O papo era sobre branding e quem é responsável pela gestão da marca dentro da empresa. Bastou uma referência ao tempo em que se jogava bolinha de gude, e a memória dos três atiçou o passado. Jaime Troiano e Cecília Russo, nossos especialistas em marca, e este que lhe escreve, jornalista por nascença, reviveram a brincadeira de criança que parece esquecida diante da falta de terrenos apropriados. Não que fosse necessário algo sofisticado para o jogo. Ao contrário. Nos bastava o chão batido, um circulo riscado na terra e a diversão se iniciava. Hoje, além do asfalto e da laje que cobrem o piso, estamos ocupados com outras atividades e as nossas crianças preferem os eletrônicos. Pena!
Naquela época — coisa de 40 anos atrás —, em que a simplicidade do jogo nos bastava, branding já era branding, mas com outro nome, bem mais simples: marca. Um tema que ficava sob a responsabilidade da turma do marketing e do design. A medida que o assunto ganhou projeção e as técnicas se sofisticaram, descobriu-se que a gestão de marca deveria estar no foco de outros profissionais, também:
“Branding, do jeito que conhecemos hoje, é uma ampliação de responsabilidades, atividades que não têm mais um dono definido. É algo que floresceu há uns 20 anos, mais ou menos, com maior intensidade. Deixou de ser uma “capitania hereditária” do marketing”
Jaime Troiano
Uma da razões de o branding ter ampliado suas fronteiras é o quanto a marca passou a valer para as empresas: pode representar até 50% do valor total da empresa, de acordo com alguns estudos:
“Marcas passaram a ser o grande indicador que individualiza uma empresa. Afinal, os processos técnicos e características físicas de produtos e serviços se democratizaram. E eles tendem a ser muito parecidos objetivamente”.
Cecília Russo
Diante dessa relevância, não fazia mais sentido o assunto ter um só dono ou ficar a cargo de apenas algumas cabeças. Com isso vieram as consultorias especializadas em serviços de branding — caso daquela fundada pelos nossos dois jogadores de bolita, Jaime e Cecília, a TroiannoBranding — que interagem com uma série de outras interfaces: a empresa detentora da marca, seus profissionais de marketing, a turma da comunicação, as agências de propaganda, o setor jurídico, os designers, as empresas de pesquisas e, evidentemente, com os responsáveis pela gestão de pessoas:
“Um outro grupo de profissionais que a gente vê hoje muito envolvido com marca é o setor de Recursos Humanos ou de Talentos Humanos — os nomes são os mais variados —, e a razão para isso, a gente até já trabalhou em alguns programas, é que a marca tem que começar de dentro para fora, como identidade dos colaboradores, que gera engajamento, que retém talentos”
Cecília Russo
Assim como o branding não é coisa para uma só cabeça, rádio também, não. Nem bem terminamos nosso bate-papo sobre gestão de marcas e vários ouvintes já colaboravam com a nossa conversa … sobre bolinha de gude, é claro! Cada um lembrando de seus momentos diante dessa brincadeira e de como as bolinhas tinham “marcas” diferentes conforme o local em que o jogo se fazia: lá no meu Rio Grande do Sul, era bolita; em Minas, bulinha; no Pará, biroca; no Paraná, burica, e por aí vai!
Ouça o comentário completo do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, com Jaime Troiano e Cecília Russo. A sonorização é do Cláudio Antonio:
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, às 7h55, no Jornal da CBN.
Há alguns anos, escrevi para esse programa para contar minha história sobre a juventude na cidade. O tempo passou, a cidade mudou, e o meu amor por Sampa também ficou diferente. Da outra vez, contei como vim parar na Mooca. Tempos atrás, voltei a viver mais em São Paulo e precisei procurar algo para diminuir o estresse de viver nessa cidade linda tanto quanto estressante.
Peguei minha velha bike, tirei a poeira, e lógico que ambas estávamos enferrujadas. Lembrei de uma bicicletaria ali perto para fazer os ajustes. Enquanto esperava, ouvi a conversa do pessoal que estava lá sobre “uns pedais”. Soube que saíam em grupo para pedalar à noite. Vendo a todos equipados com roupa, capacete, luvas, acessórios, pensei comigo: isso não é para mim!
Comecei minhas pedaladas aos domingos bem cedo pelo bairro. Na volta aproveitava para passar no sacolão ou na feira. Conforme a prática, dar duas voltas na avenida atrás de casa, em 30 minutos, mesmo subindo as travessas que eu evitei no início, porque meu joelho doía, passou a ficar fácil e insuficiente.
Lembrei dos “pedais da turma da loja”. Sempre receptivos, me orientaram sobre o mínimo necessário para estar com o grupo à noite: capacete e luzes de sinalização.
Numa terça-feira, lá fui eu, envergonhada sem conhecer ninguém. Logo, um deles veio me perguntar se era a primeira vez, deu as dicas e explicou que ele ficava no final para não deixar ninguém para trás.
Naquele dia, não sei para onde fomos, mas lembro que subimos a Vergueiro, que eu achei que não fosse conseguir! Muitos me encorajaram e esperaram lá no fim da subida. Além da sensação de liberdade que pedalar nos traz, me senti protegida no grupo ao atravessar as ruas e avenidas. Descobri uma Sampa que fica viva até tarde da noite, formada por gente que trabalha, se diverte, se exercita, e cuida da cidade.
Como em todas as pedaladas da vida, temos altos e baixos. Passei por problemas pessoais bem complexos, perdi minhas referências, fiquei sem chão, achei que não suportaria, mas por algum motivo, mesmo assim, não deixei de ir aos pedais. Pude pedalar calada, chorando às vezes, disfarçando as lágrimas no suor do pedal, seguindo o grupo por lugares que eu nem sei como cheguei, por ruas e travessas que ainda nem conhecia. E a cada pedal, voltava para casa um pouco melhor.
Sobre a bike vi namoros começarem e acabarem, vi outros se tornarem casamentos. Vi a solidariedade no pneu furado sobre o Minhocão, quando mais de 100 ciclistas esperaram, em uma noite de inverno, porque eu não tinha câmara reserva. Testemunhei a ajuda ao ciclista perdido, o revezamento dos colegas para ajudar os menos preparados na subida.
Sobre duas rodas, Sampa revelou-se outra cidade. E sou grata de várias formas ao grupo Pedala Mooca, que começou há mais de 20 anos com passeios nas ruas do bairro e hoje faz parte da vida de muita gente.
Adriana Yamamoto Christofolete é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
“Eu acho que a gestão tem que ser humanista, tem que ser feita com amor e com respeito ao próximo, e ao fazer isso a gente põe o limite muito alto; não, tem não tem limites de fato”
Alex Carreteiro, CEO PepsiCo Brasil
Com agrônomos acompanhando o cultivo da batata, certificando e orientando os agricultores para melhorias contínuas no campo, e uma logística que permite que o produto saia da plantação para o pacote em dois dias a PepsiCo Brasil tem conseguido avançar no tema da sustentabilidade. Em 2019, foi apontada como referência na Agricultura de Nova Geração com 100% das batatas produzidas de forma sustentável. Isso foi possível, a partir de trabalho desenvolvido em parceria com 120 agricultores que assumiram o compromisso de cumprir 175 requisitos para viabilizar o programa de agricultura sustentável.
O caso dos snacks de batatas Lay’s é contado por Alex Carreteiro, CEO da PepsiCo Brasil, uma das maiores indústrias de alimentos e bebidas do mundo, no segundo episódio do programa Mundo Corporativo ESG. Na entrevista, o executivo falou da transformação estratégica batizada de PepsiCo Positive, lançada em 2021, que se baseia em três pilares: agricultura positiva, cadeia de valor positiva e escolhas positivas:
“O consumidor está cada vez mais consciente e exigente nesses temas. Então, esse avanço tem sido muito impulsionado pelas empresas, mas também pelos consumidores. A diferença está na forma de comunicar ou na forma de agir”.
Dentro desta visão de que havia necessidade de a empresa se comunicar de maneira mais simples e melhor com os consumidores para que identifiquem as ações que, em alguns casos, já faziam parte do processo de produção, a PepsiCO passou a colocar no mercado embalagens de seus produtos com a foto dos agricultores que são os responsáveis pelo plantio e cultivo dos grãos, que são ingredientes dos produtos vendidos pela empresa.
“A maneira de comunicar tem sido também muito importante. Porque muitas vezes, a gente já fazia; agora estamos acelerando da agricultura sustentável para a regenerativa; e a a gente quer trazer isso para o consumidor”.
Em outro dos pilares que fazem parte da transformação estratégica da empresa, a cadeia de valor positiva, há preocupação em relação ao consumo de água, ao transporte das mercadores e as embalagens usadas nos produtos fabricados pela PepsiCo, segundo Alex. No caso da água, um exemplo é a fábrica de Itu em que todo o volume de água necessário para o seu funcionamento é reutilizado, zerando o desperdício, em uma técnica que será, em breve, estendida à fábrica de Curitiba. Há investimento, ainda, em material reciclado a partir das embalagens:
“Cada vez mais, eu diria, a cadeia de valor é relevante para criar uma economia circular e poder reutilizar essas embalagens de volta; e ter um mínimo de desperdício para ter uma emissão de carbono zero, que é a nossa ambição até 2040”.
Na área social, uma dos programas destacados por Alex é o de equidade racial que surgiu a partir de um dos grupos de afinidade que atuam na empresa com o objetivo de promover a diversidade. Esse programa inspirou a criação do MOVER — Movimento de Equidade Racial — que reúne 47 empresas, muitas delas concorrentes, que juntas têm cerca de um milhão de colaboradores:
“O que queremos é impactar três milhões de negros até 2030 e dez mil líderes negros”.
Para conhecer como funcionam os programas de governança ambiental, social e corporativa, da PepsiCO Brasil, assista ao vídeo completo da entrevista com Alex Carreteiro:
O Mundo Corporativo ESG tem a colaboração de Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Débora Gonçalves e Rafael Furugen.
Roger observa o time em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
O caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche me conhece bem. Sabe o quanto torço, sofro e acredito, mesmo diante da descrença do futebol jogado. Sou daqueles que conservo a esperança de que em algum momento alguma coisa haverá de acontecer e mudará nosso destino. A bola que resvala no poste, vai voltar para o pé do goleador; a que desvia no zagueiro, seguirá a caminho do gol; a que chega na cabeça do atacante terá o destino das redes.
Verdade que diante dos acontecimentos do ano passado, temos motivos para desconfiar da nossa confiança. Mas aí vem um outro jogo e a crença se expressa mais uma vez. A bola começa a rolar e a gente tem a impressão de que o futebol vai desencantar. Até percebe que o passe não é mais o mesmo, a velocidade é menor e a intensidade prometida no discurso do vestiário desaparece no decurso do jogo. A despeito disso, nos entregamos à ilusão, do primeiro minuto ao apito final.
Apesar dos pesares, prefiro não depositar toda essa crença no desvario que sempre me moveu quando trato das coisas do tricolor. Se tenho a expectativa de que o dia da grande revelação está por vir é porque reconheço em Roger capacidade para tal. O treinador que tem comandado o time com a estratégia da tentativa e erro, levando a campo formação e posicionamento diferentes na busca de desempenhos melhores, terá de contar com a paciência do torcedor — quem ainda a tem?
Roger precisará de tempo para fazer com que os jogadores entendam o papel de cada um dentro do time. Mais tempo ainda porque tem o desafio de encaixar na sua forma de pensar os jogadores que herdou dos comandos técnicos anteriores. Que a paciência do treinador seja maior do que a do torcedor e os resultados – aqueles nos quais deposito minha esperança e desvario – comecem a aparecer o mais breve possível, antes que entremos em mais um caminho sem volta.
Diego Souza, sempre ele! Foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIO FBPA
“Achou que seria fácil? Achou errado, otário!”. O bordão consagrado por Rogerinho do Ingá, do Choque de Cultura, me veio à mente ao fim da partida desta noite de segunda (de segunda!). Depois de engatar três vitórias na sequência e pontuar no topo da tabela, o Grêmio reencontrou-se com o revés, com uma derrota e um empate cedido nos minutos finais. E fica mais uma rodada fora do G4. Foi um choque de realidade!
Camisa e história falam alto, mas não fazem tudo. Assim como impõem respeito, provocam o ânimo do adversário que entra em campo com espírito de decisão. E se a recíproca não for verdadeira, seguirá sendo penosa essa Série B, como tem sido desde a primeira rodada.
Não adianta reclamar da conivência do árbitro com o jogo mais pesado, do gramado que prejudica o toque de bola, dos buracos que interrompem a corrida e da estrutura acanhada dos estádio em que se joga. É o que temos para hoje e fizemos por merecer.
Hoje, após um primeiro tempo em que o empate parcial foi um alívio diante dos vacilos no meio de campo, com duas bolas no poste e uma defesa gigante de Breno, encontramos um gol graças a habilidade de Diego Souza, logo no início do segundo tempo. Sempre ele!
O futebol do Grêmio até melhorou, mesmo porque a referência era o primeiro tempo de baixa qualidade. E o fato de ficarmos mais tempo com a bola nos pés e de conseguirmos impedir os avanços sobre nosso gol, já eram suficientes para mostrar algum progresso. Ao menos forjavam uma suficiência.
Sofremos o empate nos acréscimos por mérito de um time que nunca desistiu do gol, mesmo quando a técnica não se fazia mais presente. E assim será partida após partida, jogue onde jogar, dentro ou fora de casa. Todos lutando pela bola como se estivessem atrás de um prato de comida. Se não entendermos essa dinâmica da Série B, a frustração do presente se expressará mais alta do que nossas glórias do passado.
Como ensinou o ‘filósofo’ Rogerinho do Ingá: achou que seria fácil, só pelo que já fomos? Achou errado, otário!
“Os espaços das empresas precisam, ainda mais do que antes, reforçar sua identidade, suas promessas, seu propósito”
Cecília Russo
A retomada dos espaços físicos e corporativos, após longo período de reclusão e distanciamento, provocado pela pandemia da Covid-19, traz de volta a necessidade de se ter ambientes apropriados e confortáveis para seus colaboradores e clientes, tanto quanto sintonizados com os valores que a marca busca projetar. Cecília Russo e Jaime Troiano chamaram atenção para o cuidado que se deve ter ao projetar uma sede, um escritório ou uma loja. Esses ambientes precisam ser pensados dentro da estratégia de comunicação da marca.
Em Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Jaime recorreu ao ditado, em latim, “facies est especulum animae”, que significa, em português, “a face é o espelho da alma”. E explicou:
“A face é a aparência, o estilo visual, a arquitetura do espaço. A alma é a marca e os seus significados. Uma precisa estar espelhada na outra”
Jaime Troiano
Para ilustrar o tema, Cecília trouxe observação feita em sua viagem à Milão, onde deparou com prédio da IBM, na badalada região da Porta Nuova, projetado pelo arquiteto Michele de Lucchi. Um espetáculo, segundo ela, que abusa da madeira para abraçar o prédio em contraste com a tecnologia:
“Quando a gente pensa em tecnologia em geral, pensa em materiais mais frios, mais metálicos. Quando a gente pensa em madeira vem essa coisa do aconchego, de uma cor mais quente, né de um material. E isso revela o que já falamos dessa tendência do ‘tech’ com o ‘touch’ e espelha muito o que uma marca quer contar”.
Cecília Russo
Jaime encontra em sua experiência profissional o exemplo para o tema que tratamos no Sua Marca. A Preçolândia é uma rede de lojas que vende todo tipo de utilidades domésticas, e para resumir a alma do negócio, ele e sua equipe usaram a frase “sua melhor casa, todos os dias”. Foi a partir daí que a arquitetura das lojas obedeceu a esse posicionamento:
“Mas qual não foi nossa supresa: o próprio escritório administrativo deles, que fica aqui na zona oeste em São Paulo, teve sua decoração e arquitetura redesenhadas. Por quê? Os colaboradores da empresa, que são seus maiores embaixadores, precisam viver esse mesmo clima do posicionamento”.
“Sustentabilidade não é sobre o seu tamanho ou sobre sua capacidade de investimento; é muito mais sobre a sua intenção e o quanto o genuíno você está indo nessa direção”
Mauro Homem, Heineken
As empresas têm percebido que não alcançarão o sucesso que esperam sem terem relevância significativa nas áreas ambiental, social e de governança. A despeito de seu tamanho ou finalidade, cada uma cria sua própria estratégia para expressar esse compromisso, adaptando-a a seus processos de produção e ao segmento que representa. A Heineken, segunda maior cervejaria do mundo, por exemplo, definiu três blocos de atuação e, um deles, está diretamente ligado ao impacto que os produtos que leva ao mercado tem na saúde do consumidor. Assim, está entre suas prioridades desenvolver campanhas pelo consumo equilibrado e responsável de álcool.
Na estreia da série Mundo Corporativo ESG —- em que destacaremos nos próximos meses ações em favor da governança ambiental, social e corporativa —, Mauro Homem, vice-presidente de sustentabilidade e assuntos corporativos da Heineken, explicou como o tema evoluiu ao longo dos anos dentro da empresa, deixando de focar apenas nas questões ambientais:
“A gente sabe que uma empresa que produz cerveja naturalmente tem que lidar com questões relacionadas ao consumo de álcool. Isso é uma grande preocupação; e a Heineken é vanguardista nessas discussões de consumo equilibrado. Ainda mais agora, desde o advento da Heineken 0.0 e do portfólio de menor teor alcoólico, também”.
Na área social, o foco está na diversidade e inclusão com incentivo para a maior participação de mulheres e negros, em especial em postos de liderança. Além das quatro paredes, a Heineken também age no sentido de atender pessoas em situação de vulnerabilidade, através do Instituto Heineken Brasil. São três os públicos atendidos: os ambulantes. os catadores de material reciclável e os jovens.
“No caso dos jovens em posição de vulnerabilidade, temos dois grandes olhares: o primeiro, é a relação saudável e equilibrada com o álcool, para que esse jovem não vá para o consumo nocivo; e o segundo é a geração de empregos”.
Do ponto de vista ambiental, que faz parte do tripé estratégico da cervejaria, o impacto começa dentro da própria empresa, com implantação de sistemas mais eficientes de gestão hídrica, por exemplo. Em outro programa que se iniciou com bares e restaurantes e agora se estende ao cliente final, a Heineken criou uma plataforma que conecta geradores de energia limpa e os consumidores, oferecendo energia mais barata. Isso mesmo que você leu: ao se cadastrar no programa, além de consumir energia renovável, o custo da sua conta de luz vai diminuir.
Mauro explica que a geração distribuída é mais eficiente por ter menos perda técnica, e uma incidência de impostos diferenciada, podendo gerar redução de 15 a 20% no valor da conta de luz para os consumidores. O cadastro, de graça, deve ser feito no site Heineken Energia Verde. Infelizmente, nem todas as concessionárias de energia elétrica permitem essa substituição por fontes renováveis. Mas, já podem se beneficiar do programa, os moradores dos estados de Minas Gerais, Goiás, Paraná, Santa Catarina, algumas cidades do Rio Grande do Sul, Distrito Federal e São Paulo —- neste caso apenas nas cidades atendidas pela CPFL Paulista.
“O potencial é enorme. Nossa ambição e chegar em pelo menos 50% de todos os nossos bares e restaurantes, quase um milhão de pontos de venda no Brasil. E é um volume muito grande de clientes, também. Mas poderíamos chegar a pelo menos 50% até 2030”
A transformação que as empresas tiveram de encarar diante do conceito ESG — sigla de Environmental, Social and Governance (ambiental, social e governança) — provocou mudanças na forma de os profissionais atuarem, gerou novos desafios e abriu oportunidades. O próprio Mauro viu sua carreira ser influenciada por essa nova visão, quando a sustentabilidade deixou de ser apenas uma preocupação ambiental. Ele fez gestão ambiental na USP, em Piracicaba, interior de São Paulo —- em lugar de seguir a trilha mais consolidada da engenharia ou direito, como imaginavam pessoas próximas. Buscou outras formações na área de administração e iniciou-se na carreira profissional, na Danone. Lá atuou pela primeira vez na área ambiental e, depois, foi cuidar de relações governamentais.
A sustentabilidade —- já com essa visão mais ampla em que o social e a governança se alinhavam às preocupações ambientais —- voltou à carreira de Mauro na Heineken, para onde se transferiu há quatro anos. Antes da vice-presidência que ocupa, atuou com a comunicação corporativa:
“Eu acho que os profissionais precisam buscar cada vez mais essa conexão com os problemas do mundo exterior e traduzir isso em oportunidades também por um ambiente corporativo. Então, acho que é nesse sentido que os profissionais têm tido cada vez mais oportunidades. É nisso que eu vejo as carreiras mais próximas na área de sustentabilidade, também”.
Assista ao primeiro episódio da série Mundo Corporativo ESG com Mauro Homem, vice-presidente de sustentabilidade e assuntos corporativos da Heineken:
O Mundo Corporativo ESG tem a colaboração de Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Débora Gonçalves e Rafael Furugen.
Ela chegou de mansinho, sorrateiramente, sem fazer alarde, com um tanto de timidez, devo confessar. Diferentemente dessas que espontaneamente se aproximam esfuziantes e nos envolvem tornando-se logo íntima. Não tenho na memória a data exata dessa aproximação, sei que estava às vésperas de me tornar um sexagenário, na inconsciente expectativa de que em algum momento o calendário frio da existência acusaria a lenta metamorfose pela qual é destinada a quem consegue galgar os degraus desta vida terrena. O tempo da nossa passagem nesse plano, assim como conhecemos, tem o seu preço, o envelhecimento do corpo, não que o envelhecimento seja um castigo, talvez um prêmio por algo inexplicável, ou a certeza da fragilidade do ser, desafiando a saúde e a vitalidade.
Assim, a tal visita, agindo como uma síndrome matreira, invisível a olho nu, evasiva a um Raio X e, mesmo entregue à sorte de uma Ressonância Magnética, foi se aproximando e ganhando espaço sem uma causa aparente que pudesse definir sua chegada, causando medo e incertezas. Aos poucos, foi me envolvendo e ganhando terreno. Mexeu com o meu cognitivo.
Agora, senhora de si, incomoda o meu físico, perturba o meu psicológico, por vezes deixa-me trôpego, trêmulo, limitando os meus movimentos, por mais simples que sejam.
Provavelmente, quero crer, foi num momento no qual a minha vida passava por um processo de transição, com a chegada na terceira idade, a tão aguardada aposentadoria e a expectativa de uma nova fase para curtir a vida.
Embora ainda me sinta produtivo, quis as circunstâncias que as minhas atividades profissionais diminuíssem pouco a pouco. Pegou de jeito o meu estado emocional, sem que eu tivesse chance de escapar, por mais que desejasse.
Fragilizado, não tive forças de reagir à invasão da qual estava me submetendo. Sequer sabia quem estava ocupando o espaço da minha intimidade. Hoje, refém dessa visita, percebo que ela, embora plenamente presente em minha vida, torna solitários alguns dos meus momentos. Limita as minhas atividades, usurpa a minha autonomia, já não sou dono dos meus passos, muito menos das minhas idas e vindas. Os caminhos se tornaram árduos e as distâncias se ampliaram.
Mesmo assim, difícil fazer entender aos que me cercam, tenho lá minhas limitações, quero que respeitem minhas lágrimas, não que questionem o meu silêncio, por mais que tento exaustivamente explicar que não escolhi esta companhia, tampouco aponto culpados. Bem sei o quanto é difícil expulsá-la, cabe a mim, somente a mim, seguir e caminhar com ela, mesmo que a passos lentos e claudicantes e viver um dia de cada vez, viver com intensidade e alegria, como se todos os dias fossem domingo, domingo no Parkinson de diversões.
Samuel de Leonardo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Não me refiro propriamente a um referendo. É certo que às vezes impasses institucionais impõem a necessidade de uma consulta popular, e custa caro aos cofres públicos. Para esses casos talvez devêssemos copiar a solução usada nos EUA: embutir nas eleições os “sims” ou “nãos” para questões específicas, praticamente eliminando os custos extras.
O plebiscito a que me refiro é o significado que está assumindo a nossa eleição presidencial. Caráter simbólico ou mais do que isso, me diga você, leitor ou leitora, após refletir um pouco. O título desse artigo também contém a pergunta: acontecerá ? Afinal, surpresas acontecem. É como esperar por uma versão atualizada de um equipamento de trabalho e, em vez disso, o fabricante lançar um novo produto similar, só que diferente e bem mais caro. Vistam-se as carapuças.
Há pouco mais de um ano, escrevi que Lula e Bolsonaro teriam concorrência neste 2022 pois um manifesto lançado por lideranças de outras correntes partidárias propunha a definição de uma candidatura única para a chamada terceira via. Hoje parece claro que, salvo algum fato extraordinário, não haverá mesmo concorrência para os dois favoritos. Perdeu muito tempo a terceira via.
Em outro artigo, analisei a guerra na Ucrânia, procurando examinar friamente as suas causas, deixando momentaneamente de fora a comoção natural diante das atrocidades e horrores daquele conflito que agora parece não ter fim. Tecnicamente falando, ficou claro que a invasão ordenada por Vladimir Putin foi um movimento de antecipação, por a Ucrânia ainda não ter ingressado formalmente na OTAN. Se já tivesse se consumado, Putin teria que se conformar e não invadiria, pois estaria automaticamente e diretamente sob a mira do poderio bélico dos EUA e seus aliados militares. Do ponto de vista estritamente estratégico, Ucrânia e OTAN “comeram bola”, demoraram muito a se unir e disso aproveitou-se Putin.
De forma semelhante, a terceira via demorou demais a se decidir, e o tal manifesto caducou. Era uma carta de intenções, boa até. Conhecemos, porém, o dito popular “de boas intenções o inferno está cheio”.
Naquela época, havia 35 % do eleitorado sem identificação com Bolsonaro, que tinha 25% das intenções de voto, ou Lula, que tinha 40%. Existia, portanto, margem suficiente para que uma terceira candidatura ameaçasse tirar um dos dois do segundo turno, provavelmente o atual presidente. Com adesão de eleitores bolsonaristas no segundo turno, o candidato da terceira via também poderia ter sérias possibilidades de derrotar o petista. Só que …
O ano que se seguiu desfilou personalismos e aspirações individuais, e nada de união a não ser arremedos parciais que não empolgaram. Até políticos com alguma qualidade se vêem hoje relegados ao divisionismo de “nano” candidaturas que a essa altura as pesquisas sentenciam como meramente protocolares. Visam somente a marcar posição e ganhar publicidade para pleitos futuros, regionais ao menos, ou quem sabe aspirar a convites para cargos no governo dos vitoriosos.
Em campanhas eleitorais nunca se deve descartar a possibilidade de fatos e situações de última hora, capazes de trazer implicações e até reversão de tendências. Como já disse antes, é um jogo de convencimento publicitário e certamente os respectivos marqueteiros das candidaturas já elaboram planos para desestabilizar concorrentes, buscam produzir alguma “bala de prata”, através de uma revelação que atinja a confiança que determinado candidato almeja conquistar além de seu próprio eleitorado.
Por enquanto, porém, neste mês de maio o que se confirma é que a terceira via carece de poder de convencimento, não tem apelo popular. Ela pode até produzir as suas próprias balas de prata ferindo outras candidaturas, mas não em efeito suficiente para capitalizar muitos votos para seu lado. A terceira via segue padecendo da crise de identidade que o surgimento do bolsonarismo lhe impôs ao apoderar-se de sua bandeira eleitoral antipetista. Assim, ela dilui-se diante do que, na disputa presidencial, parece se consolidar como um bipartidarismo “de facto”.
Para o segundo turno, se houver, o que se coloca como questão é: o quanto de adesão Lula e Bolsonaro conseguirão contabilizar, respectivamente, de eleitores que os rejeitarem no primeiro turno? Qual irá prevalecer: o antipetismo ou o antibolsonarismo?
Frustram-se os eleitores e eleitoras que esperavam ver uma terceira via no segundo turno, restando-lhes aderir ao que avaliarem como voto útil, ao que considerarem como “menos ruim”. A vertente centro-esquerda da terceira via (Ciro Gomes/PDT) certamente migrará para Lula, caso haja segundo turno. A vertente centro-direita provavelmente se alinhará a Bolsonaro, que parece já ter embolsado os votos do desistente Sérgio Moro. À vertente “centro-centro” caberá descer do muro e se posicionar, se entender e aceitar o caráter plebiscitário que a eleição está adquirindo. Se optar por voto inválido, estará se omitindo.
Entra aí o significado de plebiscito. Descontando-se votos habituais de quem não entende e não quer saber de política, os eleitores órfãos de uma terceira via deverão pesar as consequências da escolha que irão fazer, mesmo que a contragosto. Deveriam ao menos considerar o que é pior, ou o que é menos ruim, para seus próprios interesses pessoais, corporativos, senão para o próprio país. Deveriam se perguntar, por exemplo, se lhes é importante ou não que continue o sistema de democracia representativa, com eleições livres regidas pela Constituição, ou se isso não lhes é importante. Se for, logicamente deveriam avaliar se alguma das candidaturas oferece risco à manutenção do atual sistema. Sim, porque se houver ameaça ela significa que, no futuro, terceiras vias talvez nem chances tenham mais.
A reforçar o caráter de plebiscito, não há como ignorar a farta amostragem ao longo do atual governo, entre declarações, atos, ameaças e provocações a instituições. Você leitora ou leitor, acha que apesar destes fatos o governo está comprometido com o regime democrático? Ou acha que não está? Sejam quais forem as verdadeiras intenções, elas se beneficiariam de legitimidade popular na hipótese de reeleição.
Assim, se Bolsonaro reeleito colocar em prática ameaças que tem feito, será porque assim terá escolhido a maioria do eleitorado, mesmo que a contragosto de sua quase metade. Se, por outro lado, o vitorioso for Lula, será porque a maioria dos eleitores, mesmo que a contragosto de sua quase metade, terá preferido de forma geral evitar possíveis ameaças ao atual regime. Alguns falam em polarização entre extremos nesta eleição, mas isso é inexato e manipulativo. A polarização é entre duas candidaturas, mas factualmente apenas uma delas revela feição extrema.
Essa é a decisão que depreende-se da eleição de 2022, mais do que a preferência ou rejeição por um ou outro candidato. É uma decisão que cabe aos milhões de brasileiros e brasileiras de uma faixa intermediária do eleitorado onde se incluem os que desgostam de ambos favoritos, os que sequer têm preferência, e os que sequer dão importância à política, que taxam de coisa ruim.
Parafraseando o brilhante thriller norte-americano “The Usual Suspects”, eu diria que uma das proezas do diabo foi também convencer muitos de que política é coisa ruim, como se inevitável e necessária não fosse.
A verdade é que nos falta educação política. Fundamentos de política e administração deveriam constituir disciplina obrigatória em currículos escolares, mas isso não existe. Em consequência, temos uma massa de gente, muitos com formação universitária até, politicamente analfabetos. E assim vivemos cercados de crendices, de quem acha que entende política quando tudo o que diz ou faz é agir como alguém de torcida organizada de futebol, gritando ladainhas religiosas em exaltação a seus respectivos ídolos e atacando adversários, às vezes com violência de hooligans.
Existem os que, conscientemente ou não, repetem jargões que confundem outras pessoas; como, por exemplo, de direita e esquerda serem “conceitos ultrapassados”. Ora, existem conceitos e para eles existem nomenclaturas, é preciso dar nomes aos bois. Esquerda e direita são nomenclaturas, apelidos, para nos referirmos a seus respectivos conceitos. Se não quisermos usá-los, OK, então que usemos outros apelidos, mas é preciso estabelecer alguma identidade, do contrário do que estaríamos falando ?
Simplificando, a oposição entre direita e esquerda pode abranger até aspectos de mudança versus conservadorismo e também valores morais. No entanto, entendo que sua caracterização fundamental é a de contrapor liberdade individual a compromisso social e, na prática, de defender que o estado priorize economicamente uma das duas coisas. A estas, qual o problema de referir-se como “direita” e “esquerda” ? A quem interessa ofuscar essa distinção ?
Claro que … quem é que quer mesmo debater hoje em dia? É algo ainda possível? Coisa de velho? Por que alguém deveria se importar com isso? Entra aí o conflito entre conhecimento e desconhecimento, cada um com respectivas causas, explicações, e implicações, tema muito amplo para embutir neste presente artigo.
Mas voltando à eleição plebiscitária … ela acontecerá ?
Existe preocupação com a segurança do pleito. Alguns analistas políticos já falam constantemente no risco de golpe (de Estado), outros preferem não pronunciar a expressão, temerosos de que sua publicidade ajude a incutir entre as pessoas a noção de que não seria algo anormal. É tipo o factóide que se dissemina popularmente contra o poder judiciário, na tentativa de acostumar as pessoas a aceitarem que as constantes intimidações ao STF e TSE sejam coisas normais. Você, leitor ou leitora, acha que são? Ou acha que não são? Somando-se a isso, declarações de algumas lideranças militares soam mais intimidantes do que tranquilizadoras.
Se Bolsonaro vencer, teria Lula como não aceitar? E se Lula vencer, iria Bolsonaro aceitar? Que força iria impedi-lo de alegar fraude nas urnas eletrônicas, como não cansa de apregoar, e de intentar um ato de força à semelhança do que Donald Trump não conseguiu nos EUA? Iriam as Forças Armadas se contrapor a seu Comandante-em-Chefe traindo obediência hierárquica militar para defender a Constituição da República Federativa do Brasil?
Nessa hora é de se perguntar o que vale mais: Constituição ou Forças Armadas? Estas últimas se bastam, não precisam de nenhuma garantia, já a primeira …
O vice-presidente Hamilton Mourão, de palavras geralmente medidas, salvo alguns escorregões, já declarou com todas as letras que nosso país “não é república das bananas”. É de se perguntar qual garantia disso ele oferece. Golpes militares típicos como na Bolívia dos anos 70 estão fora de moda, mas existem modalidades modernas de autocracias disfarçadas de democracia, como a própria Rússia de Putin. Além do mais, o general Mourão é carta fora do baralho de Bolsonaro, pelo sim ou pelo não ele mantém-se no cargo, talvez por vontade pessoal e de simpatizantes que não concordam com todas atitudes do presidente, e também porque, por lei, o presidente não tem poder para demití-lo.
No judiciário e legislativo, sempre ouviremos expressões protocolares e repetitivas garantindo a “solidez de nossas instituições democráticas”. Hoje em dia isso acontece mais no legislativo, pois recentes falas de ministros do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral são reveladoras de que, sim, existe preocupação. Coincidência ou não, funcionários de segurança do STF têm feito cursos junto a fuzileiros navais, Comando de Operações Táticas (elite da Polícia Federal), e Interpol. Falta ouvirmos das diversas e mesmo das diluídas correntes de oposição se elas realmente engolem os clichês e se realmente confiam cegamente nas eleições. Você leitor ou leitora, confia? Ou não confia?
Cerca de duzentas instituições, incluindo o Ministério Público de São Paulo, reuniram-se num “Pacto pela democracia”, e já entregaram ao STF um manifesto em defesa do processo eleitoral. Enquanto isso, entre nossos partidos políticos, alguém aí falou em mobilização nacional em defesa da democracia? Se falou, ainda não deu para ouvir.
É Dia das Mães! Dia de lembrar da Dona Ruth, que nos deixou cedo para os tempos atuais, estava com apenas 49 anos. Apesar de a despedida precoce, ensinou muito, ofereceu carinho e compartilhou gentileza aos filhos, parentes e amigos. Tinha personalidade forte, tomava à frente nas grandes batalhas da vida e cultivou uma incrível capacidade de unir a família. Saudade daquela feijoada de domingo, mãe!
De futebol entendia pouco, e torcia muito. Era gremista, como todos nós. Mas torcia muito mais pela felicidade do pai e dos filhos do que propriamente para o time pelo qual torcíamos. Sabia que um bom resultado, nos faria voltar para a casa com sorriso no rosto e comentários animados. Era a garantia de um jantar dominical recheado de histórias que eu não cansava de reproduzir à mesa como se fosse eu o narrador de futebol da família.
Entendia, como poucos e poucas, o coração deste que lhe escreve —- talvez o que mais sofria na família diante de reveses futebolísticos.
Seu abraço assim que eu retornava do Olímpico ou alguma partida pelo interior do Rio Grande do Sul, após uma derrota, era apaziguador. Nenhuma palavra de consolo era melhor do que o aconchego de seus braços. Bastavam-me!
O ápice da sensibilidade vinha na manhã seguinte, quando eu acordava ainda entristecido pelo resultado do dia anterior. A mãe sabia bem o que se passava dentro de mim, em especial diante das perdas mais retumbantes para aquela época — a derrota em um clássico regional ou, pior, de um título gaúcho. Ter de encontrar-me com os amigos na rua ou nas atividades extra-escolares aumentaria minha dor. Era a certeza de que seria “corneteado” pelos torcedores adversários.
Cúmplice do meu abatimento, Dona Ruth se antecipava a qualquer pedido de súplica para me ausentar dos compromissos externos e me propunha alguns convites irrecusáveis: “hoje o tempo não está muito bom, quer voltar pra cama?”; você não parece muito bem, será que está resfriado? Fica em casa hoje!”. Era a maneira dela dizer que entendia meu sofrimento e estava ali para me proteger.
Dona Ruth não está mais por aqui para me consolar das derrotas gremistas. Não que hoje necessitasse desse afago. O tempo me ensinou a encarar as perdas de uma forma diferente, em especial no futebol. Mostrou-me que ganhar e perder é do jogo. O importante é aprender com os altos e baixos. Mas bem que ela poderia estar aqui com a gente, seria uma ótima maneira de passar este domingo e dizer a ela o quanto eu sempre a amei!