Quando o futebol tenta nos lembrar quem somos

Por Beatriz Breves

Allez Brasil!
Foto de Breno Peck no Flickr

Brasil, pentacampeão mundial!

Pensar a seleção brasileira como um grupo de 26 jogadores e uma comissão técnica é reduzir demais o que ela representa. A seleção sempre foi muito maior do que o próprio futebol, pois a cada jogo, o país parece reencontrar algo raro: um sentimento coletivo de pertencimento. Fato é que, por algumas semanas, 26 jogadores se tornam 214 milhões de torcedores. A nação lembra que ainda sabe torcer junto, sonhar junto, vibrar junto. Enfim, o futebol vira espelho de uma autoestima tantas vezes ferida no cotidiano.

Quando a bola rola, sem sombra de dúvida, não são somente onze atletas em campo, mas o imaginário de milhões projetado em cada passe, em cada defesa, em cada gol. É cada brasileiro driblando as dificuldades da vida, transformando as frustrações em persistência, buscando, simbolicamente, o gol da esperança.

Mas o Brasil mudou, e o futebol sentiu.

O que sempre foi território neutro agora parece atravessado por disputas que antes ficavam do lado de fora do estádio. As cores da seleção, antes símbolo de união, passaram a ser vistas por alguns como algo a ser rejeitado, a ponto de querer modificar a própria cor da camisa. Jogadores são julgados por ideias, não por jogadas. Até a presença de um italiano no comando da seleção brasileira desperta estranhamento — ironia ainda maior com a Itália fora da Copa.

É natural que a política, tão presente no cotidiano, acabe também representada no futebol. O problema é quando essa polarização chega de forma ruidosa, desgastante, tirando a leveza, abafando a alegria, diminuindo o brilho da esperança.

Resultado: muitos brasileiros já não sabem os nomes dos convocados, nem a data da estreia, nem o adversário da primeira partida. Quem imaginaria isso algum dia?

Assim, o futebol, que deveria ser um momento de descontração, se torna espelho das tensões que transbordam para todas as outras áreas da vida nacional. A leveza se perde. A alegria é abafada. A paixão vira disputa. Aquilo que antes unia, agora divide.

O campo reflete a mesma fratura que atravessa o cotidiano dos brasileiros, que reconhecem a divisão política do país, mas ainda encontram dificuldade para superar essa divisão que insiste em permanecer, inclusive tentando tirar o brilho e o encanto de ser brasileiro.

Mas o Brasil é Brasil e o Brasil de chuteira não desaparece.

O futebol continua sendo uma das poucas linguagens que todos nós, de algum modo, entendemos, especialmente quando consegue fazer desconhecidos se abraçarem na rua, despertar orgulho, emoção e pertencimento. E, ainda, quando mostra ao mundo um país que, mesmo ferido, continua vibrante.

Talvez o desafio seja justamente esse: resgatar o futebol como exemplo de um espaço de encontro, não de conflito; de celebração, não de enfrentamento; de compartilhamento, não de separação, pois somos torcedores de, em média, mil times diferentes, que apesar das diferenças, com a seleção brasileira, se unem por um único ideal: o ideal de um Brasil vitorioso, de um povo feliz.

Sim, apesar de tudo, o Brasil de chuteira segue vivo.

E basta o apito inicial para lembrar que, no fundo, ainda vamos conseguir vibrar juntos e, como na canção de Miguel Gustavo, cantar “De repente é aquela corrente pra frente, parece que todo o Brasil deu a mão. Todos unidos na mesma emoção, tudo é um só coração. Todos juntos vamos, pra frente Brasil…”.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

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