Avalanche Tricolor: de sorteio do porco à entrevista sem perguntas, coisas estranhas que vivi no futebol gaúcho

 

Grêmio 0x0 Nova Hamburgo
Gaúcho —- Arena (?) Alviazul, Lajeado/RS

 

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Foto: Lucas Uebel/GremioFBPA no Flickr

 

Futebol do jeito em que as coisas andam já é estranho por si só. Jogado em campo de várzea, sem torcida e com direito a lances bizarros, só da pra assistir com um copo de vinho na mão, um sofá inteiro para a gente se esticar e o cobertor para aquecer o frio que fez nessa tarde, em São Paulo.

 

O Grêmio jogou em Lajeado, no Vale do Taquari, região que está sob bandeira laranja há algumas semanas —- o que significa que tem risco médio de contaminação da Covid-19. A partida era para ser em Novo Hamburgo, na casa do adversário, mas lá a coisa está mais complicada ainda — a bandeira é vermelha. E se é vermelha, não se joga futebol.

 

O estádio escolhido para o jogo leva o apelido de arena. Que me desculpem os simpáticos torcedores do Lajeadense: as arquibancadas e o gramado não merecem o nome que recebem. A bola trocava de direção a cada passe, driblava por conta própria os marcadores e proporcionava cenas cômicas sempre que algum atacante tentava acertá-la em gol. Não foi de surpreender o zero a zero.

 

A precariedade da estrutura oferecida para o jogo serviu ao menos para me lembrar de momentos icônicos que vivenciei nos gramados do Rio Grande do Sul como repórter esportivo da rádio Guaíba de Porto Alegre.

 

Na segunda linha daquele timaço que formava o “Futebol da Guaíba”, cabia a mim as paradas mais difíceis, como os jogos de sábado à tarde, disputados pelo São José, em estádio que levava o nome do bairro do Passo D’Areia, na zona norte de Porto Alegre —- em uma época em que estádio de futebol era apenas um estádio de futebol. Para atrair torcedores, no intervalo das partidas, o clube promovia sorteios. Em uma das partidas fui convidado a tirar da urna o bilhete premiado. Com a pompa e a solenidade que o momento exigia, chamei pelos microfones do estádio o número vencedor e o prêmio maior lhe foi entregue: um porco vivo que, depois de sorteado, poderia ter o destino que o novo dono bem entendesse.

 

Naqueles tempos, eram os anos 80,  repórter de campo era repórter de todo campo. Tinha liberdade para circular pelo entorno do gramado, descrever o lance com os detalhes que só ele havia visto e reproduzir as cenas proporcionadas pelos técnicos e jogadores na casamata (que aqui em São Paulo preferem chamar de banco de reservas). Não havia esta história de só entrevistar jogador escolhido pela assessoria de imprensa do clube e esperá-lo na área reservada à imprensa. A medida que o cronômetro se aproximava do fim da partida, nos deslocávamos para o lado do gramado e nos preparávamos para uma corrida desesperada em direção ao personagem do espetáculo.

 

Em um jogo qualquer do Grêmio, pelo Campeonato Gaúcho, no estádio Olímpico Monumental —- esse sim merecia o título de Arena de Todos os Campeões —-, me posicionei a espera do final da partida. Nem bem o trilar do apito do árbitro havia se encerrado, abusei da minha juventude e com o microfone na mão e um fio enorme a me seguir, corri em busca da palavra do craque. O esforço para chegar antes dos concorrentes, me fez perder o fôlego. Sem conseguir dizer uma só palavra, restou-me estender o microfone em direção a ele que respondeu a uma pergunta que jamais consegui fazer. Após alguns minutos, nos quais o meu entrevistado disse o que bem entendia e minha respiração voltava ao ritmo normal, ao menos tive um saída espirituosa: “(fulano de tal) falou no microfone da Guaíba e mostrou que além de bom de bola é bom de papo, nem precisei fazer pergunta e ele já me respondeu”.

 

Expressividade: cuidados com os gestos e a postura ao se comunicar

 

Segue mais um trecho do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, escrito para o livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. É minha homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz, comemorado em 16 de abril:

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foto PIXABAY

 

ÊNFASE DEMAIS, FÉ DE MENOS

 

Um dos mais famosos locutores do Rio Grande do Sul é José Aldair, até hoje titular da síntese noticiosa da Rádio Gaúcha de Porto Alegre. Uma das marcas na narração de Aldair era a mania de introduzir o noticiário do esporte esticando a primeira sílaba do título “esportivas”. O “es” se estendia até o som praticamente sumir para, somente depois, completar a palavra. O costume ganhou fama e havia quem ouvisse o noticiário apenas à espera do anúncio das “esportivas”. Um dia acompanhava o noticiário dentro do estúdio, sentado ao lado de José Aldair, o comentaristas esportivo Osvaldo Rola, o Foguinho, nome conhecido no Rio Grande do Sul por seus préstimos ao futebol gaúcho, tanto quanto por sua fala com o erre extremamente enrolado. Quando José Altair começou o interminável “essssssss…..”, Foguinho se assustou, imaginou que o locutor teria tido algum problema e não se fez de rogado, se aproximou do microfone e completou: “porrrrrrtivas”.

 

O preço que José Aldair pagou pelo excesso de ênfase foi o susto no momento do acontecido e o nome dele registrado para o resto dos tempos no anedotário do rádio gaúcho. Pelo sucesso dele na locução até que o preço foi baixo. O mesmo não se pode dizer de outros narradores que, exagerados, comprometem a mensagem. E suas carreiras, também. Ênfase demais ou na palavra errada prejudica o entendimento do que está sendo comunicado, porque o público perde a noção do que realmente é importante na sentença. A marcação excessiva empobrece o discurso e o torna caricato. É a “Síndrome de Alberto Roberto”, personagem humorístico de Chico Anysio que brinca com a figura dos comunicadores antigos do rádio.

 

Peço licença para um comentário sobre figura que brilhou no rádio e na televisão. Gil Gomes marcou sua presença no jornalismo com uma voz cheia de nuances e gestos exagerados. Conseguiu se comunicar. Seu domínio de cena o permitia contar uma história de violência sem ter necessidade de imagens ou entrevistas. Era praticamente um monólogo. Envolvia o telespectador — e antes já havia feito isto com o ouvinte —- apenas com a retórica e recursos da dramaturgia. Quando muito, se valia de efeitos sonoros. Espetacularizava a informação. Transformava realidade em ficção e da ficção fazia realidade. Gil Gomes fez desta capacidade seu personagem. No entanto, não é exemplo para ser seguido. Porque é único. É exceção. E para ilustrar o tema aproveito-me, mais uma vez, de frase de Iván Tubau, autor já citado neste trabalho.

“O comunicador de televisão deve interpretar sempre um personagem. É desejável, portanto, que seja ator. O comunicador de televisão deve dizer algo. É desejável que seja jornalista. O comunicador de televisão, sendo ator e jornalista, só pode interpretar bem um personagem: o mesmo”.

O telejornalismo tem aspectos da dramaturgia. Utilizam-se recursos da arte cênica para transmitir informação. No entanto, não se deve trocar os papéis. Jornalismo trabalha com a realidade. Quem o consome, crê no que se vê. Teatro usa da ficção para conquistar seu público, que aceita a encenação porque busca o entretenimento. Existem jornalistas que foram buscar nos cursos de teatro formas de interpretar a notícia. Mas, assim como na voz, o exagero nos gestos prejudica o processo de comunicação.

 

Às vezes, as mãos se movimentam tanto diante da câmera de vídeo que chamam mais atenção do que a mensagem. Sem falar na sensação do telespectador de que a qualquer momento vai receber uma tapa no rosto. Quase tomei um banho d’água durante entrevista com um empresário que, entusiasmado com a oportunidade de falar na televisão, usou de todo seu conhecimento cênico e acabou derrubando o copo que estava sobre a bancada.

 

Outro erro comum é a repetição dos movimentos, principalmente da mão. Você já deve ter visto o horário eleitoral gratuito. Se não, aproveite a próxima eleição e se divirta diante da televisão —- se possível encontre um bom candidato para votar, também. Veja quantas vezes determinados candidatos fazem um mesmo gesto durante mensagens que não duram mais de 30 sgundos. Acreditam que assim são capazes de atrair a atenção do eleitor. Prometem mais educação e com a mão fechada dão um pequeno soco no ar. Prometem mais saúde e lá vem mais um soquinho. Prometem mais transporte e a cena de pugilismo se repete. Podiam trocar os socos pela fórmula para cumprir todas promessas.

 

A gesticulação — recurso não-verbal que pode dar ênfase à informação —- quando repetitiva provoca monotonia. A mesma sensação se tem quando a apresentação é feita de forma estática. A televisão, principalmente no jornalismo, demorou a aceitar movimentos naturais de seus apresentadores. Eram quase bonecos ventríloquos.

O excesso de gestos incomoda muita gente. O excesso de gestos repetitivos incomoda muito mais. O excesso de gestos contraditórios nem se fala. O aceno, a expressão facial, a entonação da voz têm de estar em concordância com a informação. Tente dizer não e sacudir a cabeça afirmativamente. Agora, faça o contrário. Diga sim e gire a cabeça de uma lado para o outro. É estranho, não é mesmo? Tem quem faça isso sem a menor dificuldade ou sem nenhum constrangimento. Se o gesto confirma a informação, esta se reforça. Se contradiz, a mensagem se perde. Não esqueça que o impacto da comunicação não-verbal sempre é mais forte do que a verbal quando feita de forma simultânea.

Há outros casos em que os meneios de cabeça, com o objetivo de marcar expressão ou fim de frases, se sobrepõem à informação, tal os excessos cometidos. Lembro de um apresentador de telejornal que, na busca de expressividade, piscava os olhos, mexia a cabeça, reforçava a dicção e acenava tanto que me provocava irritação. Senti-me —- por favor, falo como telespectador —- vingado quando o próprio ao usar de todos esses recursos para fazer uma pergunta relacionada ao susto que os empresários haviam tido por causa de uma medida do governo federal, causou tanta estranheza na comentarista de economia que esta não se conteve: “você é que me assusta assim”.

 

Por falar em meneio de cabeça. Tem jornalista que ainda insiste em balançar a mesma afirmativamente enquanto o entrevistado fala. Quer passar a impressão de que está atento ou entendendo tudo o que está sendo dito. Quem assiste tem a ideia de que o entrevistador está é concordando com o entrevistado. Postura que não condiz com a profissão. Se é para mostrar conhecimento do assunto, faça boas perguntas: é o melhor caminho.

 

Aproveito para chamar atenção de outra mania que toma conta da tela. Alguém espalhou por aí que apresentador de programa esportivo tem de estar feliz. Com cara de quem assistiu ao time dele ser campeão pela primeira vez. Moral da história: tem uns que fazem um esforço danado para aparentar simpatia. Por favor, não estou aqui defendendo a cara fechada. Gosto tanto de um sorriso que já dediquei um capítulo anterior a favor dele. Mas em excesso, torna a apresentação falsa. “Do que é que este moço está rindo, se meu time perdeu hoje?”, se pergunta o telespectador.

Você se comunica com muito maior intensidade do que imagina. À frente da câmera de vídeo, esta situação ganha mais destaque, ainda. As lentes ampliam nossas qualidades, com certeza, mas estão prontas para revelar todos nossos cacoetes, afetações e presunções. Pessoas extramemente amáveis no dia-a-dia se transformam em arrogantes na televisão. Têm a imagem distorcida por pequenos detalhes como o de falar olhando acima da lente ou com o queixo erguido —- o que é traduzido por “nariz empinado” —- simplesmente porque a câmera não está posicionada na altura do seu rosto.

Outro erro capaz de mudar a sua imagem é a postura. Curvado demais para a frente para a ideia de agressividade. Atirado demais para trás, de desinteresse. Há situações em que postura demais também prejudica.

 

Um ex-prefeito de São Paulo, adepto do yoga e outros esportes mais relacionados à classe política, que tendem a resultar em rombos olímpicos nas contas públicas, costumava dar entrevistas sempre com o olhar neutro, as duas mãos à frente apenas com a ponta dos dedos se tocando em formato de triângulo e os pés separados o suficiente para manter uma postura de equilíbrio. Deve ter lido, antes de assumir o cargo, todos os manuais de sobrevivência para entrevistados em situação delicada que se encontram nas livrarias e decidiu aplicá-los de uma só vez. Um esforço tão evidente e exagerado que era lido pelos repórteres que o acompanhavam como sinal de intranquilidade. Sempre tive vontade de dizer a ele quando o enxergava estático diante de uma câmera: “relaxa prefeito, relaxa e fala”.

 

Expressividade é preciso. Exagero, não. O risco é que o comportamento exacerbado atinja a imagem de quem comunica. O público deixa de acreditar, perde a fé.
 

 

Os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”, publicados até agora, você tem acesso, na ordem decrescente, clicando aqui

Palavras no rádio e na TV que não consigo digerir

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Olho para trás e me dou conta de que passei a maior parte da minha vida trabalhando como radialista. Exerci várias funções,pasmem,atuando em apenas duas emissoras:a Rádio Canoas (que mudou de nome e virou Rádio Clube Metrópole ao receber concessão para funcionar em FM) e na Rádio Guaíba. Essa,inaugurada em 1957. Era um sonho dos locutores,na época,ser contratado pela rádio que se firmou no ano seguinte,1958,por ter transmitido a Copa do Mundo da Suécia com equipe própria:Mendes Ribeiro,Flávio Álcaraz Gomes e Francisco Antônio Caldas. De lá para cá,a Guaíba só não se fez presente na deste ano que os brasileiros preferem não lembrar por motivos para lá de óbvios. Além de locutor comercial,comecei a narrar futebol e,em 1964,passei a apresentar o Correspondente Renner que,modéstia à parte, foi durante muitos anos a principal síntese informativa da Guaíba.

 

O leitor – se é que tenho algum,especialmente fora do Rio Grande do Sul – não pode imaginar o que o Correspondente Renner representou,em uma época que o radiozinho de pilha era companheiro sempre presente dos agricultores. Até hoje,encontro quem diga que os pais de família não permitiam que os filhos falassem enquanto o Correspondente Renner estivesse no ar. Fiz esse intróito para dar ao leitor – insisto,se existir algum – uma ideia sobre este que lhes escreve e que vai,daqui para a frente,digitar algumas coisinha que,tanto no rádio quanto na TV atuais,não consegue digerir.

 

A grande maioria,sempre que se refere ao juiz de uma partida,diz que a arbitragem acertou ou errou. Ocorre que não é arbitragem que faz isso ou aquilo.O jogo é arbitrado só pelo juiz. Os seus auxiliares,por mais importantes que sejam,a rigor,não passam disso. O árbitro – e repito – apenas ele, é o indivíduo responsável, por fazer cumpriras regras,o regulamento e o espírito do jogo. A arbitragem é,digamos assim,o conjunto da obra. Quem manda,porém,insisto,é o que chamam,quando não fazem direito o seu trabalho,de “sopradores de apito”. Creio que os chefes desses moços que não sabem a diferença entre árbitro e arbitragem bem que poderiam ser alertados pelos seus superiores.

 

Outro erro, que já estou cansado de ouvir, é informar que “o estádio está completamente lotado”. Trata-se de um pleonasmo,isto é,repetição,na mesma frase,das mesmas ideias por meio de palavras. Narradores,comentaristas,repórteres e assemelhados,cometem os tipos de erros que citei. O pior é quando vejo que a mídia brasileirsa,com raríssims exceções,até agora não se decidiu entre chamar a maravilhosa Nova Iorque de Nova York. Que se use o nome em completamente em inglês ou todinho aportuguesado. Não pode,na minha modesta opinião,grafar o nome de maneira híbrida:Nova York.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Atentados ao vernáculo

 

Por Milton Ferretti Jung

 

As coisas e loisas, citadas por mim no blog da passada quinta-feira, foram apenas parte das que me deixaram irritado ou,se preferirem,rabugento. Uma delas – os vândalos do Black Bloc – embora esses sujeitos mascarados não tenham cometido novas estrepolias depois das muitas que o Brasil ultimamente testemunhou,ainda dá o que falar. Minha amiga Rosane de Oliveira,articulista do jornal gaúcho Zero Hora,no qual escreve a Página 10,lembrou que o ministro da Justiça,José Eduardo Cardoso,somente agora,se convenceu que se faz necessária ação da Polícia Federal,em conjunto com os governos estaduais,para que a paz retorne às cidades que sofreram com ações vandálicas desses biltres que torpedearam as boas intenções dos jovens manifestantes. Pelo jeito,a Rosane tem sérias dúvidas a propósito do que será feito “por quem de direito”,pois colocou este título na sua coluna: “Reação tardia e de eficácia duvidosa.

 

Mas deixa para lá,por enquanto,porque vou digitar coisas e loisas menos agressivas que a ação do Black Bloc. Ando impressionado com os modismos da mídia. Volta e meia,deparo-me,seja lendo o Correspondente que apresento na Rádio Guaíba,seja nos jornais,expressões que não sei de onde saem e que,de repente,tomam conta dos meios de comunicação. Vou lembrar algumas:”por conta”. Ninguém mais diz ou escreve “por força,em consequência,em razão. Acho que foram os fisicultores ou algum técnico de futebol que apareceram com a palavra intenso,intensa. Tudo é intenso,um jogo,a participação de um jogador em alguma partida etc. Se alguém se lembrar de outras palavras ou expressões que tomaram conta do nosso “novo falar”,pode registrar nos comentários deste post.

 

Pior do que os citados modismos e muito outros que não recordei,estão os atentados ao vernáculo,cometidos por narradores,comentaristas e repórteres. A grande maioria resolveu abolir a partícula apassivadora ou “se”. Por exemplo: o jogo iniciou. Errado: o jogo SE iniciou. Outra besteira: o jogador fulano machucou. Errado:o jogador fulano SE machucou. Outro erro comum especialmente nas narrações de futebol é chamar de arbitragem o trabalho do juiz. É comum se ouvir,por exemplo, que a arbitragem marcou pênalti. Quem marca faltas,mostra cartões amarelos e vermelhos etc. é o árbitro,somente ele. Os outros cinco são auxiliares. Também não é certo dizer que um técnico ou jogador reclamou “com o árbitro”. Todos os verbos têm suas regências. A do verbo reclamar,é DO e não COM. Assim,reclama-se do árbitro. Jargão não é erro,mas muitos usados por narradores são detestáveis. Chega,pelo menos,de chamar o juiz de juizão,o goleiro,de goleirão e assim por diante. Quando ouço isso,sinto vontade de chamar o narrador de bobalhão.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Foto-ouvinte: esforço de reportagem

 

Vestido da repórter

 

A cobertura jornalística exige alguns esforços extras para que a notícia chegue até a casa dos telespectadores. A maioria sequer percebe os desafios enfrentados pelos repórteres no cotidiano da cidade e quanto é exigido de criatividade para superar percalços. Neste caso, a repórter da TV Globo Sabina Simonato teve de encarar um inimigo comum das mulheres de saia: o vento. Diante do prédio da rua Riachuelo, centro de São Paulo, que acabara de ser cenário de uma tentativa de invasão por sem-tetos, ela e sua equipe encontraram uma forma original para impedir qualquer safadeza do vento. A foto é do ouvinte-internauta e colaborador deste blog Devanir Amâncio.

Pergunta de repórter não tem cor nem raça

 

O brasileiro, em geral, está sempre em busca de heróis. Às vezes tenho a impressão de que o que queremos mesmo são vingadores. Faz isto no esporte quando deposita todas suas esperanças em uma seleção de futebol e depois, frustrado pela derrota, passa a odiar quem, até então, movia sua paixão. Na política não é diferente, haja vista o que fez com Fernando Collor, o Caçador de Marajás, e todos os demais presidentes que o seguiram. Atualmente, o posto está reservado para o ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa que chegou a ser comparado com Batman, o Cavaleiro das Trevas, pela toga que se parece com a capa do super-herói das histórias em quadrinho. Há quem defenda seu nome para cargo eletivo, mais uma vez na tentativa de encontrar o salvador da pátria. O maior risco em se reproduzir este comportamento é que perdemos a capacidade de desenvolver consciência crítica em relação aos homens e aos fatos. Ou se é mocinho, ou se é bandido.

 

Semana passada, o mocinho da hora, Joaquim Barbosa, errou feio ao interpelar o jornalista Luiz Fara Monteiro, da TV Record, durante conversa em off nos bastidores do STF. O repórter perguntou se ele pretendia manter um tom “mais tranquilo, mais sereno” na presidência e teve de ouvir insinuações pouco apropriadas para um ministro: “Logo você, meu brother!”, disse o ministro em referência ao fato de o jornalista ser negro. “Ou você se acha parecido com a nossa Ana Flor (repórter da agência Reuters, que é branca)? A cor da minha pele é igual à sua. Não siga a linha de estereótipos porque isso é muito ruim. Eles foram educados e comandados para levar adiante esses estereótipos. Mas você, meu amigo?”.

 

A notícia divulgada por alguns veículos de comunicação, entre os quais a rádio CBN, levou o jornalista Luiz Monteiro a enviar para um grupo de colegas de profissão e amigos a nota que reproduzo a seguir:

 

Amigos e colegas!

 

Para muitos já não é novidade. Foi noticiado na noite de quarta-feira no Blog do Noblat com direito a transcrição do áudio na íntegra. Durante entrevista em “off”, o ministro Joaquim Barbosa invocou a cor da minha pele para questionar uma pergunta legítima que fiz. Eu quis saber se o estilo demonstrado por ele naquele dia, véspera de sua posse como presidente do STF – mais sereno e tranquilo na condução das sessões – daria o tom de sua administração futura. 

 

Sou pago para perguntar. Para contar fatos vividos e/ou apurados por mim. É o compromisso que tenho com meu empregador e, principalmente, com seus telespectadores. Quem ouvir o áudio da entrevista, disponibilizado no blog (com link ao final da página) notará que o questionamento foi feito de maneira gentil e educada. Sem agressividade ou ironia, não justificando em nada o arroubo do presidente da Suprema Corte. Não foi a primeira vez que Barbosa se dirigiu a mim sem elegância, como conta o competente Rodrigo Haidar no twitter, repórter do Consultor Jurídico. O incidente desta semana também foi presenciado por dezenas de jornalistas, que, como mostra o áudio, confrontaram o ministro quando o próprio quis negar um temperamento difícil.   

 

Venho só agora me posicionar sobre o contencioso porque a entrevista se deu em “off”. Como o site do jornal O Globo e, hoje, a Folha de S. Paulo publicam, me sinto à vontade para me expressar sobre o acontecido. Repórter não gosta ser notícia. E fiquei triste ao ter sido destacado pela minha cor. Lamento muito a atitude de Joaquim Barbosa, que, infelizmente, arranhou meu orgulho em ver um magistrado oriundo de uma classe humilde presidindo nossa mais alta Corte. 

 

Joaquim Barbosa, repito, errou feio ao cobrar que o repórter se comporte de maneira determinada porque é negro. Assim como errou ao enxergar nos repórteres não-negros um padrão de atitude que pautaria suas reportagens. E errou porque não existem pautas de brancos, de negros, de amarelos ou de vermelhos nas redações. Assim como se espera que, a cor da pele, não seja determinante nas suas decisões na corte nem nas decisões de seus colegas não-negros. Errou por dar conotação racista – e usando de racismo – às críticas que, por ventura, receba em vez de aproveitá-las para analisar seus atos. E continuará errando se não pedir desculpas publicamente ao repórter.

 

Este erro em nada invalida os elogios ao trabalho que Joaquim Barbosa vem realizando no STF, assim como este trabalho não o exime de agir com educação e equilíbrio. Aos brasileiros que preferem o caminho mais fácil, construindo o estereótipo de herói ou vilão em vez de desenvolver o pensamento crítico e razoável, fica o ensinamento de que as pessoas não são somente mocinhos ou somente bandidos, são, simplesmente, pessoas que cometem acertos e erros. E por estes devem ser avaliadas, independentemente de sua condição social ou raça.

 

O Brasil não precisa de heróis, apenas de homens justos.

Jorge Marimon Mendes, um repórter esportivo inesquecível

 

Por Milton Ferretti Jung

 

 

O meu pai foi assinante durante muitos anos da Revista Selecções Reader´s Digest. Ele começou a lê-la na época da Segunda Grande Guerra. Claro, suas edições estavam sempre recheadas com histórias do conflito, nas quais as tropas dos Estados Unidos e de seus aliados protagonizavam batalhas fantásticas em que, via de regra, saiam vitoriosas. Já naquela época eu costumava ler desde revistas em quadrinhos – Gibi, Globo Juvenil e congêneres – a romances cujo conteúdo nem sempre era apropriado para adolescentes. Nas Selecções Reader’s Digest eu não deixava de ler, “O Meu Tipo Inesquecível”, presente em todos os números. Sob tal título, havia histórias acerca de pessoas que, de alguma forma, marcaram a vida e ficaram na lembrança de quem as relatava. Na manicure em que todas as quartas-feiras levo Maria Helena, minha mulher, existem revistas de vários tipos – Cláudia, Caras, Contigo etc. – mas, enfiadas numa pequena estante, meio escondidas, existem Selecções. São de meses passados,é verdade, o que não chega a ser problema, porque não se desatualizam, o que, por exemplo, ocorre com a Veja. Abro um parêntese para dizer que destesto as enormes revistas, repletas de fotos de pessoas que nunca vi mais gordas ou tão magras quanto as “top models” dos dias atuais.

 

Ao abrir a primeira das Selecções com que me deparei, procurei imediatamente, uma história sobre ”O Meu Tipo Inesquecível”. Folheei o exemplar e nada encontrei. O que fazer? Talvez o atual editor da Revista tenha entendido que não é fácil encontrar quem queira escrever acerca desse assunto. Ocorreu-me, nessa segunda-feira, que, se Selecções ainda tivesse “O Meu Tipo Inesquecível”, eu teria um capaz de preencher o espaço agora inexistente. Ao chegar à Rádio Guaíba, fiquei sabendo que Jorge Marimon Mendes fora encontrado morto, no sofá de sua casa, por sua filha Rosângela. Essa, viera a Porto Alegre para buscar o seu pai e levá-lo para comemorar, em Santa Catarina, o seu nonagésimo aniversário, que completaria nesta quinta-feira. Aparentemente, Jorginho, como era conhecido carinhosamente por seus colegas e amigos, aparentemente foi vitimado por um ataque cardíaco fulminante. Ao vê-lo a última vez, cheguei a pensar que o meu colega havia descoberto o elixir da eterna juventude. Prestes a fazer 90 anos, parecia ter pouco mais de 60, magro enxuto, disposto. Colorado, não perdia jogo do Inter e, pasmem, nem do Grêmio, desde que ambos não jogassem no mesmo dia.

 

Jorginho, que era o último ex-atleta vivo do Bambala, clube amador de Porto Alegre nos bons tempos dos campos de arrabaldes, começou sua carreira de jornalista em 1939, na Rádio Farroupilha. Teve passagens pelo Diário de Notícias, Zero Hora e Jornal do Comércio, em Porto Alegre; Jornal dos Sports e Globo, do Rio de Janeiro; Jornal da Semana, de Novo Hamburgo. Foi meu colega, na Guaíba, em 1958. Lembro-me que, quando Mendes Ribeiro era o principal narrador dessa Emissora, Jorginho tinha, nas nossas jornadas esportivas, uma única função: era ele quem informava as escalações das duas equipes e os nomes do árbitro e seus auxiliares. Jorge Marimon Mendes foi, também, presidente e vice-presidente da ACEG – Associação dos Cronistas Esportivo Gaúchos. Presto ao saudoso e insubstituível Jorginho minha última homenagem ao adotá-lo como “O Meu Tipo Inesquecível”.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Divertidas histórias do rádio

 

Por Milton Ferretti Jung

 

O Mílton deve conhecer, mesmo sem eu as ter relatado aqui, boa parte das histórias de rádio que, volta e meia, posto neste blog, especialmente aquelas nas quais fui um dos personagens. Às vezes, porém, ele pede que conte algumas que, por não me envolverem, talvez o meu filho não saiba. Vou relatar pequenas e até hilariantes historiazinhas.

 

Aí vai a primeira.

 

Rogério Boelke, hoje plantão titular e apresentador da Rádio Guaíba, antes de trabalhar em Porto Alegre, atuou numa emissora pelotense como repórter. Era ainda, que fique claro, um aprendiz ou, em linguagem jornalística, um foca. Certo dia,foi pautado para cobrir o roubo a uma casa. O ladrão havia entrado pelo telhado, espécie de roubo que ficou conhecida por “rififi”. Se é que alguém desconheça, o nome foi dado a esse crime, a partir de um filme francês, “Du Rififi chez les hommes”, dirigido pelo cineasta Jules Dassin e estrelado por Jean Servais. Na película, a assaltada foi uma joalheria. O roubo fictício foi imitado por criminosos ao redor do mundo.

 

Ao chegar ao local do roubo, Boelke imediatamente ligou para o técnico que se encontrava no estúdio, pedindo-lhe que o colocasse no ar porque iria dar um furo nas concorrentes. Autorização recebida, o apresentador do programa chamou o neófito repórter. Esse, alto e bom som, despejou:
– Estamos aqui pra informar que, nessa noite, uma residência foi assaltada. O ladrão entrou pelo telhado, no tipo de roubo chamado de Rin Tin Tin.

 

No estúdio,o apresentador não se conteve:
– Rogério,esse tipo de roubo é chamado de Rififi.

 

Imediatamente, Rogério tentou se recuperar do erro:
– Ah, claro, me atrapalhei. Rin Tin Tin é o cavalo do Zorro!

 

O apresentador, a custo contendo o riso, fez mais uma correção:
– Rogério, o cavalo do Zorro se chama Tornado.

 

Há controvérsias sobre o verdadeiro nome do cavalo, mas o Zorro esteve presente em tantas histórias que bem pode ter trocado de montaria mais de uma vez.

 

Contarei, em uma dessas quintas-feiras, as aventuras de um velho companheiro da Guaíba que passou boa parte de sua vida imitando o Barão de Munchhausen. Para os que não ouviram falar desse cavalheiro, o Barão é claro, terei muito prazer em o apresentar.

 


Milton ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

A morte de um repórter cinematográfico

 

Última imagem gravada pelo repórter Gelson Domingos

Filho de jornalista, sobrinho de jornalista, afilhado de jornalista e casado com jornalista, jornalista que sou sofro quando sei que um colega de profissão foi morto à bala, vítima da troca de tiros entre policiais e bandidos. Gelson Domingos, 46 anos, foi alvo encontrado de um tiro de fuzil durante a cobertura de uma operação da PM contra o tráfico de drogas na favela de Antares, em Santa Cruz, no Rio de Janeiro. Estava com colete de segurança, insuficiente para impedir a morte.

Um dos meus tios, Tito Tajes, foi repórter em guerra – por favor, parentes de melhor memória, me digam em qual delas. Mesmo sendo uma das pessoas mais queridas por mim, infelizmente nunca conversamos muito sobre as aventuras dele naquela cobertura, mas imagino como difícil deve ser o campo de batalha. Minha mulher, repórter de televisão, apesar de evitar as pautas mais perigosas, invariavelmente se depara com situações complicadas. Às vezes, uma simples gravação de rua a coloca no meio de um assalto ou no caminho de um caso policial. Sem contar que, atualmente, babacas sem causa têm atacado também estes profissionais quando entram ao vivo.

Apesar de alguns anos trabalhando no conforto de um estúdio de TV e rádio – onde vivenciamos outros tipos perigosos -, antes de ser âncora estive na rua, também. Como repórter, porém, poucas vezes tive de me deparar com ações de violência. Lembro de uma perseguição na qual transmiti ao vivo a fuga de bandidos que estavam em três carros com reféns após longa e dura rebelião de presos no Presídio Central de Porto Alegre. Entre o carro de um dos chefes da quadrilha e o da polícia estava o da rádio na qual trabalhava. Deste narrei boa parte do caminho por onde os bandidos passavam. Em nenhum momento eu e motorista levamos em consideração o risco de sermos atingidos por balas disparadas de um lado ou de outro.

No trajeto da notícia nem sempre calculamos o risco real da situação. Verdade extrapolada quando nos referimos aos repórteres cinematográficos e suas câmeras sempre apontando para o alvo mais significativo. Apesar de experientes, são repórteres bem menos valorizados do que aqueles que aparecem diante das câmeras e em algumas emissoras sequer lhes é dado o direito de serem chamados como tal. Mesmo assim, motivados pelo desejo de registrar a melhor história ao público esquecem o medo, as balas e a guerra na qual estão metidos. Transformam-se em vítimas de suas próprias escolhas e do compromisso que assumem ao entrar na profissão, o que em nada exime a responsabilidade das empresas nas quais trabalham, das condições e equipamentos que lhe são oferecidos e do País em que vivemos, no qual guerras diárias são travadas nos morros e favelas expondo não apenas jornalistas, mas cidadãos que aqui sobrevivem.

Jornalismo pragmático esquece o ser humano

 

Joseíldo acabara de chegar da casa da mãe no Nordeste – este ‘país’ que teimamos em não reconhecer e discriminamos. Não teve tempo pra contar aos parentes as notícias da terra natal. Chegou, era noite, talvez tenha beijado a mulher e abraçado os filhos. E morreu. Morreram todos embaixo da lama e dos tijolos do abrigo que haviam conseguido construir com o dinheiro que juntou no trabalho de pedreiro.

Das crianças sobraram fotos gravadas no celular de um dos tios. Havia uma mochila escolar, também. Da família, tristeza, desolação e resignação.

A tragédia foi em Jundiaí, interior de São Paulo, e havia sido descrita pelos repórteres durante o dia. Chamou-me atenção, porém, o relato feito pela jornalista Abigail Costa, que você lê, esporadicamente, neste blog, e reporta as notícias no Jornal da Record (mulher deste blogueiro, também). Foi lá, conversou com amigos e parentes da família, fez questão de conhecer a história de cada uma daquelas pessoas que para maioria de nós é apenas uma estatística, no máximo a garantia de uma manchete no noticiário da noite.

Por tempos fui repórter, também. E, muitas vezes, tive de desenterrar o pé do barro para fechar reportagens no rádio e na TV. Sempre me intrigou a história privada de cada uma daquelas vítimas. Nem sempre tive sensibilidade para descrevê-la. Por isso, valorizo o repórter capaz de entender que há momentos em que a pauta tem de ser cumprida com o coração.

Na reportagem que assisti hoje, não faltou racionalidade na condução da história. Mas o destaque ficou a cargo daquilo que foi percebido pela alma, sem o sensacionalismo comum nestes momentos.

A forma com que a notícia foi contada não impediu, porém, que colegas de profissão reclamassem da cor da bota, do tamanho do anel e da estampa do lenço que encobria o pescoço da repórter. Confesso, as lágrimas não me permitiram ver estes detalhes. Eles viram.

Pensei em silêncio – que se transforma em palavras neste post: o que nos torna tão frio diante de uma tragédia humana a ponto de nos permitir perceber a superficialidade na imagem ?

Preocupa-me o fato de estarmos construindo redações pragmáticas, nas quais a forma se sobrepõe ao conteúdo. Feita de pessoas que buscam a notícia a qualquer preço. Profissionais que transformam a arte de contar histórias em um exercício burocrático. Que escrevem seus textos como se batessem ponto em uma repartição pública caquética.

Aos repórteres ainda dispostos a ouvir sugestões: não se iludam com a falsa ideia da imparcialidade; jamais transformem a isenção em insensibilidade; e nunca deixem de exercer o direito sagrado de se emocionar diante da realidade humana .