Laboratórios dão passos decisivos na batalha bilionária pela vacina da dengue

 

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A medida que cresce a preocupação da população brasileira com a dengue, assistimos à disputa de laboratórios públicos e privados no desenvolvimento de uma vacina para conter a doença e ganhar o mercado mundial. Somente nos últimos dois dias, soubemos que, no México, a Sanofi Pasteur foi autorizada a fabricar a primeira vacina contra dengue no Mundo, enquanto aqui no Brasil, o Instituto Butantan foi liberado a iniciar a terceira e última fase de testes do medicamento. A GlaxoSmithKline e a Fiocruz também já fizeram seus movimentos diante desta acirrada concorrência comercial.

 

A Sanofi Pasteur saiu na frente após ter investido mais de US$ 1,7 bilhão – R$ 6,8 bilhões – nas três fases de testes necessárias e na construção de uma fábrica exclusivamente para produzir a vacina, próximo de Lyon, no sul da França. A farmacêutica informa que terá capacidade de colocar no mercado cem milhões de doses por ano. Conforme informamos aqui no Blog, a persistirem os sintomas, a Anvisa, nossa agência reguladora, vai conceder o registro para os franceses em meados de janeiro e a estimativa é de que na metade de 2016 os primeiros brasileiros comecem a receber o medicamento.

 

Nesta sexta-feira, foi a vez do Instituto Butantan alardear o início da terceira fase de testes da sua vacina com o anúncio da liberação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Há alguns meses, o laboratório, subordinado ao Governo do Estado de São Paulo, reclamava agilidade por parte da Anvisa na análise do dossiê clínico que havia sido enviado este ano, sob o apelo da urgência do medicamento para conter o crescimento no número de pessoas infectadas e mortas ao contraírem o vírus da dengue. Frente à pressão, a agência informou, ao autorizar os testes nesta última etapa, que “a vacina da dengue é assunto prioritário”e a “avaliação foi realizada com a maior brevidade possível”.

 

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O Butantan já construiu uma unidade exclusiva para fabricar a vacina, dentro de sua sede na zona oeste de São Paulo, porém com capacidade inferior a do laboratório francês. A planta que estará produzindo o medicamento para os testes tem capacidade para colocar 500 mil doses por ano no mercado, porém há projeto executivo de uma fábrica que poderia chegar a 60 milhões de doses por ano. Agora serão investidos até R$ 270 milhões para a realização da última etapa que testará a vacina em até 17 mil pessoas, em 12 estados, com o objetivo de provar a eficácia do medicamento.

 

Por mais rápida que seja a resposta dos testes, a previsão é de que a vacina do Butantan chegue ao mercado apenas em 2017, quando a da Sanofi Pasteur já estaria sendo aplicada, inclusive no Brasil.

 

Já prevendo a disputa comercial que se estabelecerá, não surpreende que o governo paulista e os próprios dirigentes do Butantan tenham se apressado em divulgar, nesta sexta, que a vacina desenvolvida pelo instituto, se aprovada, poderá ser aplicada em apenas uma dose, enquanto a fabricada pelos franceses precisará de três doses para que os resultados sejam alcançados. Do ponto de vista da adesão ao tratamento isto faz uma baita diferença. Em relação ao custo, também. “A quantidade de vacina é cem vezes menor que a da Sanofi – o que implica que custa trezentas vezes menos”, estimou o bioquímico Isaias Raw, que fundou o Centro de Biotecnologia e foi diretor do Instituto, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, em maio deste ano.

 

O diretor do Instituto Butantan, doutor Jorge Kalil, ao ser perguntado pelos jornalistas, nesta sexta-feira, também não se fez de rogado: “a resposta (da vacina fabricada pelo Sanofir Pasteur) se mostrou menos eficaz que a vacina do Butantan, que tem o vírus da dengue atenuado. Foi aprovada no México apenas para algumas populações. Não foi aprovada para crianças, porque não se mostrou eficaz nelas”.

 

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No México, por enquanto, a autorização é para que a vacina contra a dengue, da Sanofir Pasteur, seja aplicada em pessoas de nove a 45 anos, que estejam em zonas endêmicas, o que excluiria as crianças de pouca idade, população considerada de maior risco, e os turistas. O grande trunfo nos resultados obtidos pelos franceses foi a redução de 60,8% no número de casos, em estudo que envolveu quase 21 mil crianças e adolescentes da América Latina e Caribe, a diminuição em 80% nos riscos de internação e a queda em 93% de possibilidades de desenvolvimento da dengue hemorrágica, o tipo mais grave da doença.

 

Analistas ouvidos pela Reuters, no ano passado, calculavam que a vacina da dengue poderia gerar até € 1 bilhão – cerca de R$ 4 bilhões – em vendas por ano, mesmo sem que o preço do medicamento ainda tenha sido decidido.

 

O interesse – científico e comercial- pela dengue se justifica: a Organização Mundial da Saúde – OMS estima que cerca de 400 milhões de pessoas são contagiadas a cada ano em mais de 128 países e perto de 40% da população corre o risco de contrair a doença, o que equivale a 3,9 bilhões de pessoas. No caso do Brasil, o interesse é ainda maior pelo fato de a doença ser endêmica e por aqui mais de 1,5 milhão de pessoas terem tido dengue e mais de 800 morrido em decorrência do vírus, só neste ano. Além disso, o governo federal tem dinheiro para comprar a vacina ao contrário de outros países onde a ocorrência da doença também é grande como a África.

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