Chacina de Manaus: procuram-se santos

 

 

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“Não havia nenhum santo lá dentro” disse-me de forma bem articulada o governador do Amazonas José Melo, em entrevista, ao vivo, no Jornal da CBN, na manhã de quarta-feira, três dias depois de 56 pessoas terem sido assassinadas dentro de um presídio, em Manaus. Frase que diz muito sobre como pensa o sistema penal no estado que administra.

 

Lá dentro, no caso o Complexo Penitenciário Anísio Jobim, na capital do Amazonas, onde “não havia santo” estavam, sim, 1.224 presos confinados em um espaço destinado a apenas 454, e divididos em ao menos duas grandes facções criminosas que dominam o local, ditam regras, vendem privilégios, criam “áreas vips” para seus chefes e comandam o tráfico de drogas que se desenvolve do lado de fora.

 

Aliás, o cenário lá de dentro é bastante conhecido aqui fora. As organizações criminosas, os motins, as rebeliões e os assassinatos estão e acontecem em vários dos presídios brasileiros. Hoje mesmo, o Portal G1 divulgou levantamento no qual foram registradas 392 mortes dentro das prisões, com o Estado do Ceará liderando a estatística: 50 assassinatos em um ano.

 

Consta que nenhum deles era santo.

 

No Amazonas, comandado por José Melo, enquanto 10 presos foram mortos em todo o ano passado, só no primeiro dia deste 2017 morreram 60 presos – além dos 56 do Compej, mais quatro foram mortos em rebeliões paralelas, ocorridas no Estado.

 

Apesar de se ter amplo conhecimento de tudo isso, e o próprio governo do Amazonas admitir que buscou reforçar a segurança pois tinha informações de que a cadeia iria explodir, permitiu-se que essa rede criminosa se fortalecesse. Pouco ou nada se fez para desarticulá-la, sequer controle rígido com ajuda de tecnologia foi implantando no complexo administrado em parceria público-privada com a empresa Umanizzare, que traduzido do italiano para o português significa humanizar.

 

Santa ironia!

 

Sobre o contrato assinado entre o Estado do Amazonas e a empresa, perguntei ao governador João Melo se havia a intenção de revê-lo ou cancelá-lo definitivamente. Ele me disse que até aquele momento nada havia a ser questionado, pois em seis anos era a primeira vez que o complexo enfrentava uma tragédia como essa (a palavra tragédia foi usada aqui por minha conta e risco).

 

Informações levantadas por vários veículos de comunicação e investigadas por instituições de controle do uso do dinheiro público, mostram até agora que o governador teria muitos outros motivos para questionar a atuação da Umanizzare, mesmo se nenhuma morte tivesse ocorrido lá dentro.

 

Diante das irregularidades identificadas, da inexistência de uma autoridade que assuma plenamente a responsabilidade pela Chacina de Manaus e da falta de medidas eficientes para desarticular o crime organizado, no fim das contas tem razão o governador ao dizer que não tem santo lá dentro.

 

Nem lá dentro, nem aqui fora!

3 comentários sobre “Chacina de Manaus: procuram-se santos

  1. Até quando nascerão crianças (anjos) pelo direito à vida e serão abandonadas, fadadas a serem demônios na sociedade? Nem mesmo tampam o sol com um mínimo de eficiência…O resultado dessa incompetência vemos todos os dias estampado no medo dos cidadãos de bem e na falta de medo dos cidadãos que não são santos.

  2. Repeito as dor dos familiares mas não tenho compaixão pelos penitenciários. Tenho pelos que estão abandonados na rua, pelas crianças em orfanatos, idosos sendo neglicenciados nos hospitais… pessoas que mesmo nas piores situações da vida não se deixem seduzir pela “vida fácil”.
    Acredito sim que os presos devem ser divididos pelo tipo de crime, não por facção. Isso, só alimentará mais o ódio e a viralidade, além de contaminar, ainda mais, os que cometeram crimes “leves”.

  3. A indiferença da sociedade pelo Sistema Prisional está muito bem representada na política do AM. Um chefe do executivo, que deveria aplicar com eficiência Políticas Públicas na seara penitenciária e entender tecnicamente do assunto, não passa de mais um ignorante que se deixa levar pelo senso comum e afirma, em outras palavras, que “bandido bom é bandido morto”. A sociedade realmente tem o que merece.

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