fazê-lo.
    Também preciso dizer, que eu não tinha nenhuma visão do blog, porque ele estava nascendo, mas tinha confiança em você, no teu trabalho, na tua integridade.

    Um prazer, estar de volta.

    Beijo,

  4. Ecdise – troca do exoesqueleto realizada pelos artrópodes, o pequeno animal só consegue crescer uma vez que se livra da velha casca, do velho tamanho.

    Para nós, o que muda? Se o crescimento é inevitável, qual é a composição da nova roupa? Podemos escolher ou elas tem a forma e o material digerido nos últimos alongamentos da consciência?

    Na inevitabilidade da evolução, perdemos a casca que achávamos ser a definitiva e as palavras usadas ficam penduradas no envoltório como o pregador da roupa que tiramos às pressas no varal.
    Escolher as próximas palavras que serão cravadas no novo envoltório pode levar tempo e não ser nada fácil.
    Mas você tem feito um bom trabalho!!

    • Bah, Bruno! Não tinha pensado no tamanho; só tinha pensado na forma e na expressão.

      O que não dá é pra ficar agarrado na velha casca, tipo ‘naná de nenê’.
      Desapego, desapego…

      Obrigada por estar comigo, aguentando a minha transição. Pelos papos sérios, pelas risadas, pela leveza.

      Beijo,

  5. malu minha linda !
    Quantas saudades de vc , e das suas palavras com tanta sabedoria e honestidade . Estou em falta e na falta … De você !!! Vivo trocando de casca tb e não fácil e a dor dessa troca e mais que a do parto … Damos a luz de novo a nós mesmos … E não paramos de nos reinveintar a cada segundo … Brincando de fingir que não percebemos … Te amo meu anjo

  6. Oi Malu!

    Que bom que voltou a escrever! Essa arte você também domina muito bem 🙂
    Sinto exatamente o mesmo todos os dias, sobre as palavras que “se rebelam e se escondem quando mais precisamos delas.” “E quando estamos confusos, então!”.
    Confusa é um estado de espírito permanente em mim, sou péssima em me expressar, admiro muito quem consegue e quem faz isso tão bonito, como você.
    Na minha confusão toda, acabo me esquecendo de coisas importantes, mas saiba que lembro de você nos intervalos de tranquilidade 🙂

    Espero que não deixe de fazer o que gosta,

    Um beijo

    • Bi, minha pequena linda,

      que palavras bonitas, as tuas!
      É bom saber que tem gente que sente como a gente. Vai minando a solidão.
      A gente percebe que tem uma galera, onde a gente achava que não tinha ninguém.

      Você extrai o melhor de mim.
      Beijo, minha sombrinha querida!

  7. Como disse meu filho, Paulo Renato César, “as palavras são espertas. Não cedem a qualquer um”. Fico feliz que elas estão se abrindo novamente pra você e nos brindando com seu talento. Feliz retorno. Beijo.

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