Conte Sua História de São Paulo 465 anos: a turminha do córrego do Sapateiro

 


Por João Batista de Paula
Ouvinte da CBN

 

 

No Itaim Bibi nos tempos da zagaia.
 

 

O tempo de todos nós, meninos e meninas do bairro do Itaim Bibi, dos anos 1940 a 1950. Era a nossa infância e parte de nossa juventude — saudades desse tempo que ainda não tínhamos saudades. Não sei nada, mas sei que quando o encanto é para ser, será; e não há quem possa separar.
 

 

Nos tempo das ruas de terra batida — quando chovia o barro com o sol virava  torrão, o torrão virava pó, o pó virava lama, com as águas, o córrego do Sapateiro se agigantava, a ponte balançava, as árvores tremiam e se batiam com os ventos fortes; a molecada corria e brincava de guerra de barro. As casas eram conhecidas, os portões abertos sem chaves e sem grades, os cães ladravam e vigiavam tudo,
 

 

As brincadeiras mudavam quando chovia e fazia frio: agora era de pega-pega, a vareta foi Boca de Forno; com o frio as meninas quase não apareciam na rua; os meninos tinham seus cavalos de cabo de vassoura, trotavam aos gritos em alta velocidade brandindo suas espadas contra inimigos imaginários. Quando o tempo melhorava as meninas brincavam de passa anel ou de barra manteiga e pular corda. Outras se imaginavam donas de casa, montavam suas casinhas nas calçadas de terra e ali sonhavam e formavam suas famílias. Os mais pequenos eram os filhos, o marido era sempre os mais calmos ou imaginário, o diálogo e os afazeres elas aprendiam com as mães.

 

As ruas não eram iluminadas nas noites mais escuras e os meninos tinham lanternas a lenha: era uma lata de óleo com uma abertura na parte baixa em forma de pirâmide e uma alça de arame de meio metro, pouco mais ou pouco menos. Colocávamos lenha e fogo e girávamos com a alça, era bacana quando cinco ou seis lanternas estavam em ação na rua escura, nas noites escuras.
 

 

Nossa turminha vivia em torno do córrego do Sapateiro. Entre a Rua Mário de Castro, hoje Fernandes de Abreu, rua 17, atual Ramos Batista, Rua Piqueta, Rua Heloísa — a mesma onde os caminhões que carregavam areia das descobertas subiam e encalhavam nos buracos, e derrapavam no tijuco preto, para a alegria da molecada que tinham um refrão, que era repetido sempre. Era assim: “galinha preta, galinha preta”ou “catiça-catiça-catiça” — isso repetido continuadamente era a fúria dos choferes e barqueiros que vinham em socorro dos caminhões encalhados. Hoje, ali é a famosa e fabulosa Av. Juscelino Kubistchek de Oliveira. 
 

 

Nesse pequeno apanhado, contei mentalmente mais de 40 meninos e meninas. Não sei por onde andam todos, fomos crescendo mudando de bairro, casando e nos distanciando um dos outros. Da minha parte posso afirmar que todos vocês estão em minha mente, no mesmo lugar de sempre, na rua brincando de tudo. Se notarem algum erro fica por conta dos meus 85 anos.

 

João Batista de Paula é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br.

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