O Natal no Morro da TV

Vista de Porto Alegre no Morro da TV (arquivo)

A história de Natal que vou contar, o caro e raro leitor de boa memória deste blog haverá de lembrar. Em um e outro texto, já rabisquei algumas reminiscências natalinas em família lá na minha casa de Porto Alegre —- trato-a como minha porque no bairro do Menino Deus morei desde os primeiros anos de vida até o dia em que embarquei para São Paulo e mesmo que isso tenha ocorrido no século passado, e algumas mudanças tenha sofrido, as paredes, o piso, o telhado ainda estão tomados por minhas memória afetivas.

Tão tradicional quanto a Missa do Galo à meia-noite era o ritual em família a espera do Papai Noel, no dia 24 de Dezembro. Enquanto fomos crianças, mantivemos a cerimônia que se iniciava no meio da tarde com um rigoroso banho de chuveiro sob a supervisão da mãe: “esfrega atrás da orelha”, “ensaboa a cabeça”, “não esquece de secar bem os dedos do pé”. Roupa nova e cabelos penteados, meu irmão, minha irmã e eu corríamos para o carro em que o pai nos levaria para passear. O destino sempre foi o mesmo: o Morro da TV, a poucos minutos de casa.

Por mais curta que fosse a viagem, a ansiedade nos acompanhava até o alto daquele morro. Nem tanto pelo belo visual que tínhamos disponível, com boa parte da orla do Guaíba no horizonte; ao fundo a chaminé do Gasômetro, ainda sem o restauro que lhe transformou em ponto turístico; e os prédios que marcavam a geografia do centro da cidade. Sabíamos que a saidinha era estratégica. Seria em tempo suficiente para o Papai Noel chegar e deixar os presentes embaixo da árvore —- se ficássemos em casa haveria o risco de flagrarmos o bom velhinho e quebraríamos a magia que ainda inundava nossas mentes.

Naquela época, não éramos apenas nós que subíamos o Morro. Outras crianças podiam ser encontradas lá em cima, sempre acompanhadas de perto pelos pais. As mães … bem, as mães curiosamente não apareciam. Deviam ter o mesmo problema que a minha que alegava compromissos de última hora para não nos acompanhar no passeio: aprontar os pratos da ceia, era o mais comum; outras vezes era a necessidade de dar os últimos retoques na limpeza da casa. As mães realmente faziam muitas coisas. Tinham tantos afazeres que nunca percebiam a passagem do Papai Noel.  Ele entrava, deixada os presentes, dava no pé e elas juravam que não tinham sequer ouvido algum barulho: — Bah, Mãe! Ano que vem vê se presta atenção!

Assim que voltávamos, já era possível ver o colorido das luzinhas da árvore de Natal refletindo no vidro da porta.  Mal a mãe nos recebia, subíamos correndo a escada sem dar bola para o alerta do pai: cuidado para não cair. Cair? Nós nos jogávamos no chão para identificarmos os nossos nomes nas caixas de presente espalhadas entorno da árvore. Pelo tamanho e formato tentávamos descobrir o que havia dentro. O cheiro dos pratos no fogão e o som com as músicas natalinas gravadas em uma fita K-7 preenchiam o ambiente, enquanto desembrulhávamos os pacotes. Tão excitante quanto saber a surpresa que nos havia sido reservada, era ver o que os irmãos tinham recebido —- os da minha irmã mais velha nem podia tocar; os do meu irmão mais moço, eram nossos.

Hoje não tem mais o pai nem a mãe. Também não sou mais o guri de calça curta daquele tempo. O Morro da TV foi tomado por facções criminosas e as famílias não são bem-vindas. Nem de casa podemos sair, sob o risco da contaminação. A despeito de transformações e restrições, persisto na ideia de acreditar que o Natal se faz presente todo o ano para nos lembrar que podemos sempre renascer, reinventar nossos caminho, reforçar nossas amizades, rever nossos comportamentos e nos renovarmos diante de Deus.

 Feliz Natal!

2 comentários sobre “O Natal no Morro da TV

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