Grêmio 1×2 Vasco
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS
Peço desculpas à direção do Grêmio e ao técnico Luís Castro. Durante quase duas horas, interpretei como incompetência aquilo que, agora percebo, era estratégia.
O Grêmio não perdeu de virada para o Vasco por acaso. Havia um plano. Um plano ousado, engenhoso e, sobretudo, perigosíssimo: ajudar a empurrar o Internacional para a Série B, mesmo que, para isso, sacrificássemos nossa permanência na Série A.
O primeiro tempo já oferecia pistas da artimanha. O Vasco, que nunca havia vencido na Arena, estava havia um ano sem ganhar fora de casa e entrou em campo na zona de rebaixamento, era o adversário perfeito para o projeto.
O Grêmio fez sua parte. Recuou, cedeu espaços e permitiu que os cariocas chutassem várias vezes contra nosso gol. O Vasco, porém, parecia não ter sido avisado do acordo. Atacava, finalizava e errava. Há adversários que não colaboram nem quando a gente estende o tapete, abre a porta e aponta o caminho.
Foi então que aconteceu o imprevisto.
Mesmo sem atacar muito, o Grêmio marcou.
Confesso que temi pelo fracasso da operação. Um gol gremista não estava no roteiro. Poderia dar confiança ao time, animar a torcida e, num descuido ainda mais grave, produzir uma vitória. Seria um desastre para os objetivos ocultos da tarde.
No intervalo, Luís Castro certamente precisou reorganizar a estratégia. Se o Vasco não conseguia vencer sozinho, seria necessário ajudá-lo um pouco mais.
Veio, então, o movimento decisivo. O treinador colocou Nardoni no meio-campo e despachou Krovinović, o jogador mais criativo da equipe, para a ponta direita. Ali, isolado e distante da região onde poderia pensar o jogo, ele deixou de representar perigo.
Foi uma jogada de mestre.
De um só golpe, Luís Castro facilitou a retomada dos ataques do Vasco e reduziu drasticamente o risco de o Grêmio fazer outro gol. O tabuleiro estava montado. Faltava apenas o adversário compreender seu papel.
Com algum atraso, o Vasco compreendeu.
Vieram o empate e a virada. O passe de Nardoni no pé do adversário, no segundo gol, não foi erro. Foi planejamento. A Arena assistiu à conclusão de uma obra cuidadosamente construída: a primeira vitória vascaína naquele estádio, o fim de um jejum de um ano sem ganhar fora de casa e três pontos fundamentais para complicar ainda mais a vida do Internacional.
Parte da torcida não percebeu a grandeza do projeto e vaiou. Foi injusta.
As vaias tratavam a derrota como se tivesse sido provocada por erros, desorganização ou escolhas incompreensíveis do treinador. Faltou enxergar mais longe. O verdadeiro gremista precisa aceitar alguns sacrifícios. Se o preço para ajudar a derrubar o Internacional for entregar três pontos ao Vasco, colocar em risco nossa própria campanha e flertar com a mesma Série B, que assim seja.
Rivalidade exige desprendimento.
O Grêmio decidiu que não basta ver o vizinho cair. É preciso acompanhá-lo até a porta, carregar suas malas e, se necessário, entrar junto no elevador.
Seremos rebaixados? O risco é grande.
O Internacional também correrá esse risco? Então o plano terá valido a pena.
Parabéns à direção e à comissão técnica. Onde a torcida enxergou uma derrota vergonhosa, agora identifico estratégia, renúncia e devoção à causa.
Só faço uma recomendação: na próxima vez, avisem antes.
Assim, não desperdiço meu tempo sofrendo diante da televisão.
