Brumadinho: subestimamos nosso poder de destruição

 

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Foto: Rodney Costa/Eleven/Agência O Globo publicada no site CBN.com.br

 

Os que já enfrentaram o risco de afogamento no mar sabemos o desespero que bate quando percebemos que não há como puxar o ar para os pulmões. No início, prendemos a respiração como reação de sobrevivência e tentamos nos orientar em busca da superfície. As ondas passam por nossa cabeça e a impressão é de que o caminho para o alto está bem mais distante. Apesar de estarmos a apenas alguns segundos enfrentando aquele situação, parece a eternidade. Se você como eu já tomou um caldo na praia, daqueles que deixa seu “GPS” sem norte, sabe quão ruim é a sensação. Nunca — ainda bem —- fui além desses segundos. De uma maneira ou outra encontrei a superfície, talvez porque estivesse muito mais raso do que pudesse imaginar. Os que estudam nossas reações dizem que ir além desses instante pode ser fatal. Ao desespero junta-se a ansiedade. A água escapa pela boca, chega a laringe. Parte vai para o estômago, outra para o pulmão. A troca gasosa deixa de funcionar. O oxigênio não entra e o gás carbônico não sai. Os efeitos começam a ser sentidos no cérebro. No pulmão, os alvéolos não suportam a pressão. Os glóbulos vermelhos são destruídos. O potássio se espalha. O corpo se contrai. O coração para. Morte.

 

Tenho imaginado essa cena desde que na tarde de sexta-feira recebi a primeira informação sobre o rompimento da barragem da mineradora Vale, em Brumadinho, Minas Gerais. A experiência que havíamos presenciado três anos antes em Mariana nos preparou para as imagens que assistiríamos em seguida. Uma onda de lama se formando e avançando sobre casas, lojas, hospedarias. Pessoas e famílias soterradas. Seres humanos que estavam vivenciando mais um dia de suas vidas, no trabalho, na prestação de serviços, nos afazeres domésticos, descansando, em um momento de lazer. O mar de rejeitos —- formado por restos de minério, sílica e derivados de amônia — provocou estrondos no caminho que percorria. Uns descreveram como um trem descarrilado; outros como se vários caminhões estivessem tombando — foi o que li na edição dominical de O Globo.

 

Na minha cabeça, a morte por afogamento se assemelhava a agonia enfrentada por aquelas mães e pais, filhos e filhas, avós e avôs, médicos e mineradores, caminhoneiros e cozinheiros — uma gente para quem só fomos apresentados agora através de reportagens que contam suas histórias de vida e logo serão números de uma estatística triste de descaso e irresponsabilidade. Nunca vai se saber ao certo o que cada um viu ou imaginou que estava ocorrendo. Se acreditaram que seriam capazes de sair do meio da lama, encontrar a superfície. É provável que a força e a velocidade da lama, em um movimento que se equivaleria ao tsunami, tenham causado impacto sobre as pessoas que estavam no seu caminho sem dar chance delas entenderem que a morte se aproximava. Sempre será uma incógnita como essas pessoas morreram — algumas  talvez jamais serão encontradas porque o corpo é sugado para debaixo da terra pela formação da lama.

 

O que sabemos é que morreram porque mais uma vez subestimamos nosso poder de destruição. O presidente da Vale, Fabio Schvartsman, disse nesse domingo que todas as ações de segurança recomendadas por especialistas reconhecidos internacionalmente foram realizadas: “100% dentro de todas as normas e não houve solução”. Para em seguida afirmar que “vamos criar um colchão de segurança bastante superior ao que tem hoje para garantir que nunca mais aconteça um negócio desse”.

 

Garantir? 

 

Que garantia é essa? 

 

Talvez a mesma garantia que ouvimos quando a Vale e sua parceira BHP foram responsáveis pela maior tragédia ambiental já registrada no mundo, que matou 19 pessoas e contaminou o Rio Doce, em Mariana, Minas Gerais, em novembro de 2015. Ou a garantia que nos deram logo após registrarmos a morte de 242 pessoas no incêndio da Boate Kiss, em  Santa Maria, no Rio Grande do Sul, que completou seis anos nesse sábado. Ou a garantia das autoridades de que a vistoria de prédios seria mais rigorosa no Rio de Janeiro, desde que 17 pessoas morreram na queda do edifício Liberdade — lembrada semana passada, em reportagem do Jornal da CBN, na data em que completou sete anos. 

 

Em Mariana e arredores, famílias ainda esperam suas casas serem reconstruídas, a indenização definitiva ainda não saiu e ninguém foi condenado pela tragédia. Em Santa Maria, familiares dos mortos e as vítimas que sobreviveram lamentam que não houve avanços por parte das autoridades responsáveis na luta por justiça e os réus ainda aguardam julgamento. No Rio, menos da metade dos 130 mil prédios que deveriam realizar a autovistoria predial a cada cinco anos estão em acordo com a lei. E as vítimas? Cada uma se vira como pode. Sem ajuda dos responsáveis pelo desabamento. Sem justiça.

 

Aliás, é a única garantia que realmente temos nesse país. De que independentemente da frequência com que as tragédias ocorram, de onde ocorram e por que ocorram, seremos vítimas de irresponsabilidade, de desrespeito e de injustiça.

7 comentários sobre “Brumadinho: subestimamos nosso poder de destruição

  1. Milton, de todo este cenário repugnante talvez possamos tirar o proveito do alerta.
    O aviso de que o ambiente não pode ser descuidado. E a flexibilização era a tendencia que o atual governo tendia a protagonizar.
    Vamos deixar de superficialidade politica e ignorante.
    Maturidade e responsabilidade social, devem ser prioridade.

    • Carlos magno, foi justamente o que pensei, por um lado, essa tristeza toda foi um cartão amarelo para os poderosos que já se imaginavam à vontade para agir/destruir o meio ambiente (do qual o homem faz parte e eles se esquecem).
      Se tentarem, espero que os apoiadores saiam do transe, se lembrem dessa tristeza imensa e não digam AMÉM.

  2. Volto ao Brasil e fico mais uma vez sem palavras. Até quando ou até onde irá nossa irresponsabilidade. Sim, é nossa afinal todos acabamos sendo coniventes com tudo que aconte em sociedade. Até quando?

  3. Milton,sou um engenheiro civil de sua geração, também de 63, e estou triste duplamente, triste como todos os brasileiros e quase em depressão pela minha profissão que nesta altura da vida já entrou em minha alma. A Vale cometeu crimes. Em um sistema estrutural, de barragem, onde o que de melhor se pode obter de um relatório de vistoria técnica é “baixo risco de rompimento”, portanto “com risco”, esta empresa instala uma vila administrativa na rota imediata de uma carga gigantesca de lama, no ponto que a energia cinética do rompimento ainda está com a lama em curva de carga, isto é um crime, sob ponte de vista da engenharia. Ter um reservatório de lama no topo de um morro, onde tudo que está abaixo e no caminho do vale, são propriedades de pequenos, de gente, de vida, e não se contingencia, não compra esta terra, não é criada nela uma área de segurança, que de fato é, não se aproveita toda esta área em risco para executar obras mitigatórias, como barragens sequenciais que diminuiriam a velocidade de escoamento e conteriam em partes o volume total reservado, que poderia ser todo re-contido por estas barragens sequenciais, antes de atingir qualquer curso d’água é outro crime. A diretoria da Vale é formada por nove executivos, oito de mercado e finanças, incluindo o presidente, tendo dois de mineração, mas com perfis de negócios e mercados, e uma de RH, com o termos segurança em sua grade de responsabilidade, mas não sendo da área, não cumpre mesmo. Isto é uma diretoria criminosa, que reúnem-se a cada 15 dias (segundo site da Vale) e não tem na mesa ninguém que poderia ser a voz da operação, todos os engenheiros e técnicos operacionais, devem ser e estar como auxiliares, portanto uma empresa que é de alto impacto e risco e engenharia e infra-estrutura, é dirigida por mercado e finanças, e isto é criminoso. A muito a engenharia perdeu força para economistas, administradores, mercadistas de Harvard e afins, e a responsabilidade da natureza da operação da Vale teria que dar voz e peso a outro tipo de profissional, o que é comprometido com a responsabilidade operacional, e que conhece a abrangência de acoes e decisões, e está comprometido com a segurança e a vida.

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