A pandemia não é mais uma condição recente, no entanto, a impressão que temos é que a cada semana os fatos se renovam, infelizmente, sem trazer alívio ou contento. Atitudes desgovernadas, baixa adesão da população aos meios de distanciamento social, números que selam um momento muito doloroso. Diante desse cenário, torna-se difícil, por mais otimistas e esperançosos que sejamos, conseguirmos manter as emoções sempre positivas.Mas deveria ser assim?
Num mundo que se acostumou a buscar soluções imediatas e simplistas para lidar com as dificuldades da vida e a estampar nas diversas fotos que alimentam as redes sociais um excesso de felicidade, sentir tristeza, raiva ou solidão parecem ultrajantes.
Robert Leahy, um dos maiores estudiosos em Terapia Cognitiva, alerta para a busca pelo perfeccionismo emocional. Para o autor, há uma crença – errônea – de que as emoções devem ser boas, felizes e descomplicadas. Isso nos torna incapazes de tolerar a tristeza, a frustração e outros sentimentos desagradáveis, desconsiderando que justamente esse leque de emoções é que nos permitiu a adaptação aos riscos e às demandas da vida em um mundo repleto de escassez e perigo, como aquele vivenciado por nossos ancestrais pré-históricos.
O distanciamento das emoções dolorosas se assemelha a uma ingenuidade emocional, capacitando a negação da realidade, e restringindo, portanto, nossas decisões voltadas para a solução dos problemas atuais de maneira realista e produtiva.
Essa supressão dos sentimentos e a cobrança por atitudes constantemente positivas têm sido apontadas como “positividade tóxica”, termo cunhado a fim de nos alertar sobre os riscos da invalidação de sentimentos, próprios ou de terceiros, através de frases como: “good vibes only” (em tradução literal, boas vibrações apenas).
Na contramão do benefício, atitudes como essa, em geral, aumentam a percepção de inadequação, gerando culpa e vergonha pelos sentimentos experimentados.
Não falo sobre cultivar os sentimentos que são desagradáveis, mas sobre vivenciá-los integralmente, compreendendo que fazem parte da existência humana.
Nada dura para sempre. Nem as situações nem as emoções. Que saibamos viver nossas dores, com respeito e compaixão, e que isso nos permita o crescimento e a construção de dias melhores, para que também possamos vivenciar plenamente os momentos de gratidão e de felicidade.
Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung
Foi no 10 de outubro de 1954 que nasci em uma maternidade na Lapa, de um casal apaixonado, unidos pelo destino, —- um do interior do estado e outro de Santa Catarina. Primogênita de seis lembro-me de ouvir falar na Rua Major Sertório, que deve ter sido um lugar importante para meus pais. Após a segunda filha, meu pai nos levou a todos para Piracicaba.
Voltamos à capital em uma desesperada necessidade. São Paulo acolheu algumas das minhas irmãs, quando minha mãe se viu obrigada a nos deixar sob os cuidados de uma parente, abençoada, da Congregação das Irmãs Paulinas, hoje Santa Paulina, na Av. Nazareth. Uma foi para creche no Jabaquara. Eu fui para Ourinhos, com dois anos e meio; e outra para Avaré. Crescemos todas fortes e voltamos para Piracicaba.
Em 1972, fui convidada a jogar basquete por São Bernardo. Quando então começou minha andança na capital.
Conheci o ginásio na Vila Mariana, fiquei alojada no Baby Barioni, sempre que convocada para as seleções paulista e brasileira. Joguei pelo Brasil no ginásio do Ibirapuera, esse que agora querem destruir. Fiz corrida de revezamento no autódromo de Interlagos.
Veterana passei por São Paulo jogando e dirigido equipes de várias cidades . A cada vinda para cá, destinos desconhecidos me aguardavam. Por Santo André fui até o SESI A.E.Carvalho, em Artur Alvim; e mesmo não sendo corintiana, me emocionei a primeira vez que vi a Arena de perto.
Nem só de esporte foram feitos os meus caminhos. Na Paulista, linda, visitei a Livraria Cultura, a Casa das Rosas. No Teatro Alfa, assisti a Billy Elliot; no Credicard Hall, Carmina Burana; no Revista, Ópera do Malandro; no Teatro Municipal, deslumbrante, O Cavaleiro da Rosa, nos transportando a outras épocas e nos fazendo sonhar com um mundo melhor, sem medos e com muito amor.
Márcia Perecin é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
“Sabe que hoje mais importante do que falar outras línguas é falar outras culturas?”
José Carlos Teixeira Moreira
A diversidade cultural brasileira influencia nas relações de negócio e precisa ser considerada para que a busca de resultados não seja frustrada. Negociar no Ceará é diferente do negociar no Rio Grande do Sul, construir relações com os clientes na Bahia não é o mesmo que construir em Minas Gerais. A distância é tamanha que até soluções criadas com esmero podem ser um fracasso se atropelarem os rituais culturais de cada uma das regiões.
Cansado de ouvir empresários reclamarem da cultura de alguns estados, José Carlos Teixeira Moreira, presidente da Escola de Marketing Industrial, decidiu ir a campo para entender a forma de pensar, de sentir e de reagir do brasileiro. Há cerca de dez anos, realizou mais de 14 mil entrevistas, em todos os estados, no interior e na capital, nos setores de indústria, serviços e comércio. Usou o método da teoria da dimensão cultural, publicado nos anos de 1980 pelo psicólogo holandês Geert Hofstede —- que se transformou em um parceiro de estudos e desenvolvimento de pesquisa.
Em entrevista ao programa Mundo Corporativo, José Carlos Teixeira Moreira explicou os aspectos culturais que pautam os negócios no Brasil e divulgou dados que sempre foram de domínio privado da Escola de Marketing Industrial —- parte do resultado desta pesquisa, você acessa nas telas disponíveis aqui no blog:
“Lembre-se de uma coisa: nenhuma cultura é ruim. Cultura é o jeito que eu vivo, o jeito que eu trabalho, é o jeito que eu morro … Se você respeita a cultura e usa os rituais que naquela cultura expressam o valor, você tem muito sucesso”
As empresas têm culturas próprias; e seus colaboradores, também. Tudo isso, somado e misturado com a cultura de uma região, cria um coquetel de informação que precisa ser muito bem compreendido dentro das dimensões que afetam a construção de valor entre empresas, das quais cinco fazem parte da metodologia de Hofstede:
distância hierárquica
individualismo/coletivismo
masculinidade/feminilidade
controle da incerteza
orientação para o longo prazo
Para o estudo no Brasil, mais três dimensões foram analisadas:
Fluxo: estabilidade x mudança
Ansiedade: harmonia x tensão
Autonomia: sujeição x protagonismo
Diante de tantas informações que podem ser coletadas, José Carlos recomenda que se invista um bom tempo para conhecer o seu parceiro de negócios em lugar de ficar refém de números expostos em relatórios. Ou, pior ainda, de preconceitos culturais que tornam intoleráveis as relações.
“No Pólo Industrial de Camaçari, toda a gestão era de paulista, não podia colocar um baiano na gestão por conta desses arquétipos, desses rótulos. Tenho a impressão de que a riqueza da diversidade ainda não foi explorada como devia nos negócios”.
Um exemplo de diferenças culturais entre estados, citado na entrevista, é a que se percebe entre Paraná e Rio de Janeiro. Enquanto no estado do sul do país, tem-se uma visão de longo prazo, no Rio o que interessa é o aqui e o agora. É possível vender uma turbina —- que exige muito tempo de produção, construção e instalação —- nos dois estados, mas o negociador tem de oferecer informações que mostrem os ganhos imediatos para o empresário fluminense para convencê-lo de fechar o contrato.
“Sabe qual é o efeito adicional? Você passa a gostar mais das pessoas. Porque permite que você tenha o estranhamento amoroso. quando você vê que a pessoa tem cultura diferente e o valor é o mesmo. Estranhamento amoroso é assim: é uma distância amorosa que não permite que eu seja tão familiar, porque a familiaridade impede de eu ver o outro. Eu vejo eu no outro. E como ele não é igual, eu brigo com ele o tempo todo”
O Mundo Corporativo pode ser assistido ao vivo, às quartas-feiras, às 11 da manhã, no canal da CBN no Youtube, no Facebook e no site. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativa. E esta também em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Juliana Prado, Bruno Teixeira, Matheus Meirelles e Débora Gonçalves.
A mais bela paisagem de Porto Alegre: a Arena Grêmio e o pôr do sol
Já vivo há mais tempo em São Paulo do que em Porto Alegre. São 30 anos aqui na capital de 57 de vida. Foi lá no Rio Grande, porém, que vivi os mais marcantes na formação de meu caráter e personalidade. De pequeno, segurando a mão do pai e da mãe; de criança, correndo com os amigos na calçada da Saldanha; de adolescente, batendo bola nas quadras e beijando no escurinho do cinema; até ser jovem, primeiro sem muita responsabilidade, fazendo aquelas coisas que hoje nos fazem pensar “como é que eu sobrevivi?”, para depois ser do tipo que tinha de pagar as próprias contas.
Saí por acaso de Porto Alegre, quase sem querer, para uma viagem festiva em São Paulo, quando deparei com a oportunidade de ouro na vida profissional. Tive tempo de voltar para Porto Alegre, jogar todas as roupas na mala, colocar o fusca grená à venda e dar um beijo nos mais queridos. Ainda passei lá no Zelig, o bar do Pio, ponto de encontro, bebedeiras, namoros e choradeira de muitos anos, na Cidade Baixa. No dia seguinte, um primeiro de janeiro, desembarcava na cidade que, hoje, é cenário de outros momentos muito importantes na minha vida. Deles conto em outra conversa.
Hoje, estou aqui ocupando o espaço de uma Avalanche —- em que o desafio seria garimpar valores e aprendizados na primeira derrota, lá em Bento Gonçalves, do time de jovens que está disputando o Campeonato Gaúcho — para falar de Porto Alegre porque minha cidade completa 249 anos, nesta sexta-feira, 26 de março. Aprendi na escola que a cidade foi fundada por casais açorianos que desembarcaram no Porto das Pedras, no século 18. Construí a fantasia de que sendo casais, teriam chegado em pequenas embarcações a remo, nas quais as moças estariam de chapéu largo e vestindo longo, enquanto os moços vestiam-se elegantemente de cartola, casaco e colete. Impossível, tendo todos vindos de tão longe.
Nossa imaginação é capaz de construir histórias que jamais vivemos e as contamos como se verdadeiras fossem. É efeito do cérebro que para rodar em alta velocidade deixa de lado algumas informações, inventa coisas e manipula pensamentos.
Se eu disparar a contar as experiência marcantes de Porto Alegre é possível que alguém mais próximo venha me cochichar no ouvido de que não foi bem assim que aconteceu.
O amor não era tão apaixonante, a beleza tinha lá suas distorções e as aventuras que acredito ter vivido eram até meio sem graça
Independentemente dessa realidade e sem saber ao certo o quanto do que lembro é ilusão, Porto Alegre é meu chão —- é onde tive meus primeiros traumas e prazeres. Muito do que experimentei lá, trago no meu comportamento, mesmo que hábitos tenham sido abandonados no meio do caminho. E agradeço de coração a todos que me ajudaram a viver e a aprender naquela cidade.
Quem sabe, para a passagem do próximo ano que nos levará a marcante data dos 250 anos, não dedique mais espaço neste blog para contar as histórias nas quais é provável tenha sido apenas um observador mas que as transformarei em memoráveis, até que me provem o contrário.
Na minha infância, às vezes, me sentia um pouco diferente de outras crianças. Explico: nunca pude comer doces.
— ´´Mas nem um docinho? “
— “Não, nenhum.”
Lembro-me de algumas situações: quando a aula terminava e na saída da escola estava o “tio” do carrinho de doces. Eu dava uma passada com os olhos naqueles pirulitos coloridos e achava o máximo, mas ia embora sem comprar nenhum. Nas festas de aniversário, todos aguardavam ansiosos o momento de cantar parabéns, porque isso significava a hora do bolo e dos docinhos. Para mim, era encantador ver a decoração do bolo e dos doces, imaginando como teriam sido feitos. Na Páscoa, quando todos recebiam um ovo de chocolate, eu gostava mesmo era de ganhar um queijo bem gostoso!
Eu e um dos meus irmãos temos frutosemia, uma alteração genética caracterizada pela incapacidade de metabolizar a frutose, um tipo de açúcar presente em frutas, alguns legumes e inúmeros alimentos industrializados que contenham açúcar ou adoçantes em sua composição. No nosso caso, o grau de intolerância é grave, o que nos restringe totalmente o consumo desses alimentos, desde que éramos bebês, provocando náuseas, vômitos, suores frios, dentre outros sintomas.
Não sei se o fato de comer doces e passar mal foi o que causou a aversão, mas não tenho nenhuma atração por doces. É realmente aversivo. No entanto, a restrição ao consumo de doces, na prática, nunca foi um problema. O verdadeiro desafio sempre foram os alimentos que, mascarados por outros sabores e temperos, continham açúcar dentre seus ingredientes.
Talvez a aversão nos conduza à paixão.
Assim, fui me empenhando no estudo da confeitaria. Desde pequena, fazia meus bolos confeitados e descobri na elaboração e preparo de receitas doces, uma ótima maneira de me divertir, me distrair, de usar a criatividade e, de certo modo, ir além das minhas próprias limitações. Uso as cores, odores e a textura dos alimentos para chegar à versão final de uma receita, visto que experimentar é uma impossibilidade. Além disso, conto com ajuda das pessoas com as quais convivo na tarefa de provarem e opinarem, a fim de aprimorá-la.
Um dia, já adulta, conheci a história do chefe americano Grant Achatz. Durante sua ascensão profissional nos Estados Unidos, em decorrência de um câncer na língua, perdeu o paladar. Achatz contratou quatro subchefes, que experimentavam suas receitas, e, no ano seguinte, foi considerado o melhor chefe americano, sem conhecer o sabor de suas criações.
Sem a pretensão de aproximar-me dessa história incrível, compreendi que podemos nos valer de vários recursos para atingirmos um objetivo, ainda que tenhamos limitações ou restrições.
Todas as privações, de algum modo, nos causam incômodos. Talvez a diferença esteja em obter algum grau de satisfação, apesar desse desconforto experimentado.
Para mim, preparar os doces é uma atividade que me traz inúmeras alegrias, mas a maior gratificação fica por conta de ver a satisfação das pessoas que os consomem.
As restrições não impedem o engajamento.
Nesse caso, falo de doces, mas poderia discutir sobre o uso de máscara, sobre ficar em casa ao invés de ir a uma festa ou viagem, sobre uma gentileza ou uma ação na qual podemos nos engajar socialmente. A vida, frequentemente, nos apresenta oportunidades disfarçadas de limitações. Longe de buscar a romantização dessa trágica situação que vivemos, é importante nortearmo-nos a partir daquilo que podemos aprender com ela. Ao aprimorar nossa capacidade de enxergar o outro, muitas vezes a visão sobre o propósito da vida torna-se nítida.
Aproveito e preparo um bolo. Envio para amigos, esperando que possam comemorar como se estivéssemos próximos apesar da distância imposta e necessária, que se sintam queridos e que isso lhes traga um pouco de doçura, num momento tão amargo. E, embora não duvide de sua alegria ao receber o presente, guardo a certeza de que quem mais ganhou fui eu.
Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung
Pedro Lucas comemora em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
O início desta temporada tempestuosa do futebol, na qual sequer a bola deveria estar rolando, ao menos tem servido para nos apresentar nomes que há algum tempo estão na lista daqueles que podem ser craques vestindo nossa camisa.
Se no fim da semana passada, o goleiro Brenno deu mais um passo em direção ao time principal, neste início de semana, foi a vez de Pedro Lucas. Verdade seja dita, o garoto de apenas 18 anos —- completará 19 em julho — havia apresentado visão de jogo, boa movimentação e toque de bola preciso na partida anterior, em que saiu como titular. Demonstrara em campo, a fama que trouxe das categorias de base —- onde já conquistou título mundial pelo Brasil.
Hoje, completou a sequência com um golaço, aos 27 do segundo tempo. Ferreirinha que ensaiou vários dribles pelo lado direito, às vezes insistindo além do necessário, desta vez, passou pelos marcadores e cruzou no tempo certo. Pedro Lucas vinha em direção à bola e de bate-pronto com o pé esquerdo —- o seu preferido —- encaixou no ângulo. Um chute tão preciso quanto difícil pela posição que estava na área.
Pedro Lucas Tapias Obermüller, nascido no Baixo Guandu, no Espírito Santo, chegou ao Grêmio com 12 anos. Das escolinhas ao primeiro gol entre os profissionais, não bastasse o guri ter demonstrado habilidade com a perna esquerda —- o que sempre difere o jogador em campo —, maturidade para ascender nas categorias e conquistar espaço na seleção brasileira, revelou-se gremista de coração e o desejo de, antes de pensar em colocar o pé na Europa, colocar a mão em uma taça com a camisa do Grêmio.
Ao fim do jogo, mostrou com fala segura, olhar focado e discurso bem elaborado que domina as palavras tanto quando a bola:
“Eu tenho esse sonho de jogar no profissional do Grêmio. Desde os meus 12 anos quando cheguei aqui. Hoje, fazer meu primeiro gol como profissional é uma momento muito especial”
Tem sido especial também este momento de renovação. Os guris completaram quatro partidas invictos no Campeonato Gaúcho e colocaram o Grêmio na liderança da competição, mesmo tendo um jogo a menos do que seus adversários. Mais do que gols, pontos e classificação, o grande destaque no início da temporada tem sido a qualidade desta garotada que chega da base para conquistar seus sonhos no profissional.
Perde-se vidas todos os dias. Algumas sabemos pelo número. Outras pela história. Há aquelas que conhecemos de perto. Na sexta-feira, fui informado que Maria Lucia Solla “fez a passagem” — foi assim que um dos filhos dela comunicou a morte da mãe. Maria Lucia foi colaboradora de primeira semana neste blog. Em 10 de junho de 2007, escreveu a primeira coluna dominical — espaço em que testou várias de suas formas, sempre mantendo uma linguagem rica, sincera e provocativa. Fez crônica e poesia, fez texto, vídeo e áudio. Não tinha vergonha de se expor, mesmo que às vezes preferisse aparecer na penumbra. Escreveu de tudo: de amor e desabafo — sobre este disse um dia:
“…é vapor que assobia pela válvula, quando se está prestes a explodir. é o que está acumulado há tanto tempo que não dá para represar. É um descarrilar inesperado que faz a gente escorregar, meter as mãos pelos pés, cair, se ralar, levantar, e mesmo sangrando gritar. Para não engasgar, para não sufocar”
Conheci Maria Lucia nas aulas particulares de inglês. Ela me apresentou não apenas à língua de Shakespeare. Me fez aprofundar na de Camões. Pois tinha profundeza e generosidade na fala e na escrita. Em 2002, havia lançado “De bem com a vida mesmo que doa” (Editora Libratres), livro que me presenteou no início de nossa relação e me motivou a convidá-la a escrever semanalmente no blog recém-criado.
Aceitou o desafio e o cumpriu com maestria até dezembro de 2015, quando se despediu dos caros e raros leitores deste blog:
Se você se dedicar a escolher um ou outro texto —- ou todos, se desejar e tiver tempo para a boa leitura —-, você conhecerá melhor Maria Lucia Solla. Ela sempre foi transparente nos seus sentimentos. E mesmo que indignada com o que acontecia em seu entorno, mais íntimo ou não, sabia oferecer uma palavra de esperança. Era uma companhia agradável, que se distanciou com o passar do tempo, das viagens e da minha rotina.
Em meio a tantas mortes que noticiamos e sofremos, registro aqui a da Maria Lucia Solla porque além de ter sido amiga, fez deste blog algo bem melhor do que seria se tivesse apenas minha presença. É a segunda morte de um colaborador apenas este ano. A primeira foi do amigo Carlos Magno Gibrail de quem tenho saudade diária, pois se não bastasse tudo que já escrevi até hoje sobre ele, também foi meu companheiro de pandemia, com quem conversava semanalmente —- o telefone não tem tocado mais aqui em casa.
Tinha poucas notícias da Maria Lucia nestes últimos anos. Espero, de coração, que a morte — que ela sabia chegaria um dia — tenha chegado como ela desejou em texto de outubro de 2010:
Em uma partida resolvida ainda no primeiro tempo, na qual levamos a campo um time com idade média de 22,4 anos de idade, que alçou o Grêmio à liderança do campeonato e com 100% de aproveitamento, foi nosso goleiro quem mais se destacou.
Brenno Oliveira Fraga Costa foi assim batizado em Sorocaba, cidade que fica logo depois da Região Metropolitana de São Paulo, a quarta mais populosa do estado, e há pouco mais de uma hora de viagem daqui onde moro, desde 1991. Ele tem a idade do meu filho mais novo. Nasceu em 1º de abril de 1999. Em algumas semanas completará 22 anos. E, a partir de hoje, é considerado a principal esperança do torcedor gremista que, desde a saída de Marcelo Grohe, aguarda por um grande goleiro.
Com olhar sereno, semblante tranquilo, sorriso largo e cara de bom moço, Brenno —- assim mesmo com dois enes —- conseguiu um feito no jogo desta noite de sexta-feira.
No primeiro momento, ensaiou o movimento de Gordon Banks, na defesa que consagrou o goleiro inglês, após a cabeçada de Pelé, na Copa do Mundo de 1966 — a defesa do século 20. No segundo, lembrou Marcelo Grohe, no milagre contra o Barcelona de Guayaquil, do Equador, na semifinal da Copa Libertadores, em que nos consagramos campeões, de 2017 — a defesa do século 21.
Exageros à parte, Brenno já havia se apresentado bem na sua estreia forçada, no Grenal 418 de 2019, em que vencemos por 1×0. Na segunda partida da Libertadores deste ano, na vitória por 2×1 contra o Ayacucho, no Equador, foi menos exigido mas sempre que precisamos dele, se fez presente e preciso. Hoje, foi magistral.
Ao longo da partida, ouvi Gustavo Millani da SporTV chamá-lo de Brenno Banks. Em seguida, o repórter de campo, lendo as redes sociais, disse que um dos torcedores digitais havia lhe batizado de BreNeuer —- o que certamente deve ter soado bem aos ouvidos do guri que declarou, em 2020, ao site Minha Torcida:
“Meu maior ídolo é Neuer, pois quando eu comecei no futebol em 2014, nas categorias de base, ele arrebentou na Copa do Mundo”
Nem Banks nem Neuer. Nem mesmo Marcelo Grohe — por mais que tenha trejeitos dele em campo. Brenno é, por enquanto, um goleiro em ascensão, disposto a ser titular no Grêmio o mais breve possível, e, se tudo der certo, demonstrar autoridade e talento suficientes para entrar para a nossa história como Brenno, simplesmente, Brenno do Grêmio — o único time do mundo a dedicar seu hino a um goleiro.
Se alguém me dissesse, em abril de 2020, que eu faria monólogos ou entrevistas ao vivo na internet, eu responderia com uma gargalhada, que não dou faz tempo. Sempre quis estar a par do mundo digital, pelo menos o suficiente para acompanhar os netos, mas vencer a inibição das câmeras, ah, isso era impossível. Só que não.
Temos uma editora — a Ofício das Palavras —, e no fim de 2019 percebemos a necessidade de um incentivo, algo que nos fizesse sair da mesmice, da acomodação. Precisávamos inventar alguma coisa que chamasse novos talentos para nossos livros e oficinas. Nos inscrevemos numa mentoria de Marketing Digital. Aprendemos como postar, quando, quantas vezes. E o ano começou com bastante trabalho, nosso trabalho. E começou a dar resultados. Mais pessoas engajadas, mais visitas ao site.
Resolvi que daria as caras na rede todos os dias sob o risco de não ter ninguém do outro lado. Estranha sensação essa. Você olhar para uma espelho e falar sozinha, ser sua própria interlocutora, um misto de narciso e vergonha alheia.
As pessoas que vivem de selfies já foram bastante estudadas pela psicologia. Nada me resta dizer. Mas se tem de ser, que seja. Vamos com a cara e coragem.
Um dia, chamei uma amiga para entrar ao vivo. Ela estava na praia. Tinha acabado de sair do mar. No susto, topou! Conversamos como se estivéssemos no terraço de sua casa. Dia seguinte, outra amiga, e outra, e outra.
Foi a força necessária para saber que sim, eu, May Parreira e Ferreira, paulista, 68 anos, quatro netos, três gatas e um pastor alemão, posso fazer ao vivo e em cores. E as presenças são sempre pra lá de especiais. Continuo não gostando de me assistir. Mas está tão gostoso receber os convidados. Tem sido tão animador, tenho me sentido tão bem acompanhada, que só posso agradecer.
Um projeto, é tudo que precisamos na vida.
O que nos falta de contato físico está sendo compensado pela alegria, companheirismo e empatia entre todos os que vêm conversar ou participar. A espécie humana só chegou até aqui, só sobrevivemos, porque nos unimos. Foi por sermos gregários que conseguimos nos desenvolver. Foi o grupo em volta da fogueira que nos levou à roda e à eletricidade. A contação de histórias, boca a boca, virou ebook. Com amor e empatia.
May Parreira e Ferreira é personagem do Conte Sua História de São Paulos. A sonorização é do Claudio Antonio. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.