Jeitinho brasileiro: que jeito queremos para o Brasil?

Capa do livro Jeitinho Brasileiro

A dois dias das eleições, convido você a ler Jeitinho brasileiro: repensando a “esperteza” que nos prende ao atraso, escrito pelo procurador da República Renan Paes Felix e publicado pela Planeta. Para jogar às claras com você: o prefácio foi escrito por mim. Sou parte interessada — interessada, não, porque não ganho um tostão com isso; mas sou enviesada. Como prefaciador, crio naturalmente um vínculo e um carinho pelo livro do autor.

Faço o convite nesta reta final da eleição porque os acontecimentos que nos trouxeram até aqui merecem reflexão. Renan oferece essa oportunidade ao questionar o olhar que temos sobre o “jeitinho brasileiro”. Talvez esteja por trás dele a ideia de que, se uma decisão beneficia meu político de estimação, está valendo — mesmo que, para isso, as regras sejam atropeladas e as convicções, deixadas na gaveta. Convenhamos: se as deixamos na gaveta, é porque não estamos tão convencidos assim, não é?

Não vou me estender, até porque reproduzirei na sequência o prefácio que escrevi. Quero apenas que você pense antes de escolher seu candidato — e pense com sinceridade: que jeito você quer para o Brasil? O jeitinho do arranjo, do acordo, da negociata, da vantagem para os amigos? Ou o jeito certo?

Boa leitura e bom voto!

Prefacio

Moussa Niang é senegalês. Veio para o Brasil juntar dinheiro para ajudar a família. Comprou alguns óculos de sol e foi vendê-los na praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Três anos depois de chegar ao país, tornou-se protagonista de uma cena explícita de honestidade, dessas que causam espanto.

Meia hora depois de vender um par de óculos no cartão, Moussa percebeu que havia registrado na maquininha um valor dez vezes maior do que o preço. Voltou pela praia à procura da cliente. Como tinha dificuldade para falar português, contou com a ajuda de um amigo. Explicou o erro e avisou que devolveria o dinheiro assim que o valor entrasse em sua conta.

A cliente, surpresa, publicou a história no Facebook. O relato viralizou. No dia seguinte, repórteres de rádio, TV e jornal estavam na praia à procura do ambulante honesto — personagem raro numa sociedade que, durante décadas, repetiu a Lei de Gérson, a ideia de que é preciso levar vantagem em tudo.

Moussa não entendia o estardalhaço. Perguntado por que decidira devolver o dinheiro, recorreu primeiro a um princípio ético: “Aprendi com meu pai que não posso ficar com o que não é meu.” Depois, à sua fé: não queria ter dívidas quando chegasse a hora de se encontrar com Deus.

Jornalistas somos intrometidos. Sempre queremos saber um pouco mais. Perguntaram como ele reagia a tamanha repercussão. “Eu só fiz a coisa certa”, respondeu.

Talvez esteja aí o aspecto mais revelador dessa história. Moussa é senegalês, e este é o prefácio de um livro sobre o jeitinho brasileiro. O que um estrangeiro tem a nos ensinar sobre nós mesmos? Talvez a questão nem seja essa. Porque não é apenas a atitude de Moussa que interessa. É o nosso espanto diante dela. Para ele, devolver o que não lhe pertencia era simplesmente fazer a coisa certa. Para nós, foi notícia.

Anos antes, outro personagem havia usado praticamente as mesmas palavras. Eriberto França era uma espécie de faz-tudo e prestou depoimento à CPI que investigava, em 1992, o esquema comandado por PC Farias. Entregou documentos que revelavam o pagamento de despesas da família do então presidente Fernando Collor com dinheiro da campanha eleitoral. Sua decisão teve consequências. Depois do episódio, encontrou dificuldades para conseguir emprego e passou a viver de bicos.

Cerca de 15 anos mais tarde, perguntaram se havia se arrependido. Eriberto respondeu que não: “Eu fiz o certo.”As duas histórias falam de escolhas. Moussa representa a ética diante da oportunidade: poderia ter ficado com o dinheiro. Eriberto representa a ética diante do custo: dizer a verdade lhe trouxe prejuízos. Às vezes, fazer o certo significa abrir mão de uma vantagem. Em outras, aceitar uma desvantagem.

É nesse território, entre a oportunidade de levar vantagem e a decisão de fazer o que é certo, que Renan Paes Felix escreve Jeitinho Brasileiro. Acostumado, como procurador da República, a lidar com falcatruas que ganham as manchetes — e tantas outras que sequer merecem nota de rodapé —, Renan desloca nosso olhar. Em vez de procurar a corrupção apenas nos palácios, gabinetes e grandes negócios, observa também a fila furada, o estacionamento irregular, o pequeno golpe e as justificativas que inventamos para nossas próprias transgressões.

Daí surge uma questão desconfortável: a grande corrupção não nasce isoladamente. Ela encontra terreno fértil quando aprendemos a relativizar as pequenas desonestidades. Renan não escreve como quem ocupa um púlpito moral. Não pretende dar lições nem apontar o dedo para o erro alheio. O convite é coletivo. Não existe apenas “eles”.Existe “nós”. É sempre mais confortável procurar o corrupto do outro lado da rua.

Renan atravessa a rua e entrega o espelho ao leitor. Faz isso sem reduzir o jeitinho a uma condenação do brasileiro. Entende que dar um jeito também pode significar improvisar, criar uma saída, encontrar solução onde parecia não haver nenhuma. O problema começa quando a criatividade vira esperteza e a solução de um depende do prejuízo de outro. Renan reconhece essa ambiguidade e propõe rever o jeitinho a partir da ética, da coletividade e do bem comum.

Nas próximas páginas, Machado de Assis conversa com Bezerra da Silva, Zeca Pagodinho encontra Drummond e a música brasileira ajuda a contar uma história que também é nossa. Renan reúne literatura, canções, episódios históricos, casos reais e situações do cotidiano para investigar essa velha habilidade nacional de dar um jeito.

A intenção não é acabar com o jeitinho brasileiro. Precisamos escolher que jeito queremos dar a ele. Trocar a esperteza pela criatividade, a vantagem individual pela solução coletiva, a malandragem pela responsabilidade.

Renan nos convida a fazer o jeitinho brasileiro do jeito certo.Moussa Niang não nasceu aqui. Talvez por isso mesmo tenha acabado, sem querer, nos colocando diante do espelho. Quando percebeu seu erro, não calculou a vantagem. Não esperou que alguém reclamasse. Voltou atrás.

“Eu só fiz a coisa certa.”

Talvez seja esse o jeito.

O jeito certo.

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