Conte Sua História de São Paulo: Cambuci, o bairro onde nunca morei

 

Por Julio Araujo
Ouvinte da CBN

 

Minha relação com o Cambuci vem desde os meus avós que habitaram no bairro entre 1915 e 1948. Minha avó nasceu e foi criada no bairro num tempo em que a cidade de São Paulo era bem provinciana, há mais de 100 anos. Meu avô, de origem italiana, argentino de nascimento, foi sempre ligado ao comércio, teve caminhão de frutas, também foi “chofer de praça” num ponto do Largo do Cambuci. Foi também sócio de um mercadinho na Avenida Lins de Vasconcelos, no coração do bairro.

 

No Cambuci também nasceu, em 1925, minha mãe, na Rua Gama Cerqueira. Foi criada no bairro e só saiu quando se casou. Ela sempre contava histórias de lá, dos carnavais passados, da vida dura. Morou com a família também em outras ruas, sempre pagando aluguel.

 

Nos anos 1920, o bairro já era bem desenvolvido, devido à sua localização próxima ao centro da cidade.

 

Na década de 1950 apresentava características de bairro aristocrático, com ótima infraestrutura, ruas asfaltadas e muitas ainda com paralelepípedos. Havia a linha do bonde para o centro da cidade.

 

A minha primeira lembrança do bairro remete quando tinha 6 ou 7 anos. Era 1957, meu avô era sócio num mercadinho da Lins de Vasconcelos, próximo à Aclimação. Minha mãe me levava para visitá-lo e lá ele servia sanduíche e guaraná sem gelo. Durante muito tempo me intrigou o porquê de aquele refrigerante ter um gosto tão diferente. E a culpa era do fato de não estar gelado!

 

Quanto eu completei 11 anos, eu ia ajudá-lo no mercadinho e pude conhecer toda a redondeza, pois realizava entregas em domicílio. Eu percorria a Avenida Lacerda Franco, a própria Lins de Vasconcelos e as travessas do entorno. Numa dessas andanças, pela primeira vez entrei num prédio de apartamentos, o Edifício Ligia Maria. Fiquei assustado ao ver as pessoas morarem tão apertadas, aquelas unidades uma colada na outra. Eu fazia a entrega e ia embora.

 

Sempre ouvi que o primeiro mercado com sistema de auto-serviço foi no Cambuci: o Peg Pag. Havia também o cine Riviera, onde hoje está a igreja Renascer. Lembro da Copa de 1962, o jogo Brasil x Espanha transmitido no rádio da Auto Escola Lins, que ficava ao lado do mercadinho, com a transmissão do locutor Pedro Luiz.

 

O jogo estava muito nervoso, Espanha ganhava de 1 a 0, parecia o fim. Eu bem moleque também sofria, mas acho que mais por causa de ver os adultos sofrerem tanto. Eles suavam, embora fizesse um frio tremendo naquele dia. Veio o segundo tempo e “Gooool de Amarildo!!”, o Brasil empatava. Que alívio! Eu olhava pros adultos e contemplava a felicidade deles. Depois veio o segundo gol. Virada! Brasil ia pra finais da Copa do Chile.

 

E todos foram pro mercadinho comemorar, beberam, comeram traziam noticiais de que a TV Record iria exibir o videotape no outro dia. Meu avô não se entusiasmava tanto, afinal ele era argentino. Enfim, todos estavam muito felizes. A Avenida Lins foi tomada à noite pelos moradores, era o mês de junho, também o mês das festas juninas.

 

Passou o tempo, me afastei do Cambuci, eu já estava na idade militar com medo de servir o Exército, em plena ditadura, e ir pra Quitaúna, ou Barueri, que eram quartéis longe à beça. Inventei de tudo pra não servir. Nada funcionou. Estava chegando o momento. No derradeiro dia, o praça que chamava os convocados já havia dito onde serviriam e muitos deles foram para longe. Chegou minha vez, ele olhou pra mim e riu ironicamente, finalmente disse: “sossegado hein?!” Pensei, estou livre. Mas ele continuou: “você vai servir no Batalhão de Saúde… no Cambuci.. só tem sossegado lá!

 

Puxa! Eu não queria servir de jeito algum, mas era no Cambuci, nos fundos do Hospital Militar. Tudo de bom. Perto de casa. Depois que eu estava lá dentro o mesmo soldado era praça velha cumprindo o período de núcleo-base
Fiquei no quartel um ano num período do auge da ditadura militar, em 1969.

 

Incorporei no dia 16 de maio. O quartel já havia passado por uma invasão com roubo de armas do corpo da guarda do hospital um ano antes. Foi um período em que, apesar das dificuldades decorrentes das constantes prontidões e do clima político tenso, eu me reencontrei com o bairro, o que me deixava muito contente.

 

No carnaval de 1970, eu estava de serviço e na quarta-feira de cinzas saí com outros soldados para ver o término dos desfiles no Anhangabaú. Ficamos bem próximos dos componentes da última escola a desfilar. O nome: Império do Cambuci. Muitas coincidências.

 

Em 1970, dei baixa do Exército e aí começou a dificuldade para encontrar emprego, eu havia parado de estudar no segundo ano colegial. Eu não sabia muito o que queria. Trabalhei um ano numa gráfica na Vila Prudente, mas não parava em emprego algum. Até que em 1972 encontrei no jornal dois anúncios para atuar em escritórios. Um era na Votorantim, no escritório da Praça Ramos de Azevedo e o outro era… adivinha onde? No Cambuci, na empresa Lastri Indústria Gráfica, que ficava na rua Independência.

 

Novamente o Cambuci entrava na minha vida. No teste na Votorantin nada deu certo, eu só pensava em terminar logo e ir para o Lastri, —sim com “o” como os gráficos diziam, embora a nova geração pronunciasse a Lastri. No Lastri fui muito bem e me contrataram.

 

O bairro também se caracterizava pelo grande número de indústrias gráficas existentes, as maiores do estado e, como o Lastri, que não existe mais, do Brasil.

 

Passou o tempo, o Cambuci envelheceu, as famílias tradicionais mudaram de lá. Muitas foram para bairros mais recentes que se formaram, como a minha família. Na década de 1990 conheci o restaurante do cantor da jovem guarda, o Ed Carlos, com o nome de Ed Carnes, na Rua Theodureto Souto, que até hoje se encontra no mesmo local. Um local muito agradável e aconchegante.

 

Vejo que atualmente o bairro está se modernizando e voltando aos poucos a ganhar importância.

 

Enfim, muita coisa ocorreu na minha vida envolvendo o bairro do Cambuci e queria um dia relatar. Por isso tenho um sentimento muito grande pelo bairro.

 

Ahh! apesar do bairro fazer parte da minha vida, nunca morei por lá e nasci na Vila Monumento. Morar não morei, mas meu coração sempre terá um lugar para o Cambuci.

 

Julio Araujo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Participe desta homenagem a nossa cidade: envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br

2 comentários sobre “Conte Sua História de São Paulo: Cambuci, o bairro onde nunca morei

  1. Caro Sr.Julio, simplesmente uma pérola a sua narrativa,a comeeçar pelo título fiiel e criativo.
    Nascido no interior de São Paulo,aqui estou desde 1965.Moro no Cambuci há mai de 25 anos.
    Imagine o presente que deu com este texto tão bem explicitado, transparente e verdadeiro.
    Parabéns! Deus lhe pague!
    Poeta Alceu Sebastião Costa..:

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