Avalanche Tricolor: torcer em família

 

 

 

São Paulo 0x0 Grêmio
Campeonato Brasileiro —- Morumbi, São Paulo/SP

 

 

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A alegria de torcer em família, em foto de Paulo Pinto do Foto Públicas

 

 

De mãos dadas com o pai, o guri chegou vestindo a camisa do Grêmio feliz da vida as arquibancadas reservadas a torcida adversária no Morumbi. O sol forte que ardia na pele, na manhã de sábado, fazia brilhar ainda mais os olhos dele, que se movimentavam com rapidez de um lado para o outro como se quisessem captar todas as imagens que compunham aquele cenário mágico que é o campo de futebol. Mal prestou atenção quando o pai o apresentou a mim como “um gremista nascido em São Paulo”. Por respeito, aceitou tirar uma foto ao meu lado. Mas o que queria mesmo era ver o Grêmio no gramado.

 

 

A satisfação do pai também era enorme aquela altura. Sabemos como é difícil criar essa gurizada em terra distante do nosso time do coração. Lá no Rio Grande do Sul, você já nasce predestinado a seguir o time do pai. Ou torce pelo time dele ou pelo arquirrival — o que exige algum atrevimento e muito desprendimento. Quando os criamos fora do Estado, os riscos de termos um desgarrado é enorme, especialmente em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais em que os grandes clubes estão sempre em destaque no noticiário e disputando títulos. Sem contar a tentação em torcer pelos times milionários do exterior.

 

 

Aqui em casa, com dois paulistanos expostos as múltiplas tentações, me esforcei para impedir dissidências. Já contei ao caro e raro leitor desta Avalanche como a batalha de todos os Aflitos, em 2005, foi determinante para o rumo que os meus dois guris tomariam. Tivemos poucas oportunidades de assistirmos juntos ao Grêmio nos estádios de futebol. Mas sempre fiz questão de tratar esses momentos com cerimônia. Houve partidas marcantes, como a despedida do Olímpico Monumental, o primeiro jogo na Arena ao lado do avô ou as finais do Mundial em 2017.

 

 

A última vez que assistimos a um jogo juntos e com a presença da mãe ao lado —- ou seja, família completa —- havia sido em 2001. Por coincidência no próprio Morumbi. Valia vaga à semi-final da Copa do Brasil. O Grêmio já havia vencido por 2 a 1 em casa. Por essas inconsequências do calendário, a partida foi marcada para quarta-feira à tarde, em pleno dia útil. Com a possibilidade de termos pouco movimento de torcida, me arrisquei a levar os guris que estavam com apenas dois e cinco anos, e pudemos experimentar um jogo incrível com sete gols, duas viradas de placar, vitória do Grêmio por 4 a 3 e classificação à fase seguinte.

 

 

Para constar: naquele ano, 2001, fomos campeões da Copa do Brasil.

 

 

Nesse sábado, estivemos de volta ao Morumbi. Eu, eles e a mãe a tiracolo. Justiça seja feita, ela já encarou algumas poucas e boas sozinha ao meu lado, como assistir a um jogo do Grêmio em uma noite de sábado e Dia dos Namorados. É muito amor, né?!? Havia muitas outras famílias reunidas, além da minha e a do pai e filho que inspiraram os primeiros parágrafos desta Avalanche. Uma delas se apresentou a mim, também. “Somos primos”, disse o porta-voz dos Jung de Passo Fundo. Sim, encontramos um parentesco em meio a felicidade de estarmos reunidos torcendo pelo Grêmio. Não sei se todos os Jung são gremistas, mas não conheci até hoje nenhum que não fosse.

 

 

Os Jung e as demais famílias gremistas, aproveitávamos as facilidades que uma partida de sábado pela manhã, em São Paulo, proporciona, mesmo com as dificuldades para se obter ingresso, as limitações impostas pela falta de segurança e o desconforto de ficarmos expostos no espaço menos nobre do estádio — já contados neste blog.

 

 

Todos queríamos ver o Grêmio jogar e não nos importávamos de estar diante de uma equipe alternativa, já que o Campeonato Brasileiro não é nossa prioridade. Nos contentávamos em estar em família, comungando nossa paixão com quem amamos. E assim comemoramos as defesas de Júlio César e os desarmes de David Braz, tanto quanto as tentativas de dribles de Luan e Tardelli.

 

 

Agradecemos a Renato que nos permitiu assistir a Everton em campo — o craque que parece vai ficar entre nós por mais algum tempo. Raras são as equipes brasileiras com capacidade de ter no elenco um craque que é reverenciado por todos os demais torcedores brasileiros, fato alcançado por nosso atacante depois do desempenho como titular da seleção brasileira na Copa América.

 

 

Aliás, que privilégio tiveram os mais de 40 mil torcedores que foram ao Morumbi nesse sábado. Se de um lado tínhamos Everton, o craque da final da Copa América, de outro havia Daniel Alves, o craque da Copa América.

 

 

De nosso lado, olhávamos com o merecido respeito toda vez que o agora meio-campista adversário pegava na bola e ensaiava alguma jogada — na maior parte das vezes não correspondida por seus companheiros de equipe. E vibrávamos assim que a bola era passada a Everton. Aplaudíamos a maneira como corria pela lateral do campo, a forma como cortava para dentro em busca do gol e os dribles que acumulava sobre seus marcadores.

 

 

O que foi aquele sequência de dribles em direção a área no segundo tempo? Lembrou o lance que nos levou ao gol da vitória na Libertadores dias atrás. Desta vez só não completou a jogada porque foi derrubado por um zagueiro, que o árbitro jura ter agido dentro da lei. Nós, como bons torcedores, lógico, reclamamos a injustiça cometida.

 

 

Ao contrário daquele jogo de 2001 que assisti com a família no Morumbi, nesse ninguém conseguiu marcar um só gol. Pela reação final das torcidas, a impressão que ficou é que a nossa saiu do estádio mais satisfeita do que a deles. Até porque nós já estávamos suficientemente felizes em compartilharmos aqueles 90 e tantos minutos de futebol em família — a família gremista.

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