Conte Sua História de São Paulo 466: as tribos e índios que cercaram minha infância, no Planalto Paulista

 

Maria Ângela Silveira de Souza
Ouvinte da CBN

 

 

Tribos, índios e objetos indígenas cercaram minha infância. Não, não sou filhos de índios, mas o bairro onde morei dos três aos 11 anos, o Planalto Paulista, emprestou dos povos nativos diversos nomes para batizar suas ruas. Aratãs, Guainumbis, Itacira, Piassanguaba e Quinimuras são alguns dos que povoaram meu mundo. Meus vizinhos eram o Ibirapuera e Moema.

 

Minha taba … minha casa era cercada por ladeiras, que me viram passar e crescer entre os anos de 1950 e 1960. Quando mudei para lá, minha rua e outras como a Av Indianópolis eram de terra, e ela foi a matéria-prima para as minhas brincadeiras. Do barro, fazia as comidinhas para as bonecas. Na terra mais seca, caprichava nos buraquinhos feitos com tampinha de garrafa para jogar bolinha de gude. Empinar papagaio era minha alegria. Eu mesma construía meu pássaro com papel de seda, varetas, cola de farinha e linha de costura. Tudo comprado no armazém do bairro, que vendia também balas, maria-mole, arroz, óleo, caderno e um mundinho de coisas práticas.

 

Vi as ruas serem asfaltadas e logo ganhei minha primeira bicicleta. Uma Monark vermelha com cano para meninas. A sensação era de que havia ganhado o mundo. Pedalava ladeira abaixo, sozinha, feliz pela liberdade inocente e gostosa. às vezes exagerava. E o farmacêutico do bairro é que cuidava dos curativos.

 

Com o aeroporto de Congonhas, meu pai me levava para ver as aeronaves de perto e tomar um lanche. Me encantavam os passageiros muito bem vestidos e chiques. Em 1963, um avião caiu perto de casa. Dos 50 a bordo, 13 sobreviveram. Nunca mais esqueci o nome de um deles: Renato Consorte, conhecido comediante da época — que, hoje, é até nome de rua.

 

A avenida Paulista faz parte da minha vida —- quase uma extensão de casa. Vi o antigo Cine Astor, no Conjunto Nacional, se transformar na Livraria Cultura. Presenciei o incêndio no Center 3, em 1987. Em meados de 1990, mãe, frequentei o Parque Trianon com minha filha, e gostávamos de ver um bicho-preguiça que ficava na árvore. Nunca mais apareceu.

 

As mudanças na cidade eram visíveis e dava para acompanhar o que nascia e o que morria. Agora, a velocidade com que tudo acontece não dá tempo para expectativas e a mais paulista das avenidas mostra uma nova cara a cada dia. Deixou de lado a sisudez de terno, gravata e tailleurs e abriu os braços para todas as tribos
 

 


Maria Ângela Silveira de Souza é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br.

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