Conte Sua História de São Paulo: a seleção na Copa, meu irmão de begala e o velório da prima

Gercyvania Lucia Fernandes Lima

Ouvinte da CBN

Allez Brasil!
Foto: Breno Beck/Flickr

Comigo não poderia ter sido diferente! Copa 2006. Dia de jogo do Brasil. Contra o Japão. Fomos dispensados às duas e 15 da tarde. Eu estava triste. Logo cedo soube que havia perdido minha prima. O velório seria no Tatuapé. Antes passaria na minha tia que chorava a morte da filha, em Cachoeirinha.

Saí da empresa na Leopoldina e fui até a Lapa. Não conhecia nada por lá. E precisava encontrar o ônibos com destino ao Terminal Cachoeirinha. A SPTrans havia prometido aumentar a frota porque era dia de jogo da seleção. Esperei 50 minutos. Neste tempo, um bêbado deu um gole para o santo … bem no meu pé.

Quase no fim do jogo cheguei na casa da tia. Quando seguimos para o velório, o Brasil já ganhava por 4 a 1. Fiquei por lá até às nove e meia da noite. Como estava difícil de ligar, meu marido não sabia onde eu estava. Para que eu não voltasse sozinha, minha irmã e meu irmão, de muleta devido a um acidente, pediram para me fazer companhia até em casa.

Embarcamos no metrô do Tatuapé até a Barra Funda. Não havia quase ninguém nas ruas. Nem parecia São Paulo. Um deserto. Enquanto esperávamos o trem, sentido Itapevi, chegou uma molecada jovem e trabalhadora. Todos gritavam e brincavam. Por óbvio, nós não estávamos em clima de Copa. Entramos no vagão e nos recostamos em um canto do trem. 

De repente o celular da minha irmã tocou: era o marido dela. Queria saber onde ela estava. A coitada, inutilmente, gritava tentando fazê-lo entender que, apesar da algazarra, não estava em uma festa. Quando disse que vinha de um velório, o marido ficou mais confuso ainda. Le-le-le-o-Le-le-o- Le-le-le-o … era tudo que ele conseguia ouvir. 

Uma das meninas que estava entre os torcedores animados percebeu o esforço da minha irmã e pediu para todos se calarem: tem uma mulher querendo falaro ao telefone! Quando o silêncio invadiu o vagão, a inocente da minha irmã gritou ao celular: Não, eu já saí do velório. Agora estou no trem! Caímos todos na gargalhada diante da cena inusitada. O riso foi com a gente até o desembareque.

Em Osasco, pegamos o trem para Santo Amaro. E o episódio foi motivo da nossa conversa na viagem. Passavam das 11 da noite. Mais uma baldeação: entramos no metrô em direção ao Largo Treze. No fim da linha, percebi que havia um carteiro dormindo no vagão. Tentei chamá-lo, em vão. Só me restou avisar os funcionários na plataforma que tinha alguém no trem que seria recolhido para a garagem. 

E o dia ainda nõa havia se encerrado. Faltava um ônibus para chegar em casa. Eram 11 e meia da noite quanto chegamos no Terminal Santo Amaro. O próximo ônibus, só à meia-noite e 23. Meu irmão ainda comentou: “por hoje chega, né. Não tem mais nada para acontecer?”. Tinha. O ônibus quebrou.

Meu irmão, de bengala, teve de subir a pé até a avenida. Que dó! A gente não chorava mais. Afinal, minha prima, a falecida, descansava. Quem cansava éramos nós. Embarcamos em outro ônibus,m depois outro e o restante fomos a pé. Cheguei às três da madrugada, morrendo de dar risada. E quando meu marido perguntou onde eu estava até aquela hora, não hesitei em responder:

— No velório!

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Gercyvania Lucia Fernandes Lima é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

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